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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Paisagem Linguística: Gregório Duvivier no céu da língua.

    A peça O céu da língua foi apresentada no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 12 de março de 2026, tendo como intérprete o ator e comediante Gregório Duvivier, que conduz o espetáculo de forma própria, transitando entre humor, reflexão e investigação linguística.

    A peça se situa em um espaço curioso entre comédia e um ensaio teórico, ao mesmo tempo em que possui elementos pessoais da vida do ator. Principalmente, revela como o mesmo é fascinado pela língua portuguesa e, por conta desse apreço, ou até mesmo obsessão, a peça lida de forma própria com todas as particularidades do idioma lusófono, explorando suas sonoridades, ambiguidades e arquiteturas da língua.

    O espetáculo se configura como um monólogo, mas Duvivier não se encontra sozinho no palco. Ao seu lado há um músico com violoncelo, instrumento que é tocado em momentos específicos, seja para adicionar uma camada dramática ou seja como recurso irônico, tensionando o que está sendo dito. No palco também está Theodora Duvivier, irmã de Gregório, responsável por comandar projeções ilustrativas que compõem o fundo da cena e ampliam a narrativa.

    A cenografia e os desenhos formados por sombras e papéis são um ponto de destaque que contribui significativamente para a experiência. As projeções são feitas através de uma base simples, um retroprojetor, do tipo que perdeu espaço para tecnologias mais modernas. Ainda assim, essa escolha não parece casual. Há um certo encanto no analógico que dialoga com a própria proposta da peça de revisitar, reconstruir e brincar com estruturas da língua. As palavras são escritas por extenso e, muitas vezes, ilustradas com essa mecânica, o que gera dinamismo e complementa o compasso cômico de Duvivier, criando uma relação quase tátil com o idioma.

    O espetáculo constrói, assim, uma verdadeira paisagem da língua portuguesa, atravessando diversos campos. Um dos primeiros é o da infância, parte inicial do espetáculo em que Duvivier relata o quão especial é ouvir a filha falar palavras erradas, como “papato” ao invés de sapato, e como a inocência da filha está presente justamente na palavra equivocada. Outros campos visitados são o do amor, como a língua se utiliza de metáforas para lidar com paixões, e o campo oposto o nojo, palavras asquerosas e que a forma de escrita e pronuncia denotam isso. É nesse contexto que cada palavra parece ganhar corpo, peso e imagem. Não se trata apenas de ouvir o idioma, mas de vê-lo em movimento, sendo desmontado e remontado diante do público. Há momentos em que o riso surge da identificação e outros em que ele vem do estranhamento, como se o familiar fosse apresentado sob uma nova lente.

    Duvivier consegue, ao longo dos 90 minutos do monólogo, construir de forma bem costurada e sequencial seu fascínio e amor pela linguagem, mas sobretudo pelo idioma português em todas as suas especificidades. O mesmo declara, em certo ponto da peça: “Eu só consigo existir graças às palavras. Em cima delas. Tenho por elas um amor tátil”.

    Ao sair da peça, o sentimento parece ser de renovado apreço pelo nosso idioma, que, diante da globalização e das redes sociais, aparenta cada vez mais absorver estrangeirismos, especialmente do inglês, deixando de lado expressões e construções tão nossas. Duvivier não trata isso de forma saudosista ou conservadora, mas sim como um convite à observação. A língua está viva, em constante transformação, e cabe a nós também reconhecê-la, habitá-la e reinventá-la.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Agnès Varda: fotografia, política e o ser mulher entrelaçados


    A exposição “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema”, em cartaz no IMS (Instituto Moreira Salles) Paulista, apresenta um panorama da produção fotográfica da cineasta belga Agnès Varda, anterior e paralela à sua trajetória no cinema. A mostra, que vai de 29 de novembro de 2025 a 12 de abril de 2026, no espaço localizado na Avenida Paulista, 2424, em São Paulo, se organiza em diferentes ambientes que articulam a trajetória artística de Varda através da fotografia. 



