segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Corvo e a Raposa

 

 

A exposição “A outra vida dos animais” patente na Galeria Millennium do Museu Nacional de Arte Contemporânea foi visitada a 13/05/2022. Estão expostos trabalhos de vários autores desde Henrique Pousão a Júlio Pomar, com os seus estilos tão característicos e diversificados. Algumas destas obras foram criadas propositadamente para esta exposição, onde encontramos desenho, pintura, fotografia, escultura, instalação, vídeo e media art.

A perda da biodiversidade e os consequentes desequilíbrios ambientais são o tema central desta exposição desenhada para um público infantil, que raramente é contemplado em exposições e que aqui tem, à sua dimensão, forma de refletir neste tema. Pensando bem nem parece que esta exposição seja “apenas “direcionada para as crianças, mas pensada para que pareça que são as crianças que a organizaram para os adultos. De certa maneira as crianças estão a dar um grito de alerta para o que se está a passar, o desequilíbrio ambiental em que a humanidade tem total responsabilidade.

O ambiente da exposição é muito vibrante, pois o som de animais na floresta vindo de um trabalho de media art, envolve todo o espaço conferindo-lhe unidade. Também o som de um vídeo (última peça exposta) em que a voz de um grupo de crianças está em evidência, deixa todo o espaço contagiado com a sua energia. A diversidade de obras representas faz um paralelo com a imensa variedade de animais nas florestas de todo o mundo que o modo de vida atual está a comprometer seriamente. Essa multiplicidade de peças expostas é uma mais-valia pois dá sentido ao tema desta exposição, pois vemos pelos olhos de outros como consideram e valorizam (ou não) os animais. Desde sempre que a humanidade acredita ser a espécie escolhida para protagonizar um papel de relevância no mundo e ao mesmo tempo superior ao dos outros animais. Daí vermos exemplos disso em variados contextos que os retratam como trofeus, conquistas.                    

                     
Figura 1 e 2 -  The Lisbon wireman aka David Oliveira  - Raposa, 2017 – arame  e tule; fotografias da  autora.

Duas destas peças (esculturas) são marcantes pelo lugar que ocupam na sala, mesmo à frente de uma janela que embora tenha um estore corrido ainda emana luz suficiente, deixando perceber em contraluz as suas sombras, conferindo-lhes por isso uma certa aura de mistério. Trata-se de uma raposa e de um corvo que está no ar (a voar). Estas duas personagens aparecem juntas para nos contar uma história, ao género da fábula de Esopo “O Corvo e a Raposa”. Ao contrário da fábula, em que a raposa surge como matreira, pois faz o corvo perder o queijo para o comer ela. Aqui apresenta-se vulnerável e fragilizada. Está a pedir ajuda. O corvo está em seu auxílio, profetizando algo de muito grave, avisando que corremos perigo.

                                            
Figura 3 - The Lisbon wireman aka David Oliveira  - Raposa, 2017 –arame e tule; fotografia da autora.

A raposa é feita de arame e tule a cobrir em várias cores, está representada apenas com metade do corpo, ou seja, com o seu esqueleto à vista. Uma direta alusão à destruição da sua espécie e do seu habitat e à desvalorização do seu papel entre nós. No meu imaginário povoado pelas histórias que ouvia na infância, a raposa não era bem-vinda nas aldeias, pois assaltava as capoeiras. Em contraponto a este comportamento o meu avô falava-nos da sua astúcia para conseguir alimentar os filhos, fintando as investidas dos homens que queriam proteger as suas propriedades, o que era muito interessante.  

Simbolicamente a raposa surge como independente, ativa e inventiva, mas também destruidora, medrosa e inquieta. Aparece-nos em diversas culturas desde o folclore francês, índios americanos, Sibéria, Bretanha e Escócia. No japão é símbolo de fertilidade e uma força vital. Ora é nestes dois aspetos que me quero focar. Estamos a comprometer a fertilidade, o que permite a continuação das espécies. E esta raposa metade destruída representa o que está em curso, a morte. Estamos conscientes do que estamos a fazer e das suas consequências? Não creio. Então o que precisamos mais que nos mostrem? Têm de ser as crianças a mostrarem que este não é o caminho certo…

O corvo, em movimento (no ar) está muito perto da raposa é feito de arame e tule também, todo negro. Esta ave tem vários simbolismos, mas genericamente é considerado um mensageiro dos Deuses na Grécia e pelo povo maia. Os celtas consideravam que tinha um papel profético. Mas é em áfrica (nos likubas e likualas do Congo) que encontro a sua simbologia mais relevante. Consideram o corvo como uma ave que previne os homens dos perigos que os ameaçam. Neste caso o perigo somos nós mesmos e a nossa infinita sede de controlar. O nosso egoísmo leva-nos ao desastre.


