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sexta-feira, 3 de junho de 2022

 

LUGAR COM TEMPO – VER, FAZER, SENTIR

    A Casa da Cerca é um Centro de Arte Contemporânea, em Almada. Um espaço situado lá no alto, de terra, água, sol, ar puro, onde para além de poder visitar as exposições patentes, o visitante tem acesso a um Jardim Botânico – O Chão das Artes - e também uma vista sobre o rio Tejo e a cidade de Lisboa. Aqui, tranquilamente poderá ler um livro, escrever e desenhar, diria mesmo que se trata de um espaço que permite “conservação de saúde e expansão das competências do corpo” (Soares, 2016).

    Este Centro de Arte Contemporânea tem como missão promover aproximação à arte, em especial, ao desenho, a mediação cultural, artística e educativa com os diversos públicos.

    O Chão das Artes – Jardim Botânico é um lugar onde se investiga e divulga a coleção de plantas cujos componentes são matéria-prima para o fabrico de materiais utilizados nas artes plásticas. Na minha perspetiva, considero este conceito totalmente diferenciador, permitindo uma educação pela arte e pela natureza sobretudo num meio urbano em que se impõe uma nova proposta de educação.

    Terminada a 10 de Abril de 2022, a exposição Aprendemos Juntos – Herbário Criativo, foi inaugurada na Galeria do Pátio, em dezembro de 2021, assinala este ano as comemorações dos 20 anos d ́O Chão das Artes – Jardim Botânico e os 25 anos do Serviço Educativo.

    O Herbário Criativo é um laboratório gratuito de educação artística de enorme relevância na dinâmica do Serviço Educativo da Casa da Cerca, que mais tarde integra as experiências desenvolvidas na oferta regular da programação.

   O objetivo desta exposição foi permitir a reflexão sobre as dez edições dos programas de férias de verão artísticas com crianças e jovens. Cerca de 400 participantes divididos por nove grupos com idades entre os 6 aos 9 anos, outros nove dos 10 aos 12, três dos 13 aos 15, um dos 15 aos 19 e dois dos 6 aos 15 anos com perturbações de desenvolvimento (défice de atenção/ hiperatividade e transtornos do espetro do autismo). Aqui, foram apresentadas as temáticas, as experiências desenvolvidas e os resultados obtidos em cada ano, revelando as fontes de inspiração e a planta selecionada do ano, um detalhe curioso e raro, que nem sempre é divulgado ao público em geral.

    Na entrada da galeria, deparámo-nos com um esquema de um mapa na parede do Jardim Botânico – O Chão das Artes, onde se encontravam vários desenhos de plantas. Impossível ficar indiferente à diversidade de desenhos que aí se encontravam agrupados por géneros de plantas. Os traços eram orgânicos, finos e grossos, bruscos e delicados ou até com borrões de grafite. Seguindo, encontrámos uma mesa de luz e os desenhos científicos de tamanho A4, com papel e utensílios, onde erámos desafiados a colaborar num desenho coletivo: “Plantar um desenho n ́O chão das artes”. Acho desafiante esta interação, onde o público participa.


 Figura nº 1, Entrada da exposição. 


Figura nº 2, Desenho participativo da exposição
Aprendemos Juntos – Herbário Criativo.

    Avançámos para uma sala e observámos ao centro um painel que indicava os dez anos, sendo que cada ano estava referenciado com uma determinada cor, gerando uma paleta gradiente e harmoniosa. Nesse painel estavam indicados os nomes das pessoas envolvidas na oficina, desde a conceção e dinamização, à participação, apoio científico, assistência no jardim, estagiários, secretariado e investigadores. 

Figura nº 3, vista central segunda sala.

