Mostrar mensagens com a etiqueta 13796. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 13796. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ASA NISI MASA

Foi com grande interesse que na última aula ouvi o professor João Queiróz abordar o filme 8 1/2 do Fellini, ao aproveitar a famosa expressão, aparentemente enigmática ou non sense, "Asa Nisi Masa", para nos fazer um pedido especial, a propósito dos nossos trabalhos sobre o Livro de Artista. "Peço-vos a vossa a-ni-ma, a vossa alma!", disse-nos, aludindo simultaneamente ao carácter leve e puro da mesma. 

Este pedido insólito, mas intenso, persistiu na minha mente para além dos limites temporais da aula, e tem-me levado ao questionamento recorrente sobre como "amplificar e simplificar" este exercício que me tenho vindo a propor realizar - o de transpor um documento sonoro para o formato livro (de artista). Como ser "fulgurante" através de um objeto? Como pôr o máximo de intensidade no mínimo de elementos? Como expressar o todo pela parte? Como elaborar uma síntese e deixar o acessório de fora? E como fazê-lo de forma leve, mas com grande entrega e alma? Por outras palavras, como transcender a minha psyche, como diria o Yung? Ou ainda, como conciliar o mundo material/científico com o mundo imaterial/sagrado a partir deste trabalho?

Alma leva-me ao conceito de aura, que Walter Benjamim desenvolve não só no seu famoso e muito citado texto "A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica", como também no seu ensaio "Pequena História da Fotografia", de 1931. Aura, para este autor, é "uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja." Originalidade, autenticidade e unicidade são princípios a que deve responder uma obra de arte e que estão englobados pelo conceito de Aura, através do seu estatuto "aqui e agora" (hic et nunc). A aura de uma obra de arte estaria também relacionada com seu carácter sagrado, ao ter um valor de culto. De facto, dois dos aspectos fundamentais de um livro de artista são a sua unicidade por um lado, ou seja, o objeto original é o autêntico e único, não se prevendo à partida a sua reprodução em múltiplos, e a sua alma por outro, ou seja, a sua capacidade de conter algo de transcendental e místico, de intangível. São estes dois aspectos que podem fazer elevar o livro de artista à categoria de obra de arte e de estar mais próximo da possibilidade de ter uma aura

Augustine Berque, no seu livro "Thinking through Landscape", especula que no Ocidente a separação entre o mundo físico e o mundo mitológico começa a dar-se já na Escola de Mileto, na Grécia clássica, tendo esta cisão sido intensificada pela Revolução Científica e pelo Iluminismo, no séc XVII, altura em que se instituiu o classic modern western paradigm:

"With the Milesian school (Thales, Anaximander, Anaximenes. . .) in the sixth century bc, for the first time in the history of the world, Ionian thought separated natural phenomena from mythology and began to think phusis, in the sense of what gradually gives rise to the “science of nature”: physics. The separation from myth is decisive. Without it, the modern scientific revolution would not have occurred. As Asano Yuichi has shown, it is precisely because the separation remained incomplete in China, where a kind of “nature” thought appeared at the same time as in Ionia, that modern physics could not emerge there. Both the Dao and the Tian retained some divine characteristic, derived from their religious origins, which is the reason why they were never separated from the moral and political realm. Neither Heaven (Tian), nor the “from itself thus” (ziran) belonging to the Way (Dao) became “nature” in the sense of modern physics. This neutral object, established in Europe in the seventeenth century as the classic modern western paradigm (henceforth CMWP), was elaborated by Bacon, Galileo, Descartes, Newton, and several others after the Copernican revolution."




Esta divisão radical entre o "mundo natural" e o "mundo mitológico" em duas partes totalmente irreconciliáveis - o material/científico e o sagrado/espiritual, e que vivemos ainda mais intensamente na contemporaneidade, remete-me para a necessidade de enraizamento como possível movimento de resistência. Suscita-me ideias sobre a noção de permanência, de integração e de envolvimento. 

