quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

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Projecto Teatral
«nenhuma entrada entrem»
Carlos M Gonçalves
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Culturgest / Galeria 1 / Entrada Gratuita / De 24 de outubro a 10 de janeiro, de terça a sexta-feira das 11h às 18h (última admissão às 17h30); sábados, domingos e feriados, das 11h às 19h (última admissão às 18h30). 
Encerra à segunda-feira / Curadoria: Projecto Teatral
Rua do Arco do Cego, 50; 1000-300 Lisboa / Telf.: 21 790 51 55 / e-mail: culturgest@cgd.pt
 
© Carlos M Gonçalves
Fig. 1 vazio do teatro, 2009. Peça A: terra prensada; B: pano-cru e madeira, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.
Quem quiser visitar em Lisboa uma exposição com responsabilidade social que procura eliminar a discriminação, evitar a poluição e tudo mais que sejam ideias-chave da cultura reformadora contemporânea, a escolha deverá recair sobre a seleção de peças do coletivo Projecto Teatral que se auto-qualificam como não-autores.

Desde de 1994 que o coletivo Projecto Teatral (Helena Tavares, João Rodrigues, Maria Duarte, André Maranha, Gonçalo Ferreira de Almeida: composição atual) iniciou um trabalho empresarial artístico redirecionado para questões que desafiam o conceito tradicional de teatro enquanto representação do mundo sempre com títulos em minúsculas, aparentemente, como forma de resistência à lexia. O porquê do abandono do espaço, do tempo, do ator, da voz e do texto, motiva o coletivo ao «vazio do teatro» (Figura 1). Não um teatro vazio espacial, mas um corpo humano sem proprietário. 
Filiados nos ideais minimalistas de representação artística em que radicam um processo de desfamiliarização [que] corresponde um movimento de desterritorização, aceitam a matéria fora do espaço convencional de representação de acontecimentos artísticos que interpretam como sendo teatrais. A ideia de artista tradicional – preocupado com a notoriedade social, com a consequente valorização económica da sua obra e mesmo do seu próprio corpo enquanto arte – também é aqui abandonada. Ao manter o produto artístico dentro das regras do jogo económico, participa de uma competição livre e aberta, sem espaço ao engano nem à fraude. Podendo-se classificar esse produto artístico de escultura contemporânea, tanto visual quanto sonora.
Este ano reúnem na conceituada galeria de arte da Culturgest um grupo de seis peças embrionárias da noção principal que o coletivo mantém há quinze anos: a tragédia do teatro. Uma escavação interior do Ser que deixa um vazio ao qual chama alma. A alma é o vazio íntimo de um vivo ... é a forma física do vazio. A ausência de um corpo morto enquadrado no vazio de um túmulo, um túmulo enquadrado, por sua vez, num templo que remete para o oculto e o ritual teatral. 
Quem visita a exposição, é convidado a participar numa cena que é um templo e entra num túmulo visitável. Testemunha a cena dividindo-a em duas: dentro e fora-de-cena. Uma cena vazia, sem mistério, é o templo onde o Homem se vê vazio a si mesmo e torna a representação viva. É na representação que o Homem explora o seu vazio com o objectivo de se conhecer. Na vertiginosa descoberta de si fora de si o mistério assume-se como abismo que ele mesmo é.  
O teatro é assim, definitivamente a condição hiante do Homem.

© Carlos M Gonçalves
Fig. 2 moinho, 2013. Pó branco, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.

Exposição de grande grande interesse não só por desenvolver uma espécie de teoria da condição humanatravés da ausência, mas também pela materialidade austera das peças sob o pretexto do prazer do culto patente na fragilidade imediata da peça «moinho» (Figura 2). Assumindo que a arte é uma teatralizarão (contemplação) da morte – é ... o teatro que no-lo dá a ver e a ouvir, Projecto Teatral explora dois sentidos do Homem em que a arte se enraíza e que podem atuar à distância: na visão e na audição. É com esta consciência bem presente que Projecto Teatral produz as suas peças omne ignotum pro magnifico, o seu produto artístico. A partir do círculo e do quadrado, formas primordiais que acolhem matérias orgânicas como a terra prensada, a água em forma de vapor, a madeira, o pano-cru o gesso e um pó, nascem peças de grande e pequenas dimensões com um ou dois elementos impactantes como é o exemplo de «ostra» (Figura 3).

