sexta-feira, 10 de abril de 2026

Vintage Cameras Porto: testemunhos de memórias analógicas de um mundo antes do digital

O Vintage Cameras Porto Museum & Shop, recentemente inaugurado, abriu portas a 19 de agosto de 2025, data escolhida por coincidir com o Dia Mundial da Fotografia. Instalado no primeiro andar do número 47 da Rua de Santa Catarina, em plena Baixa portuense, o espaço é da iniciativa do fotógrafo Rui Teixeira, que ao longo de mais de uma década foi acumulando câmaras analógicas com a paixão de quem coleciona não apenas objetos, mas histórias. Como resultado deste interesse surge uma exposição permanente que reúne atualmente mais de 900 equipamentos analógicos (maioritariamente câmaras fotográficas, mas também algumas de vídeo), organizados por ordem cronológica que percorre mais de 170 anos de história da fotografia. A entrada é gratuita e o espaço funciona simultaneamente como museu e ponto de venda, disponibilizando ao público uma parte significativa das máquinas fotográficas expostas, bem como rolos compatíveis com os diferentes modelos.

Chegar ao Vintage Cameras Porto é uma experiência que começa antes de entrar, mas que pode facilmente escapar a quem passe distraído ou desconheça a sua existência. O acesso ao museu faz-se através de uma entrada discreta de um estreito edifício que dá para uma joalharia de minúsculas dimensões, quase simbólicas, onde um relojoeiro trabalha com a calma serena de quem permanece alheado à agitação e evolução do mundo exterior. A inevitável passagem por este espaço, independente do museu, funciona como uma espécie de antecâmara temporal, um convite a abrandar o passo antes de subir as robustas escadas de madeira. Bem conservada, a escadaria preserva os traços originais da primeira metade do século passado, evocando uma outra época. Essa integridade acentua a sensação de que não estamos apenas a aceder a um espaço expositivo, mas a entrar num ambiente que permanece fiel ao tempo a que pertence. Este detalhe revela-se particularmente significativo porque, antes mesmo de contactar com as câmaras analógicas, o visitante é já colocado num enquadramento coerente com o universo que o museu convoca. 

Ao subir, instala-se uma mudança imediata de ritmo. Fica-se temporariamente distante da agitação provocada pelo tráfego, o comércio e o fluxo intenso de turistas e entra-se num tempo diferente, mais pausado e mais atento, que prepara o visitante para a experiência que se segue. 


No topo das escadas, antes de aceder à sala principal, encontra-se o photobooth: um dispositivo inspirado nas antigas cabines de retratos analógicos que, por cinco euros, entrega seis fotografias a preto e branco. O processo é mais rápido do que o original, mas preserva muito do que tornava o ritual especial: a antecipação, a ausência de controlo na entrega ao acaso (sem a possibilidade de escolher os melhores enquadramentos) e a surpresa de ver emergir um retângulo de papel com os retratos impressos. A sessão divide-se em três momentos, correspondentes a três poses, e no final o visitante recebe duas tiras de fotografias, reforçando a dimensão lúdica e partilhável da experiência. Atrai turistas, famílias e curiosos, e tem um efeito de iniciação que não parece casual: antes de ver as câmaras, o visitante é convidado a fazer uso de uma. É um gesto curatorial particularmente eficaz, que coloca o corpo na experiência, como uma espécie de preparação que antecede a contemplação dos objetos expostos. 

Apesar do carácter lúdico e introdutório, a ideia central do museu vai muito além desta experiência ou mesmo da lógica do arquivo e do colecionismo. A coleção não pretende ser um simples catálogo de aparelhos. Procura, antes, contar a história da fotografia como prática humana, mostrando como o ato de fotografar evoluiu em paralelo com as transformações sociais, tecnológicas e culturais de cada época. Há um argumento implícito que atravessa toda a exposição: o de que a câmara fotográfica, enquanto objeto, é também um documento histórico e um testemunho da relação do ser humano com a imagem e com a memória. 

