segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar

Atelier-Museu Júlio Pomar
Curadoria de Sara Antónia Matos
De 8.10.2015 a 21.02.2016


Estreou no passado dia 8 de Outubro no Museu e Atelier Júlio Pomar a exposição intitulada “Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar”. Esta exposição tem a curadoria de Sara Antónia Matos, e surge da vontade de cruzar os trabalhos de Júlio Pomar com outros autores, neste caso, Rui Chafes. Esta será a primeira de muitas exposições a realizar com o objectivo de relacionar a obra de Júlio Pomar com obras de artistas contemporâneos. 

Fig. 1 - Rui Chafes, As tuas mãos, 1998-2013, Ferro.

O objectivo materializa-se no espaço, os dois artistas utilizam o desenho para alcançar, através de linhas negras de carvão ou de ferro tridimensionais, figuras que nos remetem inequivocamente para uma dança sexual. Quando entramos no museu deparamo-nos imediatamente com a instalação que compõe o espaço do piso inferior, falamos claro das esculturas de Rui Chafes intituladas “As tuas mãos" (fig. 1 e 2). Ao olhar para essas esculturas pela primeira vez encontramos alguma semelhança a aves ou outro animal voador, no entanto, a abstracção presente no objecto deixa-nos sem referências concretas, mas assumimos a vontade do artista para a desconstrução da figura. Rui Chafes tem nos habituado com esculturas suspensas e tons negros, aqui não é excepção; estas esculturas são suspensas por cabos de aço e repousam perfeitamente no meio da sala, juntamente com os desenhos de Júlio Pomar intitulados “Étreinte” que cobrem a parede lateral esquerda (fig. 3 e 4). 

Fig. 2 - Rui Chafes, As tuas mãos, 1998-2013, Ferro.

Durante as últimas quatro décadas, Júlio Pomar tem se vindo a afastar do que é o movimento neorrealista e abraçado uma grande variedade de universos temáticos, desde a mitologia, alusões literárias, e o tema que está presente nesta exposição: o erotismo sexual. Os desenhos expostos na parede mostram duas figuras ligadas sexualmente de uma forma tão abstracta e num traço tão livre que quando vistas de perto perdemos totalmente o referencial (fig. 3). Por outro lado, quando vistas à distância, conseguimos contemplar aquelas figuras que dançam e a capacidade técnica do autor. Os desenhos de Júlio Pomar confundem-se no espaço com as esculturas de Rui Chafes, sendo denunciadas somente pelos materiais construtivos. 

Fig. 3 - Júlio Pomar, Étreinte, 1976-1979, Materiais diversos.

Passando para o primeiro piso, aí, pode encontrar-se mais duas obras de Rui Chafes, uma série de esculturas mais antigas do autor do ano de 1989, intituladas “O corpo não entra” (fig. 4) fechadas num expositor, (lamentavelmente com as legendas colocadas num local aleatório e afastadas da obra visto na fig.5). As peças são feitas com massa “Fimo”, uma pasta moldável e assemelham-se a animais marinhos, órgãos sexuais femininos e algumas formas botânicas. São essencialmente peças de pequenas dimensões. 

Fig. 4 - Rui Chafes, O corpo não entra, 1989, Fimo.

Mais à frente, encontra-se uma série de desenhos de Júlio Pomar sem título que datam dos anos 60 e foram realizados no Algarve numa casa que teria uma figueira que serviu de inspiração ao autor. Estes desenhos apresentam linhas abstractas num traço espontâneo e firme (fig.6). 

Fig. 6 - Júlio Pomar, Sem título, (Desenhos do caderno de figueiras),
Década de 60, Tinta permanente.

Com o título “Penugem”, apresentam-se as esculturas mais recentes feitas em ferro para integrar esta propositadamente esta exposição. Essas obras têm formas abstratas de cariz futurista, podendo ser vistas na figura abaixo (Fig.7).

Fig. 7 - Rui Chafes, Penugem, 2015, Ferro.

Comparativamente com as esculturas expostas na sala do rés-do-chão, estas apresentam alguns aspectos técnicos menos conseguidos ao nível do acabamento, algo que o artista não nos habitou e que sabemos que não é comum acontecer. Por outro lado, as formas de Rui Chafes são uma mistura entre o orgânico e o racional, e em certa medida como já referido futuristas (fig.8).

Fig. 8 - Rui Chafes, Penugem, 2015, Ferro.
Pormenor da obra.

