segunda-feira, 27 de abril de 2026

Homo-ordinarius no Dreamatorium

O Dreamatorium, projeto de Gonçalo Belo, apresentou em abril, nas salas cinzentas do Céu de Vidro junto aos pavilhões do Parque Dom Carlos I nas Caldas da Rainha, um ciclo intitulado Chuva Ácida (imagem 1). Com curadoria do próprio Gonçalo, este evento reuniu performances e instalações de vários artistas. O curador, juntamente com Patrícia João Carvalho, dinamizou outrora um projeto muito importante para a minha vida de estudante. Falo da Electricidade Estética, um ciclo de exposições efémeras que duravam apenas um dia e onde muitos artistas tiveram a sua primeira mostra (neste momento, apenas me recordo de Tiago Batista e de mim próprio).

Cartaz Chuva Ácida
Imagem 1 - Cartaz Chuva Ácida



Sirva de desculpa para o atraso na submissão deste texto o facto de ter estado a preparar uma recensão crítica de outra performance, FOLIA, apresentada por Susana Valadas neste mesmo ciclo, a 7 de abril. Nessa ocasião, Susana, vestida por Mafalda Santos e apetrechada com sensores de movimento da também artista Astronauta Mecânica, assinou aquela que foi, para mim, a melhor performance da noite. Ao jeito de Loie Fuller e da sua icónica dança da serpentina de 1892, Susana entregou-se a uma dança hipnótica, distinguindo-se da referência histórica pelo som provocado pelos seus próprios movimentos, quase como se o seu corpo funcionasse como um teremim corpóreo (imagem 2).



Imagem 2 - FOLIA de Susana Valadas
Foto: Henrique Fialho



Mas, com esse texto ainda em andamento, na última terça-feira, dia 21, voltei ao Céu de Vidro. O cartaz contava com três performances e duas instalações (imagem 3). Cheguei atrasado à primeira performance, da autoria de Beatriz Gaspar e Lourenço Trindade. No intervalo, aproveitei para ver as instalações de Fátima Andrea e Moisés Feliciano, confesso que sem lhes prestar a devida atenção. Fui absorvido por reencontros com colegas que já não via há muito tempo. O que não falta nas Caldas da Rainha, nos dias que correm, é assunto para conversa. Com o IPL, e por consequência a ESAD.cr, em processo de transição para o estatuto de universidade, o medo da perda de identidade da escola aliado à falta de transparência do processo cria o ambiente perfeito para alimentar conversas de ocasião. Tudo isto acontece num ambiente entre ex-alunos e professores, e professores que são ex-alunos, perfil que compõe cerca de noventa por cento do público destes eventos caldenses.



Imagem 3 - Flyer Chuva Ácida



Este assunto dissipou-se com a chamada para a performance "Homo-ordinarius", de Daniel Dantas e Rodrigo Dantas. Confesso que há sempre uma resistência em mim em trocar a conversa jogada fora pela atenção exigida por uma performance. Isso voltou a acontecer aqui, razão pela qual já não cheguei a tempo de conseguir um lugar sentado, mas fiquei perto da ação. Mais uma vez, talvez por inclinação minha para frequentar eventos "suspeitos", não havia qualquer folha de sala, introdução ou apresentação prévia. Apenas alguém que gritou "VAI COMEÇAR".


No início, uma tela projetava o vídeo de um indivíduo de cabelo comprido a praticar alguns exercícios, sempre repetidos três vezes, com movimentos genéricos típicos de um NPC (personagem não jogável de videojogos). Este vídeo, projetado num lençol, era acompanhado por uma voz off semelhante a um assistente virtual, que dava indicações e servia de narrador, enquanto se ouvia uma música digital muito simples, como se de um CD-ROM de tutoriais dos anos 2000 se tratasse.