© Carlos M Gonçalves
Fig. 3 ostra, 2010. Terra prensada e gesso, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.

«ostra» é constituída por dois blocos em terra prensada em forma de ataúde, sendo que no seu interior a base é revestida a gesso branco onde assentaria o corpo sem vida. Platão definiu o corpo humano como uma espécie de concha de ostra agarrada a nós. Ostra torna clara esta dicotomia alma-corpo e sugere talvez ressurreição. 

Projecto Teatral, «nenhuma entrada entrem», move-se na bicromia da luz e da sombra. A luz presente no branco imaculado das peças de uma das salas, atinge todo seu esplendor em «imaginação morta imaginem» (Figura 4). Em 2001, o Projecto Teatral publica um pequeno livro de Samuel Beckett: "imaginação morta imaginem". Visual e sonora, esta peça é uma voz que traça um desenho geométrico de um espaço expositivo, iluminado por uma luz ativadora da percepção espacial e do olho do visitante...

© Carlos M Gonçalves
Fig. 4 imaginação morta imaginem, 2001. Áudio analógico, 15mnts, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.
«Bouvard e Pécuchet» (Figura 5) uma confrontação encenada, um lugar vivido onde uma chaleira continua a expulsar o vapor da pressão da água que se aquece. Um perfil de uma confrontação entre testemunha e personagem; entre presente e ausente tornando possível a amizade e o amor... «Bouvard e Pécuchet» une dois Seres separados por cópias de textos antropológicos...
Antropológico é também o filme-arquivo que faz e completa parte da peça denominada «dom» (Figura 6). Secção da exposição que convida a nos sentarmos e observarmos na penumbra a forma de uma mortalha em pano-cru, rasante ao chão, ladeada de bancos corridos

© Carlos M Gonçalves
Fig. 5 Bouvard e Pécuchet (2004). Madeira, vidro, metal, papel e água, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.
© Carlos M Gonçalves
Fig. 6 dom, 2012. Filme, loop, 16 mm, na Culturgest, Lisboa, Portugal. Fonte: própria.

Enfim, "Teatro do vazio" é o manifesto que Yves Klein publica em "Dimanche - Le Journal d'un Seul Jour",  a 27 de Novembro de 1960, fazendo parte do Festival de Arte de Vanguarda onde, na primeira página é apresentada pela primeira vez afamada fotomontagem "Salto no vazio".
Neste sentido
«vazio do teatro» (Figura 1), exercita a catarse estética do teatro. Aqui o observador (a testemunha) é convidado a dois olhares sobre o mesmo vazio. Por uma lado a força de uma caixa compacta de terra prensada que dispõe no centro uma vala de dois níveis de difícil acesso e do tamanho de um corpo adulto. A ideia de que veio de outro lugar, resulta nesta espécie de palco com fosso recortado no centro, iluminado com luz produtora de sombra de pôr-do-sol. Por outro, a forma convexa coberta de tiras entrelaçadas em pano-cru que formam uma quadricula vertiginosa relembra faixas envolventes das múmias de Faium. A grande caixa de terra prensada com a fossa no centro evoca a memória de um defunto desconhecido; a pequena forma convexa, o corpo infantil sem rosto conhecido.

«nenhuma entrada entrem» é assim uma exposição portuguesa inédita; uma memória de futuro dentro de um túmulo esvaziado; o imemorial do passado dentro de um templo impessoal; um estranhamento Noir contemporâneo.



Folha de sala. Mapa que suprime as tradicionais legendas, ausentes propositadamente nesta exposição. Encontra-se disponível na livraria/biblioteca da Galeria um belíssimo objecto-livro que reúne textos e imagens da seleção de peças do colectivo Projecto Teatral alinhadas na programação resultado da colaboração entre Culturgest e Teatro Maria Matos.



