terça-feira, 28 de novembro de 2017

La signorina Else de Arthur Schnitzler

                                      (entre monólogo interior e fluxo de consciência)




 

San Martino di Castrozza, 3 de setembro 1924

«No salão do Hotel Fratazza, as 22h, ao ritmo do 'Carnaval' do Schumann, uma menina vienense de dezanove anos, apenas com um manto que cobria o seu corpo nu, ficou em estado de semi incociênca» 


Else, assim se chama a protagonista, está de dérias com uma tia rica, em San Martino de Castrozza, quandp ficou perturbada por causa duma carta que recebeu da mãe: o seu pai corre o risco de falência. 

A partir deste momento, vai-se consumindo o seu drama interior.
A historia da Else parece ter saído de uma cronica contemporanea.





A novela abre com um diálogo entre a Else e o seu primo Paul, enquanto joga a tênis. O intercâmbio ajuda a compreender a atmosfera e o significado profundo da história.
Paul pergunta por que ela não quer continuar jogando, e Else responde que não pode. 
O drama ocorre em poucas hotas, após o jogo de tênis da tarde, até a hora de jantar, quando é recolhida do salão do Hotel, sem sentidos, e levada para o seu quarto.
O tempo corre rápido em uma espiral de eventos e emoções contraditórias que pertirba a alma da Else, e segue num ritmo serrado, a partir de um telegrama da mãe. 

A notícia perturbadora diz que o seu pai, viciado no jogo, perdeu uma grande soma de dinheiro, como de costume, e que se não pagar a sua divida, acabaria na prisão, e a mãe que pede a Else, mas atraz das suas palavras, se ouve as palavras do pai.






A mãe no telegrama, pediu a Else que pedisse uma soma de dinheiro 'irrelevante', trinta mil florins, ao Sr. von Dorsday.

Von Dorsday, é um senhor de classe, amigo de família, que está fascinado para a beleza e o portamento da Else, e com certeza aceitaria de emprestar o dinheiro.
Else pensava do von Dorsday que era um homen horrível e incontrolável.
Mais velho do que o pai. 
Com muita coragem, fala com ele.
Ele aceita de pagar a divida do pai, mas com a condição que ela se mostrasse nua à meia-noite no quarto dele ou na floresta. 

Else permanece desconcentrada da proposta, e nesse momento começa a sua locura interior.
Decide aceitar, mas quer mostrar-se não só a von Dorsday, mas a todos os que estão no hotel.


Else volta para o seu quarto,prepara uma dose extrema de Veronal (um calmante), sai do seu quarto com apenas um casaco e sapatos e começa a procurar von Dorsady.

Entra na sala de musica: o von Dorsday está là, ela o procura até que ele encontra os seus olhos, entâo ela tira o seu casaco e fica nua, e todas as pessoas na sala ficam surpreendidas.

Else, toda a noite dizia que sentia a testa quente e as pessoas pensaram que talvez fosse por esta razão que ela desmaiou.

Ela é imediatamene levada para o seu quarto e deitada na cama; ela ouviu todas as vozes  e as conversas, mas não conseguia reagir.
Quando estava sozinha por um momento, consguiu rapidamente pegar o Veronal e beber tudo tão rapidamente que o desmaio tornou-se eterno e as palavras que queria dizer ficaram encerradas entre os lábios até o epílogo.



 



 


 

 
Else é uma jovem de dezanove anos, filha de um ilustre advogado, que 
pertence à burguesia vienense. Foi educada para ter um bom casamento. 








 
 
 
 


A magia deste romance é ser capturado em um vórtice de emoções.

A partir deste momento de férias, onde as preocupações dela, são os jogos de ténis, e os ‘dinners’, muitas outras prioridades a ocuparão.
O incipit simboliza a transição prematura da adolescência despreocupada para a idade adulta. 
Esse sentimento estranho logo se transformará no pior pesadelo: será ela, jovem que deve salvar a sua família. 


Demonstrará uma coragem e um senso comum que faltam em seus pais; terá que se expor e se humilhar, comprometer, aceitando uma proposta indecente.

