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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Penelope Umbrico: Suns from Sunsets from Flickr

Penelope Umbrico é uma artista visual norte-americana que se apropria de milhares de imagens pré-existentes que encontra em sites de busca para criar seu trabalho. Ela cria instalações, vídeos e livros utilizando um vasto arquivo para explorar a produção e consumo de imagens na atualidade. 

Suns from Sunsets from Flickr (2006 - em curso) é um dos seus trabalhos mais conhecidos, no qual ela utiliza o motor de buscas do Flickr para pesquisar a palavra "pôr-do-sol", e depois retira as milhares de fotografias apresentadas pelos utilizadores do site. 

541,795 Suns from Sunsets from Flickr (Partial) 1/23/06, 2006
Detail of 2000 machine c-prints, each 4 x 6 in



Umbrico não reproduz exatamente as imagens que encontra, mas as recorta no formato 4 x 6 polegadas, fazendo com que o sol seja a característica dominante e central, retirando todos os elementos que caracterizariam o local em que a foto foi tirada. Depois as envia para sites de impressão fotográfica comerciais. Em suas instalações ela dispõe as fotografias lado a lado, preenchendo paredes enormes dos museus e galerias com milhares de sóis. 

3,221,717 Suns from Sunsets from Flickr (Partial) 03/31/08, 2010
2,024 chromogenic machine prints
Each 4 x 6 in
Installation view at New York Photo Festival, New York, 2008



Ela comenta que: “Para cada instalação, o título reflete o número de resultados que obtenho ao pesquisar “sunset” no Flickr no momento da instalação - por exemplo, a primeira instalação foi 541.795 Suns from Sunsets from Flickr (parcial) 23/01/06 em 2006; um ano depois: 2.303.057 Suns from Sunsets from Flickr (Partial) 25/09/07 - o (Partial) no título refere-se ao fato de que a instalação é apenas um fragmento do número de sunsets no Flickr naquela época. E como esse número dura apenas um instante, seu registro é análogo ao ato de fotografar o próprio pôr do sol.” 

A artista trabalha através do fluxo incessante de imagens, objetos e informações sedutoras que nos cercam, utilizando imagens simbólicas da natureza (nuvens, lua, sol), objetos ou situações cotidianas para fazer uma crítica ao consumismo e produção desenfreados de conteúdo. 

   “Embora a intenção de fotografar um pôr do sol possa ser capturar algo efêmero ou afirmar um ponto de vista subjetivo individual - o resultado é exatamente o oposto - por meio da tecnologia de nossas câmeras comuns, experimentamos o poder de milhões de visualizações sinóticas, todas compartilhando a da mesma forma, no mesmo momento. Reivindicar a autoria individual ao fotografar um pôr do sol é se desvincular dessa prática coletiva e, portanto, negar uma grande parte do motivo pelo qual capturar um pôr do sol é tão irresistível em primeiro lugar.” (UMBRICO, 2009)


28,534,323 Suns from Sunsets from Flickr (Partial) 08/03/15, 2015
2,360 chromogenic machine prints
Each 4 x 6 in
Installation view at Perez Art Museum, Miami, 2015



 


Esta obra crítica e irônica está sempre em mutação, e nos faz questionar a vontade repentina de alcançar o telemóvel para fotografar o por-do-sol. E só por curiosidade, hoje o resultado da busca pela palavra "sunset" no Flickr foi de 4.816.643 imagens. 


Fontes:

http://penelopeumbrico.net/index.php/project/suns-from-sunsets-from-flickr/
https://www.flickr.com/search/?text=sunset


terça-feira, 9 de novembro de 2021

How to Do The Flowers de Ruth Van Beek

 




Ruth Van Beek (1977) é uma artista holandesa que centra seu trabalho na apropriação de imagens de seu arquivo, que são em maioria retiradas de manuais de instrução de jardinagem, faça-você-mesmo, livros de história e arqueologia. Assim surge o nome do livro, que resulta em uma espécie de manual dadaísta, em que a artista deixa livre a interpretação das sequências e agrupamentos de imagens para os leitores. 




Em How To Do The Flowers as imagens são tiradas de seu contexto e dispostas lado a lado com outras: “Juntas, elas estão organizados de uma forma muito pessoal, em categorias que me parecem importantes neste momento ... Às vezes são construções abstratas, às vezes me lembram coisas que acontecem na vida real.” comenta Ruth em uma entrevista para o site Is Nice That. A repetição de imagens, sequências visuais e a associação livre entre as imagens constituem a narrativa do livro.









