Mostrar mensagens com a etiqueta 15217. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 15217. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de junho de 2024

Viagem a um universo musical em expansão

Concerto Éme apresenta Disco Tinto
13 de abril 2024
Sala Lisa, Lisboa

Éme é o nome do projeto musical de João Marcelo, cantor e escritor de canções com pouco mais de 30 anos e no ativo há mais de uma década, embora se defina com bonomia como "dono de casa".

Éme é também um dos nomes ligados à editora Cafetra, um grupo de amigos que se distribuem e reconfiguram na formação de uma série de bandas, e que se mexem desde 2011 para organizar concertos coletivos, angariar fundos e editar CDs. Esta entidade híbrida, que contém projetos musicais como as Pega Monstro, Iguanas ou Sallim, inclui também elementos ligados à produção de objetos gráficos e à sua circulação. Foi nesse contexto, numa Feira Morta em 2014, que ouvi pela primeira vez Éme ao vivo, a tocar guitarra de pé ao fundo de uma sala cheia de gente, num piso, outrora consagrado à vida artística, de um edifício dos Restauradores.

Dentro do espírito do it yourself da comunidade Cafetra, faz todo o sentido que Éme tenha aprendido a tocar guitarra com tutoriais do Youtube ou com amigos que frequentavam aulas a sério. Falamos de um conjunto de pessoas que, sem grande pompa, utiliza e atualiza o que estiver ao seu alcance para fazer música, sejam instrumentos tradicionais portugueses como o adufe e o cavaquinho ou outros mais associados a fins educativos, como a melódica ou a flauta.

Dez anos, três álbuns e muitos concertos depois, encontramos Éme a apresentar o seu quinto trabalho de longa duração, "Disco Tinto", no pequeno palco da Sala Lisa, acompanhado por Moxila (que, como autora de banda desenhada, é conhecida por Mariana Pita), Miguel Abras, Lourenço Crespo e Francisca Aires Mateus. Nesta banda de cariz folk todos tocam vários instrumentos, e, na ausência de uma bateria, a percussão é de responsabilidade comum.


Fotografia: Filipa Aurélio

 
As canções de Éme são fortes o suficiente para brilharem quando interpretadas a solo e de modo acústico, mas tocadas ao vivo e em conjunto fazem transbordar a alegria e a cumplicidade, contagiando quem estiver em presença.

Embora não conheça as pessoas à minha volta, para além de esporádicos e breves contactos no tráfico de um ou outro fanzine, existe a clara sensação de estar entre amigos nesta viagem pelas canções de "Disco Tinto", com passagens pontuais por discos anteriores. Muitos de nós sabem as letras de cor, e ao meu lado um fã (roadie? amigo?) está de tal modo entusiasmado que, além de apontar a luz do telemóvel à cara dos músicos, causando-lhes óbvio desconforto, produz uma série ininterrupta de incentivos vocais, até o cantor lhe pedir gentilmente que se cale.

As letras das músicas contêm inúmeros relatos anedóticos de quem passa grande parte da vida, não "na estrada", mas em comboios a caminho de terras recônditas onde há gigs agendados. Sob a aparente comicidade dos tempos de espera passados em tascas e cafés, desencontros com produtores de espectáculos e contactos com pessoas locais, estão presentes alusões à falta de público, e, claro, à falta de dinheiro.

São histórias que vão ao âmago das preocupações de quem procura viver do trabalho autoral em Portugal, e que se revê na circunstância de "aos trinta ainda ser um indigente", como canta Éme em "Dores Laborais". E são pessoas cada vez menos jovens as que encontram nestas canções oportunidade de catarse.

O concerto na Sala Lisa terminou, apropriadamente, com a música "Lisa", que é também o nome da terra de João Marcelo. Viver na lisa remete também para essa falta de conforto material que é apanágio de uma sociedade do capitalismo tardio, cada vez mais desigual. Assim atestam a raiva e energia com que o refrão é gritado pelo público. 

Éme e Cafetra, nos gestos criativos que concretizam, cravam raízes na terra e fazem da resistência um modo de vida. Resistência à apatia, ao ressentimento, à fragmentação dos processos de produção cultural. Resistência que se materializa no trabalho consistente para um universo musical em expansão.

