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sexta-feira, 23 de maio de 2025

6ª Edição de “IlustraBD”

Começou mais uma edição de “IlustraBD”, evento este que acontece há 6 anos no Auditório Municipal Augusto Cabrita (AMAC), no Barreiro. As obras estarão expostas no auditório de 5 de abril de 2025 a 27 de julho de 2025. Esta é uma exposição de banda desenhada e de manga, com uma curadoria atenta à diversidade estética e narrativa, com uma apresentação que oferece ao público uma oportunidade de contacto com obras menos conhecidas.

O percurso expositivo está dividido por editoras, cada uma ocupando um espaço próprio, o que permite organizar visualmente o conteúdo e dar destaque à identidade gráfica de cada publicação. Esta divisão favorece uma leitura individualizada das propostas editoriais, embora, em certos momentos, possa resultar numa fragmentação do discurso global da exposição. A opção por esta organização privilegia o lado editorial, temático e histórico, que enriquece o enquadramento geral.

Visualmente, a exposição é particularmente apelativa, cada espaço de cada livro tem páginas dos mesmo impressas em tamanho maior do que o próprio, expostas nas paredes. Também nas paredes de cada núcleo expositivo existem ilustrações ampliadas, impressas em papel autocolante e coladas diretamente na superfície, criando cenários envolventes que projetam o visitante para o universo visual de cada obra. Este recurso expositivo revela-se eficaz ao gerar uma atmosfera imersiva, que não só valoriza a estética da banda desenhada, como também aproxima o visitante do ambiente narrativo de cada história.



No piso inferior concentram-se os trabalhos de banda desenhada ocidental. A variedade de estilos, temáticas e abordagens técnicas aqui apresentadas revela um panorama rico da BD contemporânea. Algumas obras exploram o quotidiano com um traço mais minimalista, outras seguem por universos de fantasia e crítica social, com maior densidade visual e narrativa. Os textos de parede, presentes em cada espaço, fornecem informações úteis sobre os autores, editoras e contexto da obra.

Já no piso superior, o destaque vai para o manga. A disposição segue o mesmo princípio organizativo do andar inferior, mas com um foco claro na estética e linguagem gráfica japonesa. Este segmento da exposição revela-se particularmente interessante ao sublinhar o contraste com a BD ocidental, tanto ao nível do traço como da construção narrativa. O manga, aqui representado em várias subcategorias (shonen, slice of life, experimental), demonstra a versatilidade deste género, frequentemente associado a públicos juvenis, mas cuja riqueza estilística ultrapassa facilmente esse rótulo.



Um dos elementos mais bem conseguidos da exposição é a inclusão dos próprios livros em cada espaço, colocados na parede a seguir a cada explicação, e estes exemplares estão ao alcance dos visitantes, que os podem folhear livremente. Esta solução permite uma aproximação direta à obra original, promovendo uma experiência mais completa, que alia a observação das pranchas ampliadas à leitura física do livro. O gesto de folhear devolve à exposição a dimensão de leitura que muitas vezes se perde em mostras demasiado centradas na imagem. 


Em termos de percurso, a exposição está bem organizada, com sinalética clara e um equilíbrio coerente entre os espaços. O ambiente geral é tranquilo e a ausência de dispositivos digitais ou interativos contribui para uma fruição mais lenta e atenta, centrada no papel, na tinta e no desenho. No entanto, a presença de uma pequena introdução com contextualização histórica ou temática poderia reforçar a leitura global da exposição, especialmente para visitantes menos familiarizados com o universo da Banda Desenhada ou até mesmo do manga.

No seu conjunto, “IlustraBD” afirma-se como uma exposição de mérito, que valoriza o trabalho de autores emergentes e de editoras alternativas, promovendo a pluralidade de vozes e estilos num setor frequentemente dominado por grandes nomes e formatos comerciais. A proposta expositiva distingue-se pela criatividade na montagem e pela generosidade com que oferece ao público não só imagens impactantes, mas também livros reais, com a possibilidade de serem explorados com tempo e curiosidade.