Existem algumas pontas soltas nesta exposição: falamos do espaço em si, ao tentar ser aproveitado ao máximo, expondo alguns desenhos de Júlio Pomar num vão de escadas que dá acesso ao primeiro piso e algumas falhas em relação à colocação das legendas (fig.5, 9 e 10 ). Compreende-se que o espaço não foi pensado para ser um museu, na verdade foi reabilitado para ter uma nova vida e dar lugar ao museu, mas alguns espaços mostram-se medíocres na tentativa expositiva.

Fig. 5 - À esquerda, Pormenor das legendas na berma das escadas.
Fig. 9 - À direita, Desenhos de Júlio Pomar, Estudos de nu, Sem data.

Pormenor da colocação das legendas referentes às obras, As tuas mãos e
Étreinte de Rui Chafes e Júlio Pomar ao lado de uma janela.

Apesar de alguns aspectos técnicos e de leitura menos concebidos em parte devido ao espaço, a exposição consagrou o cruzamento de duas formas artísticas de dois artistas diferentes através das linhas do desenho e da escultura. Mais uma vez é de salientar que as duas linguagens técnicas de ambos os autores casam acertadamente, lamentando o facto de não existir mais obras de Júlio Pomar para além dos seus desenhos e estudos.  No entanto, é sem dúvida uma a exposição a visitar e a observar com atenção, esperando que a próxima se apresente com mais rigor expositivo face aos detalhes técnicos. 


One’s own arena

Fundação EDP - Museu da Eletricidade

Av. Brasília, 1300-598 Lisboa

+35121 002 8130

fundacaoedp@edp.pt
15 de Outubro 2015 – 13 de Dezembro 2015
Entrada livre
Curadoria - Nuno Crespo


Foi inaugurada a 15 de outubro na Fundação EDP em Lisboa, a exposição fotográfica One’s own arena de José Pedro Cortes, com curadoria de Nuno Crespo, que estará aberta ao público até 13 de dezembro.
O fotógrafo nasceu na cidade do Porto e estudou Arts in Photography no Kent Institute of Art and Design do Reino Unido. Em 2005 regressou a Portugal e fundou a sua própria editora de livros fotográficos, a Pierre von Kleist editions. Influenciado pela estética japonesa, o seu trabalho desenvolve-se em torno da sequência narrativa documental; o experimentalismo técnico do acto fotográfico - ensaio cromático, preto e branco e “fondu enchainé” - e a espontaneidade performativa do snapshot. 






Mal se entra na exposição, pode experienciar-se imediatamente o seu foto-livro de título homónimo que se encontra pousado sobre uma mesa. Conta a história da sua segunda viagem à cidade Toyama, no Japão. Cortes coloca-se no papel de voyeur e regista cenas casuais do quotidiano. Por um lado, memórias de uma cidade silenciosa capturada como uma natureza-morta e, por outro, o território doméstico e íntimo de um grupo de pessoas com quem se relacionou. O livro, cuja frescura da tinta é palpável, pode ser folheado com interesse. O espectador é convidado a entrar numa narrativa cuja poesia reside na própria composição gráfica das imagens e no espaço vazio entre elas. 


Em seguida entra-se na exposição propriamente dita, que consiste em fragmentos do livro. Repartida por duas salas, é composta por trinta e nove imagens de dimensões e disposições variáveis. 

«São umas ruas, 6 ou 7 pessoas, um restaurante, o mesmo quarto de hotel e pouco mais», esclarece José Pedro Cortes. 

Fica-se assim perante obras de teor e distribuição espacial difusa e heterogénea. É evidente um jogo cromático e formal na sua disposição, expostas como vinhetas de banda-desenhada. 

É curiosa a singularidade de um único retrato a preto e branco, exposto logo na primeira sala. Em trabalhos anteriores, José Pedro Cortes trabalhou o dicotomismo cores/ preto e branco, pelo que se mostrou algo surpreendente o facto de em One’s own arena só existir uma fotografia monocromática.
O critico alemão Toni Hildebrandt, referindo-se à estética José Pedro Cortes e ao jogo cromático presente nas suas obras, classificou a sua fotografia monocromática como a projecção de uma memória passada, e a fotografia colorida como a presentificação e eternização dessa memória. 
Nas duas salas destacam-se objectos brancos de carácter anónimo; espaços urbanos ou arquitetónicos gastos pela cidade de consumo; objectos domésticos de marco identitário japonês; vestígios particulares de convívio social (por exemplo: um jantar de grupo em que só se fotografa um indivíduo) ; naturezas-mortas recolhidas em espaços interiores e exteriores; momentos solitários num hotel; traços de dupla exposição num jogo de baseboll; figuras de várias mulheres e uma cena única de mood íntimo entre um homem e uma mulher.
Embora as temáticas sejam múltiplas, não se pode deixar de destacar a preferência pelo retrato feminino e universo semi-erótico. Algumas fugiras surgem nuas ou semi-despidas, outras, pelo contrário, totalmente cobertas mas denunciando um ambiente privado; umas de olhar directo para a câmara; outras que parecem nem se aperceber do gesto fotográfico; outras ainda que mostram apenas partes do corpo, cuja extrema definição de textura e proximidade causam desconforto no espectador...
O autor explica: “Cria-se um choque entre o lado forçado do fotógrafo a dirigir alguém, e o lado mais natural [do fotografado].”
Em todos os cenários existe uma ideia inerente de união sequencial e narrativa, sem barreiras entre o seu início e o seu fim. O espectador perde-se numa elipse, recriando a sua própria leitura, sujeito a um ambiente memoir que lhe é contado entre a realidade e a ficção. 
“As imagens foram feitas a pensar em Toyama como um território (...), [a pensar] na relação do corpo com a arquitectura, com a superfície e materialidade das coisas”», nas palavras do próprio José Pedro Cortes. 



