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segunda-feira, 3 de julho de 2023

 

Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes uma história por contar

Museu e Casa-Atelier no Jardim das Amoreiras, Lisboa

 

 




 

Foi por iniciativa de Maria Helena Vieira da Silva que numa esquina do Jardim das Amoreiras em Lisboa se ergueu a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, que gere um centro de investigação dedicado ao estudo das coleções, mas sobretudo um Museu que preserva a memória da sua vida e a obra dos artistas. Bem como a Casa – Atelier que mantém no rés de chão o antigo atelier onde os artistas pintavam nas suas passagens por Lisboa, aquela que era também a sua própria casa na capital. O primeiro andar de habitação foi remodelado para se tornar residências de artistas. Conforme fora expressa a vontade de Vieira da Silva.  Pintora consagrada nacional e internacionalmente, mas cuja história merece referência, não apenas pela obra feita, mas diria também pelo gesto de deixar a Portugal todo o seu espólio, na casa que inclusive fora a sua casa na mais íntima esfera familiar, é como se nos deixasse um pouco da sua vida para além do seu belíssimo trabalho. A Casa – Atelier mais do que o Museu propriamente dito sugere esta esfera de intimidade e de profundíssima relação com Portugal e sobretudo com Lisboa. Um Portugal, esse à época na pessoa de Salazar lhe nega por duas vezes a nacionalidade que já fora sua à nascença, mas que perdera por se casar  com Arpad Szenes. Posicionamentos políticos que Maria Helena Vieira da Silva soube relativizar e apesar de morrer com nacionalidade francesa depois de vários anos apátrida, foi em Portugal que quis verdadeiramente deixar a sua obra e vida, no Museu e na Casa – Atelier.   

Um pouco de historia, Maria Helena Vieira da Silva nasceu no coração de Lisboa no Bairro Alto na noite de 13 de Junho de 1908 (no mesmo dia que nascera Fernando Pessoa a uns quarteirões de distância, exatamente 20 anos antes, diz-se ainda também a título de curiosidade que o próprio Fernando Pessoa terá visitado a casa da Viera da Silva no Jardim das Amoreiras, e ainda em forma de curiosidade para melhor darmos corpo a este ano 1908 ocorrera poucos meses antes no Terreiro do Paço o Regicídio a 1 de fevereiro, evento que antecipa a alvorada da República em Portugal em 1910. Datas à parte, é de recordar que Vieira da Silva era neta do fundador e diretor do Jornal o Século e viveu no palacete da família até à sua mãe comprar a Casa no Jardim das Amoreiras, filha única, o pai era diplomata mas morreu quando Vieira da Silva tinha 3 anos, é educada pela mãe que a acompanha até Paris quando decide ir estudar para aquela cidade para onde confluíam todos os artistas à época, é lá que conhece Arpad Szenes e com quem casa, e de quem nunca mais se separa até à morte do marido, cerca de 55 anos depois de casarem e esta belíssima história de amor que se tem tornando também inspiração para além da qualidade artística das suas obras.

Até a forma como supostamente Arpad Szenes tratava a Viera da Silva merece destaque, seria de “bicho” o que não parecendo à primeira vista a mais carinhosa das palavras, vinda da boca do seu amado seria certamente. Não tiveram filhos, mas tiveram-se sempre um ao outro e gatos também segundo consta. Viveram em França, e posteriormente no Brasil cerca de 10 anos durante o exilio forçado pela 2ª Guerra Mundial, uma vez que Arpad era judeu, após o exilio descrito como o período mais conturbado da vida de Viera da Silva regressam a Portugal e depois a França.

Da obra da Maria Helena Vieira da Silva, podem-se enumerar várias visões das coisas e dos lugares, são nítidas as transformações, evidenciam-se os quadriculados e os traços abstratos, no início da sua pintura a artista começou por fazer desenhos anatómicos na faculdade de medicina. Também retratou o jardim das Amoreiras em Lisboa. O traço abstrato foi muito desenvolvido na sua obra, como se todas as dimensões estivessem condensadas no interior da tela, transfigurando-se na totalidade, diluindo a perspectiva.

O convite será encontrar nas quadriculas, nos traços, um olhar melancólico, quer nas cores mais fortes, quer nas mais esbatidas como tempo que passou e vai desvanecendo as memórias e as sensações, há um olhar profundo sobre a representação das coisas quase que constituindo uma nova realidade a partir do vestígio de vida presente nas obras que nos apelam à reconstituição dos locais, e mais do que isso das sensações da cor e dos traçados quadriculados. Da passagem do tempo, Vieira da Silva começa por utilizar cores mais fortes mas diz-se que após a morte do marido as cores ficam mais esbatidas, com o tempo as cores da sua  pintura vai se aproximando paulatinamente das cores que o marido usava.  E é por vontade de Vieira da Silva que o nome do marido precede o seu na Fundação e Museu. 