O percurso expositivo concentra-se numa única sala, mas em nenhum momento o espaço se revela exíguo ou insuficiente, permitindo uma fruição atenta e tranquila, sem gerar sobrecarga ou saturação. Organizadas em doze coleções, as câmaras estão dispostas em estantes ao longo das paredes, segundo uma lógica cronológica. O espaço beneficia de uma iluminação natural generosa que, articulada com a luz interior das prateleiras, assegura a adequada valorização das peças e cria um ambiente simultaneamente vivo e acolhedor, bastante distinto da penumbra controlada de muitos espaços museológicos, associada a uma atmosfera mais hermética e institucional. 


As peças não estão etiquetadas individualmente. Em vez disso, cada época é apresentada através de pequenos painéis informativos que contextualizam de forma resumida as principais marcas e modelos representados. Junto a cada coleção, um código QR permite aceder, através do telemóvel, a informação detalhada sobre cada câmara, acompanhada de conteúdo áudio em oito idiomas (o que revela uma clara orientação para o público internacional, expectável dada a localização numa das artérias turísticas mais movimentadas do Porto). Trata-se de uma solução expositiva eficaz, uma vez que possibilita uma fruição diferenciada: quem preferir uma leitura mais imediata pode limitar-se aos painéis, enquanto quem desejar aprofundar o contexto histórico dispõe de recursos adicionais, sem que o espaço se torne excessivamente sobrecarregado de texto. 


A diversidade das peças é considerável, abrangendo um período que vai desde os primórdios da fotografia no século XIX, com exemplares que remontam a 1839, até ao início da era digital nos primeiros anos do século XXI. Das câmaras que utilizavam placas de vidro (testemunhos de uma fase inicial em que o registo da imagem implicava processos técnicos exigentes e demorados) aos modelos compactos e coloridos que marcaram o consumo de massas a partir dos anos 60 e 70. Destacam-se ainda as câmaras de espionagem disfarçadas de isqueiros, rádios, relógios de bolso e maços de tabaco, passando por máquinas fotográficas panorâmicas ou capazes de capturar imagens com tridimensionalidade, e também aparelhos únicos como uma câmara soviética pintada à mão com motivos inspirados na arte da cerâmica japonesa. 


A par destas, surge um conjunto representativo de treze câmaras Kodak Petite, produzidas na década de 1950, com um exemplar de cada cor em que o modelo foi fabricado, reunindo assim a paleta cromática completa desta série. De dimensões reduzidas e concebidas para seduzir pela cor tanto quanto pela função, estas câmaras de fole refletem uma mudança no perfil do utilizador e nas práticas de uso, associando-se a contextos de lazer, mobilidade e a uma crescente valorização da dimensão estética dos objetos no período do pós-guerra. 

Entre as peças de maior valor histórico e simbólico, destaca-se uma Hasselblad 500C, utilizada para capturar a primeira imagem da superfície da Lua. Igualmente notável é uma Leica I de 1928, um dos primeiros modelos de pequeno formato que revolucionou a prática fotográfica ao torná-la mais discreta e portátil, avaliada em 8 200 euros. Ambas as peças não estão à venda, e a sua presença funciona como referência simbólica de toda a narrativa exposta. 

Ver reunidas na mesma sala câmaras tão distintas é uma experiência que inevitavelmente provoca reflexão sobre o que escolhemos registar, como o fazemos e para quê. Cada aparelho traz consigo uma história que ultrapassa a sua função técnica para se afirmar como artefacto cultural carregado de significados que extravasam largamente a sua função original e que, no conjunto, acaba por funcionar como um espelho da própria história do olhar humano. 