terça-feira, 3 de novembro de 2015

O Trespassar da Espada Impressionista

Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944). Efeitos de Luz
Exposição patente no Museu do Chiado até dia 8 de Novembro de 2015

    Tem estado presente no Museu do Chiado, no qual o próprio artista foi director, a mais recente exposição de Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944). Formado pela Escola de Belas Artes em Lisboa e, mais tarde, na Academia de Belas Artes de França, o notável pintor português, afirmado como o primeiro a registar a participação portuguesa na 1ª Grande Guerra, apresenta agora uma série de obras desse mesmo período e ainda, na sua maioria, um conjunto de trabalhos com uma influência do círculo impressionista.

    Logo à entrada da Galeria é-nos dado a contemplar o seu famoso quadro Ondinas (Figura 1), cujo título é baseado num poema de Heinrich Heine. Esta obra destaca-se imediatamente na exposição, assim como na própria biografia de Sousa Lopes, pois é apresentada pelo pintor no seu último ano de pensionato em Paris, em 1908, e cuja figura feminina, mais à direita, é elaborada a partir de estudos de modelo de Margarite Grou, sua futura mulher. Margarite continuaria a ser a sua Ondina, a sua musa inspiradora, desenhada e pintada inúmeras vezes... Não é por acaso que os curadores colocam um outro quadro à direita do das Ondinas - Retracto (Pérolas e Violetas) - cuja figura feminina apresenta uma posição e aparência semelhante. A modelo é claramente a mesma.
    É ainda curioso observar que o quadro funciona como uma espécie de eco às suas criações futuras, como é claro ao longo da exposição. O homem, como guerreiro caído, a mulher, como figura cintilante, e ainda o mar, continuariam a ser os motivos principais das suas obras.
    Aqui percebemos imediatamente que a exposição se organiza tematicamente e, em paralelo, cronologicamente. Estas primeiras grandes telas são então dedicadas à pintura histórica e literária, numa tradição poética influenciada por um simbolismo que navega entre a realidade e a mitologia (Figura 2).

Figura 1
Esquerda: Ondinas, 1908, Óleo sobre Tela.
Direita: Retracto (Pérolas e Violetas), c. 1909, Óleo sobre Tela.

Figura 2


    Continuando a caminhar pela exposição, entramos na “Sedução do Impressionismo”. 
    É no final de 1903 que Sousa Lopes é admitido na Academia de Belas Artes de França, e é lá que entra em contacto com o tratamento impressionista da luz e da cor. Em simultâneo com a motivação histórica e mitológica, o artista começa também a explorar a libertação do detalhe através de uma aplicação mais expressiva e plástica da cor (Figura 3), mas mantendo ainda, noutras certas composições e temáticas (como o retracto), a tendência realista (Figura 4).
    Ainda ao longo da sua estadia em Paris, Sousa Lopes propõe-se, em 1906, a fazer um plano de viagem por alguns Países Europeus. É nessa mesma viagem que vai realizar algumas das suas impressionantes impressionistas representações dos canais de luz de Veneza aqui também apresentados (Figura 5), empregando a inspiração Francesa de artistas como Monet, Renoir, Pissaro, Cezanne, entre outros...