(Créditos: Casa da Cerca) 

    Todos os herbários criativos são de um serviço público de excelência, bem documentados, estruturados e organizados. No entanto, destacarei três herbários criativos, começando pelo Herbário Criativo I – Ver, Fazer, Sentir, em 2009. Cada participante investigou uma planta sorteada d ́O chão das Artes – Jardim Botânico: desenhou-a, pintou-a no seu habitat e fotografou-a, serviu de pretexto para experiências artísticas e científicas. Tendo como inspiração as obras expostas de Fátima Pinto “Margens” e Vasco Araújo “Happy Days”. Também o livro “Casa com Jardim” de Emília Ferreira e Fernanda Fragateiro, serviu como referência para estudar as proporções das plantas. 

Figura nº 4, Herbário Criativo I. 

    Em 2010 - Herbário Criativo II – Processo e Transfiguração partiu da exposição “Processo e transfiguração”, onde várias artistas apresentavam diversos processos. Assim conheceram as plantas ao prensar, desenhar e pintar (a lápis de cera, lápis aguarelavél e pastel de óleo) e posteriormente tiravam fotografia analógica e digital. Também da série “Pinocchio” de Jorge Molder serviu de inspiração para trabalharem os fósseis de cada planta, usando o seu molde em barro para obter um contramolde. Das plantas também extraíram pigmentos e aglutinantes com o látex da figueira, óleo do linho e a goma da cerejeira, ameixoeira e amendoeira. Na minha opinião, acho esta atividade muito completa e divertida que permite à criança ou jovem explorar os materiais naturais e suas potencialidades para as artes plásticas, assim como, compreender os diferentes processos de transformação dos materiais e equipamentos podendo desenvolver também, a motricidade. 


        Figura nº 5, Herbário Criativo II.   

    Em 2014 - Herbário Criativo V – Desenhos do Vestir, as fontes de inspiração foram “O Desenho está na Moda”, exposição na Casa e os temas no jardim: Jardim dos Pintores “Os Jardins de William Morris” e na estufa os “Os Padrões de William Morris”.

    Aqui, os jovens estudaram o desenho aplicado à indústria celebrando os 180 anos do nascimento de William Morris, fundador do movimento Arts & Crafts. O lírio foi a planta estudada nesse ano, desta vez já não houve planta sorteada. N ́O Chão das Artes, as crianças observaram a morfologia da planta e a sua aplicação nas artes, enquanto matéria-prima para obtenção de corantes, pigmentos e produção de papel. Criaram-se desenhos de módulos e padrões, ornamentando peças de vestuário já usadas, promovendo assim a consciência ambiental e o desenvolvimento sustentável. Destaco esta atividade pela originalidade, pela iminência do tema, pelo diálogo, abordagem de uma problemática do nosso dia-a-dia incutindo a reflexão e espírito critico nas novas gerações, podendo esta atuar de uma maneira mais consciente.


Figura nº 6, Herbário Criativo V. 

    Enquanto aluna do Mestrado de Educação Artística da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, considero a exposição e respectivo catálogo, um trabalho de excelência que une a Arte e a Ciência. A coerência visual, quer ao nível da temática, a Natureza, (mostrando que não se esgotam ideias e possibilidades de construir produtos e ideias, conceitos, neste ambiente), quer ao nível da apresentação, são um aspeto a destacar. Outro aspeto fundamental, é a preocupação que este Serviço Educativo tem em alertar as novas gerações para o impacto das atividades humanas no planeta. Ainda no catálogo, num texto de Ana Taipas, “Construímos Juntos”, esta alerta para o grande desafio da “produção cultural artística, em especial aquela que depende maioritariamente de recursos materiais, enquanto suportes físicos para a criação e/ou apresentação”, no âmbito da sustentabilidade, e explica também a conceção das oficinas, recorrendo à reutilização e reciclagem de materiais. Assumem assim, um compromisso de desperdício mínimo e de aproveitamento máximo de recursos existentes, “talvez seja mais do que nunca o tempo de plantar” (Mendonça, 2017, p.45), plantar tempo na educação das crianças e jovens.

