terça-feira, 9 de novembro de 2021

“Nem todos os livros servem para ler”


O livro de artista é um corpo sem forma fixa e em constante mudança. Não possui limites, barreiras, parâmetros ou definições concretas. Trata-se de uma obra de arte que se incorpora ao formato do livro ou, então, que faz do livro a sua base para dar vida a uma criação artística. 

Quando se pensa na palavra “livro” qualquer pessoa sabe aquilo que é. Podem ser de diversos formatos (retângulo ou quadrado), para diversos públicos-alvos (novo ou adulto), com temáticas completamente distintas e com poucas ou muitas páginas, mas no fim, todos sabem facilmente  identificar um e a sua utilidade. No entanto, nem todos os livros servem para ler. Quando cruzamos a vertente da leitura com a arte, o livro ganha um novo conceito. E é exatamente isso que acontece com os livros de artista de Susan Hoerth e com os livros de artista de Kelly Campbell Berry. Os livros deixam de ser meras páginas preenchidas por palavras, para se tornarem arte, neste caso, esculturas.

Ambas as artistas procuram relatar clássicas/os histórias/contos de infância, somente através das suas esculturas de livro. Isto é, reunem um conjunto de imagens através de recortes e colagens, que dão origem a uma montagem que descreve tudo o que acontece na história. Acaba por ser um pouco confuso entender e visualizar a história ou o conto na minha opinião, mas é interessante e graficamente maravilhoso ao mesmo tempo. Talvez esta grande montagem, de ilustrações simultâneas, justifique a opção por histórias clássicas, para que se consiga visualizar imediatamente a história descrita através de uma só imagem.

Susan e Kelly procuram também reutilizar aquilo que já existe, dando-lhe a possibilidade de prolongar a sua existência e torná-lo mais interessante e inovador. Isto é, dar uma nova vida a livros antigos com algum desgaste e em péssimas condições. Algumas páginas já rasgadas, outras soltas, por vezes sem conter já a própria capa, afetados pela humidade, entre outros fatores. Uma nota ainda importante à cerca dos livros a esculpir, é que estes não podem ser mesmo muito antigos pois as páginas seriam bastante frágeis para trabalhar. E outro exemplo a evitar é também os livros feitos com papel de jornal, pois o papel dobra e enruga muito facilmente.


Qual o processo para dar origem à escultura de um livro?

Primeiramente, procura-se o meio do miolo e abre-se o livro.

Retiram-se todas as partes indesejáveis, deixando presente somente as ilustrações que se pretendem utilizar. O processo anteriormente referido é aplicado às páginas que estão de frente para o público quando o livro está aberto ao meio. No caso em que as ilustrações estão no verso das folhas, ou seja, “de costas” para o público alvo, são removidas e os detalhes importantes recortados. Estes detalhes, ou seja, as ilustrações removidas, são colocadas e coladas numa nova posição para interagir com as outras peças. O livro é portanto "escavado" em torno das ilustrações desejadas. 

Também acontece algumas vezes as ilustrações necessárias estarem em ambos os lados das páginas, como nos livros infantis por exemplo, e nesse caso é necessário comprar duas versões do mesmo livro para se conseguir completar a escultura.



Kelly e Susan abordam os livros de artista de uma forma bastante semelhante. De qualquer forma, os livros de Kelly são mais interessantes no meu ponto de vista, porque ela aborda livros com muita variedade de cor e cores também muito energéticas, ao contrário de Susan que utiliza essencialmente tons suaves e ilustrações mais do género vintage. Inclusive nas ilustrações sem cor, Kelly procura registar apontamentos de cor para tornar o resultado final mais interessante e comunicativo.



Exemplos de livros de Artista de Kelly Campbell Berry:





















Exemplos de livros de Artista de Susan Hoerth:






































Referências:

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Ivorypress e as editoras de livros de artista

O livro de artista é um objeto de valor incomensurável, quer pelo nível de complexidade criativa como pela quantidade limitada da sua reprodução. Muitos são produzidos em apenas um exemplar e podem variar em forma e conceito. 

E, embora o setor editorial apresente um vasto catálogo ao nível da diversidade e cada editora se segmente num mercado e em géneros distintos, há empresas difundidas mundialmente que se focam, quase exclusivamente, aos livros de artista. 

A Ivorypress é um exemplo disso mesmo. 


