terça-feira, 1 de novembro de 2022

Identidade própria no outro e uma dualidade impressa // "O espelho de Mogli", de Olivier Schrauwen


O espelho de Mogli é o ponto de partida assim como o ponto final da história - trata-se do seu reflexo e simboliza a sua identidade, que ele interpreta como algo material.

A partir do momento em que uma macaca bebe das mãos de Mogli a água que reflete a sua cara, parte de si fica implantada dentro dela. A ver de Mogli, esse seu reflexo ingerido pela macaca serve de semente que germina não só a sua conexão com ela, como também uma vida dentro dela. Mogli reconhece o seu reflexo no filhote da macaca, e por essa razão se compromete a viver e cuidar de ambos mãe e filho.





No entanto, após afastar a macaca e consequentemente perder o filhote, Mogli inicia a sua jornada em busca da sua cara metade, o seu reflexo. Por duas vezes julgou poder materializar a sua identidade novamente, mas enganou-se; não encontrou significado algum no esqueleto do pequeno macaco que outrora viu como o seu “mini-eu” por já não se parecer consigo; mas também se deixou enganar pelas semelhanças da sua própria sombra; ao reencontrar a macaca foi rejeitado e derrotado pelo seu companheiro. Até que, enfim, encontra outro homem com quem se funde nas páginas finais, feliz por se reconhecer nele.

Esta publicação é bastante simples na sua encadernação, desenho, palete de cores; para além de não existir qualquer diálogo verbal, resumindo todas as interações entre personagens e seus sentimentos às suas expressões e ações. O mais interessante na sua forma, no entanto, é o uso da simetria para representar a conexão entre Mogli e as três coisas em que se reflete: a macaca, a sombra, e o homem.






Este aspeto de dualidade surge de uma maneira mais discreta num spread que mostra vários estados solitários da procura de Mogli. As manchas que compõem as paisagens do lado direito refletem-se no lado esquerdo, ainda que com outras cores. A meu ver, representa o caminho de regresso que Mogli faz ao seu ponto de partida (físico), mais ou menos inconscientemente.






A maneira como Mogli se reconhece noutros seres e como ele se torna cativo desse reflexo dão que pensar. Apesar de talvez se tratar de uma busca pelo reconhecimento de padrão visual (a forma da sua cara e da sua silhueta), a obsessão que ele tem com esse padrão é tão grande que se torna a sua única ocupação.

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