Para mais informações:

https://issuu.com/cmalmada/docs/catalogo_hc_miolo_capa_digital https://www.cm-almada.pt/index.php/casa-da-cerca-centro-de-arte-contemporanea

Bibliografia:
Soares, C. L. (2016).
Uma educação pela Natureza a vida ao ar livre, o corpo e a ordem urbana. Autores Associados.
Mendonça, J. T. (2017)
O pequeno caminho das grandes preguntas. Quetzal. 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Olhar o passado, manufaturando o futuro: “Um Cento de Cestos”

    “Um Cento de Cestos” é uma exposição patente ao público no Museu de Arte popular, em Lisboa, que apresenta uma investigação sobre a arte da cestaria em Portugal. Conta com 246 exemplares de cestos adquiridos para o Museu de Arte Popular nas décadas de 1940/1950 e para o Museu Nacional Etnologia de 1960/1970.

    Com a curadoria das arquitetas Astrid Suzano e Fatima Durkee, fundadoras da associação Passa ao Futuro, este projeto expositivo, sublinha a importância da documentação das coleções etnográficas.

    A exposição é composta por três salas onde podemos encontrar mais sobre as técnicas usadas, a origem dos materiais, observar objetos e mobiliário diversos, fotografias, vídeos e conhecer artesãos cesteiros no ativo, cujo principal objetivo é de transmitir saber às novas gerações. Esta regeneração do conhecimento, faz-nos questionar a maneira como vivemos e origina questões sobre o saber-fazer e o saber-estar da nossa cultura.

   A primeira sala revela uma matriz, como proposta de uniformização das terminologias encontradas na cestaria, e procura ser um auxílio para perceber a organização dos cestos na própria exposição. Relativamente às técnicas, estas são classificadas em quatro grandes grupos: o cruzado, encanastrado, espiral cosida (a mais antiga, segundo se tem conhecimento) e entrançado. Estas subdividem-se e são acompanhadas de ilustrações.

   Os materiais, o processo de plantação e a localização geográfica são expostos numa estrutura, verticalmente. Aí são apresentadas amostras das matérias-primas como se estivessem a secar ao natural, onde podemos apreciar as suas cores, as texturas, e as características de cada material, em geral. São apresentadas as seguintes tipologias: Austrália, Carvalho, Carvalho de madeira rachada, Castanheiro, Sanguineiro, Vime, Vime descascado, Vime cozido e tingido, Salgueiro, Giesta branco, Giesta, Palma, Palma enxograda, Bracejo/Junco, Esparto, Bunho, Junco, Silva e Milho.


Figura nº 1, Entrada da exposição. 

    Descobrimos uma grande variedade de ferramentas utilizadas na manufatura de cestos, relação direta com a grande variedade de matérias-primas e técnicas de confeção. A cestaria da madeira rachada, constitui a técnica de cestaria que recorre a um maior número de utensílios, seguido do vime, da cana, do baracejo e da junça, da palha de centeio e da palma. A cestaria da madeira rachada utiliza a foice, cunhas de metal e madeira, o martelo e o cavalete. É neste cavalete, que o artesão prende as talas de madeira com uma cunha e as lavra até com o quitelo ou cutelo. Uma peça única, digna de analisar e imaginar arte por detrás deste ofício. 


Figura nº 2, Cavalete e mobiliário. 

    Neste ambiente, observamos vários cestos de cestaria grossa em vime (com casca). Trata-se de uma confeção rápida, característica da zona Centro e Norte, muitas vezes feitos pelos próprios agricultores. Estes cestos apresentam-se com finalidades agrícolas, piscatórias, de caça e têxteis (barrela do linho). Reconheço alguns cestos da minha infância, característicos do ambiente rural onde cresci e do convívio com os meus avós, nas suas atividades domésticas e agrícolas.


Figura nº 3, Cestaria grossa e vista lateral da primeira sala. 