Ao articular ilustração, narrativa gráfica e experiência sensorial, “IlustraBD” consegue ultrapassar os limites de uma simples mostra visual, transformando-se num espaço de leitura, descoberta e reflexão sobre o poder da imagem na construção de mundos. Uma exposição que merece ser visitada com atenção e tempo, e que contribui para afirmar o Barreiro como palco de cultura visual contemporânea.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

"Lowlands"

Fórum Cultural do Seixal, 27 de abril de 2025 às 17h

Duração: 1h30

Produção: Instável – Centro Coreográfico

Conceito, Direção e Coreografia: Helder Seabra

Interpretação: Afonso Cunha, Dinis Duarte, Joana Couto, Mário Araújo, Lea Siebrecht, Pedro Matias e Sara Santervás

Cenografia: Israel Pimenta

© Pedro Sardinha/TMP / “Lowlands”

    Em comemoração do Dia Mundial da Dança, surge “Lowlands”, uma performance de dança realizada no Porto e no Seixal que promete mexer com o público e com a sua perspetiva sobre a mente humana.

    Mesmo antes de entrar para levantar os bilhetes, na porta de entrada, existe um aviso sobre luzes fotossensíveis e sobre não ser permitido captar qualquer tipo de registo visual, suscitando curiosidade e expectativa sobre o que se está prestes a assistir. Apesar da lotação do Auditório Municipal não ter esgotado a sua capacidade máxima de 345 pessoas, a pequena sala de espera antes da entrada do auditório estava lotada, sem grande espaço para movimento, sendo a principal razão da aglomeração a escolha dos lugares, feita por ordem de chegada.

    Esta performance tem como tema a comparação da mente humana com um iceberg, por apenas conhecermos uma pequena parte dela, sendo então apresentado o espetáculo como uma representação dessa secção oculta da nossa mente, e dos sentimentos e emoções que por lá circulam.

    Assim que se entra no Auditório o que salta à vista é um andaime que ocupa praticamente todo o fundo do palco e, no seu topo estava um dos intérpretes, com o papel de narrador, e com uma mesa de mistura à sua frente, dando a entender que é ele quem vai controlar o som do espetáculo.

    A peça inicia com três dos intérpretes a criar o efeito de ondas do mar, debaixo do que parecia uma lona a tapar os corpos em movimento, e outros três por cima do efeito de ondas como se estivessem a lutar contra a força do mar. Apesar de serem poucos os momentos em que o sétimo intérprete com papel de narrador fala, este segmento inicial é acompanhado por um discurso em inglês declamado por ele, o único elemento que se expressava exclusivamente através de palavras, sendo a comunicação desta performance de dança contemporânea feita maioritariamente através da expressão corporal, da música e dos sons por eles produzidos. Os performers começam a peça com poucas peças de roupa de cor bege e, com o decorrer da mesma, estes começam a vestir peças de roupa de cores progressivamente mais vibrantes, chamado à atenção do público para tentar perceber o que estas representam. Sem muitas explicações sobre o porquê das mudanças de roupa, apenas se adicionou um novo estímulo visual entre tantos outros, aumentando a curiosidade sobre o significado de todos os elementos presentes no espetáculo.

© Pedro Sardinha/TMP / “Lowlands”

    Durante a performance existe a perceção de que a mesma está sempre a começar e a parar, devido aos movimentos que começam calmos e serenos e que, com o tempo, se iam tornando movimentos acelerados e ofegantes, acompanhados pela música e pelas luzes que abrandavam e paravam de acordo com a dança e que davam a sensação de cansaço, ansiedade e desconforto, devido às mudanças no ritmo geral da peça.

    Existem algumas paragens onde cada um dos intérpretes parece ter o seu protagonismo, onde são ditas expressões repetidamente como “Lembras-te de mim?” ou “És feliz?”, que são acentuados de acordo com o ritmo da música, como anteriormente referido, assim como aumentam a música e os movimentos, os artistas aumentam também a voz e a entoação. Em algumas dessas paragens, existem elementos como fogo ou uma bebida vermelha misturada por um dos protagonistas e oferecida como um soro libertador da mente, que os restantes resistem a ingerir.


© Pedro Sardinha/TMP / “Lowlands”

    A representação nesta performance procura explorar os limites da condição humana através da mescla de temas muitas vezes considerados tabu como a sexualidade, a religião, a psicose e o consumo de drogas, todas abordadas tanto isoladamente, como enquanto junções do todo que é o ser humano.

