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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Bruno Munari - Livro Ilegível

Bruno Munari (1907-1998), além de designer gráfico, também foi arquiteto, escultor, professor, pedagogo, escritor, filósofo e artista. Utilizava da sua vasta experiência e conhecimentos multidisciplinares para refletir sobre os limites da arte e da sua relação direta com sensações através das formas, cores e texturas de maneira criativa. Revolucionou a linguagem do livro quando o encarou como objeto capaz de comunicação, independente dos textos.

O que era comum, segundo o autor, era avaliar a importância do livro através do seu texto e género literário, sem considerar as potencialidades dos outros elementos que definem um livro, como o papel, formato, encadernação, tinta, tipografia, elementos gráficos e etc.. Com exceção de edições especiais, no qual era valorizado todo o material em torno do conteúdo do livro, a provocar uma experiência diferente na prática da leitura, mas sempre com o texto como foco principal. Munari defende que a experimentação é o caminho para conhecer as possibilidades de expressão dos materiais que compõem um livro, assim, nasce o termo “livro ilegível”, que o autor usa para definir os seus projetos de livros que utilizam apenas da visualidade dos recursos gráficos, sem utilizar nenhum texto. São uma série de livros sem texto, em formato quadrado e páginas de diferentes cores e cortes, onde põe em prática a criatividade.

Por conta do conceito pré-concebido do que é um livro e para que serve, Munari teve algumas dificuldades de aceitação por parte de editores nessa sa nova proposta de material. O livro “Na noite escura”, editado em 1952 foi recusado por diversos editores porque não apresentava nenhum texto, portanto era visto como um objeto que não carregava consigo informações e conteúdo de valor para ser passado adiante. Depois de editado em 1956, por Giuseppe Muggiani, o livro foi publicado em diversos outros países e línguas. 

 

1- O livro “Na noite escura”


2- Livro Ilegível

“Normalmente quando se pensa em livros pensa-se em textos (…) que se imprimem sobre as páginas. Pouco interesse se tem pelo papel, pela encadernação do livro, pela cor da tinta, por todos aqueles elementos com que se realiza o livro como objeto. Pouca importância se dá aos caracteres tipográficos e muito menos aos espaços brancos, às margens, à numeração das páginas, e a tudo o resto. O objetivo desta experimentação foi ver se é possível usar o material com que se faz um livro (excluindo o texto) como linguagem visual. O problema, portanto, é: pode-se comunicar, visual e tacitamente, apenas com os meios editoriais de produção de um livro? Ou: o livro como objeto, independentemente das palavras impressas, pode comunicar alguma coisa? O quê?”

- Bruno Munari


Com a compreensão do potencial do livro como objeto, Munari criou os pré-livros. A preocupação era justamente trazer o prazer da experiência com os livros nos primeiros estágios da infância, explorando a sua materialidade, antes do contacto com o livro escolar. Portanto, a intenção era proporcionar à criança um contacto agradável, lúdico, experimental e sensorial com o objeto. Os pré-livros de Munari são pequenos, para serem facilmente manipulados pelas mãos de uma criança, dos mais diferentes materiais e encadernações, para conviverem em meios aos brinquedos e estar no ambiente onde a criança associa ao divertimento. Desta forma os livros constroem associações prazerosas e quotidianas, favorecendo a aproximação do objeto no processo de desenvolvimento infantil. A partir de formas simples e mistura de materiais num único objeto, Munari cria projetos poeticamente ilustrados, não se preocupa em criar respostas em seus poemas visuais, mas sim acionar no leitor possibilidades infinitas.


3- Pré-livrosl

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

VISIONAIRE

Visionaire é uma agência com base em New York, fundada em 1991 por Cecilia Dean em conjunto com Stephen Gan and James Kaliardos.  De início, a sua pretensão e trajetória eram baseadas na publicação editorial de edições limitadas. O seu primeiro lançamento em 1991, com a edição “Spring”, no valor de US $10 tornou-se rapidamente conhecida, e considerada cada vez menos uma revista tradicional de arte, moda e design, mas cada vez mais uma obra de arte em si — é hoje em dia uma das “revistas” mais caras que existem. O seu posicionamento e escolha desde o princípio em produzir apenas pequenas tiragens e a estratégia de trabalhar sempre em conjunto com artistas em obras únicas foi o que caracterizou e diferenciou a Visionaire no mercado concorrente. Assim, em poucos anos começou a ser retratada como uma espécie de obra de arte, um objeto de desejo de consumo, em que se tornou atraente possuí-lo e expo-lo na sua própria casa. 