Fundada em 1996 em Madrid, o projeto abrange atualmente um amplo leque de áreas e atividades no âmbito da arte contemporânea desde possuir um espaço para exposições, uma livraria, consultoria e curadoria de exposições de arte, serviços editoriais até produções audiovisuais e de educação (Ivorypress, s.d.).

O projeto começou com uma pequena secretária e um telefone, mas os relatos que Elena Ochoa Foster, a CEO e curadora da Ivorypress, conta demonstram que os 25 anos deste projeto – celebrados este ano – envolveram muita ação (El País, 2021).

A sua coleção de livros de artista consiste em peças criadas por mais de oitenta artistas, nacionais e internacionais, com obras mais antigas – fundamentais para a história dos livros de artista – bem como exemplos mais recentes. A coleção é um reflexo da paixão de Elena Ochoa Foster por estes objetos, reunindo algumas das peças mais originais produzidas desde o século XIX até aos dias de hoje (Ivorypress, s.d.).


Um aspeto importante da coleção Ivorypress é garantir a restauração e conservação adequadas destas peças históricas. Para isso, contam com a ajuda de profissionais qualificados em todas as áreas da conservação de livros e constroem móveis adaptados para o correto armazenamento, caixas de conservação próprias para cada peça e até recorrem à utilização de materiais que garantem a melhor e maior durabilidade das edições (ibidem).

Neste vídeo, Elena Ochoa Foster revela quais são para si os aspetos fundamentais para a produção do livro de artista e quais os critérios a que recorre para selecionar as peças mais indicadas para expor na Ivorypress:



Embora pequena, mas com uma influência global, a Ivorypress é um projeto de uma vida para Elena, que assume ser perfecionista, tanto consigo como com os seus artistas. Recentemente, em entrevista ao El País (2021), explicou que alguns autores negaram fazer o seu livro de artista, mas que continuou a insistir até que eles vissem que não havia limitação de tempo, materiais ou custos, resultando em projetos que, por vezes, demoram anos para ser terminados. A Ivorypress nunca diz que não a um artista, mas também não aceita um não como resposta. Elena acredita ser “como um instrumento. Sou uma ponte, uma agitadora, para levar o artista ao seu limite” (Financial Times, 2021).

E o mundo fica-lhe grato por isso.

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Ivorypress. (s.d.). Artists’ Books Collection. Consultado em 30 out. 2021. Disponível em https://www.ivorypress.com/en/art/artists-books/

Financial Times. (2021). Elena Ochoa Foster — ‘I am an agitator, to push the artist to go to their limit’. Consultado em 2 nov. 2021. Disponível em https://www.ft.com/content/32e5278e-6d0d-4cea-928e-4b8215448c7c

El País. (2021). Ivorypress, el arte de hacer libros. Consultado em 2 nov. 2021. Disponível em https://elpais.com/cultura/2021-04-04/ivorypress-el-arte-de-hacer-libros.html

O carácter sinestésico do livro de artista

No formato livro e no formato podcast, as relações entre o Verbal e o Não verbal são possíveis. O livro de artista, em particular, é o campo ideal para explorar estas sinestesias e sincretismos. Na realidade, tanto o livro de artista como o podcast podem ter "uma dimensão interpenetrativa entre os vários sentidos e promover a experiência da totalidade fenomenológica" ou, segundo a designação de Merleau-Ponty, “a comunicação dos sentidos” (1945). Pode-se por exemplo, misturar o texto e a imagem, o som, o corpo e o movimento, numa espécie de processo de hibridação transmediática

Neste caso, pretende-se um objeto híbrido e não linear (simplificado e experimental), contrário ao livro tradicional, cuja narrativa é normalmente linear e estruturada segundo um princípio, meio e fim. 
Para a construção deste livro de artista está a ser desenvolvido um projeto de planificação diagramática do mesmo, onde se tenta "coser" as diferentes categorias passíveis de serem transpostas no formato livro - matérica, cromática, eidética e topológica,  os seja, a folha, a tipografia, a imagem, o mapa. 
Estas categorias são os instrumentos gráficos e semióticos considerados para se poder transpor as diferentes camadas/linguagens presentes apenas sonoramente no objeto a artístico escolhido - o podcast Árvores sem Raízes, de Eduardo Costa Pinto. 

