quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Museu Fora do Armário”, de André Murraças


Esta imagem é uma releitura artística contemporânea do icónico "Retrato do Rei D. Sebastião", pintado originalmente por Cristóvão de Morais. Esta versão específica, adornada com flores e um fundo claro, faz parte do projeto "O Museu Fora do Armário", concebido por André Murraças.

    Ao entrar no Palácio Pimenta, a visita inicia-se pela esquerda, estruturando-se segundo um percurso cronológico que atravessa diferentes períodos históricos, desde a época Romana até à Revolução dos Cravos. 

    Desde o início, é enunciada a ideia de que “Lisboa é feita por várias camadas e vários artistas”, estabelecendo-se assim o princípio orientador: a possibilidade de reinterpretação da exposição permanente a partir de uma perspetiva crítica e inclusiva.

    Mais do que um simples percurso guiado, esta proposta assume-se como uma prática de mediação cultural que promove a desconstrução das narrativas dominantes. A visita revela-se particularmente eficaz ao orientar o olhar do espectador para elementos frequentemente marginalizados ou invisibilizados. Um exemplo disso mesmo ocorre na chamada “sala de espelhos”, onde André Murraças destaca um azulejo que parece representar a proximidade romântica entre duas figuras masculinas. Este gesto curatorial funciona como dispositivo pedagógico, ao introduzir uma leitura que desafia a heteronormatividade implícita nos discursos museológicos tradicionais.

    Painel de azulejos representando duas figuras masculinas em proximidade, observado na “sala de espelhos” do Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    Ao longo do percurso, assinalado pelo logótipo do projeto “Museu Fora do Armário”, constrói-se uma narrativa que articula análise histórica com interpretação crítica. 

    Outro exemplo é a referência a cantigas de amor trocadas entre homens na sua origem, que após passarem pelo crivo censório foram convertidas em modelos heteronormativos, evidenciando processos de reescrita e apagamento cultural, por parte do Vaticano. Do mesmo modo, o retrato de D. João V adquire uma nova dimensão interpretativa: a pose, nomeadamente a mão na cintura e a expressividade do corpo, permite compreender a imagem régia não apenas como representação de poder, mas como construção performativa, onde o corpo se afirma enquanto espaço de encenação e significação.

         Retrato de Dom João V, em exibição no Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    A abordagem mantém a sua consistência ao integrar períodos marcados pela repressão, como a Inquisição, através do caso de Maria Duran, evidenciando limitações dos sistemas legais da época no tratamento de identidades dissidentes.

    No contexto da sala oitocentista, a referência à obra de Eça de Queirós, nomeadamente Os Maias, reforça esta leitura ao evidenciar tensões e ambiguidades presentes na representação da sociedade da época, abrindo espaço a interpretações contemporâneas que questionam os modelos normativos de género e comportamento.

    O percurso culmina na sala dedicada à queda do Estado Novo, onde a Revolução dos Cravos é apresentada como momento de ruptura e transformação, associado à emergência de novas possibilidades de visibilidade e afirmação identitária.

    No seu conjunto, a visita guiada revela-se uma intervenção crítica consistente, ao propor uma reconfiguração do olhar sobre o acervo museológico. Ao evidenciar a dimensão simbólica das obras, demonstra como a autoridade visual pode ser reinterpretada à luz de perspectivas contemporâneas, promovendo uma experiência reflexiva ainda que alinhada com princípios de educação artística.

    A conclusão da visita, marcada pela observação de uma bandeira Arco Íris, reforça esta dimensão pedagógica e política, ao transmitir uma mensagem, pertença, e segurança, estabelece uma ligação significativa entre passado e presente. Relembra que, em Portugal, apenas em 1982 a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia, enquanto esse percurso, no contexto internacional, remonta a 1973, quando a American Psychiatric Association a retirou da lista de perturbações mentais. A visita evidencia percursos de invisibilidade e repressão, mas também conquistas recentes no reconhecimento de identidades e direitos.

    Esta visita guiada, promovida pelo projeto Museu Fora do Armário, irá realizar-se quatro vezes até ao final do ano no Palácio Pimenta, estando previstas iniciativas semelhantes em outros museus, com o objetivo de divulgar a cultura LGBTQIA+ através da reinterpretação de obras do acervo cultural nacional.

    A experiência revela-se altamente recomendável, não apenas pela sua relevância temática, mas pela forma consistente como escalpeliza uma leitura crítica e inclusiva, contribuindo para a ampliação do olhar sobre a história e a sua representação.