quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

David Lynch –" … I have know idea where this will lead us but I have a definitly feeling it will be a place both wonderful and strange"

David Lynch – … I have know idea where this will lead us but I have a definitly feeling it will be a place both wonderful and strange (1)



 


Até aos finais dos anos 80, e ainda a sofrer algumas mutações, a televisão americana afundava-se em soap operas (novelas) e sitcoms de pouco conteúdo e rápido consumo. Nesta altura, a televisão era até chamada de Idiot Box para realçar a falta intrínseca de qualquer conteúdo de valor artístico ou intelectual até que, na Primavera de 1990, vai para o ar, Twin Peaks.

To work in a dream… If it’s real, and you believe it, you can say almost anything.” Diz David Lynch, numa entrevista

Fiquei três dias fechada no quarto a ver as primeiras duas temporadas da série criada por Mark Frost e David Lynch.
 
Em primeiro lugar, Twin Peaks é de género híbrido, uma mistura de soap opera (novela), policial, terror e comédia, como Mark Fros diz numa entrevista It reflected a fuller sense of the full spectrum of what life is…life is hilarious, and it’s terrefying, and it’s moving, and is touching, and it’s romantic, ans it’s all those things and we tried to create a full kind of Smorgasbord… (esta última palavra é um tipo de buffet escandinavo e é, sem dúvida, uma referência a uns momentos da série).

De forma muito resumida, Twin Peaks desenrola-se à volta do assassinato de uma jovem rapariga, Laura Palmer. O episódio piloto abre com o seu corpo já azul enrolado em plástico, junto à margem do rio. Quem poderia querer matá-la, a querida, exemplar, perfeita, Laura Palmer?

Contudo, é interessante como esta última pergunta, embora constantemente presente no nosso inconsciente, se dilui com o que se passa na cidade de Twin Peaks, fazendo com que nos deixemos levar por tudo o resto e não apenas pelo crime,

Lembro-me desta série passar na Sic Radical (em 2000 e pouco), quando era mais jovem. Lembro-me de não lhe dar absolutamente nenhuma atenção, contudo, algo me perturbava naquele visual, de anos 80/90, mas não tão 80/90… David Lynch é muito bom em tornar as coisas intemporais, sem uma moda, sem algo que identifique, na totalidade, uma determinada altura. Mas voltando a este desdém que sentia na altura...era tudo tão estranho e, em algumas cenas, tão dreamlike, que não compreendia, não percebia a ligação e aquela sala, aquela sala vermelha, com chão de padrão geométrico…o que era aquilo?
Aquilo era a falta de, vou chamar, maturidade. Não num mau sentido, acho que devemos ver, ler, fazer as coisas quando SENTIMOS que devemos.
E esse dia chegou.
Como disse, três dias fechada no quarto, dentro da cidade de Twin Peaks, com personagens que me pareciam família.
  • Laura Palmer – a rapariga que aparece morta na margem do rio;
  • Dale Cooper – o peculiar (e amante de café e tarte de cereja) agente do FBI destacado para este caso;
  • Leland Palmer – o esquivo pai de Laura;
  • Sarah Palmer – a mãe de Laura. Uma pessoa perturbada, e que tem visões;
  • Bobby Briggs – o perturbado namorado de Laura;
  • Shelly Johnson – uma das empregadas do RR (restaurante);
  • Leo Johnson – o abusivo marido de Shelly;
  • James Hurley – o motard da cidade e apaixonado por Laura Palmer;
  • Donna Hayward – a melhor amiga de Laura;
  • Ben Horne – o extravagante dono do The Great Nothern Hotel de Twin Peaks;
  • Audrey Horne – a filha de Ben Horne e importante peça neste jogo;
  • Harry S. Truman – o sheriff de Twin Peaks;
  • Andy Brennan – um dos polícias de Twin Peaks;
  • Lucy Moran – a recepcionista do departamento do sheriff;
  • Josie Packard – a misteriosa asiática que se tornou dona da serraria da cidade após a morte do marido, Andrew;
  • Catherine Martell – a calculista irmã de Andrew
  • Pete Martell – marido de Catherine Martell e quem encontra o corpo de Laura;
  • Norma Jennings – a doce dona do RR;
  • Big Ed Hurley – o dono da gasolineira;
  • Nadine Hurley – mulher de Ed Hurley. Usa uma pala num dos olhos, e é obcecada com cortinados que deslizam sem fazer som;
  • Hank Jennings – marido de Norma Jennings. Está preso;
  • Maddy Ferguson – a prima de Laura Palmer. Igual a ela, mas morena;
  • Dr Lawrence Jacoby – o psiquiatra de Laura;
  • The Log Lady – uma personagem estranha, que anda sempre com um tronco e que faz revelações místicas;
  • The Man From Another Place – um anão que aparece numa outra dimensão e fala de trás para a frente.
Parece uma lista estranha e é incompleta, não só nas descrições, como há mais personagens que surgem na segunda temporada da série.
Mas estas são as personagens que tomamos como família do início ao fim de Twin Peaks.
Cada personagem tem uma história relevante para a série e todas estão, mesmo que indirectamente, interligadas.
Li numa review, há uns tempos, que tentar explicar Twin Peaks é como explicar o que é o arco-íris a um cego.
Twin Peaks tem de ser vista, tem de ser sentida, especialmente pelas dimensões que David Lynch criou para ela.
E é aqui que quero pensar um pouco em David Lynch.
Que dimensões são estas?
Haverá regras para o que o cinema deve ser?
O que significa ser Lynchian?
Começando pela última pergunta, é difícil definir. Lynch confrontado com esta pergunta, responde I ain’t got a clue…I think when you’re inside of it, you can see it, I don’t know.
E para mim reside nisso, quando estamos lá dentro percebemos o que é Lynchiano. Mantendo-me em Twin Peaks, excluindo por exemplo Lost Highway, Mulholland Drive, Inland Empire, entre outros, a série resulta de todos os ingredientes de Lynch, os sonhos, o inconsciente, as fendas dimensionais, temporais e espaciais, as camadas, a história sem sentido que passa a ter sentido quando percebemos que é um sonho.