As camadas sonoras de cada episódio e as suas transposições primárias para o formato livro são: 

Verbais:
- Perguntas (tipografia)
- Respostas (tipografia)
- Excertos literários (tipografia)
- Música (tipografia)

Não Verbais:
- um percurso (mapa), 
- uma topografia (mapa)
- um ritmo (imagem)
- uma atmosfera (imagem), 

Como resultado da montagem e edição sonora de todos estas camadas narrativas no podcast, surge no sujeito que o ouve uma nova experiência de relação com a cidade e consigo próprio, ou seja, um possível movimento de enraizamento e uma consequente relação de transformação com o espaço urbano.
Esta experiência de movimento pode ser considerada uma outra camada (psicogeográfica / rizomática) e pode traduzir-se no aspeto final do livro, por exemplo. 

Como conciliar e relacionar estas diferentes linguagens no seu processo de transposição para o formato livro, de forma a obter um efeito de unidade no objeto final? Eis alguns princípios:

1. Fazer corresponder a cada uma destas camadas acima descritas uma parte/folha do livro, cuja dimensão e desenho será variável.

2. Explorar graficamente cada uma destas partes/folhas, através da escolha e composição da tipografia, da imagem e do mapa, a sobreposição e a transparência, a cor, a interpenetração de planos, o desenho do espaço em branco, dobras, etc.

3.  Deve tentar traduzir de forma sincrética e sinestésica a experiência de ouvir/ler/ver/sentir este Podcast.
A forma do livro, quando aberto, deverá ter uma estrutura em raíz ou rizoma, representando assim a experiência fenomenológica em que se inscreve o ouvinte deste podcast.

4. Pretende-se um livro pluriplanar, com diferentes possibilidades de leitura e de sentidos, ênfases, cortes, atalhos, percursos, mapas, imagens, diagramas, a descobrir em diferentes tempos ou em tempos sincronizados.

Como referências, apresentam-se este livros de artista:


Capital Cities, livro onde o artista Runjing Wang transforma mapas 
de cidades em enigmáticas malhas, recortando tudo excepto as ruas.



Grace Kwami Sculture,  livro onde o artista Atta Kawami faz uma 
homenagem ao trabalho artístico da sua mãe, Grace Salomé Kwami. 
Desenhado em forma de raíz, em que cada "braço" é dedicado a um 
tópico da sua obra, como a geografia, método de trabalho, história 
e contexto, géneros artísticos e os seus processos concomitantes, 
e é ilustrado com fotografias e imagens do seu arquivo pessoal. 
A impressão foi feita no Royal College of Art, em Londres, 1993.


Apresentam-se ainda os estudos muito iniciais do livro de artista em curso:





Estudos preliminares para o livro de artista (maquete, diagrama 
de planificação do livro, programa de edição do podcast)



Fontes:

Merleau-Ponty, M., O Olho e o Espírito, Ed. Nova Vega, 2013.
Deleuze, G. e Guattari, F., Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 2  - Mil Planaltos, Ed. Assírio e Alvim. 
Barthes, R., Le plaisir du texte, Paris, Seuil, 1973.
Greimas, A. J., e Courtés, J, Sémiotique - Dictionnaire raisonné de la théorie du langage, Paris, Hachette Université, 1986.

http://www.bocc.ubi.pt/pag/babo-maria-augusta-texto-como-textura-heterogenea-texto-como-textura-hibrida.pdf 
https://lume.ufrgs.br/handle/10183/27046
https://westportlibrary.libguides.com/artistbooks

 A Imagem Humana
 

Viajar propõe sair, ir para outro lugar, conhecer outro modus operandi e, por consequência, alcançar outro entendimento. Observamos, absorvemos, questionamos e aproximamo-nos daquilo que, por vezes, não sendo novo, assim se mostra e nos surpreende mais uma vez. Por vezes esta experiência repete-se ao regressarmos aos mesmos lugares. Sentimos que algo foi renovado pois as coisas são-nos apresentadas de forma diferente, com outra roupagem, noutro ambiente. Elas apresentam-se e convidam-nos a disfrutar de uma nova experiência sempre que voltamos a elas. Rebuscamos imagens e outros registos na memória e voltamos com esperança de produzirem em nós a sensação de novidade e surpresa no reencontro. Viajar traz-nos oportunidades de reflexão.



