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terça-feira, 23 de maio de 2023

A Graça Monumental no Jardim Vizinho – Um Bom Retiro Para Manolo Quejido

Por entre árvores e relvados, fontes e lagos, no coração da capital espanhola, Madrid, está guardado o Parque del Buen Retiro, abrangendo cerca de 125 hectares, contendo num espaço aberto e verde, diversos monumentos e pontos de interesse. Originalmente edificado na primeira metade do séc. XVII, como um jardim real que cercava o Palácio del Buen Retiro, destinado ao rei Felipe IV (1605-1665), foi aberto ao público para fins recreativos em 1767, graças ao rei Carlos III (1716-1788) e mais tarde, em 1868, foi definido como parque público, passando a posse do grande jardim, para a Câmara Municipal de Madrid. Em certos momentos, as vistas do parque, relembram cenas das pinturas de Seurat, relvados inclinados á beira lago, onde as pessoas descansam e convivem, como em “Un dimanche après-midi à la Grande Jatte”. O aspeto atual do parque, é o resultado de um conjunto de alterações e renovações ao longos dos anos, onde se destacam as intervenções em resposta à destruição, após a Guerra da Independência (1808-1814). O parque, é casa a diversos monumentos, como o brilhante Palácio de Cristal, o Monumento a Afonso XII, junto da Lagoa Grande onde os turistas andam de barco, o Palácio de Velázquez, o Observatório Astronómico Real, bem como a Fonte do Anjo Caído e tantas outras esculturas, onde se destaca o Paseo de la Argentina, que glorifica um conjunto monárquico de 13 reis espanhóis. De entre tanta beleza histórica, de um ecleticismo imenso, aqui se realça o Palácio de Velázquez, por ser um centro designado às artes visuais, situado no centro do parque, dedicado a exposições contemporâneas temporárias, administradas pelo Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía.






Originalmente Palácio de la Minería, foi construído entre 1881-83, para a Exposición Nacional de Minería, pelo arquiteto Ricardo Velázquez Bosco - o qual deu posteriormente nome ao Palácio, não Diego Velázquez - juntamente com o engenheiro Alberto Palacio e o ceramista Daniel Zuloaga, para comemorar os avanços e conquistas nas áreas da mineração, metalurgia, cerâmica, fabricação de vidro e indústrias de água mineral. Com dimensões de 73,80 m por 28,75 m, sua arquitetura é emblemática da era, num estilo neoclássico, de rigidez monumental, coberto por tijolo vermelho e amarelo, bem como azulejos, da Real Fábrica de La Moncloa, com motivos geométricos, vegetalistas e animalistas, de tons laranja, azul e branco. A cobertura do palácio, é feita com abóbadas de ferro e vidro, de modo a iluminar naturalmente o espaço interior. A fachada principal é marcada por uma arcada, com pilares com capiteis de inspiração coríntia, arcos de volta perfeita e duas estátuas imponentes de leões alados, erguidas no topo das escadas, que dão entrada ao palácio. A ordem e o virtuosismo convocados através da monumentalidade, contrastam com os motivos figurativos e cor dos azulejos, destacando o edifício, entre todos os outros museus de Madrid, não atingindo a brutalidade nem frieza do Museu do Prado, preferindo manter a gramática formal, casada com um espírito mais alegre, graças à azulejaria floreada e o tijolo bicolor, com traços de Arte Nova, unidos às cores e motivos da azulejaria hispano-muçulmana.






No interior permanece um espaço museológico, em estilo White Cube, onde a luz do sol ilumina uma ampla ala central, através de uma claraboia em ferro fundido e vidro fusco, coberta nas laterais por aço em chapa, deixando apenas uma fileira horizontal em vidro, que acompanha a sala principal. Tendo em conta as inovações de François Joseph Belanger (1744-1818), é uma abóbada modesta, especialmente quando está erguida tão perto do Palácio de Cristal, que demonstra uma mestria da arquitetura do ferro e do vidro. A essência original do Palácio permanece sensivelmente a mesma, apesar da reconstrução após destruição parcial, causada por um furacão em 1886-88.  A alma do palácio está adaptada à sociedade industrializada da era: os pavilhões relembram a arquitetura das gares, com pilares delgados de aço, de capiteis jónicos, com arcadas de aço e vidro, em arcos abaulados, com motivos vegetalistas discretos e medalhões. A planta retangular do palácio, salienta a geometria e simetria neoclássica, dividida conforme a exposição em vigor – geralmente um grande espaço aberto, com uma sala principal e duas adjacentes, juntamente com duas naves laterias menos iluminadas. É um museu relativamente pequeno, face ao espólio madrileno, contudo é uma visita bem-vinda, de entrada gratuita, inserida no grande espaço do parque, facilmente visitável, após um passeio tranquilo numa tarde soalheira. A qualidade da exposição é obviamente variável, pelo que a experiência deste espaço, está diretamente influenciada pela dimensão e excelência daquilo que é exposto – neste contexto, considere-se que o espaço estava corretamente aproveitado, face à exposição em vigor.






