sábado, 31 de dezembro de 2016

Almanach Perpetuum, de Abraão Zacuto

Em dezembro de 2016 passam 520 anos desde que D. Manuel I ordenou a expulsão dos judeus de Portugal.
Seguindo o exemplo dos reis católicos espanhóis, D. Isabel e D. Fernando, o rei português decretou a expulsão do país de todos os judeus que recusassem a conversão ao catolicismo através do batismo, rompendo, assim, com uma longa tradição de tolerância cultural e religiosa. D. Manuel cedia, desta forma, a uma condição imposta por Espanha, para que pudesse casar com a viúva de seu primo Afonso, D. Isabel, e milhares de judeus tiveram de optar entre a expulsão e a conversão.
Aquando da expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, Abrãao Zacuto, astrónomo, matemático e historiador de origem judaica, refugiou-se em Lisboa, tendo sido nomeado astrónomo e historiador real por D. João II, cargos que exerceu até ao reinado de D. Manuel I.  Zacuto foi consultado por este monarca acerca da possibilidade de se viajar por mar até à Índia, projeto que apoiou e encorajou.

Primeira página das tabelas do Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto



Nos finais do século XV, entre os primeiros quatro livros impressos em Portugal, surge o primeiro livro de cariz totalmente científico, referente não a temas literários ou religiosos mas à matemática e à astronomia, o Almanach Perpetuum, da autoria de Abraão Zacuto, publicado originalmente em hebraico e traduzido para latim e para castelhano pelo Mestre José Vizinho, médico da corte de D. João II, astrónomo e discípulo do autor.
Do ponto de vista técnico, a tipografia dos judeus portugueses era uma das mais avançadas da época: as suas edições eram cuidadas, impressas em bom papel ou pergaminho, sobriamente decoradas e com tintagem bem distribuída. A composição era feita com caracteres de excelente recorte, do género sefardita (comum às edições portuguesas e espanholas), diferente do utilizado noutros países europeus, designadamente na Itália e na Alemanha.
O Almanach Perpetuum é o primeiro livro com origem na comunidade judaica mas destinado a um público mais vasto e não apenas ao público da religião judaica, uma vez que foi impresso em latim, a língua franca da Europa de então.
O facto de ter sido impresso em 1496, pouco tempo após a introdução da técnica de impressão em Portugal, mostra a importância da divulgação da informação que consta nesta obra.
O Almanach Perpetuum reproduz o movimento dos astros por referência a coordenadas astronómicas. Prevê os momentos e coordenadas de acontecimentos celestes, as chamadas efemérides. As suas tabelas numéricas permitiam determinar a posição dos astros, o momento dos eclipses e fazer diversos cálculos astronómicos e astrológicos.
Com as primeiras quatro tabelas solares do Almanach era possivel determinar com rigor a posição do Sol na eclíptica. Com este valor, recorrendo a uma quinta tabela, era possível obter o valor da declinação do Sol, parâmetro necessário para o cálculo da latitude do lugar de observação, quando utilizada a medida da altura meridiana desse astro.
As tabelas eram válidas para os anos de 1473 a 1476. Para os anos seguintes era necessário fazer cálculos, através de uma outra tabela que Zacuto integrou na obra. O grau de precisão era tal que elas foram utilizadas como base de diversas outras tabelas destinadas aos navegantes, onde se indicavam os resultados dos cálculos requeridos pelas tabelas de Zacuto.
Estas tabelas foram essenciais para o bom sucesso das navegações ultramarinas portuguesas.
O desenvolvimento da arte de navegar e, consequentemente, os Descobrimentos, que muitos apontam como o início da globalização, jamais teriam sido possíveis sem o contributo técnico, científico e cultural de árabes e judeus.
Num ano como o de 2016, marcado pela intolerância cultural e religiosa, patente na crise dos refugiados, no terrorismo e no ressurgimento de ideologias nacionalistas e de extrema direita, sobretudo na Europa, é importante recordar o exemplo da obra de Abraão Zacuto e do seu impacto civilizacional e histórico. Sem tolerância e abertura de espírito esta obra jamais teria sido publicada.







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