A minha visita à exposição “A imagem Humana – Arte, Identidades e Simbolismo”, patente na “CaixaForum”, decorreu de uma viagem e estadia de fim-de-semana em Madrid. O espaço e a montagem da exposição sugeriram o percurso expositivo que fui fazendo, uma visita a culturas e civilizações antigas apresentadas em contraponto com obras de arte contemporânea. Na entrada, o mote é-nos dado pela frase de Herbert Read  - “Only by conceiving a image of the body can we situate ourselves in the external world” (in The Art of Sculpture, 1956).

O percurso faz-se por entre escultura, pintura, fotografia e instalação, provenientes de várias partes do mundo, mostrando realidades bem distintas. Nos vários suportes e materiais, encontramos a presença do desejo de divindade, poder e estatuto social. O corpo é-nos apresentado como veículo de expressão pessoal e artística. A imagem humana, ao longo dos tempos, foi sendo recreada, assumindo formas, estilos e formatos distintos, procurando manifestar as suas ideias, culturas e tradições. O foco desta exposição é claro: fazer-nos refletir nas questões da atualidade enquanto viajamos no tempo, explorando cinco temas chave – beleza ideal, retrato, o corpo divino, o corpo político e a transformação corporal. 











O discurso é acutilante. Por um lado, esta exposição convida-nos à experiência da contemplação e interpela-nos nas questões da busca constante da identidade dos povos, tantas vezes simbólica e divina, ao longo de milénios de existência humana. Por outro lado, dá‑nos conta de como vivemos rodeados de atitudes e imagens narcisistas, obcecados por um ideal de beleza que é construído e disseminado num mundo virtual. A tecnologia, viciante e manipuladora, capaz de nos influenciar e mudar, chega a ser, principalmente nas camadas mais jovens, instrumento de criação de um outro mundo, confundível com o real e o palpável. Esta inquietação acompanha o percurso da exposição, com questões que vão sendo projetadas nas paredes.

 

O outro desafio é a construção da consciência que deriva da capacidade de compreender o significado das peças em exposição. Para que tal aconteça, precisamos de desvendar a mensagem icónica codificada da obra observada. Cada obra exposta é em si mesma um sistema de relação signo/ Símbolo/ índice. Quando o seu carácter simbólico, representativo de uma época, é confrontado com outros sistemas contemporâneos, entramos em outro paradigma. Não tendo acesso ao conhecimento daquilo que constitui a mensagem icónica codificada, seja ela literal ou cultural, ficamo-nos diante da obra usufruindo apenas da experiência visual/ estética. A contemplação dá-se sem outro alcance.
 
Por conseguinte, no que diz respeito à experiência da verdadeira contemplação, para que haja reconhecimento e entendimento, recorremos às nossas capacidades cognitivas e de armazenamento na memória. É ela que nos permite criar relações com outras experiências vividas, de observação, conhecimento adquirido pela leitura e estudo de fontes e outras formas de registo visual e auditivo. As conexões são feitas no nosso cérebro. Se este recurso à memória não se processa não temos forma de identificar o que vemos e fazer o reconhecimento daquilo que observamos. Não havendo referências não somos capazes de atribuir identidade. E é aqui, neste ponto, que me leva a fazer outra conexão, a da possibilidade da falha. Se a memória nos permite o acesso a registos do passado e a criação de pontes entre tempos, espaços, factos e pessoas, a falha traz-nos a impossibilidade de estabelecer associações e ligações, de recuperar e juntar pedaços de acontecimentos que nos permitam o entendimento e a nossa própria consciência. Sem essa consciência não nos conseguimos situar no mundo.
 














Nesta viagem a Madrid, fiz-me acompanhar do livro “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires, também ele acutilante e cheio de oportunidades de reflexão sobre o tema abordado na exposição. Termino com a citação de um pequeno excerto que, a meu ver, se enquadra neste meu caminho de reflexão.
 
“(…) Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afetos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.”
 (Pires, 2015)


OBRAS CITADAS

Pires, J. C. (2015). De Profundis, Valsa Lenta. Lisboa: Relógio D'Água Editores.

 

Mãos que: falam, veem, ouvem, sentem e pensam

As mãos são quase seres vivos [...] dotados de um espírito livre

e vigoroso, de uma fisionomia. Rostos sem olhos e sem voz que,

não obstante, vêem e falam... As mãos significam ações: fazer,

criar, às vezes, parecem até pensar.

Henri Foncillon









Diz a lenda que “o Homem é a mais bela criação do mundo”.

Um dos mais fascinantes mistérios da pré-história é o surgimento do ser humano e a sua complexidade. 