Arnold Berleant, no seu texto "The Aesthetics of Art and Nature", propõe a meu ver uma solução para este problema da separação de mundos, quando põe em causa a estrutura convencional da estética clássica, contrariando até a fundamentação que lhe foi dada por Kant: a estética da visualidade contemporânea deve ser substituída pela estética da envolvência, ou seja, recusa a separação entre sujeito e objeto e defende a tese de que o homem como ser total habita a natureza que o envolve, transforma-a e é transformado por ela. Da continuidade entre o humano e o natural decorre a necessidade de uma estética do comprometimento (engagment), uma continuidade ontológica de imersão, integração e responsabilidade.


Em suma, para este projeto do livro de artista, é meu desejo torná-lo simultaneamente um objeto depurado mas intenso, sistematizado mas intuitivo, racional mas sensível. É este o meu compromisso e desafio. Ambiciono também, tal como o próprio podcast Árvores sem Raízes (de Eduardo Costa Pinto), contribuir para enraizar um pouco mais o homem sem raízes contemporâneo tanto no espaço que habita como na comunidade que o acolhe, integrando todas as suas diferentes dimensões (e da sua paisagem): racionais e emocionais, materiais e espirituais. 

Bibliografia:

BENJAMIN, Walter, "A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica - 3ª versão" in "A Modernidade", Assírio & Alvim, 2017

BERQUE, Augustine, "Thinking Through Landscape", (3ª edição), Routledge, 2013

SERRÃO, Adriana Veríssimo (coord.),  "Arnold Berleant", in: "Filosofia da Paisagem, Uma Antologia", Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2011



segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O carácter sinestésico do livro de artista

No formato livro e no formato podcast, as relações entre o Verbal e o Não verbal são possíveis. O livro de artista, em particular, é o campo ideal para explorar estas sinestesias e sincretismos. Na realidade, tanto o livro de artista como o podcast podem ter "uma dimensão interpenetrativa entre os vários sentidos e promover a experiência da totalidade fenomenológica" ou, segundo a designação de Merleau-Ponty, “a comunicação dos sentidos” (1945). Pode-se por exemplo, misturar o texto e a imagem, o som, o corpo e o movimento, numa espécie de processo de hibridação transmediática

Neste caso, pretende-se um objeto híbrido e não linear (simplificado e experimental), contrário ao livro tradicional, cuja narrativa é normalmente linear e estruturada segundo um princípio, meio e fim. 
Para a construção deste livro de artista está a ser desenvolvido um projeto de planificação diagramática do mesmo, onde se tenta "coser" as diferentes categorias passíveis de serem transpostas no formato livro - matérica, cromática, eidética e topológica,  os seja, a folha, a tipografia, a imagem, o mapa. 
Estas categorias são os instrumentos gráficos e semióticos considerados para se poder transpor as diferentes camadas/linguagens presentes apenas sonoramente no objeto a artístico escolhido - o podcast Árvores sem Raízes, de Eduardo Costa Pinto. 

As camadas sonoras de cada episódio e as suas transposições primárias para o formato livro são: 

Verbais:
- Perguntas (tipografia)
- Respostas (tipografia)
- Excertos literários (tipografia)
- Música (tipografia)

Não Verbais:
- um percurso (mapa), 
- uma topografia (mapa)
- um ritmo (imagem)
- uma atmosfera (imagem), 

Como resultado da montagem e edição sonora de todos estas camadas narrativas no podcast, surge no sujeito que o ouve uma nova experiência de relação com a cidade e consigo próprio, ou seja, um possível movimento de enraizamento e uma consequente relação de transformação com o espaço urbano.
Esta experiência de movimento pode ser considerada uma outra camada (psicogeográfica / rizomática) e pode traduzir-se no aspeto final do livro, por exemplo. 

Como conciliar e relacionar estas diferentes linguagens no seu processo de transposição para o formato livro, de forma a obter um efeito de unidade no objeto final? Eis alguns princípios:

1. Fazer corresponder a cada uma destas camadas acima descritas uma parte/folha do livro, cuja dimensão e desenho será variável.