 A realização do trabalho que conduziu a esta recensão apenas foi possível devido à disponibilidade imediata da Fundação Caixa Geral de Depósitos - Culturgest plo coordenador de produção | Exposições, Exm.º Sr.º Mário Valente e sua equipa.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

À luz do dia até os sons brilham


Wim Wenders à descoberta de Portugal

Museu da Água Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras
Inserida na programação do Lisbon & Estoril Film Festival – LEFFEST
Curadoras: Ana Duque y Gonzales e Laura Schimidt
Realizada pela Wenders Images e pela Fundação Wim Wenders em colaboração com o LEFFEST e com o Museu da Água da EPAL
De 07 de novembro de 2015 até 02 de abril de 2016
Preço: 5 

"No one will doubt that, besides water, life is the best thing a human being has."
Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799)


A exposição se encontra no Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, depósito que recolhe as águas provenientes do aqueduto das Águas Livres, no distrito de Lisboa. A construção data de 1834 e sua arquitetura sóbria veste a exibição perfeitamente, combinando com a nostalgia das 28 fotografias escolhidas, assim como o som da cascata e da Arca d’Água que ditam o clima presente no espaço.
Wim Wenders é um realizador de renome alemão, importante figura integrante do Novo Cinema Alemão e, hoje, Presidente da Academia de Cinema Europeu em Berlim. Wenders costuma misturar abordagens transitando entre ficções, documentários e séries de televisão, marcados frequentemente pelo realismo fantástico. As fotografias em exibição foram registradas pelo autor enquanto descobria Portugal em preparação para as filmagens de suas obras O Estado das Coisas, Até o Fim do Mundo e Lisbon Story. Isso se deu entre 1980 e 1994, momento em que o país passava por mudanças políticas e iniciava uma expansão econômica.


A frase de Fernando Pessoa “À luz do dia até os sons brilham” é utilizada como título da exposição,  utilizada pelo realizador em seu filme Lisbon Story, e nenhum outro título cairia melhor aqui também. As imagens de Portugal surgiram com uma visita de Wenders às instalações abandonadas do Hotel da Praia Grande, em Sintra.


Once
at the westernmost tip
of the European continent,
where Portugal has its pointed nose,
at least on the atlas,
I came across an abandoned hotel.
With every wave
the Atlantic asserted its claim on this piece
of land.
This place longed to became a movie,
I felt,
realizing at the same time
that I had already brought the story for it
with me,
and that only here I’d be able to get it off
my chest.
America was “opposite”,
just across the sea.

(Wim Wenders, Once. Pictures and Stories. Munique, Schirmer Art Books, 2015, p.26)

 

A paixão de Wenders por Portugal, suas transformações e sua história foi instantânea.  O clima nostálgico e malancólico de Lisboa acabou em arte.

“e em Lisboa lembrei-me da Alemanha da minha infância.”
(texto: Wim Wenders, Once. Pictures and Stories. Munique, Schirmer Art Books, 2015, p.244) 


Começamos a caminhar pelo caminho cinzento e estreito que dá a volta ao espelho d’água no centro do prédio, o som da água caindo e a música clássica ao fundo acentuam a nostalgia presente nas imagens de Wim Wenders, não só como tema das fotos, mas em suas cores e ângulos. O fato de não se poder tomar distância para observar as fotos, devido ao caminho estreito, força-nos a quase fazer parte da imagem, percebendo cada canto da composição. As fotografias de Wenders são carregadas de detalhes e nuances que só uma boa observação pode captar.


Num ambiente nostálgico e clássico, percorre-se o caminho de 27 obras postas às paredes, iluminadas individualmente, mas também banhadas com a luz natural que entra pelas longas e antigas janelas do edifício. O olhar de Wenders é emoldurado pelos detalhes do local, mas também pela sua história, visto que o aqueduto que desagua neste local é também assunto de imagens em questão. Há história nas imagens e nas paredes que as vestem.

 

A última obra, que também pode ser a primeira, já que o caminho é praticamente um círculo, de numero 28, é enorme e colocada sob o espelho d’água, o chamariz da exposição, primeira e última coisa que se vê.


Wim Wenders pousa seu olhar pelas ruas, telhados, construções, trabalhadores e pelo abandono. Usa de cores e preto e branco, contrastes marcantes entre luz e sombras. Suas composições são recheadas de observação e curiosidade. O descobrimento de uma cidade em pleno estado de transição, uma nostalgia quase palpável. As imagens de Wenders não são apenas documentais, mas uma homenagem à Lisboa, à sua evolução, símbolos de uma transformação que se manifesta no espaço.