A mão é um dos órgãos mais importantes do ser humano. Ela é a responsável por atividades completamente antagónicas, que variam de movimentos delicados a precisos, como escrever ou tocar um instrumento, até tarefas que exijam força e potência. É pelas mãos que nos relacionarmos com o meio externo, interagindo com tudo e com todos ao nosso redor.


Assim, podemos constatar que desde os primórdios da humanidade as mãos humanas interpretam um papel de destaque, elas tocam, ouvem, falam, expressam sentimentos…

Já na pré-história, o Homem, assimila-se e representa-se por meio da imagem feita pela própria mão. Começou por fazer marcas de mãos nas cavernas com pigmentos de extratos minerais borrifados pela boca com o auxílio de tubos, utilizando a mão como uma espécie de molde. Hoje, fazemos o mesmo gesto com as mãos sujas de tinta para marcar telas, cartazes, …, continuamos a marcar a nossa identidade, presença, expressão e sentimentos.

No dia-a-dia, podemos observar toda a forma de movimentos expressivos da vida, através das mãos, que são energias: transportadoras, receptoras, vigorosas, educadoras, suplicantes, arrebatadoras e eróticas, assim como, punidoras, destruidoras e violentas. Elas diferenciam o ser humano de todos os animais, elas têm identidade e voz própria.

Anaxágoras, filósofo grego (500 a.C. – 428 a.C.) escreveu que o Homem é o mais sábio de todos os seres porque possui mãos e é através delas que conhece o mundo, justificando esse facto com a frase “ O Homem pensa porque tem mãos”.

São vários os autores a fazer investigações sobre a ação da mão, encetando uma  imensa problemática sobre os seus papéis, comparando-as com a capacidade de ver e com a atividade cerebral. Susan Stuart (2013) valoriza as capacidades de preensão, apreensão e compreensão da mão e afirma que as mãos são instrumentos sensitivos com os quais começamos a experiência que nos permite construir o mundo e que, é a partir desta construção do mundo, que nos construímos a nós próprios. Partilhando a interação da mão (sugerida por Marleau-Ponty em 1968) entre o tangível e o visível e a afirmação kantiana de que “a mão é uma janela para a mente” com um papel afetivo e corpóreo para orientar o sujeito no espaço, Susan Stuart afiança que as mãos estabelecem contacto efetivo e dinâmico de modo distinto do dos olhos e dos ouvidos.  Na sua opinião, as mãos encontram perturbações, sentem a diferença e tecem a mudança, têm vontade própria.

A mão, enquanto dinâmica do corpo, é não só um órgão de desempenho, mas também um órgão de perceção; não só consegue exprimir o que lhe é comandado pelo cérebro, tal como lhe fornece informações muito úteis sobre o meio que nos envolve. É neste encontro, entre a mão e o cérebro que temos um casamento perfeito, uma relação que se potencia mutuamente. “O homem na sua jornada serve-se das mãos, não apenas para sobrevivência, mas também como instrumento de civilidade e refinamento social, onde expressa cumprimento e respeito".

Olhar as mãos faz com que cada sujeito pense no significado do gesto, no emparelhamento das mãos, no poder do toque ,e na marca com que cada uma delas, como um registo que a memória conseguiu recuperar, fez história.

Saramago escreveu uma longa série de palavras sobre as mãos conferindo-lhes uma vantagem humana, porque ao tocar, sentir, sofrer tornam o cérebro capaz de um conhecimento mágico.


“Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. (...) Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. (...) O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo.”

José Saramago in A Caverna







Bibliografia:
Depraz, N. (2013). Phenomenology of the Hand.In Zdravko Radman (editor) The hand, an organ of mind. Cambridge: MIT Press
Focillon, H. (2010). Eloge de la main. in vie des forms. Paris: P.U.F.
Gallagher, S. (2013). the enactive hand. In Zdravko Radman (editor) The hand, an organ of mind. Cambridge: MIT Press
Marleau-Ponty, M. (1968). The visible and the invisible. Evanston, IL: Northwest University Press
Stuart, S. (2013). Privileging Exploratory Hands: prehension, apprehension, comprehension. In Zdravko Radman (editor) The hand, an organ of mind. Cambridge: MIT Press

8000 Capas únicas para a Eye 94

No 1oº Encontro de Tipógrafos, que aconteceu em Matosinhos, conheci o trabalho do Estúdio de Design Britânico MuirMcNeil fundado pelos designers Paul McNeil e Hamish Muir, ambos com portfólios impressionantes e expansivos em tipografia/design gráfico, adquirindo uma abordagem inovadora e única para criar a sua própria linguagem visual.

