quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Spell Reel, o longa cinematográfico de Filipa César

por Clara Cosentino

O longa cinematográfico Spell Reel é muito maior do que uma projeção cinematográfica é capaz de mostrar. Fruto de um extenso trabalho de pesquisa, o filme foi montado com 40 horas de um material audiovisual documental que estava perdido na Guiné-Bissau desde os anos 70, e registros das sessões públicas dessas imagens no país - criando assim, uma via paralela entre décadas, espaço e tempo.

Nas imagens de arquivo, de autoria de 4 cineastas guineenses durante o período da guerra de independência travada com Portugal, somos convidados a observar um arquivo que a nação demorou décadas para conhecer.


A obra a obra tem aspectos geográficos escavatórios, e um processo de restauração profundo. No material, muitas sequências eram consideradas “inutilizáveis” pelos institutos envolvidos. Mas para a diretora, a pergunta que ficava evidente era: o que legitima uma imagem histórica?


Levando essa questão à frente, a equipe escaneou uma série de sequências que teriam sido deitadas ao lixo. Escanearam tudo o que conseguiram, e com a presença de fungos e bactérias nos negativos revelados, o filme ganhou texturas e partes fragmentadas que se tornaram evidência fílmica dos percalços do tempo evidentes no material esquecido em caixas. O “erro” / a falha, tornou-se evidência - acerto (linguagem), rastros históricos.




O filme é muito pautado, também, pelos silêncios - opção feita para dar voz aos cineastas que filmaram o conteúdo. Em sessões públicas registradas para o filme, os autores guineenses faziam suas pontuações e comentários acerca do material projetado, dando novas vozes e narrativas à história da independência.




Dessa forma, o processo criativo/ produção do documentário se dá de forma generosa e simples: nas sessões feitas na Guiné, muitas gerações que nunca tiveram acesso à aquela história, podiam assistir às imagens projetadas pela primeira vez. Afinal, um país com uma história de independência, sempre vai ter que lutar para poder contar sua história com palavras, perspectivas e personagens próprios.




Porque todas as ex-colônias falam português? “Quantas línguas tiveram que desaparecer para o português ter se tornado a língua mãe?” (Kilomba, 2017) Porque os heróis em esculturas espalhadas pelo país, são em esmagadora maioria portugueses, e não guineenses?

Quem conta a história? Spell Reel nos dá uma aula de território, montagem, independência e respeito - para questionarmos nossas próprias raízes e compreendermos que o passado é um tecido que invisibiliza muitas imagens e vozes. Fica a provocação para que os realizadores continuem a capturar novas imagens mas também lembrem que há muitos registros, vivos, sendo devorados pelo poder e pelo tempo.

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