Decorreu de 21 de outubro de 2022 a 16 de maio de 2023, a exposição Distancia Sin Medida, que relembra a carreira do pintor sevilhano, Manolo Quejido (1946). Trata-se de uma retrospetiva da obra multifacetada do artista espanhol, pertencente à Nueva Figuración Madrileña, que captura aspetos do expressionismo, surrealismo, pop-art, experimentando com mensagens políticas (Faixa de Gaza), figuração vibrantemente colorida e abstrações geométricas. De entre tantas pinturas, destaca-se as seguintes: La Pintura (2002) um quadro que brinca com a ideia de pintura, enquanto algo que reproduz mas também representa, representar emoção e reproduzir emoção, ao mostrar o pintor no ato de pintar, como se a tela pintada fosse a tela real, perto da modelo em pose, que é simultaneamente a modelo na tela pintada e figurante na pintura real; Sin Consumar (1997-99), uma obra de acrílico sobre várias placas de alumínio, que  reflete sobre a sociedade do consumismo, numa euforia de cores chamativas e elementos atraentes, que remetem para alimentos, marcas, produtos e letras; Sin Nombre nº84: Psiquiátrico (1998), uma tela de um amarelo berrante que mostra uma sala de espera de um consultório, onde uma figura solitária permanece, com a companhia única de si própria, rodeada de tantas cadeiras vazias, suscitando questões de “Quem é aquela pessoa? Porque está ali?”, onde o espaço relembra a fixação amarelada de Van Gogh, evocando o tema das doenças mentais, corroborado pelo título da obra. A exposição, reflete tantos aspetos da pintura moderna, que atrai apreciadores distintos, nunca desapontando, pela qualidade do artista e pela sua obra variada, mas focada em momentos muito únicos divididos corretamente pelos espaços do pavilhão, como momentos quotidianos, com várias figuras simplificadas num espaço natural, relembrando os temas de Paul Gauguin, ou momentos em que retrata máquinas de escrever num tom solto e expressivo, deixando ainda espaço para um conjunto de impressões que remetem para M.C. Escher e/ou os testes de Rorschach.





Um jardim adorado pelos locais, com música ao vivo e cafés para conviver e comer, dezenas de monumentos para observar e visitar, locais recatados para descansar à sombra, longe da cacofonia metropolitana. Para o turista mais atento, que encontra o Palácio de Velázquez, é gratificante a visita gratuita, a um espólio de uma enorme energia pitoresca, num espaço histórico, eclético, amplo e livre. O interior deste palácio feito galeria, é espaçoso o suficiente para apreciar calmamente as obras, sem pressa, longe dos grandes museus e o seu caos habitual. Diga-se, que neste grande jardim, por entre esculturas e monumentos, pombos e patos, no meio de lagos e fontes, no Palácio de Velázquez, a obra de Manolo Quejido, encontrou um bom retiro.


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AGENCIA EFE (2022), La exposición "Distancia sin medida" retrata el sentir del pintor Manolo Quejido

https://www.youtube.com/watch?v=wS2gSaooBIQ


Palácio de Velázquez

https://www.esmadrid.com/pt/informacao-turistica/palacio-de-velazquez


Wikipédia (2023), Palácio de Velázquez

https://en.wikipedia.org/wiki/Palacio_de_Vel%C3%A1zquez


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Animação da Terra do Sol Nascente - A Expressão 何それ

 

De 15 a 26 de março de 2023, decorreu a 22º edição do Festival de Animação de Lisboa, também conhecido como Festival Monstra. Esta edição celebra os 100 anos da primeira animação portuguesa, O Pesadelo do António Maria, de Joaquim Guerreiro, estreado a 25 de janeiro de 1923. Como é habitual, este festival reúne longas e curtas-metragens do mundo da animação, escolhendo todos os anos um país específico para homenagear, sendo este ano o Japão. Para além disto, para um público mais jovem, foram demonstradas as primeiras curtas da Disney, na Cinemateca Júnior, em comemoração dos estúdios centenários por de trás dos clássicos.

