A exposição “Serralves em Luz”, realizada no Parque da Fundação de Serralves, na cidade do Porto, constitui uma experiência noturna imersiva que explora as possibilidades de reconfiguração do espaço através da articulação entre luz, som e paisagem. Reconhecida pelo The Times como uma das dez melhores exposições a visitar na Europa, a edição de 2024 voltou a transformar temporariamente o parque, convertendo o espaço num labirinto sensorial de cor, som e movimento. Com o tema “Sonhos e Ilusões”, celebrou simultaneamente o 35º aniversário da Fundação de Serralves e os cinquenta anos da Revolução de Abril. Sob a direção artística de Nuno Maya, e com a participação de vários artistas e designers de luz internacionais como Sophie Guyot, Tamar Frank e Tilen Sepič, o projeto artístico convida o visitante a ser mais do que um observador passivo, passando a fazer parte integrante de uma experiência interativa singular que articula arte, tecnologia e natureza.
O percurso expositivo – que se estende ao longo de cerca de três quilómetros – desenrola-se no espaço natural do parque, que à noite se transforma num campo de experimentação artística, onde a relação entre imaginação e perceção é explorada, os sentidos são intensificados e a sensação de fantasia se amplia. As cerca de vinte e cinco instalações que atravessam as diferentes zonas do parque - do jardim formal à Casa de Serralves, passando pelos bosques, planos de água e passadiços suspensos, até à própria fachada do Museu de Arte Contemporânea – recorrem a diferentes dispositivos luminosos, como LEDs, projeções, video mapping e esculturas de luz, para revelar novas formas de percecionar árvores, caminhos, planos de água e elementos arquitetónicos.
As intervenções luminosas evidenciam o potencial da luz como instrumento de transformação espacial, capaz de alterar profundamente a perceção do parque sem modificar fisicamente o ambiente. Mais do que acrescentar elementos artificiais, a luz revela características intrínsecas da paisagem, aproximando-a de uma leitura estética diferente da habitual. O espaço natural passa, assim, a ser entendido quase como uma obra de arte em si mesmo. A escuridão noturna intensifica os contrastes, revelando elementos naturais e arquitetónicos que permanecem discretos ou até impercetíveis durante o dia. Através desta ação, o espaço natural já reconhecido pelo seu valor paisagístico é sucessivamente reconfigurado e reinterpretado, enquanto a luz orienta o movimento e o olhar do visitante ao longo de diferentes ambientes.
Neste contexto, a luz deixa de desempenhar uma função meramente utilitária para se afirmar como o principal material artístico. Ora difusa, ora intensa, ora cromaticamente saturada, atua como elemento estruturante, redefinindo volumes, percursos e pontos de atenção. A exposição promove, deste modo, uma revalorização do detalhe e da materialidade da paisagem, levando o público a reconsiderar aspetos que, em condições habituais, poderiam passar despercebidos. Em alguns momentos, a iluminação acentua a verticalidade dos troncos das árvores — como sucede com os imponentes eucaliptos, marcados por uma luz vermelha que evoca o fogo e funciona como um lembrete da violência dos incêndios. Noutros casos, privilegia-se a volumetria das copas, como na Alameda dos Liquidâmbares, onde a densidade e a expansão das árvores são realçadas através de sequências luminosas que as transformam em estruturas vibrantes, conferindo ao espaço uma atmosfera hipnotizante, quase etérea. Em contraste, elementos aparentemente secundários ganham protagonismo: um insignificante tronco de árvore já sem vida, com certeza habitualmente ignorado, é resgatado dessa condição e convertido numa peça escultural através de uma instalação de video mapping que revela e amplifica os seus anéis de crescimento.
Destaca-se ainda Light Walk, a travessia dos passadiços elevados junto às copas das árvores que introduz uma alteração de escala e de perspetiva. Esta deslocação em suspenso altera profundamente a perceção do espaço expositivo, permitindo um contacto mais próximo com a densidade da vegetação e com os efeitos luminosos que atravessam as copas.
A diversidade das propostas assenta num equilíbrio entre intervenções mais discretas e outras de maior complexidade, sendo que cada instalação revela uma notável precisão na sua conceção, evitando interferências e promovendo antes uma relação de complementaridade. Mais do que um conjunto de obras isoladas, a exposição apresenta-se como um trajeto contínuo, no qual a sucessão de estímulos visuais e sonoros — por vezes subtis, outras mais intensos — é cuidadosamente encadeada, conduzindo o visitante através de uma narrativa sensorial e simbólica. A articulação entre luz e som contribui para a criação de ambientes imersivos que oscilam entre o contemplativo e o lúdico, ampliando a sensação de deslocamento face ao quotidiano.