    São ao todo doze partes as quais a exposição se desenrola, cada uma dessas com uma temática referente ao contexto das fotografias. Começamos pelo literal início do trabalho fotográfico de Varda, uma exposição solo feita no pátio de sua própria casa em Paris no ano de 1954, onde já se percebe uma atenção aos detalhes e ao corpo feminino. Logo após a exibição dos primeiros trabalhos, a exposição ganha mais força e corpo ao avançar para os registros feitos em viagens que ela realizou. Porém, engana-se quem pensar que tais imagens são registros de viagens idílicas e descompromissadas, dado ao posicionamento político e feminista de Varda, seu olhar estará intrínseco a um mais profundo e não tão raso dos sítios visitados.


    A escolha dos destinos das viagens não eram os óbvios, Varda passou pelo sul da Europa, na época esquecido, passou por revoluções, países como China, Cuba, movimentos sociais como os "Panteras Negras" na Califórnia, entre outros. A cineasta belga aparentava querer estar presente em todos os lugares que eram efervescentes, a sua época, e aqueles postos a margem também, em muitos momentos da exposição a imaginei como uma fotógrafa jornalista, porém, suas lentes pareciam se virar para onde as dos jornais raramente se viravam: cotidiano, crianças, mulheres e grupos marginalizados.


    Essa atenção ao cotidiano, tão presente em sua filmografia, encontra um paralelo direto nas imagens produzidas durante suas viagens. Em filmes como "Cléo das 5 às 7" (1962), o interesse não está apenas na narrativa central, mas nos pequenos detalhes, a vivência pela cidade, nas pessoas que atravessam o quadro. Do mesmo modo, suas fotografias capturam cenas aparentemente banais, como feiras nas ruas de cidades, senhoras em janelas,  mulheres com crianças à espera de pescadores na cidade de Nazaré em Portugal, crianças nas ruas e um vendedor de bananas em Cuba, entre outras que denotam uma leitura social e afetiva de Varda do tido trivial. Há, em ambos os meios artísticos, um olhar que se volta para o que costuma passar despercebido, recusando hierarquias entre o que seria digno ou não de ser registrado. Assim, o cotidiano deixa de ser apenas pano de fundo e passa a ocupar um lugar central, tanto na construção de suas imagens quanto na forma como Varda se relaciona com o mundo.






    Também é importante notar como sua produção se entrelaça com os contextos políticos de sua época. Varda era uma mulher envolvida em movimentos sociais, e esse engajamento transborda para seu trabalho. As imagens não são apenas registros estéticos, mas também carregam posicionamentos e sensibilidades políticas. Como é o caso das fotografias nos Estados Unidos entre 1967 e 1968, mais especificamente em Los Angeles, onde registrou movimentos contracultura, protestos contra a guerra do Vietnã e marcos de resistência. Dos registros de Varda dessa época, os mais impactantes são os do movimento dos Panteras Negras, e talvez essa tenha sido a percepção da mesma já que filmou um documentário sobre, "Os Panteras Negras" (1968). O filme, ao contrário do que muito se disseminava do grupo na época como selvagem e agressivo, demonstra, através de olhares femininos e masculinos, a união do grupo, a preocupação de igualdade de gênero entre todos os integrantes, danças, coletividade e sentimento de irmandade como um todo, além da importância de resistência da população negra apesar de todo o racismo estrutural.



    Ao final, a exposição no IMS Paulista amplia a compreensão da obra de Agnès Varda, para além do trabalho filmográfico, ao focar em suas fotografias ao longo de vários anos, e a surpresa inicial de se perceber que Varda foi, antes de tudo, fotógrafa. Mais do que uma cineasta, trata-se de uma artista que constrói um olhar próprio, atento ao cotidiano, às mulheres e aos contextos sociais e políticos de seu tempo. Ao reunir esses diferentes registros, a mostra reafirma o caráter sensível e ao mesmo tempo revolucionário de sua prática, que registra o mundo através de um olhar feminino atento, focando sua lente onde muitos não enxergavam valor ou importância.