O Festival espalhou os filmes por toda a área metropolitana de Lisboa, organizando sessões em vários espaços como o Cinema São Jorge, o Centro de Artes de Sines, o Museu da Etnologia, o Museu do Oriente, entre outros. Falta ainda destacar, o ovo de ouro desta edição, o galardoado Ice Merchants, de João Gonzalez, que ganhou o grande prémio Monstrinha Inatel, no valor de 1000 €. Numa edição dedicada ao Japão, destaca-se a sessão das 17h, do dia 19 de março, onde decorreu no museu do Oriente a demonstração de 8 filmes de animadores japoneses. Esta sessão compõe 3 filmes de Atsushi Wada e outros 5 filmes da chamada Nova Geração.




Atsushi Wada, nasceu em 1980 e estudou na Tokyo University of the Arts. Começou a produzir filmes de animação em 2002, e tem encontrado apreciação moderada a nível internacional, ganhando mesmo o prémio Urso de Prata, no Festival Internacional de Cinema de Berlim graças à sua obra “The Great Rabbit”, também em exposição nesta edição do Monstra. As suas obras são representadas com finos desenhos a lápis, com leves tons de cor, num tom minimalista e simplista, de formas básicas e arredondadas, com subtis e discretos movimentos, onde a fluidez é chave.

Numa edição dedicada ao Japão, será indispensável realçar 2 obras específicas, por explorarem de formas distintas a expressão nipónica 何それ, “nani sore” – em português, “o que é isto?”. Estas duas obras, obrigam o observador a questionar-se sobre o que acabou de ver, pairando uma interjeição de dúvida sobre o público. Num mundo onde tudo parece explicado, onde toda a informação está disponível à distância de um click, é deveras relevante debater sobre as qualidades daquilo que não esclarece, do dúbio e incerto. Assim, este espaço será usado para incidir nas curtas “Small People with Hats” de Sarina Nihei e “In the Big Yard Inside the Teeny-Weeny Pocket” de Yuki Yoko.

Sarina Nihei, é uma ilustradora e freelancer japonesa, que cria e dirige filmes de animação. O seu estilo de animação, caracteriza-se pela expressão do desenho à mão, pela exploração do surreal e por uma essência estónia, esta pela qual desenvolveu um amor particular, enquanto estudava na Tama Art University, em Tóquio. As suas obras animadas, têm sido reconhecidas por todo o mundo, valendo-lhe cerca de 10 prémios e 36 mostras diferentes, frisando que em 2016 ganhou o “Best Post-Graduation Film” nos British Animation Awards.

A curta de Sarina Nihei, Small People with Hats, de 2014, criada como prova final da sua formação no Royal College of Art, em Londres, mostra, em cerca de 7 minutos, uma sociedade dividida em dois grupos distintos: os homens comuns e os pequenos homens com chapéu. Os homens de chapéu, são vistos como descartáveis, como objetos, ou até mesmo lixo. Quando um dos homens de chapéu é esmagado, por um homem comum e morre, surge um camião do lixo, que vem recolher o corpo. Após esta primeira cena, ficamos a conhecer uma sala de reuniões, onde homens de fato decidem, com um dado, qual a maneira pela qual o homem de chapéu morre, numa total desvalorização pela morte, num tom de brutalidade mordaz. Esta e outras cenas no decorrer do filme, revelam um conto alegórico, bizarro e violento, que espelha a sociedade real em que cada um vive, onde a segregação é um problema real, ao qual os segregados não conseguem escapar, sem a ajuda de alguém fora desse infortúnio. As personagens dos homens comuns, têm noção completa desta realidade distópica, porém tudo isto é banal, por isso não é vista de forma depreciativa, nem é escrutinada a fim de a mudar, é somente um dia normal.








O mundo nesta animação, é desenhado e pintado à mão e as personagens não têm falas, apesar de existirem diversos efeitos sonoros simples, que materializam as onomatopeias ou ruídos daquilo que se passa, retratando uma sociedade absurda e disfuncional, de uma forma peculiar, limpa e subtil. É assustador e inquietante, pensar que este pode ser um retrato do agravamento do mundo real atual, ou um espelho do que já foi, no mundo da escravidão negra. Uma animação com um conceito complexo, embora transmitido de forma simples, clara e cativante. Encaixa-se perfeitamente no género de comédia negra – uma animação de escárnio e mal dizer –, por retratar jocosamente um dos piores aspetos da nossa realidade. Porque é que um homenzinho com chapéu acabou de ser morto por outro que caía de um prédio? O decifrar do incomum, na procura pela peça num puzzle animado, tentando concluir exatamente tudo aquilo que a imagem transmite.