Else é orgulhosa do seu corpo: não se considera linda, mas interessante.
O corpo da Else, tão jovem e fresco, se torna uma troca de mercadorias, um objeto que tem um preço na sociedade e se entende logo que terá que ser vendido para obter a salvação da família. 




Else é o narrador do seu proprio drama, e adotando a técnica do monólogo interior, Schnitzler monstra-nos de perto, ou melhor, de dentro os estados do animo da protagonista. 


Schnitzler representa este drama com grande dominio artístico.

O aspeto psíquico de uma menina de boa burguesia vienese, revelada pelas mesmas técnicas que Freud, a associação de ideias. 

A Else, sente que caiu em uma armadilha; os pais pedem essencialmente um ato de prostituiçâo.





 


Na turbulência dos sentimentos que negligenciam sua mente, existimos participantes, mas impotentes para o lento e inexorável destroço de todos os sonhos de Else.

Encantadora, de fato, é a técnica narrativa particular usada por Schnitzler, que com um fluxo ininterrupto de consciência - interruptido aqui e aí por apenas alguns diálogos - imerge o leitor em contato direto com os pensamentos da protagonista, como se estivesse dentro sua cabeça.

O resultado é de uma naturalidade impressionante e trai o estudo aprofundado do caractér feito por Schnitzler, um autor sempre consciente da importancia da espessura psicologica das suas criaturas e da corripção moral e social dos adultos na sociedade vienense.






 
 
 



Arthur Schnitzler, nascido em Viena em 15 de maio de 1862, de uma família de médicos judeus ricos, era um dramaturgo e médico austríaco. Ele é mais conhecido por ter desenvolvido um artefacto narrativo conhecido como o monólogo interior que costumava usar nas suas obras para descrever os pensamentos e a psicologia dos seus personagens.
Schnitzler é frequentemente comparado com Sigmund Freud. Nos seus dramas e novelas usa a técnica do 'fluxo de consciência”, onde mostra drasticamente a atividade subconsciente dos seus protagonistas. Em consequência da sua representação intransigente do pensamento, foi inúmeras vezes criticado. O seu ciclo “Der Reigen” provocou um grande escândalo e foi censurado como pornografia. 
 
Afirmou Freud: “Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações, 
parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os 
interesses e conclusões que reconheço como  meus próprios. Ficou-me a impressão de que 
o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que 
tenho  descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho.” (Freud,1922)

 




“Lu Nan. Trilogia, Fotografias (1989-2004)” no Museu Colecção Berardo

Lu Nan nasceu em 1962 em Pequim (China) e é actualmente correspondente da agência Magnum. Como principais trabalhos mais importantes, podemos destacar os seguintes:

“Forgotten People”:
Entre 1989 e 1990, o fotógrafo teve contacto com cerca de 14000 pessoas com diferentes tipos de condições do foro mental e psicológico, percorrendo desta forma 38 hospitais, situados em 10 províncias e cidades da China, de modo a mostrar as condições de vida de um grupo de pessoas, normalmente esquecidos pela sociedade. Para terminar a série, terá visitado igualmente as famílias destes indivíduos.

© Lu Nan


“On the Road”:
Série elaborada entre 1992 e 1996 e que retrata grupos de pessoas crentes e comunidades católicas que buscam a compreensão e o equilíbrio entre a felicidade e o infortúnio, característicos do processo do dia-a-dia. Para tal, Lu Nan visitou mais de 100 igrejas de modo a retratar esta prática de fé.


© Lu Nan


“Four Seasons in Tibet”:
Lu Nan fotografou um dos seus mais importantes trabalhos entre 1996 e 2004. Durante estes 8 anos, viveu mais de metade deste período no Tibete e acompanhou as comunidades locais nos seus afazeres diários, nomeadamente o trabalho no campo, mostrando de uma forma humanista o amor e o respeito mútuo e pela Natureza.


© Lu Nan

A junção destas três séries resulta na exposição “Lu Nan. Trilogia, Fotografias (1989-2004), com curadoria de João Miguel Barros e que se encontra no Museu Colecção Berardo até 15 de Janeiro de 2018.

