Dou por mim a desbloquear o telemóvel sem saber bem porquê. O gesto é quase automático. Um scroll leva a outro, imagens sucedem-se sem pausa, vídeos começam antes de eu decidir vê-los, anúncios confundem-se com conteúdos pessoais. Não é que faltem imagens: é exactamente o contrário. Há tantas que o olhar parece cansar-se antes mesmo de se fixar. Foi a partir desta sensação de saturação que comecei a pensar no que significa viver numa cultura visual marcada pelo excesso.
O conceito de overload visual descreve este estado de sobre-estimulação constante a que somos sujeitos diariamente. Ao contrário de outros momentos da história, em que as imagens eram mais escassas e localizadas, hoje elas são omnipresentes, móveis e incessantes. Redes sociais, plataformas de streaming, publicidade urbana e interfaces digitais competem pela nossa atenção num regime de visibilidade contínua. Jonathan Crary descreve este fenómeno como parte de um sistema que não dorme, onde a atenção humana se torna um recurso explorável e a percepção é constantemente solicitada (Crary, 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep). Esta abundância não significa, no entanto, maior profundidade de relação com as imagens. Pelo contrário, muitas delas são consumidas rapidamente, esquecidas quase de imediato. O olhar aprende a deslizar, a filtrar, a ignorar. Há uma espécie de economia do olhar em funcionamento: vemos muito, mas olhamos pouco. Hito Steyerl fala de imagens “pobres” (poor images), não no sentido de qualidade técnica, mas na sua circulação acelerada, comprimida e descontextualizada, que privilegia a velocidade em detrimento da contemplação (In Defense of the Poor Image).
É neste contexto que a proliferação contemporânea do termo aesthetic começa a fazer-se sentir de forma particularmente evidente. Dou por mim a reconhecer como esta palavra, que antes associava sobretudo à teoria estética ou à crítica de arte, passou a surgir constantemente nos meus feeds de Instagram e TikTok, usada como atalho visual para definir estilos, estados de espírito e identidades. Estéticas como cottagecore ou dark academia funcionam como repertórios visuais fechados, compostos por imagens reconhecíveis, atmosferas específicas e referências partilhadas. Ao mesmo tempo que oferecem um sentimento de pertença e identificação, estas micro-estéticas tornam-se rapidamente repetitivas, replicáveis e previsíveis. Muitas vezes sinto que já “vi” uma estética inteira num só scroll. Esta lógica de consumo estético rápido contribui para o cansaço do olhar: a imagem deixa de surpreender e passa a confirmar expectativas, reforçando a saturação visual que caracteriza o ecossistema digital contemporâneo (Washington Post, Why Everything Is ‘Aesthetic’ to Gen Z).
Com o tempo, este regime visual começa a produzir efeitos no próprio corpo. A fadiga do olhar não é apenas metafórica. Estudos recentes na área da psicologia cognitiva e da comunicação digital apontam para uma diminuição da capacidade de atenção sustentada, associada ao consumo constante de conteúdos visuais fragmentados. O cansaço não vem de olhar demasiado, mas de olhar sem pausa, sem silêncio visual, sem tempo para digestão perceptiva. Esta informação coloca-me numa posição ambígua. Por um lado, estou imersa neste ecossistema de imagens, faço parte dele, produzo conteúdo, consumo, partilho. Por outro, sou chamada a analisá-lo criticamente. Esta tensão levanta uma pergunta importante: como pensar criticamente a imagem quando estamos exaustos de a ver? Talvez seja precisamente nesse cansaço que reside um ponto de partida. Reconhecer a fadiga do olhar pode ser o primeiro passo para imaginar outras formas de ver: mais lentas, mais conscientes e mais corporais.
Algumas práticas artísticas contemporâneas parecem responder a este problema propondo pausas, vazios, repetições lentas ou experiências imersivas que exigem presença. Instalações, vídeos de longa duração ou obras que recusam a lógica do feed infinito funcionam quase como atos de resistência à aceleração visual. São imagens que pedem tempo — e, ao fazê-lo, devolvem-nos o direito de olhar com atenção. Pensar o overload visual não é apenas criticar o excesso de imagens, mas questionar as condições em que elas circulam e são consumidas. Que imagens merecem o nosso tempo? Que corpos ficam de fora deste fluxo visual dominante? E que formas de ver ainda podem ser reaprendidas? Num mundo saturado de estímulos visuais, talvez a tarefa mais radical seja simplesmente reaprender a olhar.
Webgrafia:
Crary, J. (2013). 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep. Verso.
Steyerl, H. (2009). In Defense of the Poor Image. e-flux journal.
Mirzoeff, N. (2015). How to See the World. Penguin Books.
Denson, S. & Leyda, J. (2016). Post-Cinema: Theorizing 21st-Century Film. Reframe Books.
Carr, N. (2010). The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. W. W. Norton & Company.
Artigo: “The Attention Economy and the Fatigue of Seeing” - Journal of Visual Culture, Sage Journals.
The Washington Post (2023). Why everything is “aesthetic” to Gen Z.
Dazed Digital (2021). How “aesthetic” became the defining word of online culture.
Highsnobiety (2020). The Internet’s Obsession with Aesthetics.