KA, performance de Anna Maria Maiolino no MAAT, Lisboa, 24 de março de 2026
KA, é uma performance de Anna Maria Maiolino, artista plástica italiana, (Scalea, 1942), radicada no Brasil e uma das grandes figuras da arte contemporânea internacional e em particular da América Latina, distinção reforçada pelo Leão de Ouro de carreira na Bienal de Veneza 2024, apresentada no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Lisboa, como peça inaugural da sua exposição Terra Poética. É uma versão renovada de Entrevidas, que Maiolino concebeu em 1981 como manifesto contra a ditadura militar brasileira e em defesa da democracia. Na versão original, a artista espalhava ovos numa via pública do Rio de Janeiro e caminhava entre eles. O gesto de "pisar em ovos" tornado literal, o corpo circulando num campo minado de fragilidade.
Numa tarde de primavera invulgarmente bonita, depois das
chuvas das semanas anteriores, o sol punha-se sobre o Tejo com tons que
pareciam querer competir com o que estava prestes a acontecer na Praça do
Carvão. Cheguei quase à hora marcada, o público formava já um círculo amplo em
torno de um conjunto de ovos, dispostos cuidadosamente no chão, centenas deles,
separados entre si por um intervalo preciso, como se a distância entre eles
fosse já parte da obra. Essa disposição introduziu imediatamente uma sensação
de surpresa e vulnerabilidade.
A artista chegou apoiada numa bengala, muito pequena, muito
lenta. Deu várias voltas ao perímetro do campo de ovos antes de entrar nele,
como quem reconhece o território antes de avançar. Quando começou a caminhar
entre os ovos, a lentidão do seu passo transformou cada movimento num ato de
atenção absoluta. Sem nenhum gesto dramático, apenas uma mulher muito velha a
mover-se com uma precisão e uma intenção que tornavam o silêncio do público
inevitável. Para mim, foi nesse momento que a performance se instalou de
verdade: não na espetacularidade, mas na ausência dela.
Gradualmente, os seus assistentes, homens e mulheres, foram
entrando no espaço, um a um, juntando-se ao movimento. O campo de ovos, que era
território de uma só pessoa, encheu-se de muitas. Comecei a ouvir palavras
quase incompreensíveis, que se foram tornando mais audíveis até se repetirem
com clareza: PAZ. QUEREMOS PAZ. Ditas assim, naquele espaço, naquele momento do
mundo, soavam a algo antigo, mas urgente. A palavra deixa de ser apenas
discurso e torna-se ação.
Aos poucos formou-se uma fila de pessoas entre os ovos que
fazia lembrar uma procissão, enquanto caminhavam entoando um cântico em surdina,
acompanhando o movimento até ao momento em que o grupo se reuniu em círculo e
se abraçou, imóvel durante longos minutos. O cântico continuou como se a voz
fosse o último gesto antes do silêncio. Foi um momento quase espiritual de
ritual coletivo. Nenhum ovo foi partido. Essa inteireza no final tem
qualquer coisa de promessa, frágil, mas intacta.
KA opera num
território entre fragilidade e ritual. Os ovos, o movimento lento e
a palavra reiterada constroem uma imagem de vulnerabilidade persistente. A paz
surge não como conceito abstrato, mas como algo que exige cuidado constante,
atenção e disciplina. Quarenta e cinco anos depois de Entrevidas, o gesto continua a fazer sentido, o que diz muito sobre
o estado do mundo, e talvez ainda mais sobre a resistência da arte.