Segundo o curador, esta obra é a projecção moderna de uma trilogia clássica simbolicamente representada na Divina Comédia de Dante, sendo que cada uma das suas partes são, igualmente, consideradas como exemplares do que pode ser, na Terra: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

No início da exposição e como sendo o início da “Trilogia”, o Inferno, podemos observar imagens da série “Forgotten People”, onde se percebe a integração do artista nestas realidades, e como o mesmo se adaptou de uma forma progressiva. Quem o demonstra são as próprias fotografias, que tão facilmente poderiam ter caído numa invasão de privacidade, que na verdade, isso nunca acontece. Vemos estas pessoas como elas são, carregadas de verdade, sem encenações ou qualquer tipo de artificialismos.

Passando à segunda parte da “Trilogia”, onde se encontra incluída a série “On the Road”, são relatadas as minorias católicas chinesas associadas (pela incerteza) ao Purgatório. A marginalização, o sacríficio, a insistência e a resiliência constituem a história dos católicos na China, como consequência da Revolução Cultural que, em 1966, proibiu todos os cultos religiosos. Dos exemplos de testemunhos de práticas religiosas a sacrifícios de fé, esta segunda parte revela-nos impressionantes imagens de crentes que parecem sustentar a sua força interior naquilo que é acreditar, destacando-se, sobretudo, o modo como a fé e o amor se aplicam no quotidiano destas pessoas, sem que, para isso, seja necessária a estrutura física de uma igreja.

Finalmente, chegando à terceira e última parte da “Trilogia”, o Paraíso, encontramos um núcleo de fotografias da série “Four Seasons in Tibet”, imersas numa dimensão que nos transcende e pacifica. Por um lado, vemos momentos familiares através de lidas domésticas, de proximidade e entreajuda, de trabalho e experiência interior. Por outro, o trabalho exterior e o modo como este se adapta às diferentes estações do ano. Momentos de acção e de contacto com a Natureza. Percebemos, aqui, o ciclo das estações do ano, da primavera ao inverno, que se concretizam, respetivamente: na sementeira, na espera pela colheita, na ceifa e na sobrevivência. Todas as etapas são levadas a cabo pelos tibetanos, de um modo equilibrado e harmonioso.

No conjunto destas 144 imagens, o artista revela uma enorme capacidade técnica num período anterior à fotografia digital, onde se pode constatar um brilhante jogo de luzes e contrastes nestas fotografias a preto-e-branco, excelentemente bem compostas e enquadradas.


© Rita Carmo

© Rita Carmo

O espaço da exposição é amplo, as fotos apresentadas encontram-se bem alinhadas ao longo do percurso a ser visitado pelo observador, resultando bastante bem com a moldura preta e “passe-partout” branco. No entanto, perde-se um bocado o sentido em que a exposição deve ser lida, bem como a utilização do mesmo tamanho em todas as imagens faz com que todas elas adquiram a mesma importância, não se podendo destacar nenhuma delas dentro do conjunto.

A exibição do vídeo do género “slideshow”, contendo a “Trilogia” completa (225 imagens), pouco ou nada acrescenta à percepção do trabalho físico.

Estão também disponíveis três livros editados e relativos a cada um dos capítulos da exposição, que, a meu ver, serão o suporte que faz todo o sentido para um trabalho com esta dimensão.    


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

"Os Sons da Sombra de Bill Fontana, no MAAT."


Este Outono, na celebração do seu primeiro ano, dando continuidade a uma lista de aclamados artistas internacionais, o MAAT apresenta, “Shadow Soundings” (ou “Sons da Sombra”), do pioneiro da experimentação sonora artística, Bill Fontana, que consiste numa instalação imersiva audio-visual, recorrendo a sons e imagens, da icônica ponte 25 de Abril, em Lisboa, captadas e transmitidas em directo, através de cabos de fibra óptica, ao espaço principal do museu.
Esta instalação, foi apresentada ao público, pelo curador e director do museu Pedro Gadanho e o artista, no dia 3 de Outubro e estará patente, até 12 de Fevereiro, de 2018. Está aberto ao público todos os dias, das 11 às 19 horas, encerrando semanalmente, às terças-feiras.

