Mostrar mensagens com a etiqueta 15194. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 15194. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 31 de maio de 2024

(M2) Lançamento de disco com concerto e a coincidência da ilustração

Júlio Resende: “Filhos da revolução”
Maria Hesse: “Mulheres más”

FNAC Chiado, Lisboa
18 Abril 2024

Desta vez, ao sair da Faculdade, bastou-me descer o Chiado, e à hora certa, lá estava ele, no grande aglomerado comercial, pronto a apresentar o seu mais recente trabalho.

Os Armazéns do Chiado arderam em direto na minha infância. Voltar ali é sempre arrepiante. Recordo bem as imagens das labaredas a preto e branco e as estruturas dos edifícios a serem esventradas por elas. Foi talvez a maior catástrofe a que assisti antes da queda das Torres gémeas.

Estávamos em 1988 e lá em casa, apesar de há 8 anos já haver emissão totalmente a cores na televisão, o nosso aparelho não acompanhava a enorme evolução.

14 anos antes dera-se a revolução que pôs fim à ditadura em Portugal e é com base nela que nasce o disco que hoje vi apresentar.

Chama-se “Filhos da Revolução” e é lançado no mês de abril, 50 anos depois do dia mais importante. Trata-se de um encontro entre o fado e o jazz, onde se homenageia a liberdade repescando canções como “a rosinha dos limões” ou “traz outro amigo também”, e sobre elas se acrescenta uma marca contemporânea e um improviso já característico da linguagem do artista Júlio Resende.


Desde 2007 que nos presenteia com discos originais, na sua maioria jazz, mas com apontamentos irreverentes de transformação do tradicional Fado. Este tópico deu até forma a um disco inteiramente dedicado a Amália Rodrigues, em que a sua apropriação das raízes musicais do fado e a sua criação transformadora, trazem esse género musical para a contemporaneidade com enorme genialidade, tendo conseguido o feito histórico de introduzir a voz da cantora pela primeira vez após a sua morte, quer no disco, quer no concerto ao vivo, a que tive o privilégio de assistir na Culturgest. A entrada da voz de Amália no decurso da viagem oferecida pela melodia exclusiva do piano é um momento que nos atravessa com tal intensidade que foi impossível deter as lágrimas da emoção.

Nesta apresentação de “Filhos da Revolução”, voltei a sentir esse atravessamento emocionante, desta vez quando o guitarrista Bruno Chaveiro é chamado a palco. Aí, a ocasião ganhou escala e profundidade. Nunca havia assistido a uma tão rica demonstração de domínio de técnica aliada a uma criação inovadora através da guitarra portuguesa. Arrisco afirmar que é muito equiparável ao magnífico Carlos Paredes. Domínio, destreza, velocidade, sonoridade, composição, melodia, intensidade….e com isto, a fusão entre mãos de piano e de guitarra. Uma atuação que me trespassou o coração e a alma.

Sigo o Júlio Resende há vários anos. Acompanho as suas atuações “alternativas” na Fábrica Braço de Prata há mais de 10 anos. Com ele, nesses momentos intimistas de pura entrega dos músicos em ambiente descontraído e despretensioso, tenho conhecido muitos outros músicos de enorme calibre que ele traz a palco com enorme generosidade e humildade.


O mesmo senti nesta apresentação quando Bruno Chaveiro começa a tocar. Não o conhecia. Mais um convidado que o Júlio traz a cena e que promete deixar marca forte nos nossos ouvidos. O Júlio tem um talento imenso, tendo construído a sua linguagem de forma distinta. O que mais saliento é o poder (e trabalho afincado com certeza) da improvisação, captação e transformação, com que nos surpreende em cada obra.


Volto o olhar para o espaço e reparo que esta experiência, como coincidência, ou não (desconheço as motivações da equipa FNAC), foi enriquecida com mais um par de mãos incríveis. Nas paredes da sala iluminavam o espetáculo as ilustrações de Maria Hesse. Só mulheres. “Mulheres más”, uma sátira ao poder do patriarcado. A escritora e ilustradora estava também a promover o seu mais recente trabalho no espaço de espetáculos da loja Fnac do Chiado para o efeito por via de uma exposição de reproduções das suas obras. Várias, cada uma com a sua forte identidade, espaçadas de palmo em palmo, como que a abraçarem a sala e a acolherem o momento. Encontro feliz este.


O Júlio, o Bruno e a Maria, com o piano, a guitarra e os desenhos, trouxeram uma luz especial a esta sala de espetáculos que foi outrora o Grande Armazém da minha infância.

Os espaços metamorfoseiam-se e quando há lugar e liberdade para isso, a cultura faz a magia de os voltarmos a viver (agora) de outra forma, com chamas de outra cor.