                    Figura 4 - The Lisbon wireman aka David Oliveira  - Corvo, 2022 –                              arame  e tule; fotografia da autora.

O corvo é um mensageiro e um profeta de uma mensagem que é representada pela raposa, a destruição da fertilidade, o futuro e a vida e da evolução. Na exposição estão dois corvos junto desta raposa, um voa, o outro está pousado. O que voa chama mais à atenção para o perigo que está em baixo, aliás reparamos logo nele assim que entramos no espaço, pois está à frente da janela.

                                       
                            Figura 5 - The Lisbon wireman aka David Oliveira  - Corvo, 2022 – arame  e tule; fotografia da autora.

Na realidade já tivemos muitos sinais, vamos tendo aliás. Agora a obrigação de agir para poder alterar o curso das coisas. O que nos falta para tomarmos uma atitude?

 

 

 

Mais informações em : MNAC: A OUTRA VIDA DOS ANIMAIS (museuartecontemporanea.gov.pt)
2020 | The Lisbon Wire Man (davidoliveira.org)

Bibliografia:

Esopo, (2013) Fábulas de Esopo, Carlos Pinheiro (tradução e adaptação)             
Chevalier, J., GHEERBRANT, A. (1982) Dicionário dos símbolos.

 

sábado, 28 de maio de 2022

O mundo sem sol

O mundo sem sol

 

Figura 1- cartaz do filme

Recentemente descobri que a plataforma YouTube, disponibiliza à distância de um clique, ( link-  https://www.youtube.com/watch?v=4mp0PA-O_4c ),o documentário francês, Le Monde sans soleil, de 1964, dirigido por Jacques -Yves Cousteau, com duração cerca de 90 minutos. 

É um filme visualmente belo e definitivamente intrigante, filmado totalmente debaixo de água, narra a “Conshelf Two”, a primeira tentativa ambiciosa de criar um ambiente no qual os homens ( sim, nem uma mulher a bordo), pudessem viver e trabalhar no fundo do mar. Trata-se de um género de colónia submarina, “auto-suficiente” de ar, água, comida, energia e todos os elementos essenciais da vida, embora tivesse todo o apoio por parte de uma equipa  que estava à superfície, acompanhando cada passo. Para contextualizar, Cousteau, foi um oficial da marinha francesa, oceanógrafo e inventor, mundialmente conhecido pelas suas viagens de pesquisa do fundo do mar. Considerado o pai do mergulho porque, nos anos 40,  inventou o fato de mergulho autónomo, permitia então ao mergulhador mover-se livremente enquanto mergulha com uma reserva de gás (ao contrário do que acontecia com o escafandro, que dependia um tubo que assegura a respiração) . 

 

 

Num reino onde o sol nunca brilha, esta equipa de mergulhadores, são os pioneiros de uma aventura histórica, a conquista da plataforma continental, um território gigantesco, maior que a África. É a primeira vez que um submarino de bolso, o 'disco de mergulho' de Cousteau, tem uma base submarina, no fundo do mar. Imagens incríveis, todas filmadas com uma câmara de bolso, nos trazem as sequências subaquáticas líricas e dramáticas, que também provavelmente,  contribuíram para o início de uma era de conservação dos oceanos, além de promover o mergulho recreativoCenas memoriáveis são reveladas, que envolvem homens a nadar com peixes, um jogo de xadrez subaquático e o disco de mergulho atingindo profundidades de 300 metros de profundidade, encontrando novas e únicas formas de vida.
    É um facto que através do filme documentado, o cineasta é capaz de tornar o mundo mais acessível, e a ideia de que a câmara se tornou o olho do mundo revelando a todos os seres, os novos lugares que até então não tinham tido destaque e nem tinham sido explorados. Graças às suas expedições, foi possível conhecer , descobrir os encantos e assistir à beleza da vida marinha e os seus ecossistemas.

A exposição individual do artista Hugo Canoilas, Moldada na Escuridão, que está patente na Gulbenkian, com a curadoria de Rita Fabiana, remeteu-me de imediato para o filme de Cousteau. Esta exposição dá corpo a uma investigação sobre os fundos marinhos iniciada pelo artista em 2020, um dos ambientes mais omnipresente do planeta Terra mas ainda que muito pouco explorados.

