Matter of Time ( Instalação de sete esculturas, aço - weatherproof steel)
2025; Richard Serra
Serra é um dos mais relevantes artistas dos anos sessenta, tendo revolucionado a escultura ao utilizar materiais industriais, consolidando as suas características e trabalhando as suas perspetivas. As suas esculturas transformam o espaço, reconhecendo as especificidades da arquitetura a que estão confinadas; propõem um percurso e, por sua vez, uma temporalidade.
Snake é uma obra criada para a inauguração do Museum Guggenheim Bilbao, que consiste em três longas serpentes de aço. As ondulações criadas por estas placas — que, sendo um material robusto, se transformam em algo delicado — sugerem uma posição de instabilidade. O percurso evoca quase um bailado entre a robustez do material e a sua sugestão de movimento e desequilíbrio. A esta peça juntaram-se, em 2005, mais sete trabalhos comissionados que formam a instalação permanente The Matter of Time.
Ao entrar nesta sala do piso térreo do museu, deparei-me, ao longo de um percurso traçado por cada visitante, com uma complexidade crescente de formas de aço (weatherproof steel) que pareciam impor-se sobre o corpo. As esculturas massivas e imprevisíveis transformam o espaço e os encontros que ocorrem dentro destes volumes elípticos — seja entre mim e o material, seja através dos "encontrões" partilhados com outros corpos entre curvas e contracurvas. Estes elementos obrigam-nos a fazer parte da obra, retirando a escultura do seu pedestal. Existe uma ideia concretizada de movimento e, por vezes, até um certo enjoo provocado pelas tonturas das curvas e rodopios constantes. O posicionamento na galeria também reforça estas qualidades imprevisíveis, forçando-nos a atravessar as peças sem conseguirmos especular que caminho nos espera.
No entanto, o que mais me chama a atenção é a forma como, nestas peças escultóricas, o tempo desempenha um papel indispensável. O trabalho sobre o tempo segue duas formas: o tempo real, aquele de que dispomos para percorrer as esculturas (algo que outros trabalhos escultóricos não exigem), e o tempo experimental, um tempo que reside no movimento e no próprio material. É sobre esta segunda forma temporal que me irei debruçar.
The Matter of Time, tal como o nome sugere, foca-se numa matéria (o aço) que contém em si um tempo. É um material que se transforma na sua existência temporal, possui um envelhecimento (extremamente demorado), uma metamorfose que, de certa forma, se assemelha à vida humana. O material existe até “apodrecer”, apesar de ser extremamente resistente, e o tempo que esse processo demora depende não só das condições do meio, mas é uma propriedade essencialmente física. Este envelhecimento, visível nos veios que se estendem pela superfície, eleva a escultura a algo que transcende o seu conceito tradicional, tornando-a quase numa imagem cinematográfica.
Numa transformação constante que ocorre através do tempo, tal como a imagem-movimento do cinema, a obra está confinada ao instante, ao momento, e só se movimenta realmente por fazer parte desse fluxo. Tal como no cinema, o verdadeiro movimento das esculturas de Serra não reside apenas nas suas formas sinuosas e desconcertantes, mas sim no tempo que as modifica e que convoca o visitante a vivenciá-las. O movimento reside na troca que acontece neste tempo experimental: o tempo da obra e da sua metamorfose em contacto connosco e a nossa metamorfose. Com efeito, as peças aqui apresentadas são também a lembrança de um tempo concreto que existe, mas também com um tempo extremamente sentimental que aprisiona numa sala enorme num Museum, vivenciais e memórias registadas no matéria.