Neste encontro, o Designer Hamish Muir, apresentou o projecto para a capa Eye Magazine nº 94.

Estes designers desenvolveram um método sistemático/algorítmico para criar  8 000 composições únicas utilizando os sistemas modulares tipográficos TwoPoint e TwoPlus.





Sistemas tipográficos TwoPoint e TwoPlus 

TwoPlus é um sistema modular tipográfico e surge como desenvolvimento do sistema TwoPoints, elaborado pela dupla em 2014. No TwoPlus as letras individuais operam como componentes variáveis dentro dos sistemas visuais diferenciais. Os caracteres são projetados para interagirem entre si e com os da TwoPoint, oferecendo uma enorme variedade de possibilidades visuais.



As letras e e Y foram compostas usando fontes da coleção TwoPlus

A capa e contracapa do Eye 94, é um dos 8 000 diferentes grafismos numerados e impressos numa  impressora HP Indigo 10000 utilizando HP Mosaic, um software que gera automaticamente um número ilimitado de módulos exclusivos com base num padrão fixo. Esse padrão é o elemento central do processo. A tecnologia HP Mosaic usa um algoritmo para criar módulos baseados neste padrão.

Para originar o padrão base, Hamish Muir produziu uma série de composições onde as letras e e y são compostas utilizando as fontes da coleção  Two Plus, a palavra "eye" é repetida em incrementos fixos e deslocada em três camadas para formar uma matriz de formato quadrado, e cada camada é definida numa fonte diferente dos tipos de letra TwoPoint e TwoPlus.




As variações de cor e forma alcançadas com a combinação de fontes nas três camadas de matriz para cada padrão original.

Apartir deste padrão original os designers utilizaram cerca de 76 espessuras de fonte em cada uma das três camadas, deslocadas lateralmente em distâncias proporcionais ao tamanho e espacejamento das letras.

Para estabelecer uma gama de variações visualmente coerente em todo o sistema, definiram uma série de parâmetros dentro dos quais, o software Mosaic da HP foi usado para dimensionar, rodar, alterar a paleta de cores, posicionar e cortar secções de cada padrão. Duas destas secções foram escolhidas, cortadas, e posicionadas no layout das capas para finalmente procederem à produção das 8 000 capas e contracapas numeradas com saídas de design exclusivas. Assim, cada revista tem um número de série gravado na capa, adquirindo importância de um objecto único.















Eye é uma revista de design, publicada trimestralmente para designers profissinais e qualquer pessoa interessada em design gáfico e cultura visual. Está disponível em todas as livrarias de design e online na loja Eye, onde é possível comprar assinaturas, edições anteriores e exemplares avulsos da última edição. E ainda é possível ver a aparência da Eye 94 no site da Eye e no Vímeo antes de comprar.















Joana Choumali - Translation

“I would say that to have an authentic approach, you must know yourself, hence the theme of identity. You must accept yourself, you must have a new look, uninhibited." – Joana Choumali
Joana Choumali (1974) é uma artista visual que nasceu, vive e trabalha em Abidjan, Costa do Marfim. Os seus trabalhos dividem-se entre projectos fotográficos e de meios mistos, nos quais ela combina costura e fotografia. O tema principal em que trabalha é o da identidade, um tema que aborda inicialmente através da suas primeiras séries fotográficas, explorando a relação com o corpo e o conceito de beleza, principalmente femininas. No seu trabalho há um enfoque particular na sua própria história e cultura, e como estas se relacionam com diferentes culturas e continentes. A maioria dos temas que a artista aborda estão estreitamente ligados à sua experiência pessoal e ao seu posicionamento: "as a woman, as an African, as a black woman"

Nas obras de Choumali o instrumento fotográfico é utilizado não só para documentar mas também para interiorizar a própria experiência da artista, em relação ao que ela sente e observa. A fotografia pára a imagem - o momento, a sensação - e concede tempo para re-elaborar o que se está a viver ou já viveu. Ao mesmo tempo, é um instrumento que cria o espaço para abrir conversas e criar ligações entre as pessoas. A artista começa, assim, a ocupar materialmente esse espaço comum, bordando-o, permitindo que narrativas alternativas e pessoais surjam através do desenho dos fios costurados, em diálogo com as pessoas fotografadas. 