 

 

Trata-se de uma exposição que apresenta-se sob forma de uma instalação imersiva e multissensorial que invade toda a galeria de exposições temporárias.  Nesta única sala, perde-se a noção dos limites do espaço, e questiona-se o tempo, remete-nos a um tempo longínquo, ao período Cretáceo, num período em que a vida na Terra se fazia por outros seres gigantes. O autor apresenta-nos um mundo de formas, de outros seres, num misto de esculturas - pinturas, vão se revelando na penumbra e alguns rastos de luz, entre o conhecido e o nunca antes visto, pairam naquela escuridão, alguns aparente seres marinhos lumineos, medusas, entre outros organismos... 
Inspirados  na vida nos fundos marinhos e ambientes aquáticos de profundidade , a luz é escassa. No chão da galeria, esculturas em vidro e resina acrílica e objetos têxteis constroem camadas que se acumulam e se sobrepõem, como estratos sedimentados, abrigando um conjunto de ecossistemas em que “cada objeto-coisa-criatura age sobre o outro, perde a sua autonomia e identidade única”.

A publicação que acompanha a exposição abre com o texto «The Gray Beginnings», um dos capítulos da obra The Sea Around Us da autoria da bióloga marinha, ecologista e escritora Rachel Carson (1907-1964). Este texto seminal, de onde foi retirado o título da exposição, é um estudo científico que narra de modo poético a formação do oceano, berço da vida na Terra. Esta é também a primeira vez que é editado em Portugal.

Entre o filme e a exposição, compreende-se um espaço temporal de 58 anos, e o fundo do mar continua a ser um habitat muito pouco explorado. Estima-se que, hoje, mais de 80% dos oceanos ainda permaneçam inexplorados, e parte porque, é uma área muito extensa, aproximadamente 71% da superfície da Terra é coberta de água, e 97% é de água salgada. Assim, como a parte terrestre do nosso planeta possui uma grande complexidade e dinâmica geológicas, o fundo do mar também possui ilhas, vulcões extintos e ativos, cadeias de montanhas, ou  fossas oceânicas.



 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Parque de Escultura Contemporânea Almourol


Uma exposição permanente ao ar livre, inserida numa paisagem verdejante de sete hectares, banhada pelo rio Tejo onde podemos desfrutar de um passeio agradável e descontraído. Este é o Parque de Escultura Contemporânea Almourol situado em Vila Nova da Barquinha, inaugurado em 2012, e premiado com o Prémio Nacional de Arquitetura Paisagística 2007, na categoria de “Espaços Exteriores de Uso Público”, da autoria dos arquitetos Hipólito Bettencourt e Joana Sena Rego. Este espaço transformou por completo a paisagem e constitui-se como um exemplo de projetos apropriados e usufruídos pela comunidade barquinhense e região envolvente.

O parque reúne 11 grandes esculturas, de artistas portugueses de gerações distintas onde podemos ver integrados os nomes de, Alberto Carneiro, Ângela Ferreira, Carlos Nogueira, Cristina Ataíde, Fernanda Fragateiro, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Xana e Zulmiro de Carvalho. Sendo este grupo de artistas tão diverso, podemos observar nitidamente as várias diferenças em cada escultura exposta ao longo do parque. As cores, as texturas, os materiais e também o apelo ao espectador de se aproximar e interagir com as mesmas.

Caminhando pelo parque deparo-me primeiramente com a obra de Cristina Ataíde, “Rotter”, assim é intitulada aquela enorme esfera oval, onde os seus contornos se definem a tubo metálico pintado de vermelho vivo. Inspirada nas murejonas utilizadas na pesca, esta cria a ligação com a população ribeirinha do Tejo, promovendo um diálogo entre culturas. Mas, para além de obra de arte esta é uma das mais famosas atrações para o público infantil, pois estes conseguem trepar por ela, tornando-a por sua vez num desafio de escalada até à prisão interior.



Mais adiante a obra de Xana, “Casa no Céu”, a grande casa branca, com porta e janelas em azul-escuro e a parte cimeira vermelha simulando as telhas do telhado. Com 657cm x 900cm x 640cm construída apenas com caixas plásticas industriais, remete-me para a critica social. Será que esta casa de plástico no meio de um jardim público não poderia ser verdadeiramente habitável? Ser esta uma solução barata de casa pré-fabricada, visto o valor habitacional em Portugal estar cada vez mais inacessível? Questões que surgem. De momento a porta da casa encontra-se fechada não permitindo experienciar o sentimento de estar dentro dela.

As obras de Zulmiro de Carvalho e José Pedro Croft surgem de seguida. “Linha da Terra e do Rio” é o nome da escultura de Zulmiro, dois cilindros metálicos de dimensões diferentes, sobrepostos um ao outro, dentro do registo que o artista já nos habituou. A obra de Croft presenciamos quatro enormes espelhos de ferro e aço polido, que refletem a vida quer do Homem, como da natureza e os seus ritmos e ciclos. Cada espelho reflete de forma diferente a imagem devido aos diferentes polimentos executados no aço.


