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domingo, 4 de dezembro de 2022

Re-Imaginando a Tipografia Indiana na Era Digital // Rajeev Prakash

 #designers#tipografia#digital#descolonização#rajeevprakash

O tema que se associa a este último post é sobre um dos mais prolíficos designers do tipo indiano. Rajeev Prakash. A pertinência que venho apresentar este caso prático é dedicado mesmo a ideia de reconhecer méritos de culturas e a sua própria descolonização, onde as suas origens/tradições correm risco  para não serem substituídas pelos ideais dos grandes colonizadores (América e Europa Ocidente), como “impérios” que indicam e tentar impor o que é o mais ideal. Em particular neste caso o que se fala mais na re-imaginação da tipografia hindu na era digital (após a década de 80).
Há que ter noção que a cultura indiana é uma cultura multicultural (um culminar de várias, culturas, dialectos, etc…). Desenhar a tipografia indiana é complicado. As centenas de línguas faladas no país são compostas por este diferentes dialectos, pelo que criar uma tipografia pode significar desenhar um conjunto de caracteres para cinco escritas diferentes. O hindi, a língua oficial da Índia, toma a sua forma a partir do antiga escrita Devanagari. Na nossa era digital, que é cada vez mais dependente dos teclados do alfabeto romano na Índia, alguns argumentam que a escrita Devanagari pode estar a morrer, e substituído por um hindi mais "milenar" escrito em caracteres latinos. É neste contexto que Rajeev Prakash preservou e reinterpretou as escritas indianas para a era digital, o que o levou a criar o primeiro teclado Anglo-Nagiri (Hindi) nos anos 90 e publicou alguns dos caracteres tipográficos mais prevalecentes no país para as escritas indianas.

A concepção de um teclado Anglo-Nagiri (Hindi) eficiente ajudou a convencer as empresas, instituições e entre outras entidades a fazer a transição das desvantagens das máquinas de escrever e as vantagens com a chegada dos computares, mas mantendo a escrita hindu. Enquanto a língua inglesa é composta por 26 caracteres latinos, o hindi é construído a partir de 33 consoantes e 12 vogais da escrita Devanagari, que se fundem para produzir diferentes fonemas (a mais pequena unidade significativa de som). Juntas, estas formam mais de 100 caracteres diferentes. Embora já existisse um formato para a máquina de escrever Hindi, este não seguia o padrão do teclado QWERTY. Ao atribuir as letras latinas no teclado QWERTY aos seus interlocutores fonéticos Devanagari (por vezes quatro caracteres seriam atribuídos a uma tecla), Rajeev permitiu aos falantes de hindi digitarem a sua língua através de qualquer teclado baseado em latim. O design subiu para níveis de fama mais elevados do que qualquer outro trabalho do Prakash, com os seus utilizadores variando desde o governo indiano até à indústria cinematográfica de Bollywood. 





sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Será Arte ou será Tipografia? // ASTER/SK R/SK R/SK__Shannon Ebner

#designers#tipografia#arte#construção#shannonebner

Quando a língua é construída e não escrita


É sempre pertinente discutirmos sobre tipografia, isto porque sabemos que ela detém uma conotação de funcionar apenas como elemento comunicativo e só sendo maioritariamente isso, ou seja, é uma das ferramentas fundamentais para o designer. Tudo isso é verdade, mas há também uma necessidade de tirar a tipografia fora do seu lado funcional e levá-la para outra vertente onde há mais do que este lado funcional e que pode tornar-se em outras possibilidades. É assim que me deparo com o trabalho da designer-artista, Shannon Ebner, com, “ASTER/SK R/SK R/SK”. Ela fascina muitos designers gráficos porque ela consegue captar e reunir magicamente tipografia, poesia, filosofia, política, linguagem e entre outros… Para quem gosta da visualidade da linguagem, e talvez particularmente para aqueles que trabalham de perto com a forma da linguagem e as suas partes constituintes, é curioso dizer que a tipografia de Ebner  ou a forma de como Ebner joga não é só com a materialidade da linguagem, mas também com a linguagem como material oferece.


“ASTER/SK R/SK R/SK”, é uma obra que compreende quatro caixas de luz cintilantes que explicitam ASTER/SK em duas linhas. Cada letra é feita a partir de blocos de cinza dispostos numa tábua de madeira e fotografados. A luz por trás deles pisca numa sequência coreografada, iluminando ao longo do tempo o título repetitivo da peça. As letras modulares parecem quase pixelizadas, lembrando outra obra da artista “The Electric Comma”, em que um poema se desenrola através do tipo de tabuleta electrónico, normalmente utilizado para a construção de estradas. Excepto em vez de compostas de luz, as letras em ASTER/ISK são construídas a partir de blocos de betão, sólidos e inamovíveis. As obras de Ebner tendem a chamar a atenção para os limites da linguagem, examinando as formas como esta é (literalmente) construída.