Para exemplo da rapidez da evolução do valor agregado as edições, em 1992, lançou-se a Edição 5, “O Futuro”, (vendida pela última vez no eBay por US $ 900). Na edição 53, "Sound", em 2007, a revista foi projetada no formato de um gira-discos de vinil portátil, acompanhado por cinco discos de 120 faixas originais de um minuto, criadas por artistas como David Byrne, U2, Michael Stipe, Courtney Love, Cat Power, Laurie Anderson, entre outros. 


Algumas edições custavam US $ 250, enquanto a edição “Larger Than Life”, por exemplo, que tinha 2,10 metros de altura, custava US $ 1.500 dólares.




A criatividade ultrapassa limites materiais, formatos e padrões esperados para uma revista. Explora-se o máximo no campo da perceção e inovação, pois uma revista não precisa ser quadrada, composta somente de papel e caber nas nossas mãos, a Visionaire busca muito mais do que isso para materializar as suas ideias. 

Portanto, com resultados tão positivos perante as suas publicações a Visionaire expandiu-se para uma agência experimental, que colabora com artistas, influenciadores e empresas por mais de 25 anos. Empenha-se para conceituar e produzir instalações de arte públicas, filmes, experiências imersivas e interativas, conteúdo de marca e múltiplos de arte através das lentes da arte, moda e cultura contemporânea.

Em entrevista para a revista “Vanityfair”, Cecilia Dean responde a respeito da coexistência em relação a Visionaire e o advento da internet, o desafio em como manter o interesse em algo físico e de certa forma estático competindo com a rapidez e velocidade das mídias na internet.


Segue abaixo pequeno trecho da entrevista:

VF: À medida que mais publicações se movem em direção a essas edições ou produtos realmente lindos, mas com menos frequência, ou como você queira chamá-los, eu me pergunto se Visionaire como uma “publicação”, em algum nível, derrotou a Internet?

CD: Você sabe oquê? Eu acho que faz muito sentido. De uma forma tão engraçada e irônica, Visionaire faz mais sentido agora do que antes. A Internet é tão fascinante porque o mundo funciona muito mais rápido, então você está a assistir  tudo em tempo real. Acho que o desafio para as editoras é fazer algo que ofereça uma experiência real ao visualizador, algo que você não possa encontrar online. [...] E acho que as pessoas anseiam por essa experiência, que eles têm que interagir com algo e então algo vai acontecer. A questão da Visionaire é representar uma experiência, não apenas um objeto que eles compram. Acho que as coisas estão mudando o suficiente para que isso seja o que o físico ainda tem a oferecer.


O editorial mais recente lançado foi a VISIONAIRE 69 2020, com curadoria da inimitável estrela Edison Chen. A edição vem como um "kit de stencils" contendo10 stencils feitos de cobre cortado a laser em resposta ao ano mais desafiador de Nick Knight, Naomi Campbell, Tom Sachs, Dr. Woo, Zeng Fanzhi, Cao Fei, LeBron James, Kelly Beeman, Shayne Oliver e Alaia Chen. O cobre é um material que ‘’lembra’’, pois registra as suas interações permitindo deixar marcas de mão e de uso. Foi utilizado com o propósito de ser um objeto em que todas as mãos que o tocarem deixarão marcas que  oxidarão com o tempo, para formar uma camada turquesa única, alterando assim a sua aparência. A edição vem embrulhada em um lenço de seda Clot e inclui uma máscara facial de Barbara Kruger e uma lata de tinta spray preta da marca VISIONAIRE para completar a experiência. 