A expressão 何それ aqui é simples, tem um fio condutor, mas ainda permite perguntar “o quê?”, visto que a ação contém elementos que dificilmente são explicados. Trata-se de uma obra consciente, retratada de uma forma satírica, com imensa violência e mistério. A frieza e crueldade desta curta é nivelada pelo ar inocente das personagens, algo que é inconscientemente provocante e convidativo, obrigando a permanecer atento à animação. Todavia, a obra seguinte, leva esta noção a um nível extremo. De seguida, as palavras não fazem justiça à narrativa – se é que esta existe – pois a curta contém uma essência extravagante que não se transpõe para texto, deixando o observador sem resposta áquilo que viu.

Yuki Yoko, nasceu em 1987, é ilustradora, animadora e diretora de filmes e vídeos de música. Em outubro de 2019, partiu para a Dinamarca num programa de residências artísticas. Por não falar a língua local, nem inglês, Yuki, utilizou muito o seu diário gráfico para desenhar, apontar emoções e pensamentos, de modo a anotar memórias de uma altura que caracterizou como particularmente enriquecedora e especialmente estimulante. Mais tarde, as fotografias e desenhos do seu caderno foram transformados na animação seguinte.

In the Big Yard Inside the Teeny-Weeny Pocket, de Yuki Yoko, foi lançado em 2022 no Japão. Em 6 minutos, o observador é colocado no meio de centenas de explosões, expansões e diminuições, é colocado a flutuar e a afundar, onde algo se separa e outro tanto conecta-se. Através de desenhos a lápis de cor e lápis de cera, de uma expressão infantil e fugaz, a ação é desconcertante, esotérica, confusa, mas visualmente estimulante, constantemente a brilhar, mexer, com figuras cheias de cores, em algo que vive num mundo quase psicadélico, como se as figuras estivessem num parque de diversões para crianças, sob o efeito de estupefacientes, criando fractais daquilo que agora é uma realidade policromática. Para elevar estas sensações a outro patamar, a trilha sonora é igualmente complexa, ondulante e vibrante, abordando vários géneros como drum & bass, rock, psych, noise, metal e até 8-bit, flutuando por entre variações de melodias e sensações divergentes, onde vozes cantam, gritam e gemem, transmitindo algum desconforto num intenso desconcerto. Há também vozes que narram dizeres japoneses obscuros, que dificultam a compreensão do filme. A dissonância auditiva casada com a euforia visual, vão contando pequenos episódios, onde não é possível decifrar, se existe uma narrativa, pois não é claro em nenhum momento – apesar de existirem cenas com personagens iguais, estas não parecem seguir um rumo.









Tudo isto contribui para uma experiência que tanto é supérflua como carismática, pois parece demais, mas é essa abundância de elementos que tem este efeito magnético no olhar. Como última curta, da mostra deste dia, o público abandonou a sala com um olhar vazio, mas com uma cabeça cheia de dúvidas – o que é que acabei de ver; o que foi isto; o quê; han? Apesar de chamativo, em contraposto está o seu aspeto sem orientação, excessivamente frenético e a falta de um aviso para pessoas com fotossensibilidade. É tanto, que permite perder-se no todo, passando assim a ser menos, do grande que é.

Estas duas curtas aqui apreciadas, exploram satisfatoriamente o conceito abstrato da dúvida, da sensação de desconhecimento em busca de esclarecimento. A falta de informação ou o excesso desta sem nexo, carece de clareza e assim induz num estado de cativo desconfortável, onde o observador tenta ao máximo decifrar aquilo que viu e sentiu. Quando existe uma barreira de linguagem e aquilo que é digerido é assim tão complexo, considera-se que é ainda mais estimulante, embora isso não significa que interesse necessariamente. O observador pode perder interesse assim que acaba a experiência por ser “demasiado estranho e conceptual”, mas sem dúvida, que estas obras prendem os olhos à tela enquanto estão em movimento. São duas obras destinadas a quem gosta de filmes independentes de animação, de estilos incomuns, numa narrativa ambígua, que não dá a mão ao observador, deixando espaço para se equivocar e criar as suas próprias ideias sobre aquilo que acabou de ver.