Um dos primeiros projectos em que ela explora este processo é Translation (2016-2017), uma série fotográfica iniciada em 2011 durante a crise política e social na Costa do Marfim. Neste momento, Choumali é uma das muitas pessoas na Costa do Marfim forçada a empreender viagens cada vez mais frequentes fora do seu país, e é neste clima político que ela começa a fotografar as pessoas à sua volta, perguntando-se o que irão fazer e para onde irão. Neste projecto, a artista reflecte sobre as desigualdades e dificuldades do acto de viajar devido à sua origem, nacionalidade, cultura ou religião, e sobre as necessidades, desejos e motivações que levam as pessoas a migrar.
“Translation is a series about migrating. Literally and figuratively. By this embroidery work, I wonder what the world would be if we could all move without formalities or visa restrictions, without having to constantly "show guarantees". – Joana Choumali 


Ougadougou - New York, 2016

Ougadougou - New York 2, 2016

Casablanca - Miami, 2017

Banjul - Tokyo, 2017

Banjul - Tokyo 2, 2017

Abidjan - Paris, 2017


Imagens e referências: 


VISIONAIRE

Visionaire é uma agência com base em New York, fundada em 1991 por Cecilia Dean em conjunto com Stephen Gan and James Kaliardos.  De início, a sua pretensão e trajetória eram baseadas na publicação editorial de edições limitadas. O seu primeiro lançamento em 1991, com a edição “Spring”, no valor de US $10 tornou-se rapidamente conhecida, e considerada cada vez menos uma revista tradicional de arte, moda e design, mas cada vez mais uma obra de arte em si — é hoje em dia uma das “revistas” mais caras que existem. O seu posicionamento e escolha desde o princípio em produzir apenas pequenas tiragens e a estratégia de trabalhar sempre em conjunto com artistas em obras únicas foi o que caracterizou e diferenciou a Visionaire no mercado concorrente. Assim, em poucos anos começou a ser retratada como uma espécie de obra de arte, um objeto de desejo de consumo, em que se tornou atraente possuí-lo e expo-lo na sua própria casa. 

Para exemplo da rapidez da evolução do valor agregado as edições, em 1992, lançou-se a Edição 5, “O Futuro”, (vendida pela última vez no eBay por US $ 900). Na edição 53, "Sound", em 2007, a revista foi projetada no formato de um gira-discos de vinil portátil, acompanhado por cinco discos de 120 faixas originais de um minuto, criadas por artistas como David Byrne, U2, Michael Stipe, Courtney Love, Cat Power, Laurie Anderson, entre outros. 


Algumas edições custavam US $ 250, enquanto a edição “Larger Than Life”, por exemplo, que tinha 2,10 metros de altura, custava US $ 1.500 dólares.




A criatividade ultrapassa limites materiais, formatos e padrões esperados para uma revista. Explora-se o máximo no campo da perceção e inovação, pois uma revista não precisa ser quadrada, composta somente de papel e caber nas nossas mãos, a Visionaire busca muito mais do que isso para materializar as suas ideias. 

Portanto, com resultados tão positivos perante as suas publicações a Visionaire expandiu-se para uma agência experimental, que colabora com artistas, influenciadores e empresas por mais de 25 anos. Empenha-se para conceituar e produzir instalações de arte públicas, filmes, experiências imersivas e interativas, conteúdo de marca e múltiplos de arte através das lentes da arte, moda e cultura contemporânea.

Em entrevista para a revista “Vanityfair”, Cecilia Dean responde a respeito da coexistência em relação a Visionaire e o advento da internet, o desafio em como manter o interesse em algo físico e de certa forma estático competindo com a rapidez e velocidade das mídias na internet.


Segue abaixo pequeno trecho da entrevista:

VF: À medida que mais publicações se movem em direção a essas edições ou produtos realmente lindos, mas com menos frequência, ou como você queira chamá-los, eu me pergunto se Visionaire como uma “publicação”, em algum nível, derrotou a Internet?