David Lynch é o realizador surrealista, embora não se considere como tal. As suas referências são, entre outras, Federico Fellini, Alfred Hitchcock, Jacques Tati, Roman Polanski, Stanley Kubric e considera que os seus filmes são mais parecidos com o estilo europeu que com o americano.
O surrealismo de David Lynch manifesta-se de várias formas como, por exemplo, na diluição entre espaço e tempo, em narrativas dream logic, na duplicidade de papéis desempenhados pelas suas personagens (em especial as femininas), é o caso de Laura Palmer que é que também Maddy Ferguson, ou seja, sua prima.  







As personagens tendem a apresentar qualidades sobrenaturais e omnipotentes, como é o caso de Bob. Esta personagem é a materialização do ódio e do medo.







Lynchian ou Lynchiano é o céu azul, cerca branca com rosas vermelhas, imagens do quotidiano que se transformam em imagens macabras, surrealismo com uma pitada de filme noir em cenários Americana (inofensivos, superficiais que escondem algo terrível por baixo).

É o estranho no familiar, a realidade dentro de um sonho. O sonho dentro de um sonho.

E sempre em cidades pequenas.

E é uma dualidade.







Lynch não gosta de discutir os seus filmes, na verdade, as suas entrevistas são sempre curtas ou um pouco esquivas.

Para David Lynch, os filmes não têm de ter uma explicação, ele pretende que os seus filmes reflictam o subconsciente do espectador, que cada um faça as suas próprias interpretações consoante o que sente.


Twin Peaks é um sonho, até se pensarmos no peculiar Special Agent Dale Cooper, que tenta acima de tudo usar a intuição, a leitura de sonhos e filosofias tibetanas para resolver o caso de Laura Palmar…é bom demais para ser verdade.

Tudo é mais estranho do que parece, nenhuma personalidade é estática e nenhuma perspectiva é objectiva.
 

 (1) - Frase que o agente especial Dale Cooper diz ao Sheriff Harry Truman enquanto se encontram numa gruta muito especial.



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