quarta-feira, 25 de março de 2026

Histórias do “salto”: «Notre Feu», de Isabelle Ferreira

 O Maat - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia acolheu, entre outubro de 2025 e março de 2026, a exposição Notre Feu, da artista luso-descendente Isabelle Ferreira (Montreuil, 1972), com obras em que memória e matéria se fundem para contar uma narrativa pessoal que reflete a experiência de muitos portugueses nas décadas de 1950, 60 e 70, que fugiram à miséria, à perseguição e à guerra, com destino a França.

Isabelle Ferreira inspirou-se na história do seu pai, que atravessou a fronteira “a salto” nos anos 60. A obra que dá o tom à exposição - L’invention du courage (o salto) interpreta o ato de rasgar uma fotografia do migrante em dois - uma parte ficava em Portugal, com a família, e a outra ser-lhes-ia entregue de volta quando a passagem fosse bem sucedida, para dar origem ao pagamento devido ao “passador”. Esta ação, que relembra o symbolon grego, em que um objeto é partido em dois e entregue a duas pessoas, que o usarão no futuro para se identificarem, torna-se assim, literalmente, um símbolo de uma geração de portugueses que preferiram o risco e a incerteza, à fome e à guerra, e cujas epopeias não se costuma cantar. Nesta série, encontramos retratos da época, fragmentados e impressos sobre pedaços de contraplacado de madeira partido, desconstruídos também pela imposição de fragmentos do mesmo material, pintados com blocos de cor. 


 
Tor oro, 2022 L'invention du courage (o salto)


O contraplacado partido aparece de novo, na instalação Les témoins, mas desta vez não com uma dimensão íntima, como na obra anterior, mas monumental, como a cordilheira-fronteira cujas imagens aparecem impressas sobre o suporte, e que representavam a última e mais feroz (ainda que sublime) barreira a ultrapassar para chegar ao destino. Em Par la Nuit, a fotografia dos Pireneus aparece novamente, mas desta vez escondida atrás de um espesso papel preto, que a artista rasga, escavando, para revelar partes da paisagem como uma esperança no meio da escuridão.


Les témoins, 2025 © Guillaume Vieira, imagem acedida em maat.pt




Par la nuit, (depuis le vallon de Casteta) 2025 © Guillaume Vieira, imagem acedida em maat.pt

A fotografia tem nesta exposição um valor essencialmente simbólico, já que todas as imagens são apropriações que dão vida à narrativa desenvolvida pela autora: nenhum retrato é de emigrantes portugueses, nenhuma paisagem foi capturada por algum deles, ou pela artista. Esta ausência de referências específicas é o reflexo de uma história que se contou muito pouco, e que Isabelle Ferreira aqui recupera.

Há ainda um modesto e insuspeito material que aparece repetido nas instalações Ibili! e Ker - o agrafo - que a artista usa quase obsessivamente criando uma espécie de “pele” feita das próprias feridas que inflige sobre a madeira (aqui em estado mais natural, em oposição ao contraplacado industrial). Já em Staccato (Tejo), obra realizada propositadamente para esta exposição, os agrafos fixam o papel colorido à parede da própria galeria, posteriormente rasgado - duplamente ferido - para criar uma obra simultaneamente ritmada e quase líquida.


Ibili! 2022 (pormenor)


Ker, 2025 (pormenor)

Staccato (Tejo), 2025  © Guillaume Vieira, imagem acedida em maat.pt

O impacto visual da exposição nasce do contraste tanto da textura e dos contornos irregulares das obras com as paredes brancas suavemente curvadas, como da iluminação intensa, cujo aspeto quase assético faz ressaltar violentamente as obras.

O ato de rasgar, partir ou ferir fazia já parte do léxico visual da artista antes da produção das obras desta exposição, e o mito da fotografia rasgada representa uma feliz coincidência entre o ato criativo e a história pessoal da autora. A matéria - principalmente a madeira, apresentada de forma mais natural ou industrial, mas também o papel - sempre manipulada de uma forma agressiva, traduz a ferida e o rasgo que a emigração representou para aquela geração. 

Sem a apologia do herói ou moralidade vazia, esta exposição tem o poder de reavivar o sentido de empatia (tão escasso nos dias de hoje) pelas pessoas que, ainda que de lugares e costumes diferentes, partilham com esta geração de portugueses o desejo mais do que legítimo e inquebrantável, de procurar um lugar seguro para plantar o seu futuro, ateando para si e para as suas famílias o tal Feu (no sentido de lar) de que nos fala Isabelle Ferreira.