    Nas paredes pintadas a verde pastel, estão pendurados os desenhos etnográficos, impressos em tecido de algodão, de Fernando Galhano (Porto, 1904/1995), um traço e um olhar descrito, num livro de homenagem e que transcrevo, como um “verismo realista muito simples e muito límpido, feito de humildade amor e conhecimento, na integra pureza das intenções, finalidades e meios, e em que transparece um entranhado amor pela Natureza”, enaltece assim um povo, a nossa cultura.


Figura nº 4, Desenhos impressos em tecido de algodão de 

Fernando Galhano, Arquivo Museu Nacional Etnologia. 


    Ao aproximarmo-nos de uma parede branca com pedras de granito à vista, chegamos à segunda sala, esta dedicada à cestaria fina. Apresentam-se, aqui, matérias-primas como o vime sem casca ou cozido, vergas de salgueiros, de giesta e piorno, associado ao uso doméstico, como por exemplo, em cesto da costura, do pão, da fruta, piqueniques, mas também decorativos, como tapetes e de indumentária, traje de pastores das Beiras e Trás-os-Montes, chapéus e leques.

    A iluminação de destaque dos objetos é ideal, no entanto, reparo nas cores dos plintos, branco cinza, bege, amarelo e um ocre. Na minha opinião, este tom ocre, aproxima-se à cor dos cestos e do próprio chão que existe na primeira e segunda salas, impedindo assim, o ideal contraste e destaque da peça. Idealmente, penso que a melhor solução seria manter as outras opções de cor que combinam na perfeição.

    Nesta sala, algumas peças são expostas em vitrines de vidro, que esteticamente me parecem um pouco descontextualizadas, não correspondendo aos expositores apresentados até aqui.

    Aqui recordo também a minha infância, num cesto de asas de vime tingido cujo som do abrir e fechar ainda recordo, quando de lá retirava a merenda.


Figura nº 5, Foto do cesto que recordo da minha infância. 


Figura nº 6, Cestaria Fina. 


Figura nº 7, Vista geral da segunda sala. 


    A terceira sala é um espaço para o futuro, combina o trabalho dos artesãos e dos jovens estudantes. São apresentados os protótipos, realizados num workshop, em 2019, no Museu de Arte Popular e também trabalhos de uma residência colaborativa. Pretende ser um espaço de diálogo entre gerações que aproxima o conhecimento. Por um lado, o artesão com o olhar e a técnica maturada e do outro lado o designer, estudante com vontade de aprender. De mãos dadas manufaturam o futuro, com mão-de-obra útil e de mente sã, gerando objetos contemporâneos, tendo como base o conhecimento das técnicas tradicionais portuguesas. 

    As paredes são percorridas a texto e esquemas com letras minúsculas, que no meu ponto de vista, não permite à maioria dos espectadores a sua leitura. Durante as duas visitas que fiz, muitos acabam por dar mais atenção e foco aos vídeos e às fotografias que são apresentadas nos monitores. De um lado da sala, visualizamos o mapa de Portugal, ao centro e os nomes dos 35 cesteiros. Do outro lado, olhamos para os esquemas e explicações do Design Regenerativo, que reconhece a humanidade como uma parte do “mundo natural” e o seu o papel positivo que pode desempenhar na natureza, atingindo um estado de sustentabilidade ecológica.


Figura nº 8, Vista de uma das laterais da terceira sala. 


Figura nº 9, Vista da lateral terceira sala. 


    Considero esta exposição muito envolvente. Ali revivi memórias de infância e nasceu o mote para escrever sobre ela. É inovadora, pois embora procure preservar os saberes tradicionais e o nosso património imaterial, faz uma releitura de um novo design regenerativo, propondo uma tecnologia sustentável para o século XXI.

Recomendo a visita guiada pela descrição pormenorizada de detalhes e nos permite lembrar o provérbio popular “Cesteiro que faz um cesto faz um cento, deem- lhe verga e tempo”.