A diferença entre uma composição musical e o ruído do quotidiano, pode parecer evidente, bem como que, uma sinfonia requer uma orquestra profissional, para a sua execução. Mas para o artista Bill Fontana, os sons que consideramos banais, têm um interesse estético e são o meio que utiliza, para criar as suas “esculturas sonoras”, tendo iniciado as suas experimentações com o som nos anos 60, depois de ter estudado com o compositor John Cage. 
Continuando a lógica de Duchamp, dos “objectos encontrados”, Fontana encontra sons, normalmente discretos, em espaços físicos que explora, para encontrar sonoridades características do mesmo, com a intenção de os transferir para o local em que são apresentados, por vezes, combinados com a transmissão em directo de vídeo, de pontos de vista inusitados, normalmente escondidos do público. O observador, sente-se desta forma transportado para os locais em questão.
Segundo o legendário escultor sonoro de São Francisco, já nos seus 70 anos, “todos os sons correspondem a uma imagem e vice-versa”. 

A Ponte 25 de Abril, foi aberta em 1966, estendendo-se por 2.3 Km, sendo um deles, suspenso por cabos, pelas suas duas torres, de 190 metros de altura. A ponte é constituída por dois tabuleiros sobrepostos, sendo o inferior destinado à via férrea do comboio, e o superior, com a sua característica faixa da grelha de metal, aos carros que por lá, diariamente entram e saem, da cidade de Lisboa. O artista trabalhou na criação desta instalação, especificamente para o MAAT, durante o período de um ano e meio, em que visitou várias vezes Lisboa, de forma a melhor “captar” a ponte.
O som da Ponte 25 de Abril, é já de fama internacional e uma característica familiar da identidade lisboeta, tendo sido amplificado e trabalhado em estúdio pelo artista, para realçar a sua musicalidade.

Fig.1

Ao entrarmos na sala oval do MAAT, reconhecemos um som que nos acompanha desde o exterior, de água a correr continuamente. Ao descer, para a zona central, somos confrontados com sete painéis de dimensões diferentes, suspensos “anti-gravíticamente”, ouvindo-se sons que se combinam, consoante o local em que nos encontramos.
Nos sete painéis, é possível observar projeções de video de ambos os lados, sendo duas delas, das águas do Rio Tejo e as restantes, de várias perspectivas sobre a Ponte 25 de Abril, que normalmente não são vistas pelo público. (A não ser, que sejamos praticantes de alguma modalidade desportiva, desafiante das leis de Newton e da sociedade.)
As imagens do rio, em conjunto com o seu som audível desde o exterior, evidenciam a intenção do artista, de transferir os locais que capta, para a nossa consciência e vice-versa.

Um dos painéis, em posição vertical, com as dimensões aproximadas, de 2,5 metros de largura e 5 de altura, apresenta um plano invertido do tabuleiro inferior, de ângulo picado sobre a linha ferroviária, observando-se o comboio que passa ocasionalmente e a sombra dos carros, que passam na famosa via, cuja base é uma grelha metálica. O som característico, produzido pela passagem constante dos veículos, preenche o espaço a partir de 34 monitores de som, que reproduzem os sons de 10 pontos da estrutura, misturados digitalmente, criando assim uma espacialidade sonora.
Outro painel de dimensões ligeiramente menores e orientação similar, suspenso no ar, mostra-nos um plano contra-picado do tabuleiro superior e da referida via metálica, com os vultos dos veículos que passam. Os restantes dois, de dimensões reduzidas em comparação, mostra-nos o corredor técnico entre os dois tabuleiros e uma repetição do plano picado sobre a via ferroviária, com uma orientação lateral. Em todos os painéis, são evidentes as sombras, que dão o título a esta obra, que produzem os elementos da composição sonora.