    A peça terminou de forma algo abrupta ligeiramente antes do tempo previsto, não parecendo um fim propriamente dito, apenas mais uma das paragens sentidas durante a peça após cada mudança de ritmo natural que foram acontecendo durante a mesma. Esta paragem repentina dá uma sensação de dúvidas acerca do objetivo e do significado da peça e inquietude por deixar a pensar se esta realmente acabou e qual a sua finalidade.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os vossos dentes

Passando pelas portas de vidro do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, que ocupam o pé direito do edifício, encontramos de imediato a sua primeira exposição: “Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os vossos dentes”, localizada no espaço amplo denominado de nave, que estará exposta de 11 de abril de 2025 a 22 de setembro de 2025. Composta por 13 blocos brancos, cada um com um respetivo título, estes juntam obras da artista portuguesa Paula Rego e da artista brasileira Adriana Varejão, com uma curadoria feita pela própria Adriana Varejão, juntamente com Helena Freitas e Victor Gorgulho. 

Logo à entrada, os visitantes são avisados acerca dos fortes temas da exposição que incluem o colonialismo e a violência contra a mulher, evidentes na maioria das obras de ambas as artistas, não sendo uma exposição indicada a públicos infantis. A existência de um catálogo no início ajuda a ter uma ideia de onde estão as obras mais sensíveis, acompanhadas de descrição e algumas explicações. 

Na primeira sala, “Fui terra, fui ventre, fui vela rasgada”, onde apenas podem permanecer duas pessoas de cada vez, com a presença de uma segurança, existem apenas três obras: duas da Adriana Varejão e uma da Paula Rego, com foco no colonialismo e com um efeito visual impactante devido ao papel de parede, desenhado por Adriana Varejão, de cor vermelho sangue e com elementos que fazem lembrar intestinos.

Ao longo da exposição, esta cumpre o que promete, incluindo obras impactantes e sensíveis a qualquer tipo de pessoa, tendo presentes componentes como sangue e feridas abertas presentes em diferentes obras durante o percurso. Adriana Varejão choca o público através das suas esculturas que realisticamente imitam vísceras e carne crua, deixando por quem lá passa um sentimento de repulsa, tal a qualidade da sua representação. Já Paula Rego, conhecida pela sua linguagem figurativa pessoal, tem presente obras da sua série “Aborto”, seja em pintura ou em desenho, espalhadas por várias salas da exposição. Já na sala “Faca Amolgada”, a obra “Esfolada” (2012), de Paula Rego, pode causar choque a quem analisa a cena com atenção, na qual um homem arranca a pele a uma mulher de forma gráfica e perturbante.

Perto do fim aparece uma pequena sala intitulada “Apesar de você”, com o mesmo papel de parede da primeira, que é dedicada aos regimes de opressão de ambos os países, contando com a presença das suas respetivas bandeiras: Portugal no quadro “A sina de Madame Lupescu” (2002), de Paula Rego, e Brasil na coluna “Ruína Brasilis” (2021), feita por Adriana Varejão. Obras estas que estão acompanhadas da pintura a óleo “Salazar a Vomitar a Pátria” (1960), também de Paula Rego, que remete o público que observa para os governos autoritários que marcaram a história de ambos, fazendo recordar os tempos vividos durante as respetivas ditaduras.

A última e maior sala da exposição, “Mar, onde sou a mim mesma devolvida em sal, espuma e concha”, é um tributo à escritora Sophia de Mello Breyner Andersen onde as duas artistas dialogam com o artista português Rafael Bordalo Pinheiro através da cerâmica. O mar, que é o que separa Portugal e o Brasil, é o tema principal da sala e faz-se notar pelos tons azulados e pela presença de figuras e animais marinhos pelas obras que constituem esta sala, seja nas pinturas, nas cerâmicas ou até nas esculturas penduradas.


As salas têm diferentes lotações, entre 2, 6, 13 e até 23 pessoas por sala, e os seus acessos acabam por configurar um ambiente labiríntico o que, por vezes, deixa quem visita este espaço expositivo confuso e irritado pela falta de facilidade e simplicidade no percurso.

Esta é daquelas exposições que fica na memória de quem visita, não apenas pelo seu intenso grafismo e controvérsia, mas também pelos seus temas que, apesar da sua origem mais longínqua, continuam atuais ao longo dos anos.