Faço aqui um parêntesis para descrever o espaço e o duo. Rodrigo Dantas foi aluno de teatro na ESAD.CR, enquanto Daniel Dantas, aluno de som e imagem, assume a criação da peça e a operação audiovisual. O ambiente em volta nesta "sala cinzenta" é um primeiro andar poeirento e escuro. Um tapete de relva sintética serve de assento a cerca de trinta pessoas, com outras trinta de pé à volta das primeiras. As paredes em tijoleira envolvem o espaço, marcado pelo cheiro a louro que decora as escadas de acesso. Várias divisões são criadas por lençóis de diferentes texturas e cores, numa estética muito semelhante aos esconderijos que o meu primo e eu construíamos na casa da nossa avó, na Nazaré. É neste cenário que o performer Rodrigo Dantas entra em cena. Reconhecemos de imediato que é a mesma pessoa projetada no vídeo, mas com duas diferenças notáveis. Se no vídeo aparecia de cuecas brancas e cabelo comprido, agora apresenta-se perante nós de cabeça rapada e com uma ligadura enrolada à volta da cintura, à semelhança de uma fralda.


Com a entrada do performer, a projeção na tela mudou para um vídeo digital em 3D com uma modelação básica, o que interpretei como uma versão digital do próprio Rodrigo (vídeo 1). O performer começa a agir com um ar apático e um rosto desprovido de emoções, copiando os movimentos executados pelo humanoide na tela. Repetia tudo em séries de três, com uma fisicalidade pouco natural, invocando novamente a postura de um NPC. Aos poucos, a mensagem da peça começa a ganhar forma, revelando-se uma crítica a nós próprios, os espectadores daquele momento, dei por mim a ficar autoconsciente. Depois de interiorizar os movimentos básicos, o performer passa a aprender a demonstrar empatia, raiva, nojo… enquanto a voz off dita em simultâneo como e quando aplicar essas emoções, decifrando assim o "código humano".



Vídeo 1 - Homo-ordinarius de Daniel Dantas e Rodrigo Dantas



De início algumas risadas iam surgindo da plateia, contudo, ao chegar à fase de aprender a comunicar (grunhidos), a atmosfera mudou. A certa altura, um elemento do público decide responder a um desses grunhidos, o performer aproxima-se e começa a interagir, primeiro respondendo aos sons e depois com toque. É neste exato momento que a figura aos olhos do espectador deixa de ser um ator para se tornar em outra coisa, racionalmente sabemos que ele está a atuar, mas algo dentro de nós desliga essa certeza e dá lugar ao medo do desconhecido. Com a aproximação constante de Rodrigo, a expressão do espectador que interagia transformou-se de diversão, em desconforto e evoluiu para pânico, um pânico que rapidamente ecoou na expressão da audiência.


Surgiu-me na mente a imagem do filme "O Quadrado" do realizador Ruben Östlund, quando o ator Terry Notary entra em cena a fazer de homem-macaco no decorrer de um requintado jantar de gala. Apesar da escala menor da apresentação nas Caldas, penso que este é o melhor termo de comparação para a tensão gerada. A peça levanta uma reflexão profunda sobre aquilo que damos como garantido na nossa comunicação e na forma como reagimos em comunidade. Ao observarmos este corpo a ser programado ao vivo, percebemos que a nossa própria linguagem física, a nossa cultura e os nossos modos de convivência são um código fabricado. Trata-se de uma encenação altamente estruturada da qual fazemos parte e que validamos diariamente sem questionar. A performance dura cerca de vinte minutos e está tão bem escrita e estruturada que não houve um único momento em que sentisse que algo devia ser diferente. Termina de forma brilhante, com a voz off a indicar ao performer para agradecer à audiência, referindo que o público "também se encontra em performance".


Acabei por não assistir à última performance da noite, pois já não precisava de ver mais nada, estava satisfeito e sabia agora para onde apontar a minha recensão crítica. Toda a experiência levou-me a refletir sobre a importância da qualidade nesta escala, pois muitas das pessoas presentes eram artistas em início de carreira. Ao longo destes ciclos locais, noto que é dada muita importância ao universo material e à estética do espalhafatoso, mas raramente vejo a mesma dedicação aplicada à conceptualização das ideias e  da escrita, aqui o orçamento não é tudo. A peça vive de elementos quase franciscanos, provando que foi no apuramento das ideias que a verdadeira energia foi aplicada. É no contacto com este tipo de trabalho "espiritual" e honesto da arte que outros criadores podem verdadeiramente evoluir e procurar fazer melhor, o dinheiro não é tudo. 

Um aplauso.