Segue vídeo do Unboxing pelo próprio artista:

https://visionaireworld.com/blogs/imported/edison-chen-unboxes-visionaire-69-2020-guest-curated-by-edison-chen



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domingo, 17 de outubro de 2021

Biomimética - Neri Oxman

A biomimética, termo cunhado em 1997 por Janine Benyus, é a ciência que estuda os princípios criativos e as estratégias já existentes utilizadas pela natureza, a buscar respostas para problemas de função ou desempenho atuais da humanidade. Para além de apresentar soluções ao problema, procura-se criar de maneira similar aos processos naturais, na busca por maior eficiência na utilização dos recursos, maior desempenho energético e minimização dos desperdícios e dos impactos da ação humana. 

A utilização de princípios da natureza para solução de problemas em projetos já pode ser observada nos trabalhos de Leonardo Da Vinci (1452–1519), que estudou teorias da aerodinâmica observando e analisando o batimento de asas de pássaros, o voo planado e o comportamento do vento no voo de morcegos, por exemplo. Os trabalhos de Da Vinci são vistos como as primeiras aplicações da biomimética antes mesmo do termo ser inventado.  Atualmente o campo da biomimética encontra utilização em diversos ramos, como na química, biologia, medicina, arquitetura, agricultura e até mesmo no ramo de transportes.


Figura 1: Esquiços de Leonardo da Vinci

Há na biomimética a intenção da busca por uma compreensão holística no projeto. Ela parte do princípio que a vida se sustenta na terra a mais de 3,85 bilhões de anos, e durante este período sempre buscou resolver os problemas e evoluir com soluções extremamente elegantes e eficientes. Hoje, boa parte dos nossos processos se sustentam em princípios contrários aos da natureza, como se pudéssemos nos dissociar dela. Essa visão baseada na vida, traz além de princípios de design, questionamentos éticos, pois, a biomimética busca a adequação do homem, dos seus artefactos, processos e sistemas aos princípios lógicos da vida, buscando por uma real sustentabilidade. Essa visão envolve uma observação cuidadosa de princípios comuns responsáveis pela sustentabilidade do ecossistema. Atualmente, a biomimética não possui uma metodologia concretizada e estabelecida, devido à dificuldade na tradução dos sistemas biológicos para o âmbito tecnológico. Em vez disso, é neste contexto que se destaca como um importante pré-requisito, para que ocorra a inserção destas ideias no projeto através da natureza de forma estratégica. Aponta-se que a biomimética é um método de trabalho que envolve abordagens transdisciplinares, sendo que, para se obter resultados concretos, deve se assegurar uma comunicação adequada entre as diversas áreas envolvidas. 

Neri Oxman é um profissional que atua diretamente na área de exploração de soluções baseadas na natureza. É designer, arquiteta e professora associada de artes e ciências da mídia no MIT Media Lab, onde fundou e dirige o grupo de pesquisa Mediated Matter. Sua equipe explora um mix de design computacional, fabricação digital, ciência de materiais e biologia para explorar as possibilidades de design em pequenas e grandes estruturas. O objetivo de Oxman é aumentar a relação entre ambientes construídos, naturais e biológicos, empregando princípios de design inspirados e projetados pela natureza, implementando-os na invenção de novas tecnologias.

Muitos dos projetos da Oxman usam técnicas de impressão e fabricação em 3D, eles incluem o Silk Pavilion, girado por bichos-da-seda liberados numa armação de nylon; Ocean Pavilion, uma plataforma de fabricação à base de água que construiu estruturas de quitosana;  G3DP, a primeira impressora 3D para vidro opticamente transparente e um conjunto de artigos de vidro produzidos por ela e coleções de roupas e vestíveis impressos em 3D usados ​​em desfiles e performances de alta costura.

Neri Oxman realizou exposições no Museu de Arte Moderna (MoMa) e no Museu de Ciência de Boston, que têm alguns de seus trabalhos em suas coleções permanentes.


Figura 2: Alguns dos trabalhos de Neri Oxman feitos por impressora 3D.

Vídeo de TED Talk onde Neri Oxman explica sobre a importância e aplicação do seu trabalho. A sua busca pela “ecologia material”, termo que ela mesma cunhou para definir o seu trabalho.




A fórmula mágica é saber quando perguntar "Por que?" e logo em seguida "Por que não?"
-Neri Oxman