A cenografia e os desenhos formados por sombras e papéis são um ponto de destaque que contribui significativamente para a experiência. As projeções são feitas através de uma base simples, um retroprojetor, do tipo que perdeu espaço para tecnologias mais modernas. Ainda assim, essa escolha não parece casual. Há um certo encanto no analógico que dialoga com a própria proposta da peça de revisitar, reconstruir e brincar com estruturas da língua. As palavras são escritas por extenso e, muitas vezes, ilustradas com essa mecânica, o que gera dinamismo e complementa o compasso cômico de Duvivier, criando uma relação quase tátil com o idioma.
O espetáculo constrói, assim, uma verdadeira paisagem da língua portuguesa, atravessando diversos campos. Um dos primeiros é o da infância, parte inicial do espetáculo em que Duvivier relata o quão especial é ouvir a filha falar palavras erradas, como “papato” ao invés de sapato, e como a inocência da filha está presente justamente na palavra equivocada. Outros campos visitados são o do amor, como a língua se utiliza de metáforas para lidar com paixões, e o campo oposto o nojo, palavras asquerosas e que a forma de escrita e pronuncia denotam isso. É nesse contexto que cada palavra parece ganhar corpo, peso e imagem. Não se trata apenas de ouvir o idioma, mas de vê-lo em movimento, sendo desmontado e remontado diante do público. Há momentos em que o riso surge da identificação e outros em que ele vem do estranhamento, como se o familiar fosse apresentado sob uma nova lente.
Duvivier consegue, ao longo dos 90 minutos do monólogo, construir de forma bem costurada e sequencial seu fascínio e amor pela linguagem, mas sobretudo pelo idioma português em todas as suas especificidades. O mesmo declara, em certo ponto da peça: “Eu só consigo existir graças às palavras. Em cima delas. Tenho por elas um amor tátil”.
Ao sair da peça, o sentimento parece ser de renovado apreço pelo nosso idioma, que, diante da globalização e das redes sociais, aparenta cada vez mais absorver estrangeirismos, especialmente do inglês, deixando de lado expressões e construções tão nossas. Duvivier não trata isso de forma saudosista ou conservadora, mas sim como um convite à observação. A língua está viva, em constante transformação, e cabe a nós também reconhecê-la, habitá-la e reinventá-la.
.jpeg)
