Mostrar mensagens com a etiqueta 10877. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 10877. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"I Walked With a Zombie" - de Jacques Tourneur




No passado dia 15 de Dezembro tive a oportunidade de ver, na Cinemateca de Lisboa, um dos filmes mais importantes do chamado “Cinema B” Norte-Americano – “I Walked With a Zombie”, de Jaques Tourneur. Este filme, um dos exemplos maiores de um tipo de abordagem mais problematizada ao género de Terror (e cuja influência podemos encontrar em algumas obras do cinema contemporâneo, sendo “Cavalo Dinheiro” de Pedro Costa, um exemplo particularmente notório), é uma colaboração entre o cineasta e o influente produtor Val Lewton, outra figura chave de um cinema norte-americano que, embora inserido no contexto dos grandes estúdios, sempre primou por um grau de sofisticação relativamente às produções, que as demarcavam de outras, suas contemporâneas. 




“I Walked With a Zombie” é uma interpretação muito livre e enviesada de “Jan Eyre”, da escritora britânica Charlotte Brontë, contextualizada numa ilha não especificada das caraíbas, marcada pela forte influência da cultura Haitiana. A este respeito, o título da obra pode induzir o espectador mais desconhecedor das colaborações entre Tourneur e Lewton, em dúvida. Com efeito, “I Walked With a Zombie” está longe de ser um filme de terror convencional, no sentido em que os preceitos que usualmente associamos a este género se encontram aqui, manifestamente, ausentes. Preferindo trilhar um caminho menos comum, recorrendo para isso a mecanismos visuais como um complexo jogo de sombras (um artifício de que Tourneur era mestre, e que denota uma inegável influência de autores como F. W. Murnau e Robert Wiene) e abordando de forma latente temas sociais como a questão do racismo na sociedade, que concorre paralelamente à suposta temática do filme, produtor e realizador encontram assim um entendimento raro (muito mais se tivermos em consideração o tempo e contexto que esta obra foi feita), resultando num dos filmes mais singulares e – dir-se-ia – criminosamente subestimados, da cinematografia de terror norte-americana.




Existe uma corrente de pensamento no cinema que explicita que um bom argumento nem sempre é sinónimo de um bom filme, sendo tarefa do realizador o de sobrepor a sua visão pessoal, aos eventuais constrangimentos do script. Se partirmos desse conceito, “I Walked With a Zombie” é um filme incrivelmente moderno e que não destoaria de outras propostas mais contemporâneas do cinema de terror indie, como “It Follows” de David Robert Mitchell, ou do surrealismo minimal de filmes como “Upstream Color” de Shane Carruth. O plot é bastante formulaico e passível de ser explicado de forma sucinta: Betsy Connel (interpretada por Frances Dee) é uma enfermeira Canadiana que aceita um trabalho numa plantação da família Holland. Nela, a protagonista irá encontrar um empregador amargurado – Paul Holland e Jessica, a sua esposa, que se encontra num estado catatónico e em relação à qual Betsy terá sido contratada para cuidar. Com o decorrer da trama, a protagonista apaixona-se pelo patriarca e – num acto de abnegação pessoal – sacrifica tudo para conseguir curar a mulher deste. Embora a premissa seja de uma simplicidade confrangedora, é na forma como a história é contada em termos visuais e na recusa dos autores em tratar acriticamente o contexto em que a trama se desenrola (uma plantação branca em que a questão da escravatura se encontra latente) que o argumento realmente brilha. Não pela sua insípida linha narrativa principal, como no grosso dos filmes saídos dos grandes estúdios da época, mas no uso inteligente do sub-texto que faz durante todo o filme e que se revela, de forma subtil mas determinante, como a força motriz desta história.



Em termos de direcção artística – e à semelhança de outras obras de Tourneur – os décors são irrepreensíveis na sua função de transmitir uma atmosfera de inquietação e desconforto ao espectador. A sonoplastia, através o constante rufar dos tambores e a música dos nativos que permeia toso é filme é, igualmente, eficaz na veiculação dessas emoções encontrando, talvez, na cena em que um cantor de Calypso se propõe cantr para Betty a história dos seus empregadores, um dos momentos de maior tensão na intriga. Betty é, de resto, uma protagonista principal bastante convincente e geradora de empatia: Por vezes amável e genuinamente preocupada com a sua paciente, não obstante os sentimentos que desenvolve por Paul, noutras uma aventureira intrépida, disposta a ultrapassar os seus medos e desvendar os mistérios da ilha e das suas gentes.



Em suma, “I Walked With a Zombie” é uma obra que foge aos estereótipos tradicionais dos filmes de terror, sendo até discutível se se deveria incluí-la neste género. Optando por uma linha narrativa despojada e deceptivamente simples, a verdadeira força deste filme sobressai na riqueza do seu sub-texto e na dualidade que este trás para a frente: A batalha da medicina contra a magia, da cultura Judaico-Cristã contra as tradições dos povos indígenas e de uma noção frágil e falaciosa de ordem e civilidade contra as pulsões sexuais próprias do indivíduo. É, possivelmente, um dos exemplos mais evidentes de como uma relação harmoniosa entre produtor e realizador pode contribuir para o sucesso de um filme e, sem dúvida, um dos filmes de série B mais importantes da História do Cinema Norte-Americano.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"Kansas City Confidential"

Phil Karlson, um assistente de realização veterano, com colaborações em várias películas da Universal durante a década de 1930, acabaria por se tornar realizador numa fase já relativamente tardia. Tendo produzido um corpo de trabalho heterogéneo ao longo da sua carreira, em que figuram desde comédias musicais e filmes de época a westerns e policiais, Karlson era uma espécie de “funcionário” do sistema de estúdios, forçado, como tantos outros, a fazer “vários filmes em que não acreditava (…) para poder usufruir de alguma liberdade (…) para fazer os que queria. (Dixon, 2007). Kansas City Confidential, uma das pérolas secretas do film-noir dos anos 50, encontra-se neste último grupo. O ciclo Hollywood B, que a Cinemateca Portuguesa dedica a autores mais obscuros do cinema norte-americano, mostra assim uma das obras mais significativas deste realizador, e em relação à qual pretendo basear esta breve crítica. 