“Rega”, a obra divertida de Ângela Ferreira que encanta miúdos e graúdos. Esta peça cita de modo direto um dos objetos relacionado com a prática da agricultura modernizada e automatizada. Um pivô de rega em tubo metálico, pintado com tons alegres como amarelo, vermelho e verde, onde a artista incluiu 4 baloiços, que ao serem utilizados como diversão, fazem com que o pivô rode percorrendo uma circunferência em seu torno. Esta é com certeza a obra mais experienciada no parque, pelos seus visitantes.

As árvores figurativas ou naturais são um ponto de encontro entre duas esculturas no parque. A “Casa Quadrada Com Árvore Dentro” de Carlos Nogueira, partindo da forma simples de abrigo a que estamos habituados (a caixa) e erguendo-a sobre pilastras esta obra remete-nos para as cheias do rio Tejo e as casas-palafitas das comunidades avieiras vizinhas. A casa conta com a ausência do telhado que por sua vez já é ocupado pela copa de uma arvore que cresce dentro dela, destacando a inevitável corrosão de todas as coisas e ao mesmo tempo destaca a força da natureza sobre a obra humana. Por sua vez, Alberto Carneiro, apresenta-nos uma obra intitulada de “Sobre a Floresta”. Esta conta com 33 elementos verticais em granito e bronze personificadas na forma de árvores e 33 pedras graníticas com palavras gravadas. Disposta em forma de mandala, onde os vários elementos se dispõem simetricamente em circunferências e raios concêntricos. Nas pedras foram inscritas realidades básicas do mundo, tais como, água, vida, arte, ar, fogo e terra por sua vez os pontos cardiais compõem um discurso de centralidade à peça.


Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes oferecem-nos peças “fechadas”. Primeiramente “Castelo” de Cabrita Reis, um modelo de edifício que sugere para a torre ou castelo em granito amarelo com pequenas janelas quadradas a toda a sua volta por onde deixa atravessar a luz solar registando as diferenças de cada momento do dia. Relembrando também o castelo de Almourol que tão perto se encontra deste espaço magnifico. Já Rui Chafes, exibe o “Contramundo”, uma espécie de bicho-de-conta que se enrola ficando protegido pela carapaça. Esta obra pelo seu imponente tamanho em ferro metalizado com uma pintura preto mate sugere uma incerteza para o que quis o artista representar, será esta uma memória da vida perdida ou um animal ameaçador? Dobrado sobre si, junto do canavial, escondido entre as árvores como um animal assustado ou aguardando pacientemente colocando o outro em perigo?

Por fim, Fernanda Fragateiro com “Concrete Poem” e Joana Vasconcelos com “Trianons”. Um conjunto de vigas em betão branco e peças em aço inox, que nos convidam a sentar ou a exercitar, como se de uma peça de imobiliário se tratasse. Nesta obra Fernanda Fragateiro conjuga a poética e o concreto ao referir um movimento literário, (concret poem), e o próprio material da peça (concret = cimento). Joana Vasconcelos leva-nos numa viagem histórica entre a Revolução Francesa e a atualidade democrática. Duas estruturas metálicas opostas com fitas plásticas, onde uma nos remete para uma redoma delicada e preciosa ( com um formato arredondado e fitas plásticas brancas ) e a outra para a simplificação e massificação de produção (  com o formato de um cubo e fitas plásticas de várias cores). Este jogo de verdade e erro que se expande pelo excesso de corres e escala escultórica, alargam os efeitos magníficos das suas obras.




Este é sem dúvida um espaço para revisitar e nos deixarmos guiar pelo espírito artístico e criativo envolvente.

 

"Queria ser diferente - como os outros" - William Cardoso

Dear mum, não é somente uma carta destinada à mãe, é para todos. Uma peça de dança contemporânea pelo novo criador luso-luxemburguês, William Cardoso.

 

Com formação em dança e coreografia na conceituada escola EPSE Danse, em Montepellier, William Cardoso trabalha atualmente com o Centro de Criação Coreográfica Luxemburguês (Trois C-L) onde desenvolveu Raum (duo), um projeto intenso acerca dos nossos demónios e cantos obscuros. Mais recentemente, estreado em 2022 no Trois C-L, Dear MumRaum e Dear Mum, foram apresentadas consecutivamente nos dias 19 e 20 de fevereiro em mais uma edição de Hors Circuits, que decorreu no Centro e Criação Coreográfica Bananefabrik no Luxemburgo.


foto: Marco Pavone
foto: Marco Pavone


Planeada e executada a solo Dear Mum, é uma peça que retrata um “coming-out” ou por outras palavras, a luta interior e constante de Um contra as pressões e expetativas dos que o rodeiam e amam. É assustador e libertador, um momento definidor. 

