quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Tipo.pt

 Ao explorar o projeto Tipo.pt, comecei por pensar na quantidade de publicações que existem e que, muitas vezes, acabam por desaparecer sem deixar grande rasto. Livros de artista, fanzines, revistas independentes, cartazes e outros objetos gráficos são produzidos, partilhados e guardados por quem os faz ou por quem tem a sorte de os encontrar. Mas o que acontece a estas publicações quando deixam de circular? Onde ficam registadas e como podemos voltar a encontrá-las?

É a partir desta questão que me interessa olhar para o projeto Tipo.pt. Mais do que uma plataforma de consulta, o projeto coloca em discussão a forma como se constrói e preserva a memória da produção gráfica e editorial portuguesa.

Criado por Isabel Baraona e Catarina Figueiredo Cardoso, o Tipo.pt começou a ser desenvolvido em 2013, com o objetivo de reunir informação sobre livros de artista, edições de autor e outras publicações independentes relacionadas com Portugal. A sua origem está também ligada à dificuldade em encontrar informação sobre este tipo de produção: saber quem estava a publicar, que projetos existiam, onde podiam ser encontrados e o que já tinha sido escrito sobre eles.

O projeto surge, assim, da necessidade de tornar visível uma produção que, apesar de existir e circular, nem sempre encontra espaço nos arquivos e nas instituições.

Página Inicial 

A base de dados organiza-se em duas secções: Edições e Periódicos e Coleções. A primeira reúne objetos como livros de artista, fanzines, folhetos, postais e cartazes, enquanto a segunda se dedica a publicações periódicas e coleções. Cada registo pode incluir imagens, informação técnica, descrições e textos críticos, permitindo conhecer não só o objeto, mas também o seu contexto de produção.

Formato de Pesquisa

Ao lado do arquivo digital, o projeto inclui o Portuguese Small Press Yearbook, um anuário impresso que, entre 2013 e 2019, procurou documentar a produção anual de livros de artista e de edição independente em Portugal. A publicação reunia também textos críticos e académicos, assim como referências a livrarias, bibliotecas e coleções onde estas edições podiam ser consultadas.

O que me interessa nesta relação entre arquivo e publicação é a forma como o projeto procura construir uma memória de algo que, pela sua própria natureza, pode ser difícil de preservar. Muitas destas edições são produzidas em pequenas tiragens, através de processos de impressão acessíveis e com recursos limitados. São objetos que podem passar de mão em mão, ser encontrados em feiras, oficinas, livrarias ou guardados em coleções pessoais. Mas também podem ser esquecidos, danificados ou simplesmente deixar de estar disponíveis.

Ao contrário de uma publicação produzida em grande escala, cuja circulação tende a facilitar a sua identificação e consulta, uma edição independente pode existir durante um período muito curto. Por vezes, o seu desaparecimento não significa apenas que deixamos de ter acesso ao objeto físico, mas também que perdemos informação sobre quem o produziu, em que contexto surgiu e quais eram as intenções que lhe deram origem.

É aqui que o Tipo.pt assume uma importância particular. Ao reunir e contextualizar estas publicações, transforma objetos dispersos numa memória partilhada. O arquivo não substitui o contacto com os livros, as revistas ou os cartazes, mas permite que continuem a ser descobertos, estudados e relacionados com outras práticas editoriais.

Penso também na importância de este arquivo não se limitar aos livros enquanto objetos tradicionais. Ao incluir formatos tão diferentes, o projeto expande aquilo que podemos entender como edição. O livro deixa de ser necessariamente um objeto fechado, com uma estrutura e uma função definidas, e passa a ser entendido como parte de um campo mais amplo de experimentação gráfica, artística e editorial.

O formato, o papel, a impressão, a encadernação e a própria circulação fazem parte daquilo que cada objeto comunica. Existe ainda uma dimensão coletiva neste processo. Ao tornar acessível a informação sobre diferentes autores e projetos, o Tipo.pt aproxima práticas que, à partida, poderiam permanecer isoladas. Permite descobrir relações entre publicações, reconhecer percursos e perceber como a edição independente se desenvolve através de redes de colaboração, partilha de conhecimentos e experimentação.

Em novembro de 2020, o projeto passou a integrar o LIDA (Laboratório de Investigação em Design e Arte, do Instituto Politécnico de Leiria), reforçando a sua ligação à investigação académica. Esta integração evidencia também que a produção editorial independente pode ser um objeto de estudo, capaz de contribuir para uma compreensão mais ampla das práticas artísticas e gráficas em Portugal. Talvez seja precisamente nesta relação entre o objeto e o seu registo que reside o interesse do projeto. Esta plataforma não procura apenas conservar publicações, mas criar condições para que continuem a ser encontradas. A sua importância não está somente naquilo que já reuniu, mas também na possibilidade de estabelecer novas ligações entre objetos, autores e leitores.

No fundo, o projeto faz-me pensar que a história do design não se constrói apenas a partir das obras mais conhecidas ou das grandes editoras. Constrói-se também através de objetos frágeis, de pequenas tiragens e de projetos que, muitas vezes, existem à margem dos circuitos mais institucionais.

Guardar estas publicações é, por isso, mais do que preservar objetos gráficos. É reconhecer que também nestas edições se encontram formas de pensar, experimentar e comunicar, assim como testemunhos de diferentes momentos da cultura visual portuguesa.

Talvez a questão não seja apenas o que escolhemos guardar, mas aquilo que corremos o risco de perder quando não o fazemos. Num contexto em que tantas publicações independentes dependem da iniciativa de quem as produz e de quem as conserva, o Tipo.pt lembra-nos que a memória editorial não é algo que exista por si só. Precisa de ser construída, organizada e partilhada para continuar a fazer sentido no futuro.