A memória afetiva surge naturalmente como uma dimensão relevante da visita. Para quem cresceu antes de o digital invadir o quotidiano e se instalar abruptamente nas nossas vidas, percorrer as estantes do Vintage Cameras Porto é também atravessar um tempo vivido. O momento em que se depara com o modelo exato da câmara que o pai usava para fotografar os aniversários, ou com aquele que se utilizou pela primeira vez para registar uma viagem de escola, corresponde a um regresso ao passado. Objetos que fizeram parte do quotidiano doméstico sem qualquer pretensão de excecionalidade surgem agora numa posição de destaque, transformados em testemunhos de uma época. Esta mudança de estatuto é, em si mesma, reveladora: o que era banal tornou-se raro, o que era corriqueiro ganhou peso histórico, e o que era apenas uma câmara tornou-se o ponto de partida para revisitar experiências feitas de celebrações, férias e rostos que o tempo foi apagando. Nem todos os espaços museológicos têm esta capacidade de invocar a história pessoal de cada visitante. 

Num corredor adjacente à sala principal, uma pequena área é dedicada a exposições temporárias mensais de fotógrafos emergentes, com uma única regra que funciona como uma declaração de princípio: a fotografia tem de ser analógica. Num espaço que celebra o tempo, a espera e a materialidade do processo fotográfico, faz todo o sentido que os fotógrafos convidados partilhem esse mesmo compromisso. A iniciativa abre o museu à criação contemporânea sem trair a sua identidade, e oferece a artistas uma plataforma de visibilidade num espaço despretensioso e acessível a todos. 

Ainda de referir a dimensão humana do espaço, que contribui de forma determinante para a construção da experiência como um todo. O atendimento é assegurado por pessoas com conhecimento sólido sobre a coleção, capazes de explicar o funcionamento das câmaras, aconselhar sobre os rolos adequados e permitir, inclusivamente, que o visitante manuseie as peças disponíveis para venda antes de decidir pela sua compra. Esta possibilidade de contacto direto com os objetos transforma a visita numa experiência personalizada, muito diferente da distância asséptica a que tantos museus são obrigados pelas mais variadas razões. No final, para quem (como eu) viveu na era pré-digital, estudou fotografia analógica e passou horas em câmaras escuras a observar a imagem imergir lentamente na tina do revelador, a tentação de sair com uma câmara debaixo do braço torna-se genuína, quase como um prolongamento da própria visita, uma forma de levar comigo parte deste reencontro. 

Do ponto de vista crítico, há uma questão que merece reflexão: até que ponto a convivência entre museu e loja interfere com a experiência contemplativa e a manutenção do próprio acervo que uma exposição pressupõe? Na prática, porém, essa tensão é gerida com perspicácia e transparência. Sempre que uma câmara é vendida, é reposta por um modelo idêntico ou equivalente da mesma época, garantindo a integridade da narrativa expositiva. Os preços são justos e acessíveis, e as receitas das vendas, a par com o photobooth, sustentam o funcionamento do museu, tornando viável a entrada gratuita e permitindo o acesso a todos: ao especialista e ao curioso, ao estudante de fotografia e à criança que entra pela primeira vez numa sala cheia de câmaras com a ingenuidade de quem não sabe bem o que esperar. É um modelo de autossustentabilidade merecedor de atenção por parte de outros espaços culturais. 


Mas o Vintage Cameras Porto não é, nem pretende ser, um espaço exclusivo para aficionados. Prova disso é a abertura, em dezembro de 2025, de um novo núcleo na Rua de São Nicolau, na Baixa lisboeta, confirmando que a aposta na fotografia analógica enquanto experiência cultural acessível e envolvente tem público suficiente para sustentar o seu crescimento, sem perder, esperemos, o fator humano que torna o espaço original tão singular. Mais do que um museu ou uma loja de câmaras antigas, o Vintage Cameras Porto Museum & Shop propõe uma forma de compreender a história através dos objetos. Nesse processo, recorda que cada câmara foi, em algum momento, o instrumento de alguém que quis preservar um fragmento do mundo. Nesta perspetiva, a coleção pode ser entendida como um arquivo da memória coletiva, e a sua abertura gratuita ao público um ato de generosidade cultural que o Porto, e agora também Lisboa, têm o privilégio de acolher.