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Nihei S.(2014), Small People with Hats

https://www.youtube.com/watch?v=eoDEvnT0D9k 


Yoko Y.(2022), In the Big Yard Inside the Teeny-Weeny Pocket

https://www.youtube.com/watch?v=uJ594ndih4U&list=PL547TQbdoWArCNlK71s1AFcYy5vph34oK&index=2 

 

sábado, 1 de abril de 2023

Em torno do natural : a Terra enquanto Arte


De 23 de março a 11 de junho de 2023, será possível explorar “Mater”, uma exposição coletiva, que recolhe o trabalho de três artistas, Maja Escher, Marta Castelo e Virgínia Fróis, no Pavilhão Branco, das Galerias Municipais de Lisboa. Conta com a curadoria de João Rolaça e as Oficinas do Convento, sediadas em Montemor-o-Novo, sendo estas um elo comum entre estas artistas, que partilham os princípios desta associação.

Mater, do latim mãe e matéria, convida a observar arte enquanto pedaço da Terra, conectando a obra humana à mutabilidade do mundo, tanto no sentido físico quanto poético. Podem ser observadas 15 obras inéditas, construídas a partir de matérias naturais recolhidas pelas próprias artistas – terras, barros, pedras, plantas, galhos e água – num ambiente de White-box, para o qual as obras foram especificamente elaboradas. O doce fruto destas artistas, cresce num bloco consciente de barro, realçando a importância da água e da terra, do território e da vida, enfatizando a relação do homem com a Natureza.

Virgínia Fróis (1954), ex-docente de cerâmica e escultura, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, mantém uma obra profundamente vinculada ao barro e à sua natureza, as suas qualidades e aos locais de onde este é proveniente. Fundou a Associação Cultural de Arte e Comunicação, Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, em 1996, coordenando atividades artísticas no Projeto do Telheiro e também em Cabo Verde, no âmbito da etnocerâmica, no Centro de Artes e Ofícios de Trás di Munti, entre 2006 e 2014.

Marta Castelo (1980), atual docente de cerâmica, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, começou por realizar residências artísticas na área da escultura e cerâmica, nas Oficinas do Convento em 2006, tendo trabalhado em diversas instâncias como assistente de Virgínia Frois. A sua obra foca-se regularmente no uso do barro em bloco, surgindo diversas vezes instalações com tijolos alaranjados, que erguem espaços ou construções que aludem à ideia de carreiros e paredes, como por exemplo a sua instalação “Casa”, de 2018.

Maja Escher (1990), leciona atualmente na Escola Artística António Arroio e é licenciada em Audiovisuais, com mestrado em Arte Multimédia, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2014). Pertence ao coletivo EDA, promovendo práticas transdisciplinares de intervenção sociocultural, procurando sempre que possível, soluções ecologicamente sustentáveis. A sua prática artística está ligada à sua terra, o Alentejo, onde explora cerâmica no contexto da instalação, procurando a noção de abrigo, definindo um espaço que remonta à ideia de lar. Revela também um fascínio pelo colecionismo e ditados populares.

A exposição está distribuída por dois pisos - a entrada tem seis obras de Virgínia Fróis; Maja Escher tem somente obras no piso superior e Marta Castelo ocupa ambos os pisos, nas salas traseiras. A distribuição das peças, permite caminhar pela exposição sempre com uma obra à vista – quase não há espaço vazio, de deliberação. É particularmente árduo, apreciar uma peça sem poluição de outra que esteja perto, ou até de outros visitantes, que não têm espaço para caminhar, especialmente numa inauguração, onde se registou uma vasta adesão por parte do público lisboeta. Uma exposição sobre matéria, que evoca a mãe Natureza, deverá apresentar menos obras, ou procurar um espaço maior, talvez exterior, em comunhão com a terra, evitando este inundar de obras, num espaço branco e sintético, porém tendo em conta o espaço envolvente, um jardim verde lotado com exuberantes pavões, o espaço é adequado, quando não está ameaçado pelo público.

Ao entrar na exposição, defrontamo-nos com a obra “o chão que pisamos” de Virgínia Fróis: duas plantações, uma composta de pedaços de terreno secos, e outra com terrenos irrigados, através de um sistema gota a gota (ligado a um balde que se mantém suspenso acima da obra), onde brotam pequenas plantas. Esta obra evidencia um contraste tangível entre a vida e a morte, naquele que é o sistema mais complexo que rodeia o ser humano, a Natureza. Esta demonstração da vanitas no seu sentido mais orgânico, exemplifica o estado de transição e devir da terra, num gesto sensível e simbólico, evidenciado o seu lado frágil, do qual o homem tanto depende, incentivando o seu cuidado e valorização. Virgínia, convoca uma imagem dura, conhecida a todos, roubando a realidade agrícola e transpondo essa brutalidade para o espaço da arte, apelando à solidariedade, num gesto de empatia e em sintonia com a Terra.