 

 

Ao entrar na sala, deparamo-nos com o interprete, William, vestido de branco, num fundo preto, sentado numa cadeira de madeira. No chão, um misterioso copo de leite cheio, colocado ao lado da cadeira. Focos de luz iluminam a área, ruido musicado enche a audição, tudo é fluido e evolui numa experiência de luz e som que preenche os sentidos. De volta ao palco, William, continua parado.

 

A respiração de William parece não existir, bem como a nossa. De repente, o peito de William enche-se e nós respiramos. O ruido intensifica-se e William levanta-se, numa mistura de movimentos e extensões de músculos onde a retidão impera. Pela primeira vez, algo se levantara. É a descrição de um momento íntimo e de autodescoberta, um acordar que nunca mais dorme. A inocência do ato é vestida de branco, no entanto a sua tensa movimentação remete para a constrição da sua nova vida, sofrida.


foto: Marco Pavone



A decoração é simples, o que não distrai o olhar. Somente aquele copo de leite nos atraía entre momentos. A música eletroacústica, de Guillaume Jullien, é colorida por pequenos toques de referências simbólicas - sinos, vozes, ruídos.


foto: Marco Pavone


O tempo passa e vemos o interprete passar por várias etapas do seu caminho. Vemos movimentos e posturas semelhantes aos de um louco, aprisionado e em conflito consigo mesmo, no entanto, despido de branco e despido de culpa – as suas mãos limpas são-nos mostradas por ele- presenciamos uma nova fase, mais liberta, cansada, mas natural. Fita-nos, e nós sentados nas mesmas cadeiras, aproxima-se da sua cadeira e do copo de leite. A curiosidade paira no ar, o ruido musicado serena e dá espaço a uma melódica música que antecipa o passar do climax, da grande revelação. Resta apenas levantar-se da cadeira, com a sua nova face.

 

 

A audiência, na qual me insiro, não resiste em cair na tentação de prever um “standing up” sem amarras depois de um corajoso “coming out”, no entanto, e para surpresa minha e dos que me rodeavam, não é o caso. William, vê-se colado á cadeira, capaz de se mexer, mas na cadeira. Incapaz de verdadeiramente se levantar, como que preso a uma postura menor, corcunda, rebaixada.

Questionei-me se exemplificaria as barreiras e preconceitos que diariamente alguém pode ter que enfrentar na sociedade em que está inserido. Sinos de igreja ouvem-se, o que me parece ser a resposta que procurava.


 

De repente, os meus olhos tornam a captar movimentos no palco e sou atraída para a ausência do copo de leite. William tinha-o na mão. Não parecia querer beber, mas começou a fazê-lo enquanto nos fitava intensamente, sem desviar os seus olhos. A sua boca encheu, mas ele nada bebeu, tudo escorreu pelo seu peito e genitais, atingindo gota-a-gota o chão. 


foto: Marco Pavone



Mais tarde o artista explica-nos como esta imagem representa a rejeição do leite materno, que advém da procriação.

 

A imagem final é um William com o copo pousado no seu joelho, fitando-nos de novo, intensamente.












Olhar o passado, manufaturando o futuro: “Um Cento de Cestos”

    “Um Cento de Cestos” é uma exposição patente ao público no Museu de Arte popular, em Lisboa, que apresenta uma investigação sobre a arte da cestaria em Portugal. Conta com 246 exemplares de cestos adquiridos para o Museu de Arte Popular nas décadas de 1940/1950 e para o Museu Nacional Etnologia de 1960/1970.

    Com a curadoria das arquitetas Astrid Suzano e Fatima Durkee, fundadoras da associação Passa ao Futuro, este projeto expositivo, sublinha a importância da documentação das coleções etnográficas.

    A exposição é composta por três salas onde podemos encontrar mais sobre as técnicas usadas, a origem dos materiais, observar objetos e mobiliário diversos, fotografias, vídeos e conhecer artesãos cesteiros no ativo, cujo principal objetivo é de transmitir saber às novas gerações. Esta regeneração do conhecimento, faz-nos questionar a maneira como vivemos e origina questões sobre o saber-fazer e o saber-estar da nossa cultura.

   A primeira sala revela uma matriz, como proposta de uniformização das terminologias encontradas na cestaria, e procura ser um auxílio para perceber a organização dos cestos na própria exposição. Relativamente às técnicas, estas são classificadas em quatro grandes grupos: o cruzado, encanastrado, espiral cosida (a mais antiga, segundo se tem conhecimento) e entrançado. Estas subdividem-se e são acompanhadas de ilustrações.

