Foi há pouco tempo que conheci a Galeria Rialto6 (Rua Conde Redondo nº6, 1º andar, Lisboa), na vernissage da exposição coletiva Standard Deviation, com curadoria de Gabriel Abrantes. A mostra reunia trabalhos de Ana Jotta, Carla Dias, Conner O'Malley, Inês Raposo, Max & Dave Fleischer, Meriem Bennani & Orian Barki, Paula Rego e Walt Disney. Sou admirador do trabalho da Ana Jotta e da Inês Raposo, mas nessa noite de setembro acabei por me cruzar com o que passou a ser a minha pintura preferida de Paula Rego até à data. Este encontro aumentou as minhas expectativas para a atual ocupação do espaço: itede, itepe, da artista Dorota Jurczak, com curadoria de Miguel Wandschneider (patente de 21.02.2026 a 30.05.2026).
Ao entrar na galeria, fui imediatamente confrontado com uma escolha no mínimo frustrante, a ausência total de contexto. Tendo apenas à mão um mapa da sala com os nomes das obras em polaco, não havia nenhuma palavra para além do título e do nome da autora. Senti-me à mercê das minhas próprias reações. O primeiro impacto foi o de um espaço demasiado vazio quando comparado com a Standard Deviation (que, diga-se, estava demasiado cheia). Essa sensação de vazio não desapareceu, mas foi abafada por um arrebatamento nostálgico, por uma memória que não possuo. O mundo visual que Jurczak ali apresenta parece saído de uns desenhos animados que marcaram a minha infância, mas com os quais não me cruzei, pelo menos de forma material, num claro efeito de assombrologia (hauntology), conforme desenvolvido pelo teórico cultural britânico Mark Fisher. A um olhar mais atento, essa familiaridade ganha peso e materialidade, e a força destas peças revela-se na sua execução. Os pequenos pormenores e a espontaneidade das texturas não só elevam a qualidade formal do trabalho, como transmitem a segurança de uma artista que deixa a sua obra acontecer, domina sem a asfixiar, confiança palpável de quem encontra a liberdade no próprio processo de criação.
A materialização deste universo fantasmagórico faz-se através de uma ocupação muito particular da arquitetura da galeria, que se desenrola ao longo de três andares. O percurso obriga-nos a navegar entre uma mezzanine e uma sala principal marcada por um desnível, que dá acesso a um quintal interior. É neste espaço fragmentado que as poucas obras de Jurczak habitam, sendo a exposição composta, na sua maioria, por esculturas em cerâmica.
Em vários momentos, caixas de sapatos em cartão servem de plintos para sapatos em cerâmica vidrada. As suas formas arredondadas e proporções exageradas remetem-nos, de imediato, para uma estética "Disney", reforçando a tal memória de animação de que falava. Enquanto grande parte das outras peças se encontra suspensa nas paredes, há uma exceção incontornável: três vasos em forma de porco que repousam diretamente no chão. O seu aspeto invoca a imagem sombria de urnas funerárias, como se estivéssemos a olhar para as cinzas dos Três Porquinhos remixadas com jarras canópicas, a inocência infantil a colidir com o macabro. A exposição conta ainda com algumas gravuras. São poucas, mas ditam o ritmo do espaço. A linguagem visual das gravuras aproxima-se da ilustração do livro infantil. Aqui o tratamento das texturas, tão bem conseguido nas esculturas, adquire uma nova relevância. Enquanto nas peças tridimensionais as texturas atuam como "figurantes", nas gravuras assumem o papel principal.
No entanto, à medida que a exposição se entranha em nós, a perceção altera-se. Mascarada por uma aparente inocência estética há uma maldade subtil. Instala-se um sentimento estranho e familiar, uncanny. Caminhando entre as obras, sente-se que aquelas imagens e figuras sabem algo que nos escapa. A este desconforto somamos outro, provocado pela falta de enquadramento decidida pelo curador. Fui, por isso, procurar respostas fora da galeria. A pesquisa levou-me à recente exposição destas mesmas peças na PLATO Ostrava (terminada no final de 2025), sob o título Pyk, Sciak etc.. O texto dessa mostra espelha na perfeição a tensão silenciosa que se sente em Lisboa: diz-nos que estamos a mergulhar numa verdadeira lição de "inquietude elegante" e clarifica que o trabalho de Jurczak vive na "linha de alta tensão entre a animação e a matéria morta", o tal desenho animado que nunca vi, mas do qual me lembro. Bebendo da tradição das marionetas checas e polacas, a artista cria criaturas que "parecem prestes a piscar os olhos no momento em que viramos as costas". A curadoria internacional confirma a capacidade de Jurczak para transformar objetos banais em "relíquias sagradas e ameaçadoras de um sonho que não conseguimos esquecer".
A ausência de palavras na Galeria Rialto6 forçou um diálogo direto com a arte, provando que, no caso de Dorota Jurczak, a matéria fala por si, mas é tímida sem uma reflexão, sem as chaves para abrir este mundo. Contudo, no cruzamento entre a intuição do espectador e o background cultural da artista, itede, itepe revela não uma simples coleção de objetos, mas um conto de fadas sombrio onde nós também vivemos.