Tocam-me as memórias dos sítios. E também me tocam as mãos destes artistas.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

(M1 - 15194)

Exposição de pintura

Luis Guerra: “Múmias ou como homenagear um corpo”
Estúdios Victor Cordon, Lisboa
24 fevereiro até 17 Maio 2024


Curadoria de Carlota Lagido

É só sair da Faculdade e virar duas vezes à direita. Poucos passos depois, com atenção para não deixar derrapar as solas na polida calçada, chegamos. Estranhamos deixar o sol e entrar na penumbra. Esperamos uns segundos até a retina se ajustar. Perguntamos se podemos entrar para ver a exposição do Luís Guerra e o sorriso da vigilante oferece-nos as boas-vindas aos estúdios Vitor Cordon, autorizando-nos com leveza. Entramos como que num útero.

Dificilmente dissocio o efeito que o espaço expositivo tem na obra. É, neste caso, flagrante e absolutamente simbólica esta ligação. Um estúdio de dança que acolhe uma exposição de pintura de um bailarino. O denominador comum não podia ser mais óbvio. Trata-se do corpo. O corpo como sagrado a homenagear.


E o ritual da vida e da morte, como forma de celebrar uma existência alargada desse corpo.

A exposição encontra-se no átrio de entrada dos Estúdios Vitor Cordon e compõe-se de 8 grandes telas com aproximadamente 2 metros por 1 metro que se dispõem em dois grupos de três elementos frente a frente nas paredes laterais, e mais uma em cada lateral do arco que dá acesso ao resto do edifício e que fica em frente à entrada - como dois guardiões a observar quem passa.


Estão todas penduradas a uma altura que estimo em 3 metros, o que lhes confere monumentalidade, e desencostadas das paredes, o que nos transmite leveza e suspeita sobre o suporte, uma vez que a tela suspensa se assemelha a papel. Efetivamente, as duas telas junto ao arco (no segundo momento da minha visita, onde captei a imagem acima, uma das telas havia sido removida) são papel e as restantes telas de pintura, tendo assim sido, a meu ver, bem conseguida uma ilusão de homogeneização dos trabalhos e unidade no conjunto das obras.





Destaco o poder da imagem, que neste caso específico, nos oferece uma extensão de permanência do corpo para além da sua extinção. Como um vestígio que nos transporta ao antigo Egito e nos traz de volta ao presente, à contemplação e à valorização do nosso corpo enquanto elemento finito por um lado, mas transcendente por via da imagem impressa, por outro.




Refiro imagem impressa, porque efetivamente, se tratam de telas de pintura em grande formato mas tendo por base monotipia, que é uma técnica de impressão de apenas uma tiragem. Sobre este detalhe pode-se então dizer que o material se relaciona com o conteúdo da obra de forma eficaz, já que também cada um dos nossos corpos é único e singular, não existindo registo de outro semelhante.

 



As marcas impressas são coloridas e acompanham-se de alguns traços a grafite e lápis de cor. As formas são indefinidas e incompletas, deixando o vazio do papel estabelecer uma relação de vestígio, de transformação, de presença e de ausência.

Podemos ver, na maior parte das peças, a representação dos corpos sem limites definidos e os braços cruzados na frente do apenas sugerido peito. É este simulacro que nos transporta para a morte e nos traz para a (nossa) vida.



São os elementos monumentalidade, escala, vestígio indefinido, posição de braços, branco do papel a invadir o registo, que me dão a aproximação ao que é do túmulo. Posso até referir o silêncio que me atravessou.

Identifico esta contemplação e este silêncio como sentimentos do desenho enquanto processo, o que me leva a atentar nos detalhes de cada mancha e à descoberta das ténues e discretas linhas de grafite que por ali dançam. Entro no trabalho e perco-me nas inúmeras surpresas que de longe não havia percecionado.

A escala obriga a uma primeira visão distanciada, a uma leitura do todo, mas a ligação com a obra levou-me a aproximar o meu próprio corpo e a percorrê-la num ato de fruição e curiosidade que congelou o relógio e me levou ao tempo presente. É sempre esta a melhor sensação que trago de uma fruição artística. O momento do atravessamento que a obra faz no meu corpo e as imagens e sensações que ficam a ressoar na minha mente.



Este trabalho faz parte de um ciclo de mostras que o artista tem vindo a realizar, entre as quais destaco o espetáculo “Almada Negreiros, o bailarino” a que tive o privilégio de assistir na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 30 de Outubro de 2023.

O Luís é um artista nosso e do mundo todo. O mundo todo é dele também.