A exibição fica até abril de 2016 e, sem dúvida, é uma visita que vale a pena, para quem conhece o trabalho de Wim Wenders ou não.



sábado, 12 de dezembro de 2015

Mercúrio, o planeta maior

“MERCÚRIO”, de António Júlio Duarte 
ZDB - GALERIA ZÉ DOS BOIS
De 4ª a Sáb, 18h-23h, até 28 de Novembro de 2015
Curadoria de Natxo Checa 


O percurso de António Júlio Duarte (1965) em Macau, começou em 1997 com o livro Deviation of the Sun” editado pela Pierre Von Kleist Editions.
Atraído pelo Oriente, nos últimos 10 anos, António Júlio Duarte  (AJD), continua recorrentemente a viajar em busca da indústria do lazer e entretenimento, onde fotografa sem imposições temáticas os seus hotéis, casinos e discotecas. Inebriado por este espírito, com uma câmara de médio formato e um flash, as suas imagens afiguram-se povoadas de universos surreais, insólitos, dúbios, cheios de um brilho decadente, resultando num novo livro “White Noise” editado consecutivamente pela Pierre Von Kleist Editions (Figuras 1 e 2).

    
Figura 1 - António Júlio Duarte, da série “White Noise”, 2011  

Figura 2 - António Júlio Duarte, da série “White Noise”, 2011

            
Destruindo todos os clichés e estéticas previsíveis, AJD convida a uma abordagem crítica em torno das marginalidades invisíveis das grandes metrópoles. O corpo de trabalho de AJD, resulta de uma deambulação por espaços urbanos, mas longe de uma construção racional e calculada dos mesmos. O autor trabalha antes com as relações, oposições, semelhanças e contradições.
O tom das imagens, a nitidez exata, os cenários metálicos e os grandes objetos decorativos, produzem interiores frios, impessoais, futuristas e delirantes. Num discurso intrigante e obscuro, AJD constrói-se partir de um sentimento de desconformidade.

Figura 3 - António Júlio Duarte, da série “Mercúrio”, 2015

“Mercúrio” (Figura 3) é o mais recente trabalho de AJD, produzido e apresentado pela Galeria Zé dos Bois, que assenta e aprofunda o mesmo universo e as questões abordadas em “White Noise” com os seus cenários construídos em Macau.
Ao contrário das inúmeras viagens realizadas para “White Noise”, “Mercúrio” resulta na sequência de uma residência de criação em Macau, de 19 dias entre AJD e Natxo Checa, curador da exposição.
Se por um lado, existe uma identidade comum entre estes dois projetos, “Mercúrio” também se distancia apresentando-se com um cariz anónimo, evocando imagens sem contextos referentes e geográficos (Figura 4).

Figura 4 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

Figura 5 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

À entrada da exposição, (Figura 5) uma densa mancha negra invade os seus visitantes e impele-os a entrar num outro mundo. Aqui não há caminhos, nem setas orientadoras, mas sim um labirinto de corredores sombrios que desaguam em pontos iluminados com imagens isoladas.

Figura 6 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

Pelo fluir da montagem da exposição, o espectador apercebe-se da intencionalidade desta opção. A fuga ao “white cube” e a uma narrativa linear, confronta com “dark-room” e a ideia de fragmentação (Figura 6). Ao invés de conduzir, o autor desafia o espectador a criar sua própria narrativa.

Figura 7 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

Figura 8 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

Tateando sala após sala, o visitante percorre claustrofobicamente uma série de caminhos negros entrecruzados, onde AJD procura para além do documental, “mostrar imagens dentro de imagens” (Figuras 7 e 8).

Figura 9 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

“Mercúrio”, deambula entre imagens desabitadas e abandonadas, entre pormenores e detalhes arquitetónicos, entre planos infernais (Figura 10) e naturezas peculiares, deixando um mistério no ar.
Imagéticas, transfiguram-se para um cenário quase cientifico, gélido, onde o humano é substituído por algo de escultórico, onde por entre escalas e enquadramentos, renascem novas configurações.

Figura 10 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015

A mutação dos espaços, o brilho das superfícies (Figura 11) e a ausência do ser, convocam um sentimento onírico, mas tal como o próprio nome da exposição revela, cheio de vapores tóxicos e corrosivos de uma civilização em queda. Como uma premonição AJD, revela-nos “Mercúrio” como um “envenenamento”, como um espelho tóxico de uma sociedade.

Figura 11 - António Júlio Duarte, da série Mercúrio”, 2015 

Como caminhantes num enredo labiríntico, AJD leva o visitante a uma experiência transcendental que vale a pena penetrar.