   Os materiais, o processo de plantação e a localização geográfica são expostos numa estrutura, verticalmente. Aí são apresentadas amostras das matérias-primas como se estivessem a secar ao natural, onde podemos apreciar as suas cores, as texturas, e as características de cada material, em geral. São apresentadas as seguintes tipologias: Austrália, Carvalho, Carvalho de madeira rachada, Castanheiro, Sanguineiro, Vime, Vime descascado, Vime cozido e tingido, Salgueiro, Giesta branco, Giesta, Palma, Palma enxograda, Bracejo/Junco, Esparto, Bunho, Junco, Silva e Milho.


Figura nº 1, Entrada da exposição. 

    Descobrimos uma grande variedade de ferramentas utilizadas na manufatura de cestos, relação direta com a grande variedade de matérias-primas e técnicas de confeção. A cestaria da madeira rachada, constitui a técnica de cestaria que recorre a um maior número de utensílios, seguido do vime, da cana, do baracejo e da junça, da palha de centeio e da palma. A cestaria da madeira rachada utiliza a foice, cunhas de metal e madeira, o martelo e o cavalete. É neste cavalete, que o artesão prende as talas de madeira com uma cunha e as lavra até com o quitelo ou cutelo. Uma peça única, digna de analisar e imaginar arte por detrás deste ofício. 


Figura nº 2, Cavalete e mobiliário. 

    Neste ambiente, observamos vários cestos de cestaria grossa em vime (com casca). Trata-se de uma confeção rápida, característica da zona Centro e Norte, muitas vezes feitos pelos próprios agricultores. Estes cestos apresentam-se com finalidades agrícolas, piscatórias, de caça e têxteis (barrela do linho). Reconheço alguns cestos da minha infância, característicos do ambiente rural onde cresci e do convívio com os meus avós, nas suas atividades domésticas e agrícolas.


Figura nº 3, Cestaria grossa e vista lateral da primeira sala. 


    Nas paredes pintadas a verde pastel, estão pendurados os desenhos etnográficos, impressos em tecido de algodão, de Fernando Galhano (Porto, 1904/1995), um traço e um olhar descrito, num livro de homenagem e que transcrevo, como um “verismo realista muito simples e muito límpido, feito de humildade amor e conhecimento, na integra pureza das intenções, finalidades e meios, e em que transparece um entranhado amor pela Natureza”, enaltece assim um povo, a nossa cultura.


Figura nº 4, Desenhos impressos em tecido de algodão de 

Fernando Galhano, Arquivo Museu Nacional Etnologia. 


    Ao aproximarmo-nos de uma parede branca com pedras de granito à vista, chegamos à segunda sala, esta dedicada à cestaria fina. Apresentam-se, aqui, matérias-primas como o vime sem casca ou cozido, vergas de salgueiros, de giesta e piorno, associado ao uso doméstico, como por exemplo, em cesto da costura, do pão, da fruta, piqueniques, mas também decorativos, como tapetes e de indumentária, traje de pastores das Beiras e Trás-os-Montes, chapéus e leques.

    A iluminação de destaque dos objetos é ideal, no entanto, reparo nas cores dos plintos, branco cinza, bege, amarelo e um ocre. Na minha opinião, este tom ocre, aproxima-se à cor dos cestos e do próprio chão que existe na primeira e segunda salas, impedindo assim, o ideal contraste e destaque da peça. Idealmente, penso que a melhor solução seria manter as outras opções de cor que combinam na perfeição.

    Nesta sala, algumas peças são expostas em vitrines de vidro, que esteticamente me parecem um pouco descontextualizadas, não correspondendo aos expositores apresentados até aqui.

    Aqui recordo também a minha infância, num cesto de asas de vime tingido cujo som do abrir e fechar ainda recordo, quando de lá retirava a merenda.


Figura nº 5, Foto do cesto que recordo da minha infância. 


Figura nº 6, Cestaria Fina. 


Figura nº 7, Vista geral da segunda sala. 


    A terceira sala é um espaço para o futuro, combina o trabalho dos artesãos e dos jovens estudantes. São apresentados os protótipos, realizados num workshop, em 2019, no Museu de Arte Popular e também trabalhos de uma residência colaborativa. Pretende ser um espaço de diálogo entre gerações que aproxima o conhecimento. Por um lado, o artesão com o olhar e a técnica maturada e do outro lado o designer, estudante com vontade de aprender. De mãos dadas manufaturam o futuro, com mão-de-obra útil e de mente sã, gerando objetos contemporâneos, tendo como base o conhecimento das técnicas tradicionais portuguesas. 