Resta-nos, a que na minha opinião, é a peça central desta instalação. Trata-se de um painel, talvez o maior dos sete, colocado em ângulo agudo relativo ao chão, onde assenta a sua base. O Painel apresenta um plano picado, dos 190 metros de altura, de uma das torres da estrutura da ponte, sobre a via de circulação do trânsito.
Por baixo do painel, estão uns (demasiado, se estivermos cansados), confortáveis “puffs” brancos, onde nos podemos e devemos deitar, a apreciar a perspectiva muito fora do comum, que o artista nos proporciona, numa qualidade impressionante, dada as dimensões da imagem, que tal como o que apresentam, são enormes. 

Fig.2

Em conjunto com a escultura sonora, que consiste em dois anéis concêntricos de monitores sonoros. Um deles, circula o núcleo da galeria oval e produz uma composição sonora, recorrendo aos sons transmitidos em directo, da oscilação do trânsito sobre a grelha metálica e a acelerómetros que captam a energia sonora, acumulada na tensão dos cabos de suspensão e que, por vezes, nos confunde os sentidos e nos transfere para a ponte. Ou vice-versa. 
O outro anel de monitores sonoros, percorre o espaço da rampa envolvente da sala oval, numa espacialidade sonora da água do rio Tejo em constante movimento, recorrendo a hidrofones, para transmitirem em directo o som submerso, do rio. Este som é também projectado para o exterior do edifício, através de monitores de som, instalados na sua fachada. 

Na conferência da abertura, desta exposição ao público, Fontana disse: 

“No mundo visual, ainda tenho uma curva de aprendizagem, que me entusiasma. Enquanto que o som, é “transparentemente” objectivo, visto que deixo muito para a imaginação do público, levando-os dessa forma, ao limiar da visão.
Por outro lado, se usar imagens em movimento captadas por mim, torna-se muito pessoal e subjectivo. Estou a introduzir a visão na audiência, fazendo-os ver o que escolhi ver. É intensamente auto-biográfico e mais pessoal que nunca.” (Bill Fontana, na inauguração da exposição do MAAT.)



O artista, conhecido por “captar o som das coisas”, convida-nos desta forma, a visitar esta instalação, que liga, literalmente, o espaço do MAAT, a um dos ícones mais reconhecíveis de Lisboa, permitindo-nos vê-lo e ouvi-lo de uma forma completamente nova e fora do habitual.

Fotografias (Fig.1-2) e texto por: André Rocha ©️ 2017, em MAAT: Bill Fontana (2017), Shadow Soundings 


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

“Grada Kilomba - a artista que Portugal precisa ouvir”

Por Clara Cosentino

Em Novembro desse ano, a manchete de um grande veículo jornalístico português dizia em letras maiúsculas: “Grada Kilomba - a artista que Portugal precisa ouvir”. A frase, impactante a primeira vista, confirmava o que críticos de arte, curadores, filósofos e pensadores sobre temas contemporâneos já haviam percebido: havia finalmente chegado a hora de Portugal conhecer Grada e adentrar no tema da colonização e pós-colonização, a partir do ponto de vista dos que foram violentados, sem tabus, sem medos e a base da única ferramenta que possibilita a transformação: a comunicação e o conhecimento.

A artista portuguesa, nascida em Lisboa em 1968, e com passagem na Bienal de São Paulo, na Documenta e na Gulbenkian, saiu da sua cidade de origem após concluir o curso de Psicologia no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Lá, era a única afro-descendente a frequentar o seu curso. Com uma bolsa de estudos - fornecida pelo German Heinrich Böll Foundation, devido à excelência do seu trabalho com sobreviventes pós guerra de Angola e Moçambique - seguiu para Berlim, a fim de fazer seu Doutorado em Filosofia na Freie Universität Berlin.

Kilomba se interessou cada vez mais pela academia e seguiu lecionando na Humboldt Universitat. Lançou seu primeiro livro (Plantation Memories), escreveu para performances, estudou teatro e após alguns anos, começou a se cansar da obrigatoriedade da Academia de responder perguntas. Afinal o seu tema, a Pós-Colonização a partir da perspectiva de sua biografia, a fazia estar sempre no centro do debate, respondendo questões.