CD: Você sabe oquê? Eu acho que faz muito sentido. De uma forma tão engraçada e irônica, Visionaire faz mais sentido agora do que antes. A Internet é tão fascinante porque o mundo funciona muito mais rápido, então você está a assistir  tudo em tempo real. Acho que o desafio para as editoras é fazer algo que ofereça uma experiência real ao visualizador, algo que você não possa encontrar online. [...] E acho que as pessoas anseiam por essa experiência, que eles têm que interagir com algo e então algo vai acontecer. A questão da Visionaire é representar uma experiência, não apenas um objeto que eles compram. Acho que as coisas estão mudando o suficiente para que isso seja o que o físico ainda tem a oferecer.


O editorial mais recente lançado foi a VISIONAIRE 69 2020, com curadoria da inimitável estrela Edison Chen. A edição vem como um "kit de stencils" contendo10 stencils feitos de cobre cortado a laser em resposta ao ano mais desafiador de Nick Knight, Naomi Campbell, Tom Sachs, Dr. Woo, Zeng Fanzhi, Cao Fei, LeBron James, Kelly Beeman, Shayne Oliver e Alaia Chen. O cobre é um material que ‘’lembra’’, pois registra as suas interações permitindo deixar marcas de mão e de uso. Foi utilizado com o propósito de ser um objeto em que todas as mãos que o tocarem deixarão marcas que  oxidarão com o tempo, para formar uma camada turquesa única, alterando assim a sua aparência. A edição vem embrulhada em um lenço de seda Clot e inclui uma máscara facial de Barbara Kruger e uma lata de tinta spray preta da marca VISIONAIRE para completar a experiência. 


Segue vídeo do Unboxing pelo próprio artista:

https://visionaireworld.com/blogs/imported/edison-chen-unboxes-visionaire-69-2020-guest-curated-by-edison-chen



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domingo, 7 de novembro de 2021

Divagações

Existe pelo menos um prémio de livros de artista.

Chama-se Prix Bob Calle. No website podemos ver os vários livros que estiveram a concurso nos 3 anos da sua realização (2017, 2019, 2021) e assim ter uma ideia do que é considerado o "melhor" no meio dos livros e artista. Obviamente isto é tudo altamente subjectivo, mas fica a nota. Aconselho-vos a espreitarem todos os livros do concurso. Há muita variedade e ideias engraçadas como neste que precisa de uma lanterna para se ver certas imagens: 


Ou este que reúne fotos de bibliotecas pessoais:



Ou este, que faz lembrar os estudos de cor e repetição de Sol Lewitt (de que falei no último post):


O nome de Bob (Robert) Calle será familiar para alguns, como o é para mim, pois é pai de Sophie Calle. Sophie Calle, nascida em 1953, é uma artista conceptual que admiro desde há muito tempo, quando ouvi falar pela primeira vez do seu projecto "l'hotel". Para o projecto, Sophie encontrou emprego como camareira num hotel, em substituição de alguém durante 3 semanas. Nessas 3 semanas, examinou os pertences pessoais das pessoas que ocupavam os 12 quartos que lhe foram atribuídos. A partir dos pertences, imaginou as vidas e as rotinas dos clientes. Este projecto alia a realidade à imaginação, criando histórias a partir de ambientes. A componente voyeurista é também muito importante no trabalho de Sophie, sendo que chegou a pedir à mãe para contratar um detective privado para a seguir e assim ter um registo da sua vida através de olhos desconhecidos — se isto não é algo de deliciosamente fantástico?

Bob Calle esteve responsável pelos arquivos de Christian Boltanski, também ele artista conceptual. Tal como Sophie Calle tenta "escavar a superfície das coisas, procurar o lugar-comum, desenterrar evidências", embora os temas sejam diferentes — Boltanski foca-se mais na história e na memória colectiva, e Sophie nas "neuroses do dia a dia".


Uma nota interessante é que Robert Calle, para além de coleccionador e apaixonado por arte e livros (e temos de lhe agradecer pela inspiração e referências passadas à filha), era também médico e foi director de um Hospital durante alguns anos. Tenho vindo a reparar numa relação muito próxima entre a medicina e a arte (sendo que englobo todas as artes). Médicos que são pintores, escritores, ou artistas que se interessam muito por medicina. Basta pensar em Leonardo DaVinci, Frida Kahlo (queria estudar medicina inicialmente), John Keats (chegou a ser assistente em cirurgias), Sir Arthur Conan Doyle, Miuccia Prada, Art Garfunkel, Anton Chekov ou Gertrude Stein. Enfim, ainda não aprofundei muito o assunto mas tenho a certeza que tem alguma explicação neurológica.