    As paredes são percorridas a texto e esquemas com letras minúsculas, que no meu ponto de vista, não permite à maioria dos espectadores a sua leitura. Durante as duas visitas que fiz, muitos acabam por dar mais atenção e foco aos vídeos e às fotografias que são apresentadas nos monitores. De um lado da sala, visualizamos o mapa de Portugal, ao centro e os nomes dos 35 cesteiros. Do outro lado, olhamos para os esquemas e explicações do Design Regenerativo, que reconhece a humanidade como uma parte do “mundo natural” e o seu o papel positivo que pode desempenhar na natureza, atingindo um estado de sustentabilidade ecológica.


Figura nº 8, Vista de uma das laterais da terceira sala. 


Figura nº 9, Vista da lateral terceira sala. 


    Considero esta exposição muito envolvente. Ali revivi memórias de infância e nasceu o mote para escrever sobre ela. É inovadora, pois embora procure preservar os saberes tradicionais e o nosso património imaterial, faz uma releitura de um novo design regenerativo, propondo uma tecnologia sustentável para o século XXI.

Recomendo a visita guiada pela descrição pormenorizada de detalhes e nos permite lembrar o provérbio popular “Cesteiro que faz um cesto faz um cento, deem- lhe verga e tempo”. 


O Milagre do Riso. Santo António por Bordalo.


O Museu de Lisboa – Santo António e o Museu Bordalo Pinheiro juntaram-se para revelar aquele que será o santo mais venerado de sempre aos olhos e traço de uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa da segunda metade do século XIX. “O Milagre do Riso” é uma exposição temporária que poderá ser visitada no Largo de Santo António da Sé, até ao dia 22 de maio, passando depois para o Campo Grande, onde permanecerá durante as Festas de Lisboa.

Um santo do mundo, milagreiro, militar, de devoção e tradição, aparece, assim, na obra de um dos artistas mais relevantes da cultura portuguesa. Afinal, quem foram e de que forma podemos relacionar estas personalidades?

Créditos: Museu de Lisboa

Santo António de Lisboa – ou Fernando Martins de Bulhões – nasceu a 15 de agosto de 1191, em Lisboa. Também conhecido como Santo António de Pádua (já que os seus restos mortais se encontram nesta cidade italiana, onde viria a falecer a 13 de junho de 1232), é um santo de grande devoção popular e a sua personalidade única marca a identidade da cidade de Lisboa. E não só. Para além das tradições associadas à cultura portuguesa, a devoção a este Doutor da Igreja é universal, sobretudo no mundo lusófono.


Cartaz Antonino, Rafael Bordalo Pinheiro, O António Maria. 

Litografia sobre papel · 15.06.1895 MRBP/RES 2.11 


Por outro lado, Rafael Bordalo Pinheiro é um dos grandes nomes da vida portuguesa do seu tempo. Nascido em Lisboa, a 21 de março de 1846, na Rua da Fé, em Lisboa, continua a ser uma referência até aos dias de hoje. Ceramista, desenhador, jornalista, Rafael tinha uma habilidade criativa e artística com múltiplas frentes: artes plásticas, artes gráficas, cerâmica, desenho de objetos e decoração. Desenvolveu o desenho humorístico e o cartoon como expressão artística. Consciente da força da imprensa, funda diversos periódicos, utilizando a caricatura como veículo para a defesa dos seus ideais. Com um espírito empreendedor e multifacetado, desenhou um percurso muito próprio. Tinha uma forte capacidade crítica e analítica, especialmente política e social, e foi uma das figuras mais marcantes da história da cultura portuguesa do final do século XIX. Faleceu a 23 de janeiro de 1905. 


Rafael Bordalo Pinheiro, (ora toma!). Fotografia MRBP.FOT.0855


A representação do santo na obra bordaliana, quase 700 anos mais tarde, viria, assim, a ser reflexo da importância que este teve (e tem), ao logo dos tempos, na cultura portuguesa. “O Milagre do Riso” espelha, deste modo, em forma de crítica social e política, não só a Belle Époque da sociedade portuguesa, mas também a sociedade do presente – algo que encontramos, sempre de forma divertida, na obra de Bordalo, fazendo deste um artista intemporal.


Créditos: Museu de Lisboa


Desta forma, e com um grande impacto visual, a exposição traduz o diálogo entre o Museu de Lisboa – Santo António e o Museu Bordalo Pinheiro, e contou com a participação ativa e com a curadoria de Pedro Teotónio Pereira, João Alpuim Botelho, Pedro Bebiano Braga e Mariana Teixeira.