Gradualmente, Grada começou a levar sua obra para outro caminho: passou a propor trabalhos, levantar questões, colocar o seu posicionamento políticos de forma contestadora na arte contemporânea. Porque tantas línguas desapareceram para que o português pudesse “reinar” em tantos países? Como Portugal “descobriu” lugares que já eram antes de sua presença, habitados por milhares de nativos, com seus costumes e conhecimentos?   

Ainda estamos em negação. Desde o sistema educativo, em que se continua a perpetuar o mito do “bom colonizador”, essencial para alimentar uma certa biografia nacional, à crença romantizada de que Portugal não é um país racista. Nós falamos dos mares, dos ‘descobrimentos’, das naus com um romantismo tal, como se a história colonial e da escravatura, que aqui é completamente banalizada, fosse um encontro intercultural e não uma história de tortura, genocídio, desumanização, exploração patriarcal”, aponta a artista.

Através de seus “Performative Talks”, a artista evoca a tradição oral das culturas africanas a e com a fala, dá voz a essas narrativas silenciadas por tantos séculos, no intuito de recontar a história que foi negada e omitida. Valorizar os mitos, as religiões, as tradições e a cultura africana. No seu trabalho como escritora e artista, explora a transversalidade do seu trabalho, utilizando diferentes meios de expressão como videoinstalação, leituras, performances e palestras que criam uma obra cheia de questionamentos, fricções e novas possibilidades e relações entre texto e imagem, linguagem artística e também a acadêmica, grande parte de sua jornada.
Em sua exposição no MAAT, “Secrets to Tell”, ela expõe trabalhos em vídeo, instalações, e uma homenagem à Anastácia, uma africana escravizada em terras brasileiras, a qual biografia é difícil de ser decifrada até os dias de hoje. No trabalho “The Desire Project”, por exemplo, a valorização da palavra, tão presente nos trabalhos da artista, confronta o espectador em três telas, cada uma delas representando “Enquanto Escrevo”, “Enquanto Caminho” e “Enquanto Falo”. Nelas, os contrastes e privilégios presentes entre brancos e negros é contado pela visão da autora.

A exposição foi pensada a partir dessa videoinstalação, "The Desire Project", obra concebida para a 32.ª Bienal de São Paulo (2016), e também uma das mais recentes aquisições da Coleção de Arte da Fundação EDP, segundo o MAAT. Fato esse, que legitima ainda mais essa grande artista, que agora finalmente - em 2017 - Portugal tem a chance de conhecer, com todas suas nuances, trajetos, aberturas e contextos.


CCB presents Sharon Lockhart: My Little Ones


The series titled my little ones by Sharon Lockhart has been selected by Doclisboa’17 in partnership with the Museu Coleção Berardo to represent documentary practices within contemporary art. Curated by Pedro Lapa, the exhibition recollects a series of photographs, videos, prints and objects that speaks out to the construction of children’s subjectivity and their particular way of negotiating their existence in space. The exhibition results from years of working with a group of kids and teenagers at the Youth Sociotherapy Center in Rudzienko, Poland.

Each piece exhibited serve as a document of how these young individuals progressed emotionally throughout the collaboration with the artist who prescribed them actions of psychological weight. Focusing on the challenges related to the exploration of fear versus trust, solitude versus companionship, the artworks bring light to the feeling of insecurity kids have while learning how to navigate within the adults’ world. Through a visual scheme based on choreographed performances the artist built a channel where the subjects represent nothing but themselves, therefore delineating a cathartic realism into a situation intended to seem otherwise.


The accentuation of childhood as a step towards the feeling of independence suspends the audience voyeurism into a place of refined composition and formal elements. Identity and displacement are the background in which the subjects perform movements of symbolic meaning as they overcome obstacles and express their privacy. It is the thin line between hiding and revealing one’s persona that remarkably keeps the audience emotionally invested at the same time it empowers the subjects. It is with great pleasure that the public will experience each exhibition room that has been minimally designed to enhanced the emotional and seemingly foreign content of the work.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MACAU. 100 ANOS DE FOTOGRAFIA - Museu do Oriente

A exposição MACAU. 100 ANOS DE FOTOGRAFIA, presente no Museu do Oriente, nos apresenta diversas imagens fotográficas, registros de um passeio dos últimos 100 dos 450 anos da colonização portuguesa em Macau.
São centenas de fotografias, reproduções, fotos panorâmicas, ou somente registros da arquitetura e da região, de como era a cidade, ou de simplesmente dos hábitos do povo, que vão desde os meados do século XIX, 1844 mais precisamente, até os anos 50 do século XX.
Encontra-se nessa exposição imagens de vários fotógrafos.