2. Explorar graficamente cada uma destas partes/folhas, através da escolha e composição da tipografia, da imagem e do mapa, a sobreposição e a transparência, a cor, a interpenetração de planos, o desenho do espaço em branco, dobras, etc.

3.  Deve tentar traduzir de forma sincrética e sinestésica a experiência de ouvir/ler/ver/sentir este Podcast.
A forma do livro, quando aberto, deverá ter uma estrutura em raíz ou rizoma, representando assim a experiência fenomenológica em que se inscreve o ouvinte deste podcast.

4. Pretende-se um livro pluriplanar, com diferentes possibilidades de leitura e de sentidos, ênfases, cortes, atalhos, percursos, mapas, imagens, diagramas, a descobrir em diferentes tempos ou em tempos sincronizados.

Como referências, apresentam-se este livros de artista:


Capital Cities, livro onde o artista Runjing Wang transforma mapas 
de cidades em enigmáticas malhas, recortando tudo excepto as ruas.



Grace Kwami Sculture,  livro onde o artista Atta Kawami faz uma 
homenagem ao trabalho artístico da sua mãe, Grace Salomé Kwami. 
Desenhado em forma de raíz, em que cada "braço" é dedicado a um 
tópico da sua obra, como a geografia, método de trabalho, história 
e contexto, géneros artísticos e os seus processos concomitantes, 
e é ilustrado com fotografias e imagens do seu arquivo pessoal. 
A impressão foi feita no Royal College of Art, em Londres, 1993.


Apresentam-se ainda os estudos muito iniciais do livro de artista em curso:





Estudos preliminares para o livro de artista (maquete, diagrama 
de planificação do livro, programa de edição do podcast)



Fontes:

Merleau-Ponty, M., O Olho e o Espírito, Ed. Nova Vega, 2013.
Deleuze, G. e Guattari, F., Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 2  - Mil Planaltos, Ed. Assírio e Alvim. 
Barthes, R., Le plaisir du texte, Paris, Seuil, 1973.
Greimas, A. J., e Courtés, J, Sémiotique - Dictionnaire raisonné de la théorie du langage, Paris, Hachette Université, 1986.

http://www.bocc.ubi.pt/pag/babo-maria-augusta-texto-como-textura-heterogenea-texto-como-textura-hibrida.pdf 
https://lume.ufrgs.br/handle/10183/27046
https://westportlibrary.libguides.com/artistbooks

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Livro de Artista e a Transposição de Linguagens

A pesquisa inicial sobre o livro de artista desenvolveu-se em três fases: uma definição sucinta do que é um livro de artista; os lugares (editoras, livrarias, museus ou bibliotecas) especializados neste tipo de publicações e alguns exemplos de referência; por fim, uma reflexão sobre qual poderia ser a abordagem ao livro de artista, no âmbito do trabalho a desenvolver na cadeira de "Estudos Avançados de Cultura Visual".

Relativamente à definição de "Livro de Artista", embora possa ser um pouco ambíguo, para não dizer subjetivo e amplo, parece haver um consenso em torno do seu conceito. Trata-se de um objeto autoconsciente e autoreflexivo, normalmente de pouca tiragem, que é elevado à categoria de objeto de arte, isto é, o livro de artista acrescenta e expande o seu próprio conteúdo, tornando-se ele mesmo uma obra de arte. Por outras palavras, um livro de artista é uma obra de arte em forma de livro. Para além disso, deve questionar, e se possível transcender, os limites do seu próprio formato de livro, ou seja, deve ser mais do que um livro. Este carácter subversivo e o seu potencial conceptual, formal ou metafísico aproxima o livro de artista do campo do metalivro.