Figura 3
Quadro mais à direita: Ala dos Namorados (Esquisse), 1908, Óleo sobre Tela
Conjunto de Três Quadros à Esquerda:
Topo à esquerda - O Palácio da Ventura (estudo), c. 1907, Óleo sobre Tela
Topo à Direita - Episódio do Cerco de Lisboa, c. 1906, Óleo sobre Tela
Em Baixo - Episódio do Cerco de Lisboa, c. 1906, Óleo sobre Tela


Figura 4
Esquerda: Retracto de Mme Hermine Landry, c. 1909, Óleo sobre Tela
Direita: Efeito de Luz, 1914, Óleo sobre Tela


Figura 5
Topo Esquerda: Veneza, c. 1907, Óleo sobre Tela
Topo Direita: O Canal de S. Gregório (Veneza), c. 1907, Óleo sobre Tela
Baixo Esquerda: Pôr de Sol no Canal (estudo), c. 1907, Óleo sobre Tela
Baixo Direita: Pôr de Sol no Canal Grande (estudo), c. 1907, Óleo sobre Tela


    Como seria inevitável numa exposição que reúne obras de todo o percurso artístico de Sousa Lopes, a pintura e o desenho de guerra afirmam também a sua presença na galeria.
    É após a sua primeira exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1917, que Sousa Lopes se candidata como pintor voluntário para os Serviços Artísticos do Exército Português na Flandres (França).
    Obtendo então o grau de artista oficial do Exército, Sousa Lopes torna-se assim no primeiro pintor português a experienciar e a registar a brutalidade da 1ª Guerra Mundial, salientando-se como um figura importantíssima para a pintura histórica Portuguesa e do Mundo ao elaborar um conjunto de obras que captam a magnitude e o impacto de tamanha monstruosidade.
    Os seus esboços, apontamentos, desenhos e pinturas, muitos deles realizados na própria linha de fogo das trincheiras em pleno campo de batalha e, mais tarde, elaborados detalhadamente em serenas e monumentais composições, servem não apenas como um mero registo documental de um determinado acontecimento histórico - a Primeira Grande Guerra - mas sim, também, como um testemunho em primeira mão de uma vivência individual (do próprio pintor) e colectiva (dos soldados e da relação do pintor entre os mesmos) da auto-destruição do Homem (Figuras 6, 7 e 8). 
    Ora, imaginar o pintor a desenhar friamente, no calor infernal da guerra, todo aquele acto de violência... A tela é o campo de lama pisado pelos corpos tombados, pincelada pela tinta vermelha escorrida, as balas de canhão disparadas...
    É ainda com as representações de guerra, assim como com alguns retractos, que Sousa Lopes se vai afirmar como um mestre da água-forte.

Figura 6
Os Very-Lights, c. 1918,
água-forte e água-tinta sobre papel


Figura 7
A Rendição no Inverno de 1917 (estudo para a Rendição)
1918, Óleo sobre Tela
Este quadro é um estudo para uma obra maior - a Rendição -,
cujas figuras são elaboradas em tamanho real numa tela colossal, presente
no Museu Militar de Lisboa (junto a Santa Apolónia).


Figura 8
Esquerda: Maqueiros, 1918, carvão sobre papel
Topo Direita: Estudo para Destruição de um Obus, c. 1919, carvão sobre papel
Baixo Direita: Soldado Morto, c. 1918-19, lápis sobre papel

    
    Nos anos 20 a Luz Impressionista vai trespassar o ambiente trágico e violento da Grande Guerra, voltando em força à pintura de Sousa Lopes. 
    O pintor, como que isolado das grandes vanguardas internacionais, irá agora dedicar-se à representação do espírito do modernismo através da graciosidade do modelo - de novo a sua esposa, Margarite Grou - assim como do navegar da cor na infinita fusão entre o mar e o céu.
    Na secção da galeria dedicada aos retractos de Margarite Grou, há que salientar pelo menos dois.
    Primeiro, o Retracto de Mme Sousa Lopes (Figura 9). O olhar sereno que é lançado pela eminência do rosto caloroso da mulher naquela penumbra mística, fixa-nos num silêncio duma hipnose onírica... O pintor partilha connosco um retracto com um carácter de tal maneira íntimo, como que evocando parte dessa essência transcendente da fusão entre o olhar suspenso de dois corpos - o seu, e da sua esposa -, fazendo com que este seja, sem dúvida, um dos quadros a destacar-se em toda a exposição.
    Em segundo, A Blusa Azul (Figura 10). A representação da figura feminina é, mais uma vez, fascinante. O olhar, azul, centro ardente da chama, aquece-nos o corpo, e os cabelos, vermelhos, a bola de fogo que ilumina toda a galeria. O respirar leva o seu tempo ao admirar destas obras.
    Após o retracto, uma imensa sala dedicada às inúmeras pinturas e desenhos do mar, dos oceanos, das redes, dos barcos a serem lançados. É talvez aqui que se observa as suas pinturas de representação directa ao ar livre mais espontâneas, de uma sincera expressividade emotiva, onde o esplendor da luz do sol mergulha na tela pelo pincel do artista (Figura 11 e 12).
    Por último, as paisagens, quase à semelhança de Van Gogh, a transbordar de tinta. Manchas largas e espessas de cor que se elevam da tela, quase querendo pintar o observador (Figura 13).