O caráter interativo de algumas instalações reforça o papel ativo de quem visita, convidado não apenas a observar, mas a intervir diretamente na construção da experiência. Em certos momentos, é possível influenciar o desencadear de efeitos luminosos ou sonoros. Noutros, o próprio corpo – através da projeção da sombra – passa a integrar a obra, tornando-se parte da composição. Esta possibilidade de intervenção acentua a relevância do público, que deixa de ocupar uma posição passiva para assumir um papel participativo e criativo. Aliada ao forte impacto sensorial do conjunto, esta dimensão contribui para que a exposição se afirme como um projeto imersivo, capaz de transformar o espaço natural num cenário de experimentação estética.
A par desta leitura mais imediata, a exposição pode igualmente sugerir uma análise mais reflexiva sobre a relação entre natureza e ação humana. Não restam dúvidas de que as intervenções luminosas funcionam como um tributo à paisagem, valorizando-a e elevando-a a uma dimensão estética que a aproxima do estatuto de obra de arte, acrescentando-lhe novas camadas de significado. Contudo, esta relação não é isenta de ambiguidades. Se, por um lado, as intervenções celebram e dignificam a natureza, por outro, podem igualmente ser entendidas como uma forma de controlo exercido pela ação humana, que a reorganiza segundo uma lógica artística e tecnológica. A leitura da exposição pode, nesta perspetiva, oscilar entre a valorização da natureza e a sua instrumentalização simbólica, abrindo espaço a uma reflexão crítica sobre a forma como o ser humano contemporâneo se relaciona com o meio natural — entre a contemplação, a intervenção e o desejo de constante controlo e domínio.
No conjunto, “Serralves em Luz” está longe de se limitar a um espetáculo visual, convidando o visitante a redescobrir o parque enquanto espaço estético, onde a dimensão sensorial se articula de forma consistente com uma reflexão crítica.
Tratando-se de uma exposição particularmente inclusiva, capaz de cativar públicos muito diversos, constitui também um excelente pretexto para incentivar crianças, adolescentes e jovens a afastarem-se do uso constante de ecrãs para participar numa experiência onde a natureza e a criatividade humana interagem de forma singular — suscitando, quiçá, a curiosidade de explorar outros ambientes expositivos e naturais no futuro.
E o efeito não se limita aos mais novos. Atrevo-me a afirmar que proporciona uma experiência de tal forma marcante que os visitantes correm o risco de sair transformados, como se, ao longo da caminhada, atravessassem uma fronteira para uma espécie de mundo sobrenatural, da ilusão e do sonho... uma realidade distinta daquela que conhecem. O facto de, passados dois anos, ser ainda possível elaborar uma reflexão tão detalhada sobre essa vivência constitui um forte indicador do seu impacto duradouro — porque nem todas as exposições permanecem com igual intensidade na memória.
A boa notícia é que a exposição tem uma periodicidade bienal e, por isso, uma nova edição se aproxima, entre os meses de junho e outubro de 2026. Vale a pena agendar a visita — tanto para quem já conhece edições anteriores como para quem se aproxima pela primeira vez, com curiosidade ou até algum ceticismo. Importa sublinhar que, apesar de o espaço se manter relativamente estável, cada edição tem demonstrado uma notável capacidade de reinvenção, apresentando soluções visuais e espaciais distintas. Os mesmos lugares são sucessivamente transformados, revelando novas atmosferas e possibilidades de interpretação, o que contribui para que mesmo quem já visitou encontre pretextos para regressar.
Para quem quiser tirar maior partido desta experiência, fará sentido começar por fazer uma visita forma autónoma, privilegiando a dimensão sensorial e intuitiva, e, numa ocasião posterior, optar por uma visita guiada, que acrescenta enquadramentos conceptuais e aprofunda a compreensão das obras do ponto de vista dos artistas que as conceberam. Estas formas de fruição não se excluem; pelo contrário, revelam-se complementares, permitindo um progressivo enriquecimento da relação com as propostas apresentadas. E é precisamente aí que esta exposição se distingue: na capacidade de oferecer sempre algo de novo e surpreendente, independentemente de quantas vezes se regresse.






