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domingo, 5 de junho de 2022

O rio brilha, e é do Neon.

No último domingo terminou a exposição Brilha Rio em Marvila, uma coleção de letreiros comerciais que nos fazem viajar no tempo- não fosse o néon abundante prova suficiente de outros tempos. 

foto: Vanda Santos


O casal de designers, Rita Múrias e Paulo Barata, fundaram a meio da segunda década dos anos 2000 a Letreiro Galeria. Inicialmente, o projeto apenas guardava os letreiros numa coletânea de memórias fotográficas, mas fosse por falência do negócio em questão ou por desuso e falta de manutenção, o casal notou que os letreiros que fotografavam estavam a desaparecer de um dia para o outro e sentiram que tinham de intervir o quanto antes. 


A missão do projeto consiste em salvaguardar e conservar estas peças únicas que conectam um lugar com a memória, sendo que tudo começou com um letreiro de ferro de uma sapataria dos anos 40, e hoje a coleção ultrapassa os duzentos e cinquenta exemplares, desde néones a portas corta-vento. 

 

 

O espetáculo de luz e nostalgia, Brilha Rio, realizou-se aos fins de semana entre 4 de Dezembro 2021 a 29 de Maio de 2022, no estacionamento subterrâneo Prata Riverside Village em Marvila. A exposição inclui aproximadamente 70 elementos dos anos 40 e dos anos 50. Caixas de luz, neons, portas corta-vento, tabuletas de vidro/plástico e letras em metal, estando organizados por áreas comerciais: cabeleireiros, sapatarias, vestuário, restauração, automóveis, oculistas e hotelaria. Os letreiros são acompanhados de textos explicativos que contextualizam as peças e a época. Esta exposição não nos faz apenas viajar no tempo, também conta a evolução visual da baixa lisboeta.


foto: Vanda Santos


Ao entrar, deparamo-nos imediatamente com tubos luminosos -néones-, talvez estranhos a olhares menos habituados, dos dois lados da parede, num longo e esguio corredor de betão. 


O título da exposição, “Brilha Rio” surge-nos como o primeiro exemplar de néones como escrita. No entanto, os exemplares que se seguem, pelo seu contexto histórico e look inimitável -não fossem estes originais de época- são em si só uma outra experiência visual, que toca a memória de cada um de nós, com mais ou menos momentos de familiaridade para com os exemplares, mas sempre com um toque de nostalgia transversal a todos os que por ali passam.


Alguns exemplares famosos, como é o caso da fachada do hotel Ritz, são verdadeiras obras de arte, onde graças às descrições complementares ganhamos noção da sua criação, como é este caso em particular do hotel Ritz, criado no estúdio do artista plástico Pardal Monteiro, em 1959.


Não fosse esta apenas uma exposição de curiosidade visual, algo mais poderia saltar á vista de todos: o ruido inconfundível, único e constante do néon. Material primordial desta exposição, composto por gases rarefeitos que correm nestes tubos cilíndricos que após iluminados, revelam as suas cores.



foto: Vanda Satos


Um espólio invejável, recolhido entre cidades como Lisboa, Porto, Almada ou Silves esta é uma exposição muito pertinente onde os traços de design gráfico e a tecnologia se cruzam, cruzando épocas e décadas pelo caminho até á “Brilha Rio”, em residência no Prata Riverside Village.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

"Queria ser diferente - como os outros" - William Cardoso

Dear mum, não é somente uma carta destinada à mãe, é para todos. Uma peça de dança contemporânea pelo novo criador luso-luxemburguês, William Cardoso.

 

Com formação em dança e coreografia na conceituada escola EPSE Danse, em Montepellier, William Cardoso trabalha atualmente com o Centro de Criação Coreográfica Luxemburguês (Trois C-L) onde desenvolveu Raum (duo), um projeto intenso acerca dos nossos demónios e cantos obscuros. Mais recentemente, estreado em 2022 no Trois C-L, Dear MumRaum e Dear Mum, foram apresentadas consecutivamente nos dias 19 e 20 de fevereiro em mais uma edição de Hors Circuits, que decorreu no Centro e Criação Coreográfica Bananefabrik no Luxemburgo.


foto: Marco Pavone
foto: Marco Pavone


Planeada e executada a solo Dear Mum, é uma peça que retrata um “coming-out” ou por outras palavras, a luta interior e constante de Um contra as pressões e expetativas dos que o rodeiam e amam. É assustador e libertador, um momento definidor. 

 

 

Ao entrar na sala, deparamo-nos com o interprete, William, vestido de branco, num fundo preto, sentado numa cadeira de madeira. No chão, um misterioso copo de leite cheio, colocado ao lado da cadeira. Focos de luz iluminam a área, ruido musicado enche a audição, tudo é fluido e evolui numa experiência de luz e som que preenche os sentidos. De volta ao palco, William, continua parado.

 

A respiração de William parece não existir, bem como a nossa. De repente, o peito de William enche-se e nós respiramos. O ruido intensifica-se e William levanta-se, numa mistura de movimentos e extensões de músculos onde a retidão impera. Pela primeira vez, algo se levantara. É a descrição de um momento íntimo e de autodescoberta, um acordar que nunca mais dorme. A inocência do ato é vestida de branco, no entanto a sua tensa movimentação remete para a constrição da sua nova vida, sofrida.


foto: Marco Pavone



A decoração é simples, o que não distrai o olhar. Somente aquele copo de leite nos atraía entre momentos. A música eletroacústica, de Guillaume Jullien, é colorida por pequenos toques de referências simbólicas - sinos, vozes, ruídos.


foto: Marco Pavone


O tempo passa e vemos o interprete passar por várias etapas do seu caminho. Vemos movimentos e posturas semelhantes aos de um louco, aprisionado e em conflito consigo mesmo, no entanto, despido de branco e despido de culpa – as suas mãos limpas são-nos mostradas por ele- presenciamos uma nova fase, mais liberta, cansada, mas natural. Fita-nos, e nós sentados nas mesmas cadeiras, aproxima-se da sua cadeira e do copo de leite. A curiosidade paira no ar, o ruido musicado serena e dá espaço a uma melódica música que antecipa o passar do climax, da grande revelação. Resta apenas levantar-se da cadeira, com a sua nova face.

 

 

A audiência, na qual me insiro, não resiste em cair na tentação de prever um “standing up” sem amarras depois de um corajoso “coming out”, no entanto, e para surpresa minha e dos que me rodeavam, não é o caso. William, vê-se colado á cadeira, capaz de se mexer, mas na cadeira. Incapaz de verdadeiramente se levantar, como que preso a uma postura menor, corcunda, rebaixada.

Questionei-me se exemplificaria as barreiras e preconceitos que diariamente alguém pode ter que enfrentar na sociedade em que está inserido. Sinos de igreja ouvem-se, o que me parece ser a resposta que procurava.


 

De repente, os meus olhos tornam a captar movimentos no palco e sou atraída para a ausência do copo de leite. William tinha-o na mão. Não parecia querer beber, mas começou a fazê-lo enquanto nos fitava intensamente, sem desviar os seus olhos. A sua boca encheu, mas ele nada bebeu, tudo escorreu pelo seu peito e genitais, atingindo gota-a-gota o chão. 


foto: Marco Pavone



Mais tarde o artista explica-nos como esta imagem representa a rejeição do leite materno, que advém da procriação.

 

A imagem final é um William com o copo pousado no seu joelho, fitando-nos de novo, intensamente.