    Toda a exposição é deveras deslumbrante. Não só nos revela o olhar sobre a obscuridade da guerra, por que tanto é valorizado e respeitado em ter representado, testemunhado, vivido, mas primazia sim, ao mesmo tempo, a contemplação modernista que o pintor tinha sobre a luz e a cor do pós-guerra. O seu trabalho torna-se quase como que um olhar incorpóreo, alegórico, sobre os dois pólos da efervescência espiritual da condição do ser humano. Por um lado a dimensão caótica, a morte, a decomposição, a lama moribunda, o barulho dos canhões, por outro, o prazer de viver, o amor, o silêncio feminino, a luz, o reflexo dos céus no mar...


Figura 9
Retracto de Mme Sousa Lopes, 1927, Óleo sobre Tela


Figura 10
A Blusa Azul, c. 1927, Óleo sobre Tela

Figura 11
Luz nas Águas, c. 1922-26, Óleo sobre Madeira


Figura 12
Efeitos de Sol, 1927, Óleo sobre Madeira

Figura 13
Outono em Castelo de Vide, c.1925, Óleo sobre Madeira

Imagens: Fonte Própria

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Um abraço do tamanho do gesto


                                                        Fotografias de Rogério Paulo da Silva




SOMA AGRESTE

Manuel Sampaio | Pintura


10 de Outubro | 30 de Novembro | 2015

Casa da Cultura | Setúbal

Rua Detrás da Guarda, n.os 26 a 34
2900-347 Setúbal

Horário e Contactos:
De terça a quinta-feira, das 10h00 às 24h00
Sexta-feira e sábado, das 10h00 à 01h00
Domingo, das 10h00 às 20h00

Tel.: 265 236 168 | 915 721 909


Ao entrarmos na exposição da obra de Manuel San Payo, deparamo-nos com Soma Agreste, título revisitado e retirado da composição de uma música de Zeca Afonso, retratando o espírito de liberdade do antigo Circulo Cultural de Setúbal. 
Ao enfrentarmos este conjunto de pinturas de grande formato, ficamos com a estranha sensação de que somos abraçados. As telas monocromáticas e os contornos que elas sugerem, transmitem-nos a permanência do gesto interrogativo do pintor sobre a figura, entrelaçando-nos nos traços negros das telas, redesenhando todo o nosso corpo suspenso e retido.

Quando em o Pintor da vida moderna Baudelaire se refere à capacidade de síntese que muitos dos grandes artistas adquirem quando “acostumados há muito a exercitar a sua memória e a povoá-la de imagens”, dá-nos a entender que, nessa capacidade, se “estabelece um duelo entre a vontade de tudo ver, de nada esquecer, e a faculdade da memória” em captar a essência da cor, da silhueta e do contorno.

As pinturas de Manuel San Payo resultam de um exercício dinâmico, do gesto urgente do contorno, automatismo esse infligido pela sugestão de imagens que não existem na objectividade, mas em mnemónicas ditadas pelo próprio artista. O nosso olhar procura incessantemente nessa desconstrução do real - conflito entre abstracção e figurativo - algo que seja planeado ou, pelo menos, familiar.

Pinturas de Manuel San Payo, Casa da Cultura, Setúbal

O artista constrói estas obras com a liberdade de largas pinceladas, em aguadas de tinta negra sobre o fundo branco da tela, para as ir desconstruindo aos poucos de qualquer índice, em camadas e gestos traçados a negro. Ao nos retirar esses referentes o artista abre-nos uma porta para acedermos a um imaginário de formas ou de personagens incertos, que se vão construindo mentalmente na intimidade de quem olha.

Vista geral da exposição, Casa da Cultura, Setúbal

Numa primeira impressão, temos a sensação que percorremos no espaço várias portas à escala do nosso corpo - grandes telas que nos transportam ao interior das emoções expressionistas do gesto. 

Painel de desenhos, Casa da Cultura, Setúbal

Ao fundo da sala encontramos um painel, também ele traçado por desenhos a preto, sugerindo pequenas janelas que induzem o nosso olhar na intimidade de despreocupados registos espontâneos, habitando em subtis percepções visuais. 
Qualquer narrativa sugerida pela forma organizada como foram colocados, poderá induzir o visitante a uma leitura compartimentada de pequenas memórias compiladas pelo artista.