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domingo, 24 de maio de 2026

 

A comédia da sociedade do espetáculo: “Em sede própria”, de Joana Marques

O espetáculo de Joana Marques, com a duração de duas horas, recorda em tom de comédia o processo de acusação de que foi alvo por parte da dupla Anjos. Uma acusação que, para além de julgada pela justiça portuguesa, foi, acima de tudo, um espetáculo público nas televisões. É sobretudo sobre este julgamento público que Joana Marques desenvolve a sua peça cómica e é, do ponto de vista do espectador, que se escreve esta recensão sobre o constante espetáculo vivido pela sociedade.

Joana Marques começa por olhar para si própria. Acusada de lesar profundamente a vida dos dois cantores por, alegadamente, lucrar com um vídeo onde reagia comicamente ao concerto dado no MotoGP em 2022, a humorista reconsidera sobre pessoas da sua vida em que, de facto, esta acusação poderia ser plausível, iniciando a peça com as típicas piadas de stand-up que partem do espaço familiar. Faz, assim, uma transição inteligente entre o "eu" (o seu espaço privado e as suas relações pessoais) e o hemisfério público, chegando finalmente ao motivo do seu espetáculo: satisfazer a curiosidade de todos os presentes sobre o quão longe foi este caso e o seu absurdismo.

Ao trazer este caso para salas como o Coliseu dos Recreios, Joana Marques atribui-lhe o seu verdadeiro pano de fundo: um palco. É impensável que os tribunais portugueses e a justiça nacional tenham dispensado 108 dias para dar palco a um espetáculo público, servindo audiências de televisão e iniciativas promocionais que agora desaguam em anúncios da água Frize. Só é possível encerrar esta situação com comédia, que serve não só para rir, mas também para refletir, de forma leve, sobre o ambiente em que vivemos, cumprindo aquilo que é esperado de uma sátira social, a raiz da comédia.

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo, 1967; primeiro aforismo)

Este caso, e a forma como é apresentado por Joana Marques, é um excelente resultado artístico que ilustra o que Debord explora no seu livro. A forma como todo o julgamento foi tratado como uma espécie de Casa dos Segredos, com direito a comentadores em programas noturnos, deu audiência a queixosos que se aproveitaram de um vídeo cómico para criar toda uma realidade performativa, justificando o pedido judicial e a indemnização de um milhão de euros que exigiam à humorista.

Mas este caso vai além daqueles que nele estavam envolvidos, é aproveitado por uma série de personalidades que fazem a sua vida não do comentário social, mas da permanente "conversa de café" patrocinada por grandes canais televisivos. Cristina Ferreira é uma das presenças mais recorrentes nos recortes de vídeo aos quais Joana Marques se dirige frequentemente durante a atuação. É, talvez, uma das mais evidentes criadoras de espetáculos, para quem toda a realidade, mesmo que não seja a sua, se esvai nos programas que apresenta como mote para a produção constante de visualizações e, consequentemente, faturação. Nestes contextos, a sua palavra age como a moral e o exemplo para aqueles que a ouvem em casa. Palavras que, com um tom pedagógico, se revelam desinteressadas nas situações reais e servem unicamente para consolidar a ficção de si própria que cria em torno das histórias dos outros.

Em suma, Em sede própria desafia as esferas onde atuamos (a privada e a pública), trabalhando-as através de uma sátira bem construída que envolve a justiça portuguesa, mas essencialmente as personalidades televisivas que utilizaram o caso como meio de produção económica, precisamente aquilo de que Joana Marques foi acusada.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Mater of Time" // O registo experimental do tempo

Matter of Time ( Instalação de sete esculturas, aço - weatherproof steel)
2025; Richard Serra 


Serra é um dos mais relevantes artistas dos anos sessenta, tendo revolucionado a escultura ao utilizar materiais industriais, consolidando as suas características e trabalhando as suas perspetivas. As suas esculturas transformam o espaço, reconhecendo as especificidades da arquitetura a que estão confinadas; propõem um percurso e, por sua vez, uma temporalidade.

Snake é uma obra criada para a inauguração do Museum Guggenheim Bilbao, que consiste em três longas serpentes de aço. As ondulações criadas por estas placas — que, sendo um material robusto, se transformam em algo delicado — sugerem uma posição de instabilidade. O percurso evoca quase um bailado entre a robustez do material e a sua sugestão de movimento e desequilíbrio. A esta peça juntaram-se, em 2005, mais sete trabalhos comissionados que formam a instalação permanente The Matter of Time.




Ao entrar nesta sala do piso térreo do museu, deparei-me, ao longo de um percurso traçado por cada visitante, com uma complexidade crescente de formas de aço (weatherproof steel) que pareciam impor-se sobre o corpo. As esculturas massivas e imprevisíveis transformam o espaço e os encontros que ocorrem dentro destes volumes elípticos — seja entre mim e o material, seja através dos "encontrões" partilhados com outros corpos entre curvas e contracurvas. Estes elementos obrigam-nos a fazer parte da obra, retirando a escultura do seu pedestal. Existe uma ideia concretizada de movimento e, por vezes, até um certo enjoo provocado pelas tonturas das curvas e rodopios constantes. O posicionamento na galeria também reforça estas qualidades imprevisíveis, forçando-nos a atravessar as peças sem conseguirmos especular que caminho nos espera.