Vida múltipla de 11 artistas gravadores

Exposição 11 Livros para 11 Artistas
Contraprova - Atelier de Gravura
9 de maio a 14 de junho 2024
Biblioteca de Alcântara

A Contraprova é um projeto associativo que agrega artistas cuja prática atravessa a gravura e a impressão artesanal. Um dos propósitos da sua fundação, em 2008, foi proporcionar um espaço de trabalho, totalmente equipado para a prática da gravura, mas também de encontro e de partilha de saberes, promovendo a divulgação e a aprendizagem das técnicas ali tornadas possíveis.

A exposição 11 Livros para 11 Artistas surge de um convite endereçado pela Biblioteca de Alcântara aos artistas da Contraprova, propondo a escolha individual de uma obra literária relacionada, por via da memória ou da imaginação, com a prática da gravura. As estampas aqui apresentadas são instâncias de materialização dessas relações, mas, tal como as estampas, as interpretações são múltiplas.

Vista da galeria da Biblioteca de Alcântara.


Começo por me deter no trabalho da artista Sofia Morais, uma gravura em linóleo com sobreposição de duas matrizes, em que um tronco castanho de mulher parece debruçar-se sobre nós, apoiando os cotovelos no passe-partout, ao mesmo tempo que pássaros se libertam do seu interior. Neste corpo condensam-se opressão e leveza, fazendo eco da dureza e precisão das palavras de Maya Angelou, autora do livro escolhido pela artista gravadora.

Sofia Morais, "O canto dos pássaros"


Susana Romão apresenta, em diálogo com um poema de Adília Lopes, uma gravura colorida cuja expressão lúdica não deixa adivinhar a complexidade do processo de produção. Trata-se de uma água forte em chapa de zinco, com mordedura profunda, a que acrescentou elementos em Tetrapak, posteriormente intervencionada em pequenos detalhes com trabalho de pincel e tintas acrílicas.

Susana Romão, "Mais vale baratas que DDT"


Refiro ainda o trabalho da artista Joanna Latka, que a partir d'O homem duplicado de José Saramago apresenta um tríptico de provas feitas a partir da mesma matriz criada com verniz mole – em que cada uma das imagens idênticas é prolongada pelo desenho, ganhando vida para além dos limites da chapa e ocupando lugares contíguos num universo comum. Apetece percorrer sem pressa as linhas sinuosas do já familiar desenho de Joanna Latka, e ensaiar leituras imaginadas nos arabescos contidos em folhas de papel esvoaçantes. A figura triplicada consome-se no exercício da escrita com a mesma entrega que é necessária à prática da gravura.

Joanna Latka, "Vida dupla de um escritor"


O facto de estas estampas estarem apenas fixadas à parede, sem vidro de entremeio, beneficia a sua visualização, num espaço em que entradas de luz natural, iluminação artificial e revestimentos polidos geram uma profusão de reflexos.

Por ter também uma ligação à impressão artesanal, tenho para mim que a gravura em metal é uma arte pesada. Da preparação e polimento das chapas à gravação mecânica (no caso da técnica de ponta seca), passando pela toxicidade da caixa de resina ou dos vapores dos ácidos corrosivos (no caso da água forte e águas tintas), todo o processo requer um certo amor ao perigo e ao que é difícil. Nada que a acuidade e delicadeza das marcas que aqui aparecem replicadas no papel deixem transparecer.

Vista da galeria da Biblioteca de Alcântara.


Dureza, precisão, complexidade e multiplicidade são conceitos que nos permitem viajar entre o universo das letras e o dos traços e sulcos da gravura, mas que não esgotam a miríade de possibilidades que estas obras fazem presentes. Por isso, e para contemplar o trabalho dos restantes artistas da Contraprova – Alexandre Jorge, Ana Neto, Daniela Crespi, Luís Fernandes, Marcela Manso, Margot Kick, Marija Tošković e Ricardo Campos – nada melhor que fazer uma visita à galeria da Biblioteca de Alcântara até dia 14 de junho.