 



Jardim das Amoreiras  Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva

segunda-feira, 19 de junho de 2023

 

“Noite Stravinsky” – pela Companhia Nacional de Bailado, em três tempos

      I.         Os flashes da Noite

    II.         As sensações

  III.         O análogo da memória

I

As imagens da dança como construções da nossa própria memória ou imaginação.

A estrutura da dança ou o efeito que provoca nos expectadores surge como uma espécie de paralelismo com a nossa própria memória. O modo como nos recordamos dos acontecimentos ou emoções que temos está intimamente relacionado com o modo como nos relacionamos com a dança. Esse momento aparentemente ininteligível em que os corpos esvoaçantes compõem uma melodia para os nossos sentidos.

Como se as cores, os movimentos dos corpos e os sons convergissem num único momento, como se o espetáculo de dança nos desse a oportunidade de descobrir um novo sentido em nós, talvez mais puro e mais desperto. Se me detenho na reconstituição da memória do espetáculo, do programa que foi apresentado escapa-me logo toda a sensação.

Para mim de fácil recordação ficaram três palavras e já é tanto, se nos detivermos na emoção daquilo que significaram naquela Noite de Stravinsky. São elas cadeira, brilho e cor.

É difícil escrever sobre aquilo que nos está tão perto. A dança está dentro de nós no movimento que fazemos para nascer já dançamos, no balanço do corpo que se levanta para um dia de trabalho, no mais quotidiano de um autocarro a chegar à paragem e os transeuntes a aproximarem-se e movimentarem se para o seu interior, no recolher da noite quando nos encolhemos na cama, a vida é uma dança tão próxima que se torna difícil falar sobre ela.

Mas regressando à apresentação da Noite de Stravinsky no teatro Camões, constituída por três bailados: o primeiro “AS BODAS” para mim a palavra é cadeira, pode ser simples e primordial, mas é o balanço que me surge quando penso nessa peça. A imagem mais marcante será uma espécie de conjunto de corpos juntos que não são homens nem mulheres, mas balançam e balançam e nesse balançar têm a cadeira metalizada como o suporte do seu corpo, num equilíbrio brilhante que reluz e que é enigmático ao mesmo tempo. É um eterno balançar.

No segundo “INTERMEZZO”, a palavra é brilho já nos diz quase tudo não nos faltasse a sombra para perceber a luz e novamente esta dicotomia entre luz e sombra e há uma espécie de brilho que une ambas faces da moeda, o dia e a noite, claro e escuro. Nessa simbiose perfeita encontramos a música que está sempre presente nesta noite com uma orquestra ao vivo a guiar os nossos ouvidos para caminhos longínquos muito para além da sala de espetáculos.

Por fim, no último bailado composto por dois atos, mas não menos pungente e inquietante a “SAGRAÇÂO DA PRIMAVERA” para mim é cor, uma invasão de cor. Várias cores tão marcadas é como se tornassem em sons vivos que caminham do interior da terra tão visceral e enigmático. Que chega a faltar-nos o ar.

II

As sensações das palavras e dos sons. Os movimentos dos corpos em torno de uma luz misteriosa na Noite de Stravinsky.

Citando Eugénio de Andrade, para melhor explicitar o pretendido.

"(…)

um corpo é o lugar da furtiva

luz despida, de carregados

limoeiros de pássaros

e o verão nos cabelos;

 

é na escura folhagem do sono

que brilha

a pele molhada,

a difícil floração da língua.

 

O real é a palavra."

 


III

A memória surge à consciência tal como uma espécie de dança dos sentidos, quando nos abstraímos da tentativa de explicar as causas ou consequências que observamos ficamos mais próximos de realidade interior de cada movimento. Como se a nossa memória funcionasse como uma espécie de dança em que os sentimentos se vão misturando e reativando à medida que são atualizados por novas cores e sensações. A memória como uma síntese que nos aparece à consciência quando na verdade é uma construção contínua e ininterrupta que vai sendo atualizada. E que surge como uma tentativa de legitimar a realidade, de lhe conferir um sentido.

Ora o espetáculo de dança mais do que nos apresentar uma peça é uma narrativa de corpos que contam uma história sem voz e que por isso é tão livre e pode tão maravilhosamente ser apropriada por cada mente, por cada ser pensante que a adequa e integra na sua própria história de vida constituindo para si uma memória única e quase indecifrável. Uma dança em que continuamente vivemos não apenas exterior, mas sobretudo interior em que os nossos pensamentos e emoções voam como sonhos. E constituem uma espécie de memória enigmática, só inteligível para cada um de nós neste domínio de interioridade irredutível, individual, irrepetível e por isso fascinante.

