Mariana Mizarela (n. 1987) é uma artista visual do Porto com interesse na ilustração, pintura e colagem, tendo integrado diversas exposições, tanto coletivas como individuais, em Portugal e Espanha. Licenciada em Artes Plásticas pela Escola Superior Artística do Porto e mestre em Ilustração Artística pelo ISEC, em Lisboa, a sua prática consiste em transformar cores em histórias. Como a própria afirma: “Procuro transmitir e colecionar uma intemporalidade de eras passadas. Os cenários são irreais e sonhadores, com uma pitada de humor.”
“Felicidade”, a sua primeira exposição individual deste ano, presente na sala LU.CA no Teatro Luís de Camões, em Lisboa, entre 10 de janeiro e 29 de março. A exposição reúne 20 obras, maioritariamente colagens, e um vídeo, onde a artista reflete sobre a felicidade das crianças e a infância, esse “lugar tão delicado” pelo qual todos passámos. Sendo o LU.CA um espaço focado no público jovem e na formação artística desde a primeira infância, a localização revelou-se extremamente adequada, reforçando a ligação entre o tema da obra e a própria identidade do teatro.
Assim que entrei na sala, a minha primeira impressão foi o facto de o teto ser bastante baixo. Como consequência, as obras estavam perto do chão, mais baixas do que o normal, sendo necessário uma mudança de perspectiva para as conseguir observar, remetendo aqui para a altura de uma criança e obrigando-nos a voltar a ver o mundo através desse olhar. Não só a altura das obras nos obrigava a mudar a perspectiva, como as luzes no espaço complementavam tal mudança. Se não nos baixássemos para estar à altura de uma criança, as luzes acabariam por projetar uma sombra forte sobre as obras, dificultando a sua visibilidade, até porque estas tinham dimensões reduzidas (a maioria eram colagens em postais, com cerca de 15x10 cm).
Ao observar as colagens de forma abrangente, notava-se também que nenhum dos postais estava centrado nas molduras. Estavam inclinados, como se tivessem sido colocados por uma criança, sem a destreza motora ou a atenção ao detalhe típicas dos adultos.
Quanto às colagens em si, estas estavam expostas em linha e quase compostas em segmentos, de como a vida da criança vai evoluindo. Por exemplo, existe uma seção da exposição onde se encontram 3 trabalhos em fila, quase como uma sequência da vida da criança e como a mesma vê o mundo. Na primeira obra, “O Colo dos Pais”, observa-se a criança no colo dos pais e um mundo cheio de cores e formas ao redor da criança. Na segunda obra, “A Papa”, a narrativa descreve o momento da alimentação e o conflito que acontece dentro da criança, que come a papa mas preferia estar a comer bolachas. Por fim, em “A Birra”, deparamo-nos com uma fase de maior crescimento, onde o choro retrata a forma como os mais novos aprendem a gerir e a demonstrar as suas emoções ao mundo exterior.
Quanto às restantes peças, estas retratam cenários do quotidiano infantil que os mesmos possam ter experienciado: momentos domésticos, paisagens, pessoas que viram, emoções que sentiram, misturados com a imaginação e a criatividade das suas pequenas mentes. Esta combinação resulta em cenas quase surrealistas, onde se verificam elementos da fauna e da flora juntamente com uma grande diversidade de cores, posicionados ao longo do perímetro das composições. A artista também brinca com a perspectiva dentro da composição dos postais, encontrando um balanço entre o grande, o pequeno, o perto e o longe, implicando a falta de noção de profundidade que as crianças têm.

No final da exposição, no andar de cima, existe também um vídeo. Esse vídeo dispõe de várias colagens da artista animadas, não só fazendo referência aos trabalhos expostos na exposição mas também a outros da artista. Juntamente com as colagens e animações, existe também uma sonoplastia que corresponde ao que se passa em cada cenário que vai passando. De certa forma, acaba por retratar as obras e a exposição em si como uma comédia, numa reativação dos sentidos perdidos na infância, da nossa tal criatividade que tivemos nos nossos primeiros anos de vida e que influenciou o nosso crescimento.
“Felicidade” foi uma experiência bastante interessante, não só ao observar como a técnica da colagem pode ser aplicada numa composição tão pequena mas também como a sala parece contar uma história ao espectador. Como um convite para uma história de ingenuidade, da nossa criatividade infantil, dos nossos sentidos, da forma pura como antes víamos o mundo, e provocando o observador a ter em conta a forma como vê o seu mundo mas também pensar sobre a nossa infância, como poderemos regressar a esse nosso olhar de criança, de voltar a ver o mundo com magia, espanto, pureza. Recomendo principalmente a exposição “Felicidade” a quem se sente perdido, a quem perdeu o brilho da vida, a criatividade do quotidiano mas também a quem ainda cultiva esta dinâmica da nossa infância, como se ocorresse um sopro de ar fresco que nos devolve à liberdade de quando éramos pequenos mas também das nossas memórias mais felizes.

