Assistir ao concerto de Yerai Cortés no Theatro Circo, em Braga foi uma experiência que ultrapassou o formato tradicional de um espetáculo de guitarra flamenca. O projeto, intitulado "Guitarra Coral", apresentou-se como uma narrativa viva, onde a música e a encenação se fundiram para contar uma história pessoal. O concerto teve um início marcado por composições calmas, que estabeleceram de imediato um ambiente de recolhimento. O desenho de luz foi um dos elementos que mais me impressionou, com uma estética cinematográfica, as luzes manipulavam o espaço, criando momentos de tensão e suspensão.
A dinâmica no palco reforçava esta fluidez: Cortés e o coro de seis mulheres estavam trocando de posição de forma tão suave que flutuava, mantendo a continuidade visual da história sem interrupções. Um dos aspectos mais interessantes foi a inversão da posição habitual no palco. Embora o concerto seja centrado num guitarrista acompanhado por um coro, Cortés toca como se as estivesse a acompanhar a elas. Ao mesmo tempo, o coro feminino desempenha um papel fundamental de encorajamento através do jaleo , criando uma atmosfera de proteção e força.
Para mim, o espetáculo funcionou como a história de um menino chamado Yerai. As mulheres no palco parecem representar figuras femininas que o apoiaram ao longo da vida, como a sua mãe, cuja voz surge num momento marcante através de um áudio integrado nas músicas. A guitarra de Cortés carrega memórias e heranças familiares. Houve dois momentos de profunda entrega emocional que me marcaram particularmente. O primeiro aconteceu quando o guitarrista, movido pela paixão do momento, começou a cantar sem microfone, revelando uma vulnerabilidade autêntica. O segundo ocorreu numa composição em que as luzes se apagaram muito lentamente até à escuridão total, enquanto as vozes do coro continuavam a cantar. Foi um momento de uma beleza desarmante, que chegou "direto ao coração".
O encerramento trouxe uma mudança de energia com o tema "Sonar por Bulerías". Depois de uma viagem tão introspectiva, o concerto terminou com um ritmo vibrante e cheio de vivacidade. Yerai Cortés provou que a inovação no flamenco pode ser feita com simplicidade e honestidade, modificando a técnica da guitarra num veículo para compartilhar uma história de amor e família.