Vemos os primeiros registros fotográficos de Macau, raros e bem conservados daguerreótipos do fotógrafo francês Jules Itier, que mostram o povo chinês de Macau e um pouco dos seus costumes da época.
Vale a pena observar detalhadamente esses daguerreótipos. Primeiro pela riqueza dos  detalhes que esta técnica proporciona, e segundo pela pluralidade de informação que nos passa um pouco do que era o cotidiano do povo macauense no século XIX.
Jules Itier foi chefe de missão comercial na China, Índia e Oceânia, e sua viagem  tinha como objetivo resolver os preparativos para assinatura do tratado França-China, em 1844. Logo, apesar do valor do seu material fotográfico devido a questão histórica-documental, as suas imagens foram registros um pouco superficiais da cultura macaense. Jules não viveu em Macau para se inserir e mostrar de fato qual era o seu cotidiano.



Daguerreótipo, 1844. Jules Itier
Nas fotografias de José Neves Catela, que fazem parte da Coleção Cecília Jorge/Rogério Beltrão Coelho, e que são mais numerosas nessa exposição, contam um pouco mais das tradições macaenses e toda influência portuguesa na região e na cultura.
Uma das primeiras imagens que aparecem é uma fotografia de 1925 de escoteiros, acompanhada do negativo original, uma película negativa de 11x16 cm.

Escoteiros, 1925. José Neves Catela

Negativo 11x16. José Neves Catela

É apaixonante poder ter acesso a esse material. Ver um negativo original, com pouco mais de 90 anos, acompanhado da foto impressa, é de um valor imensurável. Vale a pena perder mais tempo nessa parte da exposição para analisar cada detalhe dessa película.
José Neves Catela viveu por mais de 20 anos em Macau, e os seus registros e material fotográfico mostram o dia-a-dia e momentos da multifaceta vida macauense.
Contudo, cada fotografia possui detalhamentos de como era essa região, antes das novas construções hoje presentes em Macau, assim como também um pouco dos hábitos e da rotina do povo. Uma Macau bem diferente dos dias de hoje. Menos habitada e desenvolvida. Mais rural do que urbana.

John Thomson é outro fotógrafo que tem muitas imagens presentes na exposição. Em suas diversas viagens que fez ao extremo Oriente, John também passou por Macau e fez registros importantes, únicos e de suma importância para complementar esse acervo fotográfico centenário da história social e política dessa região. As suas fotografias são foto-reportagens, um olhar diferente, mais jornalístico. 
A exposição ainda nos presenteia com uma curiosidade, os primeiros registros fotográficos de nus na China. Fotos do fotógrafo alemão Heinz Von Perckhammer. Uma raridade.
A exposição também tem uma curiosidade. Registros hollywoodianos: o ator Clark Gable, e o cineasta Orson Welles, ambos na década de 50.

A exposição é bem simples, sem muitas apresentações e interferências  multimídias, somente fotografias emolduradas impressas, contando um pouco desses 100 anos de registro, de forma linear e cronológica.
Sem se preocupar muito com quais técnicas fotográficas foram utilizadas, mas com detalhamento de quais películas foram feitas as imagens fotográficas, essa exposição se preocupa mais em mostrar a documentação e o valor do registro fotográfico de um lugar.
Quem nasceu em Macau, ou viveu por lá, vai ter uma grata oportunidade e surpresas para entender um pouco mais de sua história e os seus costumes, mostrando toda influência lusitana em conflito com as tradições milenares chinesas. 



Ator Clark Gable, 1954
Cineasta Orson Welles, 1959
General Gomes da Costa, 1923. José Neves Catela



   

quarta-feira, 22 de novembro de 2017