Foi a primeira vez que fui ver e ouvir um concerto de Mazgani e, desde o momento em que começou, senti que entrei num espaço intermédio entre geografias, memórias e atmosferas cinematográficas. No passado dia 6 de março, no Teatro Municipal Joaquim Benite, essa travessia tornou-se particularmente evidente com a apresentação de Cidade de Cinema, o mais recente trabalho do artista.
Nascido em Teerão, no Irão, e criado em Setúbal, Shahryar Mazgani pode, em certa medida, ser pensado como um iraniano português, carregando consigo uma identidade híbrida que atravessa a sua música. Essa origem não é apenas biográfica, é sensorial. Há na sua sonoridade uma certa melancolia e contemplação que nos traz à memória cantores como Leonard Cohen e Nick Cave. Canta maioritariamente em inglês, mas também em português, num registo onde a poesia, o silêncio e a introspeção assumem um papel central. Num contexto global marcado por tensões e conflitos, a sua presença que transporta de forma evidente essa herança, ganha ainda mais peso simbólico, lembrando-nos da profundidade cultural de um país tantas vezes reduzido a discursos políticos.
Mazgani apresentou-se com uma presença contida quase arrogante mas que provocava curiosidade num magnetismo misterioso. Quase não falou com o público, limitando-se a um breve “Estão bem, meus queridos?” de vez em quando, enquanto afinava uma das diferentes guitarras que usou, mas não foi necessário mais. A comunicação fez-se sobretudo através da música. A sua postura em palco, por vezes deslizante, quase dançante, contrastava com a economia de palavras, criando uma tensão interessante entre distância e envolvimento.
Musicalmente, o concerto foi marcado por uma fusão eficaz entre guitarras vibrantes e uma bateria pulsante, construindo um ambiente sonoro que evocava claramente o universo do rock alternativo com forte carga cinematográfica. Havia momentos em que a sala parecia transformar-se numa paisagem americana, como se estivéssemos a atravessar uma estrada infinita, algures entre a Route 66 e um filme de Tarantino. Esta dimensão imagética está alinhada com o próprio conceito do álbum, descrito pelo artista como “uma fantasia de silêncio e transcendência”.
A reação do público foi num crescendo começando tímida, mas ao longo da apresentação foi-se confirmando o impacto nos presentes. A sala cheia respondia no final de cada tema com entusiasmo genuíno, uma mistura de surpresa e admiração. No último momento, muitos aceitaram o convite de Mazgani e aproximaram-se do palco, para festejo conjunto, alguns a dançar,outros a aplaudir em uníssono, como se finalmente tivessem encontrado o lugar certo dentro daquele universo.
Ainda assim, essa contenção do artista pode dividir. Para alguns, reforça a aura quase mística do concerto; para outros, pode criar uma certa distância emocional. Mas talvez essa seja precisamente a proposta: não facilitar, não explicar demasiado, deixar espaço.
No fim, fica a sensação de ter assistido a algo mais do que um concerto. Entre o Irão e Portugal, entre o silêncio e o ruído, Mazgani constrói um território próprio, um lugar onde a música não se limita a ser ouvida, mas habitada. E isso, hoje, é raro.Para quem ainda não conhece, fica o convite é um universo que merece ser explorado.
Fotografias da autora