Van Beek intervém em algumas imagens, dobrando-as, recortando ou até mesmo pintando sobre elas. A manipulação destes recortes faz criar um novo universo narrativo em que a artista joga com intuição e humor. As imagens estáticas se transformam em mãos que se movem, e objetos se tornam sujeitos. Mãos que plantam flores, que cozinham, que penteiam os cabelos de alguém. Pedras que se tornam formas abstratas, e formas abstratas se tornam personagens.


“A imagem original foi tirada de seu contexto, mas o imaginário familiar – a fotografia formal dos livros de instrução (...) ou uma ação encenada – se mantém reconhecível, e assim fala à nossa memória coletiva. Elementos contrastantes conversam na obra de Van Beek: o passado morto ganhando vida; o literal e o abstrato; exibindo e ocultando expressivamente; tanto a limitação quanto a possibilidade infinita de um arquivo. ”






Em um sentido mais pessoal, para Van Beek How to do the flowers se tornou um manual para a criação de seus novos trabalhos artísticos.


    

O resultado final provoca sentimentos ambíguos nos leitores, que buscam um contexto narrativo e encontram centenas, estimulando, assim, sua imaginação.



Referências bibliográficas:


https://artpapereditions.org/product/book/ruth-van-beek-how-to-do-the-flowers/

https://www.itsnicethat.com/articles/ruth-van-beek-how-to-do-the-flowers-publication-301118

https://punkt.hu/en/2019/09/10/how-to-make-a-manual/

http://www.ruthvanbeek.com/


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Impressão Minha: o cenário das publicações independentes no Brasil

 

Screenshot extraído do documentário Impressão Minha (2018)


  

Qual o papel do livro-objeto na atualidade?

Diante de uma crescente onda digital, a materialidade dos livros impressos ainda é relevante?

O livro de artista pode ser acessível a todas as pessoas?


Estas são algumas das questões tratadas ao longo dos 27 minutos que compõem o documentário Impressão Minha, realizado por Daniel Salaroli, Gabriela Leite e João Rabello. O documentário apresenta a crescente movimentação em torno das feiras de publicações independentes, auto publicações e livros de artista no Brasil.


O livro como objeto tátil e material, existe desde os primórdios da origem da escrita, porém nos últimos anos, fala-se muito do possível desaparecimento do livro impresso. Em contrapartida, alguns movimentos (re)surgem como propulsores para a circulação da matéria impressa no Brasil e no mundo.
Neste contexto, o livro de artista surge como um espaço para a experimentação gráfica, e se torna uma espécie de exposição em miniatura, que viaja e acessa mais lugares e pessoas.




Screenshot extraído do documentário Impressão Minha (2018)



Screenshot extraído do documentário Impressão Minha (2018)





O documentário apresenta nomes importantes do cenário das publicações independentes e da arte impressa no Brasil, como Bia Bittencourt, idealizadora da Feira Plana; Cecilia Arbolave, João Varella e Thiago Blumenthal, criadores da Banca Tatuí e da editora Lote 42; Beto Galvão, criador da gráfica de risografia Meli-Melo; Bebeu Abreu, da Bebel Books, Douglas Utescher, da Ugra Press, além dos artistas Kátia Fiera, DW Ribatski e Gilberto Tomé.

Antes da pandemia, as feiras de publicações independentes chegaram a movimentar mais de 40 mil pessoas apenas em São Paulo. A Feira Plana, idealizada por Bia Bittencourt em 2012, contou com 6 edições, que cresceram exponencialmente ao longo dos anos. A edição de 2017 da Plana reuniu aproximadamente 18 mil pessoas na Bienal de São Paulo, atraídas pela grande variedade de livros, fanzines, fotografias, livros de artista, colagens, dentre outros meios de expressão.

Feira Plana, 2017.
Screenshot extraído do documentário
Impressão Minha (2018)





As feiras abrem espaço para os artistas que o mercado editorial hegemônico não representa. Artistas subversivos e experimentais têm a chance de publicar seus livros. O contato direto com o público facilita a disseminação de seus trabalhos. Também surgem como redes autônomas, que permitem que os artistas e editores independentes tenham um espaço de troca, partilha e apoio. Nos últimos anos dezenas de novas feiras auto-gestionadas surgiram, desde o Norte ao Sul do país.



Mapa das Feiras de publicação independente no Brasil.
Screenshot extraído do documentário Impressão Minha (2018)





Impressão Minha é um registro breve da crescente cena das publicações independentes no Brasil, que nos incentiva a refletir sobre o poder da arte impressa, e sobre como utilizá-la como ferramenta para a manifestação artística e política.