 

Nela são apresentados três núcleos: “7º Centenário de Santo António (1895)”, “Os Santo Antónios da política” e “As Festas de Lisboa”; e é assim que o querido Santo António é representado por Rafael Bordalo Pinheiro: de aparência divertida, sempre com o humor presente, tanto na obra gráfica como na cerâmica – tal como idealizaram Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920) e Celso Hermínio (1871-1904) nas suas peças.


Créditos: Museu de Lisboa



Créditos: Museu de Lisboa


Créditos: Museu de Lisboa


Rafael Bordalo Pinheiro foi também o criador da famosa personagem “Zé Povinho” – figura que mais marcou, e ainda marca, o imaginário português – que apareceu pela primeira vez no desenho intitulado “P’rá cêra de Sant’Antó...”, publicado no jornal A Lanterna Mágica, em 1875. É precisamente na véspera das Festas de Santo António de Lisboa (a 12 de junho) que decide criar esta personagem, que nem sequer existia na tradição oral, digamos assim. Bordalo não imaginava que estaria a conceber uma personagem que, passados 150 anos, continuaria perfeitamente atual e reconhecida por todos os portugueses. O “Zé Povinho” é, em toda a obra, aquele mais marcante, diria eu, e aquele que se destacou no imaginário português. 


Estudo para Santo António de Lisboa:
- P’rá cêra de Sant’Antó... Publicado em A Lanterna Mágica, 12.06.1875. Rafael Bordalo Pinheiro. 
Tinta-da-china sobre papel 20 x 29,6 cm · s.d. MRBP.DES.1125 


Com a aproximação das Festas de Lisboa, não poderia haver melhor motivo para relembrar as tradições da cidade. Apele-se à memória dos tronos do santo!

 

Juntam-se as crianças para pedir um “tostãozinho p’ró Santo”, Santo António, que está no seu altar, num altar de rua, aqui como um trono. Calculamos que as crianças não deixem o tostãozinho ao santo – o mais provável é gastar o tostão com um “chocolate da época”.  Mas não é essa situação que é satirizada por Rafael.

Aqui, vemos que a criança que está a pedir um tostãozinho não é, evidentemente, uma criança: é sim o Ministro da Fazenda (ou Finanças), Serpa Pimentel. E o Santo António, não é Santo António: é sim o Primeiro Ministro, Fontes Pereira de Melo – e não é o menino Jesus que ele tem ao colo. É o Rei D. Luís. De lado, temos o chefe da polícia, o Barão de Rio Zêzere, que aguarda sentado pela necessidade de intervenção. É então, neste contexto, que nasce o “Zé Povinho”, a personagem que resta, a quem o Ministro da Fazenda está a pedir dinheiro. Aqui, e em muitos desenhos, é representado como uma figura rural, mas ele é criado no âmbito lisboeta e é neste ambiente da capital que ele se vai movimentar. Aqui conseguimos saber o nome desta personagem, que tem escrito “Seu Zé Povinho”, nas calças.

Bordalo conta-nos, assim, uma cena que se vai repetir ao longo dos tempos. Há sempre esta situação: o Estado a tirar dinheiro ao “Zé Povinho”, que não está a perceber nada do que se está a passar.


Para além deste estudo, há muitos outros imperdíveis, que vão contando a história de uma sociedade vista aos olhos de Bordalo, sempre com a presença do santo a quem se reza para casar ou encontrar objetos perdidos. 


De forma acessível e explícita, esta exposição remete, assim, para um diálogo (im)provável.


O Arraial de Santo Antonio, Rafael Bordalo Pinheiro, A Paródia. 

Litografia sobre papel · 13.06.1900 · MRBP.1900.06.13 



“O Milagre do Riso. Santo António por Bordalo” inaugurou no dia 23 de fevereiro de 2022 e poderá ser visitada no Museu de Lisboa – Santo António até ao dia 22 de maio, entre as 10h e as 18h. Posteriormente seguirá para o Museu Bordalo Pinheiro, onde permanecerá durante as Festas de Lisboa. O custo de entrada é de 3€ (com condições especiais para diferentes tipos de público), sendo a entrada gratuita para os residentes de Lisboa, aos domingos e feriados, entre as 10h e as 14h.


Fica, assim, o convite para visitar esta exposição que é, na minha opinião, uma das mais divertidas da cidade. Assim como assim, “mais vale rir do que chorar!”.


Para mais informações, consultar:

Museu de Lisboa - Santo António: https://www.museudelisboa.pt/pt/nucleos/santo-antonio

Museu Bordalo Pinheiro: https://museubordalopinheiro.pt/