Ebner está longe de ser a única artista visual que trabalha desta forma, que considera a linguagem não apenas como um veículo para transmitir significado, mas como uma coisa em si mesma. Muitos dos seus contemporâneos, utilizam a tipografia no seu trabalho, através de técnicas como a impressão em tela, pintada através das paredes, refletindo a sinalização espelhada ou a criação da sua própria tipografia para seu próprio uso, explorando o potencial personalizado e expressivo do tipo. Fazem parte de um legado mais longo de artistas que trabalham com texto como material que inclui os movimentos Dada, Futuristas, Letristas, e Poesia Concreta, como também artistas dos anos 60 que fizeram da linguagem um elemento primário na sua arte sob etiquetas como Fluxus, Pop art, Conceptual Art. 


Para sustentar mais estas ideias, o artista Robert Smithson escreveu num comunicado de imprensa para uma exposição de arte baseada na linguagem de 1967 (que ele descreveu como consistindo em "Language to be Looked at and/or Things to be Read") na Galeria Dwan em Nova Iorque: "Aqui a língua é construída, não escrita". A arte que desmantela a linguagem, isola-a do seu significado, e trata-a como objecto tem proliferado desde então. Se quisermos levar Smithson literalmente, vemos que pelo menos por causa desta transição a ideia de "construir linguagem" será uma ideia familiar para os designers de tipo. Os desenhadores de tipografia também pensam na linguagem como algo físico, como matéria. Eles também a desmontam e remontam, construindo um alfabeto a partir das suas formas constituintes. Estão também preocupados com a estética e a experiência da linguagem, mas não apenas com as coisas, afinal de contas, a maior parte das tipografias destinam-se para ser lidas. Para os artistas que trabalham com a linguagem, as formas de letra podem ser apenas uma forma de expressão, mas para os tipógrafos, as formas de letra são também ferramentas, dando forma às palavras, que podem então ser usadas para transmitir significado, significar, indicar, expressar e conjurar ideias. Esta funcionalidade molda as regras da tipografia e explica a obsessão dos tipógrafos com os componentes estilísticos de uma tipografia e a preocupação com o contexto em que esta opera. É também por isso, suspeito, que os artistas que trabalham com a tipografia têm um fascínio tão duradouro para os designers. Dá-nos uma desculpa para nos familiarizarmos com a forma como a linguagem é feita e utilizada, e perdermo-nos nas letras e nas possibilidades expressivas da linguagem e nas muitas maneiras como ela pode viver no mundo.







domingo, 13 de novembro de 2022

Memorabilia — Daniel Blaufuks // Album

#livrodeartista#photobook#editorialdesign#objetos

#memorabilia#fotografia#melancolia#nostalgia


O conceito memorabilia, trata sobre objectos armazenados ou recolhidos associados a pessoas ou algum tipo de evento memorável, quase autobiográfico na visualização desses objetos. O conceito surgiu principalmente da ideia "totemic", no sentido de representar algo, ter um simbolismo ou ter um emblema de um grupo ou algo. Estas ideias já se estavam amplificar notavelmente entre as décadas de 1970 e 1980, onde a produção/consumo estava a expandir-se e a influenciar a sociedade a procurar uma caracterização de um grupo ou individualidade através da aquisição de certos objectos que pudessem transpor a sua personalidade. Um exemplo que dou para aquilo que foi dito anteriormente é o ponto de partida da concepção do filme, “20th Century Women” (2016), do diretor, Mike Mills, onde relata numa ficção a sua autobiografia complementada por objetos ou a memorabilia que recriam os espaços para um determinado momento, época, lugar, etc…O próprio refere que os objetos, “(…) representam a nossa identidade, poder e influência...Acreditamos no poder das coisas para falar por nós, para expressar quem realmente somos...Como nos moldamos a nós próprios com estes objectos...Carregamo-los de significado, esperamos que preencham buracos espirituais”.

Mas aqui na obra de Daniel Blaufuks, "Álbum", que foi exibida e publicada como livro de artista no Palácio Vila Flor entre 26 de Janeiro a 6 de Abril de 2008 e que conta a história de alguém que recolheu objectos únicos como postais, recortes e bilhetes para espectáculos (e outras coisas) ao longo da sua vida serviu de tema, assim fez o seu próprio “álbum”, onde tem a intenção de criar uma memorabilia que propõe um mapa relacional de artefactos que alguém que relata uma história a partir deles. São fotografias que conduzem às histórias que o artista pretende contam as suas próprias experiências, como as viagens que realiza e que percepciona como uma espécie de busca, ou como uma procura que também encontra na fotografia: “Os verdadeiros viajantes, tal como muitos fotógrafos, sabem que não vão encontrar aquilo que procuram. O que lhes interessa é a experiência, é o percurso”. Neste percurso através da imagem o artista sublinha a importância que dá à história da fotografia e às imagens dos outros que muitas vezes utiliza nos próprios trabalhos, uma apropriação assumida e explicada através do fascínio e sedução que estes trabalhos e artistas despertam em Blaufuks. São também, fotografias e palavras que remetem para um “re-memorar” do passado que pode estar inscrito na aparente inocência de fotografias de infância, numa certa convencionalidade dos álbuns de família ou mesmo em imagens que refletem os acontecimentos que fazem parte, não só da história do nosso país, como da própria história mundial. É quase como sê Blaufuks fosse um agente da pós-memória, onde pega inevitavelmente em memórias dos outros, das suas experiências, invocando-as, recordando-as, retirando-as da sombra dos seus passados. Atualizando-as no presente. Blaufuks explica o processo de re-fotografar como uma “necessidade técnica”, ou seja, uma forma de olhar para o passado (são habitualmente fotografias e imagens antigas) à luz do presente (porque quase sempre acrescenta algo). O seu impulso para contar histórias encontra-se relacionado com um conhecimento adquirido num contexto familiar fortemente marcado pelos acontecimentos catastróficos que fazem parte da história coletiva do século XX. Um re-contar que se associa a arquivos de imagens e de biografias públicas e anónimas, que afetam a forma como o artista transmite as suas memórias. Uma transmissão que tem subjacente a intenção de alcançar o maior número de ouvintes, tenham estes ou não ligações diretas com os acontecimentos.








sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Queen of the Books — Irma Boom // Construction of a Book


#livro#editorialdesign#objeto#espontaneidade#manuseamento 

#processocriativo#edições#construção#ruptura

A designer holandesa ou a “book designer”, Irma Boom tem uma abordagem nos seus projetos editoriais que provém muito de um processo espontâneo, em que não faz um compromisso no que vai na sua cabeça, acreditando na confiança e na liberdade que os outros lhe dão no seu processo de design, do que focalizar como é que irá ser o resultado. Ao longo da materialização do objeto vamos encontrando-nos com particularidades e condicionantes que irão de certeza mudar o “outlook” geral do projeto. Irma é puramente isso, desafia a convenção dos livros, tanto no corpo e no manuseamento do livro como também nos modos de ver o conteúdo que é impresso. É um facto que os seus livros assumem uma concepção inventiva, experimental e quase arquitectónica, onde cada livro é visualizado como um meio único para entregar informações.  


‘I compare my work to architecture. I don’t build villas, I build social housing. The books are industrially made and they need to be made very well. I am all for industrial production. I hate one-offs. On one book you can do anything, but if you do a print run, that is a challenge. It’s never art. Never, never, never.’

— Irma Boom


O objetivo de Boom é melhorar a compreensão dos leitores e, ao mesmo tempo, criar um objeto de beleza, com qualidade e permanência. Da tipografia ao material, cada detalhe que Boom aplica aos seus projetos possui uma lógica subjacente. Criar uma experiência tátil e sensorial ao projeto é muito importante para Boom, que pretende incentivar a uma descoberta e interação. Alguns de seus livros podem ser desprovidos de números de página ou índice. Ela pode até ter o livro impresso inteiramente em ordem cronológica invertida. As capas dos livros podem ser deixadas em branco e a escala do livro distorcida em tamanho e espessura. As páginas internas podem ser escolhidas a base de códigos de cores elaboradamente ou por motivos ocultos. Também podemos ter um livro puramente branco sem tinta que só detém relevo, como a obra, Chanel Nº5 Book, ou até mesmo ter uma graduação no corpo de texto como aparece no livro Sheila Hicks, apelando a uma leitura curiosa mas com atenção. Cada pequeno detalhe é analisado para maximizar seu potencial de conexão em contraste com suas contrapartidas digitais.








sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Caligrafia Mutável & Irreverente // Arca (no âmbito da identidade visual do género e na sexualidade)

#tipografia#arte#mutação#espontaneidade#artista#irreverente

#genero#sexo#naobinario#trans#identidadevisual#musica#arca


Tal como qualquer artista musical precisa de uma identidade visual como uma espécie de “marca” para ser reconhecido por todos. Essa identidade visual pode ser de eras em que os artistas lançam os seus álbuns de estúdio onde precisam desse complemento visual (como é obvio) para expandir o seu trabalho ou então pode ser uma identidade baseada no geral para refletir o artista em questão. 

É assim o caso da artista musical e experimental, Arca. Aqui ela se destaca dos casos normais de identidades de artistas, porque ela tem maioritariamente o controlo da sua arte (não só me referindo musicalmente), ou seja, é um caso pragmático, que criou uma tipografia e/ou caligrafia e símbolos como seu primeiro NFT intitulado 'Rorschach;KiCk'. Criada em 2019, é uma caligrafia original de onde provém toda a tipografia dos seus álbuns “KiCk”. Cada símbolo foi pintado pela artista em conjuntos de três. Representa a sua música mas também os ideias que defende como artista não binária e mulher trans, a partir destes elementos gráficos pintados e que esteticamente recordam graffitis, dando assim, voz a um empoderamento da representação trans e não binária, numa estética mutante, irreverente e associado ao pós-humanismo experimental. Para além disto ela ainda consegue culminar esta criação gráfica com a as suas pinturas híbridas (pintura e tecnologias artísticas), como o caso da sua obra “Untitled” exposta numa parceria com a CIRCA, em 2022.