 


Foto retirada do site oficial da CNB

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Exposição de Luigi Ghirri, Obra Aberta - Museu CCB

Partindo da Exposição do artista italiano Luigi Ghirri (1943–1992) que é apresentado pela primeira vez em Portugal no Museu CCB com curadoria de Pedro Alfacinha, surge em parceria com a 16ª festa do cinema italiano, nesta exposição estão reunidas 79 obras realizadas pelo artista na década de 1980, reunindo fotografias de grande formato, mas também polaroid. Estes diversos formatos ilustram a diversidade e cuidado com a imagem, no modo como é comunicado o exterior e a apropriação que o fotógrafo faz desta realidade exterior quase que poderíamos dizer no caso das polaroid que é uma realidade “sem filtro” que é preciso tempo para interiorizar.

Apresenta-se como mote para uma reflexão sobre a dinâmica de interior e exterior abordada na temática do autor, que apresenta a fotografia como modo de expressão de um domínio de interioridade em contraponto com a comunicação desse estado de espírito através do olhar sobre a paisagem exterior.

Enquanto fotógrafo de paisagens incute um tempo próprio à fotografia distante da fluidez excessiva dos nossos dias. É como se houvesse uma certa melodia que é possível ouvir e intuir nesta exposição Obra Aberta. É possível ouvir os sons dos dias e os recantos dos lugares. Este olhar fotográfico configura-se simultaneamente como ato reflexivo do pensamento do interior das coisas, apresentando uma dimensão intimista, é um convite à paragem. Mas mais do que isso, é uma imposição da interrupção no fluxo da consciência que saltita de um pensamento fugidio e vai cavalgando de pensamento em pensamento, de imagem mental em imagem mental, com uma enorme dificuldade em se fixar em algo, em olhar profundamente para algum pormenor.

 A dificuldade é fixar, o ser humano é um ser de ação talvez por isso lhe seja difícil a espera, a calma, o olhar atento e reflexivo, em 1984 o autor destas fotos já o havia diagnosticado, certamente hoje esta doença da vida frenética está a agudizar. O século XXI corre mais depressa que as próprias pernas, por isso, o autor que faleceu no século passado também o indicara na medida em que nos mostra que o cinema era, e é por vezes, (para ser otimista) mais apreciado do que a fotografia, precisamente se nos detivermos neste modo peculiar de fotografar a paisagem de uma Itália romântica que podia ser qualquer país.

Os espaços representados como está explicito nas imagens são anónimos, não são emblemáticos. São o exterior de um sentimento de interioridade de um fotógrafo de paisagens, mas que podia ser a expressão de qualquer um de nós. Deve, pois, residir nesse humanismo, o encanto das paisagens, do exterior proficuamente alimentado por um interior rico e atento que sabia bem da necessidade desse interior ser avivado, sabendo que é através desse interior que o exterior pode emergir. É como se, na imagem da praia emergisse todo o mar da vida de cada um e cada infância perdida, sempre em busca de cada pedaço da eternidade.

 Qual tábua rasa de saber, é a promessa de eternidade que temos em cada momento que nos faz querer mais, aspiramos ao alto sem saber o que ele é, o que lá nos espera. Ora é precisamente do tempo dessa espera contemplativa que precisamos para apreciar o busto da estátua partida ao meio sobre o chão, da praia, do vendaval que se advinha no movimento das árvores. No rosto das casas velhas, desse tempo que testemunha as vidas que por lá passaram e o rasto que de si deixaram. Na esplanada quase vazia a olhar nos olhos uma praça também ela despida num final de dia. Esta narrativa de imagens conta a história dos lugares comuns e do anonimato das vidas que por eles passam numa espécie de tremor do tempo que vai desvanecendo em dias e noites sucessivas, em pensamentos e olhares por vezes próximos ou distantes.

 


A distância a que estamos do girassol faz parecer um malmequer na pequena imagem de uma polaroid.

 O título da exposição (Obra Aberta) é também o título de um ensaio que o artista escreveu numa terça-feira 30 de outubro de 1984, que evoca sem querer o tempo, do qual o fotógrafo dá conta, não só quando escreve mas também quando fotografa, é a eternização de um determinado momento num pequeno papel, sendo que esse tempo e espaço vivido é muito mais do que fica plasmado na fotografia, mas ainda assim surge como porta de entrada para essa vivência interior que se transporta para o exterior, e é nesta dicotomia entre vivência interior e transposição para o exterior que estamos constantemente, nesta peculiar forma de habitar a realidade que somos convidados a ver, vendo-nos a nós próprios e aos outros em cada paisagem em cada esquina do tempo. Esta relação indissociável como o artista indicara que reside a peculiaridade da fotografia, neste tempo que é preciso para observar.  O sentimento de contemporaneidade a esvaziar-se a cada passo que vale a pena documentar um olhar sobre o que está fora e ao mesmo tempo dentro de cada um de nós. Como uma janela que se abre sobre o tempo e vai para além dele. A arte que eterniza aquilo que o próprio humano não pode fixar em si, mas que deixa que permaneça depois de se esvaziar de si próprio.