Noutra sala, Marta Castelo, ergue a “escrita da cidade”, elevando pequenos muros, feitos de tijolos de barro, criando construções que se assemelham a chaminés de fornos, carreiros, pilares, escadas e também um tanque/reservatório. Trata-se de uma instalação ampla, expande-se por toda a sala, por onde os observadores podem caminhar, apreciando detalhes específicos que quebram a imagem repetitiva do tijolo, que relembra uma civilização ancestral. O ponto em destaque, é o singular reservatório, este caminho pluvial, que combina a matéria geométrica e a matéria orgânica - água fica retida no tanque de barro preto, que lentamente se desfaz, pois não foi chacotado. Esta cativante transição das matérias, é estimulante ao observador, que não está habituado a uma obra que parece estar a destruir-se, com a simples introdução da água neste pequeno espaço.  Num olhar afetivo, a obra marca a violenta interação do homem com a Natureza, uma alteração que permite remodelar os caminhos da água em prol da necessidade humana, realçando o papel da humanidade e a sua força construtiva, mas também destruidora, face à vulnerabilidade do natural.





No piso superior, Maja Escher, apresenta “submerso/percolação da água”, onde dispõe ao longo de uma parede cheia de janelas, diversos tecidos de algodão, de variadas dimensões, tangidos com as cores da terra e do barro, castanhos, vermelhos e ocres. Estes grandes panos, estão suspensos com a ajuda de galhos de eucalipto e de aveleira, juncos e cordas de algodão e linho. Alguns destes tecidos mostram linhas ondulantes, formas irregulares, frases repetidas e textos escritos, que conectam a obra à água, mais propriamente ao Rio Mira. Estas mensagens, pedem ao rio para continuar a correr, perguntando quantas vezes este dorme e encorajando para que este vá cheio. A disposição atípica e a extensa dimensão da obra/instalação, leva o observador a focar o olhar nas simples mensagens - as escrituras em forma de manifesto, revelam um breve e sensível protesto, que pretende evocar o papel fulcral da água para o território do Baixo Alentejo. O manchar de tecidos à mão, o ato de escrever e desenhar nos panos e as próprias mensagens, constroem uma dimensão primitiva, ritualista e profundamente ligada aos antepassados, onde o Homem tinha uma pegada muito menor na Natureza – o valor da vida, presente num ecossistema partilhado e respeitado.





Juntamente com o flyer da exposição, vem inscrito um QR Code, que permite o acesso a três áudios, cada um ditado por uma das artistas, sobre uma das suas obras, enriquecendo a dimensão da exposição, onde se destaca a canção de Maja Escher. “Quantas vezes dorme a água?”, encanta com um breve coro acapela, onde várias vozes femininas repetem o título da obra, de uma forma mística e solene, que remete para um mundo talássico, no qual as vibrações das vozes, transportam o ouvinte para debaixo de água, onde este adormece ao sabor da canção.

Com uma estética semelhante, obtida através da partilha dos mesmos materiais, três artistas, de gerações diferentes, mas com um amor comum, partilham um mesmo espaço para contar uma mesma estória, respeitando a história do local, da terra. Erguido à mão, com um gesto humano, moldado no frio e endurecido ao calor, é pela arte da cerâmica e das matérias da terra, que se valoriza a Terra. Com um largo conjunto de obras, é claro o valor dado à água, à matéria e ao território. Mater incide sensivelmente, no contexto da sustentabilidade, por realmente mostrar obras que são parte da terra, não caindo na estética conceptual e moderna, que usa plásticos ou outros materiais sintéticos que na verdade vão contra essa preocupação. É uma exposição sobre matéria, com um olhar terreno sobre obras terrosas, com uma grande dimensão simbólica e conceptual.


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Áudios Mater

http://www.oficinasdoconvento.com/?p=18177


Maja Escher

https://www.artistas.ars-id.org/category/maja-escher/


Marta Castelo

http://marta-castelo.blogspot.com/


Mater

http://www.oficinasdoconvento.com/?p=18172


Virgínia Fróis

https://vicarte.org/virginia-frois/