"What distinguishes an artist's book from any other publication is its ability to destroy any preconceived ideas regarding a book's essence, form and function"

Existem diversas editoras, normalmente de pequena escala (na Europa) ou de grande escala (nos EUA, onde o conceito de livro de artista está mais explorado e disseminado, sobretudo a partir dos anos 60, com o Ed Ruscha), dedicadas sobretudo à publicação de livros de artista. Em Portugal, destacam-se pelo menos duas reconhecidas: a Pierre von Kleist Editions e a XYZ Books. A STET - Livros & Fotografias é uma livraria especializada em livros de artista (sobretudo de fotografia) e quer a Biblioteca de Artes da Gulbenkian quer a de Serralves possuem uma boa colecção também deste tipo de livros. A nível europeu, as livrarias ou editoras de referência neste campo são, por exemplo, a Roma Publications, em Amesterdão, ou a Corraini Edizioni, em Itália, ou ainda Les Presses du Réel, em França, entre muitas outras editoras independentes.

Poderia ainda enumerar um sem fim de instituições artísticas (como o MoMa, em Nova Iorque) ou um sem número de artistas que se dedicaram eles próprios à publicação e investigação do livro como veículo artístico (como a artista portuguesa Lourdes Castro, por exemplo, com o seu Grand Herbier D'Ombres ou o fotógrafo/arquiteto Duarte Belo e a editora Museu da Paisagem). Opto por pôr aqui alguns exemplos fundadores e mais disruptivos deste tipo de livros: 

1. Vários autores, The Collaborative, Interactive Book Art of the Russian Futurists, 1ª e 2ª década do séc. XX.


2. Filipo Marinetti, Les Mots en Liberté Futuristes, Edizioni Futuriste di " Poesia, 1919. 31 x 38 cm.



3. Bruno Munari, Quadrante Illeggibile Bianco e Rosso, 1953. 25 x 25 cm.



4. Ed Ruscha, Twentysix Gasoline Stations, 1663. 17.9 x 14 cm.




5. Dieter Roth, Little Tentative Recipe, 1969. 8.8 x 8.8 x 8.8 cm.



6. Vincenzo Agnetti, Libro dimenticato a memoria, 1969. 70 x 50 cm.



7. Tauba Auerbach, RGB Colorspace Atlas, 2011. 20,3 x 20,3 x 20,3 cm.


Por fim, com base nesta pequena investigação, e como não pretendo criar o meu próprio conteúdo artístico, no âmbito do trabalho a desenvolver sobre o Livro de Artista, gostaria de usar o livro como um meio de transcrever, traduzir e expandir o trabalho de um autor (por mim eleito) feito num suporte diferente do livro (neste caso em formato áudio), interpretando a sua obra e acrescentado dimensões ocultas inerentes ao próprio formato da peça. Trata-se de um programa de Rádio (Podcast), entitulado Árvores sem Raízes, feito pelo Arq. Paisagista Eduardo Costa Pinto, para a Rádio Antecâmara, uma rádio online sobre Arquitetura, Arte e Paisagem. Em cada episódio deste programa, existem várias camadas narrativas e indagativas, numa tentativa de construção de novas paisagens urbanas, que se traduzem numa intrincada composição sonora: um percurso, um contexto urbano sonoro, uma conversa, um tema, um ritmo, excertos musicais, excertos literários, referências culturais diversas, descrição de imagens mentais, etc.). Ao contrário do dispositivo sonoro - que implica uma apreensão temporal linear -, o livro permite explorar a noção de hipertexto, de sobreposição ou justaposição de camadas apreendidas em simultâneo, de campos expandidos com recurso a dobragens e cortes ou outros dispositivos gráficos, etc. O livro pode explorar todos estes artifícios de leitura de uma situação artística, tornando-se ele próprio num objeto artístico e multidimensional. A intenção é desenvolver o conceito de lexia, tal como definido por Roland Barthes,  e de hipertexto, ligando textos a outros textos, ligando textos a imagens, ligando lugares a textos, colocando o livro infinitamente dentro de si próprio, mas em direção a um único caminho, numa espécie de mise en abîme. Com este exercício de transposição de linguagens e de intermedia (Higgins, 1966), pretende-se explorar os limites do campo do livro como objeto artístico e da narrativa como sequência temporal, espacial e visual, contribuindo para novas camadas de leitura sinestésica e de intervenção sobre uma paisagem ou território.