quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ana Hatherly: as paredes também falam

No ano passado, enquanto pesquisava para um trabalho sobre o Processo Revolucionário em Curso (PREC) e os seus cartazes políticos, deparei-me com uma obra de Ana Hatherly que me chamou particularmente a atenção: As Ruas de Lisboa de 1977.

Após o 25 de Abril de 1974, a liberdade de expressão conquistou uma presença até então impensável no espaço público. Portugal atravessou um período de intensa transformação política e social. Durante o PREC, as ruas tornaram-se espaços de expressão, debate e confronto ideológico. Depois de quase meio século de ditadura e censura, as paredes das cidades encheram-se de cartazes, palavras de ordem e imagens políticas, refletindo tanto o entusiasmo revolucionário como as tensões de uma sociedade em mudança.

Foi nesta paisagem urbana que Ana Hatherly encontrou a matéria para a sua obra. No ano de 1977, recolheu cartazes das paredes de Lisboa e voltou a montá-los, procurando reproduzir a acumulação espontânea de imagens que caracterizava a cidade. Nas suas colagens, a propaganda política surge lado a lado com anúncios, figuras de circo e referências populares, sem qualquer hierarquia. Esta convivência entre política e entretenimento revela uma sociedade onde a necessidade de comunicar parecia sobrepor-se à própria mensagem.

O que mais me interessa neste trabalho é precisamente essa perda de controlo sobre o significado. Cartazes originalmente concebidos para transmitir mensagens claras e persuadir o público tornam-se fragmentos de um discurso coletivo, confuso e por vezes contraditório. As palavras interrompem-se, as imagens perdem o contexto e os símbolos adquirem novos sentidos. A liberdade de expressão manifesta-se aqui não apenas na possibilidade de falar, mas também na desordem provocada por tantas vozes a tentar fazer-se ouvir.

Existe ainda uma dimensão temporal nestas colagens. Cada cartaz sobreposto a outro representa uma nova mensagem que ocupa o lugar da anterior, sem nunca a apagar completamente. As sucessivas camadas de papel tornam-se camadas de história, preservando vestígios de diferentes momentos e discursos. Esta acumulação, simultaneamente caótica e fértil, traduz a instabilidade de um país que, depois de décadas de silêncio imposto, experimentava a liberdade de se expressar.

Talvez o aspeto mais interessante de As Ruas de Lisboa seja a distância que a obra cria em relação à intenção original dos cartazes. Ao retirá-los da urgência do debate político, Hatherly permite-nos observar aquilo que normalmente passa despercebido: as estratégias visuais utilizadas para captar a atenção, a fragilidade das mensagens quando perdem o seu contexto e a facilidade com que um discurso pode ser substituído por outro.