    
    
Os filmes de cunho autoral de Karlson giram, invariavelmente, em torno de uma problemática comum: o retrato de uma América moral e socialmente corrupta, “onde os homens e mulheres honestos só podem depender de si próprios, se pretendem alcançar justiça” e em que “tudo vem com um preço”, traduzido, normalmente, em “sangue, morte e traição”. (Dixon, 2007) Estas são as regras do jogo presentes em Kansas City Confidential, lançadas logo após os créditos iniciais do filme, sob a forma de um pequeno texto introdutório com um duplo sentido: uma premissa para o enredo (dando conta de um crime aparentemente perfeito, cujas culpas acabaram por recair sobre um inocente), assim como uma crítica social, transversal à obra mais “séria” do realizador. 


Observamos, logo na primeira cena, Tim Foster (interpretado por Preston Foster) a estudar o local do seu próximo assalto – um banco. Foster precisa de uma equipa para levar a cabo o seu plano, acabando por recrutar um trio de marginais que, com as suas motivações pessoais e características diferenciadoras, proporcionam um dos pontos mais interessantes desta obra: Peter Harris, Boyd Kane e Tony Romano (interpretado aqui pelo genial Lee Van Cleef, um dos “vilões” mais emblemáticos da história do cinema norte-americano). O plano passa por ludibriar as autoridades, utilizando um camião semelhante ao de um trabalhador de uma loja local – Joe Rolfe, um veterano da Segunda Guerra Munidal e ex-cadastrado, que se assume aqui como o protagonista relutante do filme. O assalto é bem-sucedido e, quando os membros do gang se reagrupam após o mesmo, Foster entrega a todos uma carta rasgada que os identificará aquando da entrega da sua quota-parte do saque (os assaltantes estão mascarados e não se conhecem). Entretanto, as autoridades acabam por prender Rolfe, torturando-o durante dias na esquadra, até ser finalmente dado como inocente e posto em liberdade. Aqui se dá “o ponto de não retorno” desta narrativa, uma vez que o protagonista não pode voltar ao seu antigo emprego. O tempo que esteve sob custódia da polícia, acrescido ao facto de ser já um ex-presidiário, destruíram irremediavelmente a sua reputação, tornando-o num pária aos olhos da sociedade. Sem nada a perder e frustrado pela incompetência das autoridades, Rolfe decide então fazer justiça pelas próprias mãos, encetando uma procura pelos verdadeiros culpados, que culminará no obrigatório confronto final com Foster.


No que diz respeito ao enredo, Kansas City Confidential apresenta alguns dos temas recorrentes do film-noir: a opção por personagens moralmente ambivalentes, por oposição à tradicional dicotomia herói/vilão dos filmes dos grandes estúdios da época, um foco na parte mais sórdida e desfavorecida da sociedade e a evocação – em segundo plano – dos traumas da Segunda Guerra Mundial, que se imiscuem de forma subtil na narrativa, por intermédio da personagem de Rolfe. Já em termos formais, o trabalho de Karlson – talvez por constrangimentos de budget – não denota a estilização dos planos e cuidado com os décors, tão próprios de filmes maiores do género, como The Third Man e The Big Sleep. Na verdade, em Kansas City Confidential, fica-se com a sensação que a preocupação por localizar espácio-temporalmente a acção em Kansas City (e posteriormente no México) se tratou mais de um pensamento acessório, do que outra coisa. O filme aposta mais em planos fechados e de conjunto, pautados pelos ocasionais estabilishing shots que, embora permitindo uma dinâmica interessante entre personagens, tornam a acção algo uniforme e, por vezes, aborrecida. Onde o filme brilha, contudo, é na montagem, que consegue transmitir uma tensão crescente até ao showdown entre Rolfe e Foster. É esta mesma tensão que se estabelece após o assalto, aliás, que, juntamente com o anonimato do trio de assaltantes, influenciou Reservoir Dogs, de Quentin Tarantino. Talvez o feito mais famoso desta obra de Karlson.

                                                   
Kansas City Confidential é um filme interessante de um autor menor que, embora não se conseguindo impor como uma obra de referência do film-noir, é eficaz na veiculação de alguns dos preceitos que tornaram este género tão apelativo: A ancoragem do enredo num contexto verosímil em relação aos anos do pós-guerra e na sordidez dos meandros em que estas personagens se movem, assim como uma aposta clara num protagonista cuja backstory o torna mais complexo do que os tradicionais heróis do cinema dos grandes estúdios. Não obstante denotar algumas fragilidades técnicas, Kansas City Confidential consegue, mesmo assim, manter uma narrativa entusiasmante, inserindo-se de forma coerente no universo temático dos melhores filmes de Karlson.

Referências:
Dixon, W. W. (June de 2007). Phil Karlson: The Forgotten Master of Film Noir