No entanto, o que mais me chama a atenção é a forma como, nestas peças escultóricas, o tempo desempenha um papel indispensável. O trabalho sobre o tempo segue duas formas: o tempo real, aquele de que dispomos para percorrer as esculturas (algo que outros trabalhos escultóricos não exigem), e o tempo experimental, um tempo que reside no movimento e no próprio material. É sobre esta segunda forma temporal que me irei debruçar.

The Matter of Time, tal como o nome sugere, foca-se numa matéria (o aço) que contém em si um tempo. É um material que se transforma na sua existência temporal, possui um envelhecimento (extremamente demorado), uma metamorfose que, de certa forma, se assemelha à vida humana. O material existe até “apodrecer”, apesar de ser extremamente resistente, e o tempo que esse processo demora depende não só das condições do meio, mas é uma propriedade essencialmente física. Este envelhecimento, visível nos veios que se estendem pela superfície, eleva a escultura a algo que transcende o seu conceito tradicional, tornando-a quase numa imagem cinematográfica. 




Numa transformação constante que ocorre através do tempo, tal como a imagem-movimento do cinema, a obra está confinada ao instante, ao momento, e só se movimenta realmente por fazer parte desse fluxo. Tal como no cinema, o verdadeiro movimento das esculturas de Serra não reside apenas nas suas formas sinuosas e desconcertantes, mas sim no tempo que as modifica e que convoca o visitante a vivenciá-las. O movimento reside na troca que acontece neste tempo experimental: o tempo da obra e da sua metamorfose em contacto connosco e a nossa metamorfose. Com efeito, as peças aqui apresentadas são também a lembrança de um tempo concreto que existe, mas também com um tempo extremamente sentimental que aprisiona numa sala enorme num Museum, vivenciais e memórias registadas no matéria. 


Guggenheim Bilbao Museoa


quarta-feira, 25 de março de 2026

Omnipresença da verdade pictórica - On: Smile! You're on camera

 

A instalação fotográfica “ON: SMILE! You’re on camera”, patente na livraria da Galeria Zé dos Bois entre 29 de janeiro e 18 de abril de 2026, de Maria Peixoto Martins, convida o espectador a tornar-se numa espécie de “Big Brother” que tudo vê e controla, imergindo-o num mundo de imagens de videovigilância.

Através da exploração de imagens acessíveis na Web, a artista atravessa universos de intimidade, conversas de café, momentos de espiritualidade e de vigia, esculpindo-os no espaço como fragmentos desses instantes. Imóveis, aquelas pessoas, momentos e lugares são agora parte de uma instalação que os observa não como elementos passageiros ou rotineiros, mas como objetos de uma profunda avaliação.


exposição

 

fragmento aproximado

 

Refletindo sobre a normatividade dos espaços de vigilância, a obra traduz o que George Orwell escrevia em “1984”, onde a vigilância se torna massiva e a sua análise completa uma ideia de "verdade" que pode ser inteiramente manipulada. Precisamente, quando se tem em conta que momentos escolhemos ver primeiro e de que forma os vamos interligar, já se está a criar uma manipulação da imagem. Aqui, apesar da inércia fotográfica, acaba-se por ter uma experiência fílmica, onde o corpo do espectador cria o movimento e a narrativa. Existe uma experiência extremamente pessoal destas imagens, pois a ordem que definimos para as interpretar concretizará verdades individuais. Com efeito, surgem interpretações de realidades das quais não se é próximo, mas às quais se tem acesso fácil e de uma forma autoritária e individual. Na proteção da distância que existe entre o "eu" e aqueles capturados no frame, impõe-se a verdade fictícia criada para as suas vidas e para aqueles momentos, mesmo que não se tenha visto mais do que um singular fotograma (que captura apenas um vigésimo quinto de segundo). 

Assim, a forma como as imagens estão organizadas no espaço, com um toque intimista e envolvendo o corpo que as visita, convoca um sentido de omnipresença. Na inquietação de ver os outros, também nós nos sentimos observados por eles, num angustiante desconforto ao ponderar se também nós fomos filmados ou observados.




Faz sentido recuperar as reflexões de Michel Foucault sobre como a vigilância e a sua normatividade nos espaços estruturam a ordem social e a produção de conhecimento (o que é visto é real / o que é filmado é real). Cada vez mais, na era digital, essa vigilância deixa de ser imposta apenas por câmaras nas ruas, parques ou restaurantes, e passa a ser voluntária, é fornecida por cada um de nós nas redes sociais ou nas perguntas que formulamos nas interfaces de inteligência artificial, entregando informação ao mundo aberto da Web. Contudo, considero importante pensar que o conhecimento que surge desta avaliação se concretiza numa experiência fictícia, onde as narrativas são reflexões individuais sobre o "outro", do qual, por vezes, não temos acesso sequer a um segundo de existência real. 

Nesse sentido, esta instalação possui um valor que vai além de pôr em causa a nossa privacidade ou o desconforto de ser observado sem saber para onde sorrir. Esta peça questiona o valor da imagem e daquilo em que acreditamos ser verdadeiro. Interroga o valor absoluto das narrativas que surgem do que foi capturado e como isso pode ser transformado; o pequeno acesso que temos aos momentos mais banais do quotidiano do outro lado do mundo, mesmo quando pensamos que tal nos fornece uma ligação direta à realidade. Ao entrar naquele canto da livraria coberto de fotogramas, percebemos que somos apenas mais uma pessoa especulativa num mundo onde a especulação da imagem é banal, mas estrutural na construção da verdade sobre a realidade.

 

Livraria Zé dos Bois 
Artes Visuais Exposição 
Curadoria Joana Leão