quinta-feira, 19 de maio de 2022

A Cultura no Muro


 

   Existe um lugar particular onde apuramos os nossos ouvidos, expressamos com o corpo, emocionamos, partilhamos o que pensamos ou simplesmente alimentamos o nosso intelecto. É um espaço genuíno, diversificado, vanguardista, liberal e criativo. É assim que descrevo a Sociedade Musical União Paredense, mais conhecida entre  os habitantes da terra (Parede), como a “SMUP”. Começa as suas iniciais “SM” como tantas outras sociedades musicais dispersas pelo nosso país,  muitas delas não são mais do que vestígios reminiscentes de um passado esquecido, estagnado e que agora servem para encontros nostálgicos ou apenas para passar o tempo entre uma partilha de bilhar, um jogo de cartas ou de tabuleiro. 

     Bem próxima do mar, a SMUP regista 123 anos de história, sobre a figuras desta terra, sobre os inúmeros eventos culturais e festas recreativas. Mas conseguiu inovar-se, remodelar e modernizar-se para um espaço de fruição cultural diversificado livre e de experimentação. Fundada em 1899 e ao longo do sec XX passou por momentos da monarquia e da república,  superou uma ditadura, cresceu e acompanhou todo o desenvolvimento urbanístico e cívico desta zona de Cascais. Sob uma atitude filantrópica aliada à difusão da cultura musical, a SMUP esteve assente sobre duas frentes: a música pública (concertos e arruadas) e a realização de eventos. A educação pela prática musical acabou também por surgir mas mais tarde. A banda filarmónica é o elemento, impulsionador de todas estas atividades que aqui são realizadas. Durante a década de 50 do sec.XX surge nas tardes de domingos os bailes dançantes abrilhantados por grupos musicais formados pelos próprios elementos da banda filarmónica. Entre as diversificadas atividades, foi também criado um orfeão que acompanhava a banda nas suas atuações. Infelizmente o seu tempo de vida não foi muito longe e os elementos foram incentivados a integrarem-se no grupo de teatro da Sociedade, género revista.


     Ao longo da historia da SMUP, sente-se o forte caracter colaborativo e mesmo atravessando por altos e baixos entre os anos 60 e 70 derivados das dificuldades financeiras ou remodelações sofridas, esse espírito perdura até hoje. Nessa época e com as atividades suspensas, a SMUP mantem apenas os bailes aos domingos e a abertura de um novo espaço destinado à restauração e que funciona até aos dias de hoje.
   Depois de uma interrupção e nos anos 80, as atividades culturais habituais voltaram, surgindo também as aulas de dança, além da escola de música como forma de atrair novos elementos à banda da SMUP e também os campeonatos de xadrez que infelizmente acabaram por desaparecer.


    Em 2013 e após uma nova intervenção do edifício, a SMUP arranca na sua organização um coletivo jovem, eclético e mais próximo das tendências atuais na cultura do sec. XXI. A SMUP é hoje mais do que uma sociedade musical. É um universo de oportunidades nas diversas áreas culturais da música, teatro, dança, literatura, e artes visuais. Na musica há espaço para o jazz desde os grandes nomes ou músicos mais jovens, portugueses e até estrangeiros. Para os melômanos é possível descobrir projetos interessantes com sonoridades de caracter experimental. O sótão do edíficio, entre sofás,  poltronas e um candeeiro de pé, confere um lugar mais intimista para estes concertos que se realizam das quintas-feiras aos sábados. Este mesmo espaço é também dedicado a sessões de leitura e partilha de palavras e pensamentos. Ainda no mesmo piso é possível espreitar o terraço que no verão convida-nos a admirar as noites estreladas de luar.

     


  
    Mesmo com uma diversidade cultural e musical, é impossível esquecer a banda filarmónica, que continua a ecoar na Rua Capitão Leitão ou animar em dias de celebração, os jardins ou o paredão da praia. A escola de música mantem a aprendizagem dos seus alunos através dos instrumentos que a Associação disponibiliza. São vários os projetos culturais que aqui iniciaram o seu percurso, atraindo visitantes de Lisboa que se deslocam à Parede para ver e ouvir. Falo por exemplo do festival Microclima que acontece anualmente e é uma oportunidade para os músicos de diferentes géneros musicais (a edição deste ano contou com a presença de Filipe Karlsson e Tito Paris) e artistas visuais (como Luís Lázaro), apresentarem os seus projetos. Este festival tem vindo adquirir notoriedade no circuito dos pequenos festivais que surgem na grande área de Lisboa.

    Como qualquer Sociedade musical há um salão e quando não há festa ou espetáculos é o local onde são realizadas as aulas de dança com a coreografa Aldara Bizarro ou de Teatro com o Encenador Manuel Jerónimo. Conta-se ainda as atuações do grupo Teatro Riscado a realização de pequenos ciclos de cinema, debates ou exposições de fotografia. Os domingos são dedicados à família e nas férias de verão há ainda a realização de worskshops e actividades orientadas para as artes visuais. 


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    A atual organização da Sociedade é jovem versátil e muito criativa, provindo de diversos meios profissionais e artísticos. Entre os elementos da direção encarregues na divulgação do programa conta-se também com artistas visuais e ilustradores, como Bernardo Carvalho, Joana Pardal e Madalena Matoso, para concepção dos cartazes bem como as imagens colocadas nas redes sociais concebida para cada tipo de evento. 






    
       Esta coleção de cartazes enquadram-se no espirito que aqui se vive e nos eventos realizados. Com uma composição de elementos que regem pela simplicidade, contraste, e clareza na mensagem, os cartazes são de uma grande qualidade gráfica. Alguns com uma linha mais minimalista outros de composição mais compactas o resultado é harmonioso. Sobreposições e combinações cromáticas de figuras, além de um ritmo e uma rica intensidade estética, entre o traço, a mancha, geometria, e tipografia utilizada. É uma composição equilibrada onde a comunicação entra numa harmonia entre a forma e o sentido das palavras. Ao percorrermos pelo interiores do edifício, os cartazes que por ali estão dispersos preenchem as paredes transformando numa especie de exposição permanente.





        A SMUP sem pretensões, distingue-se pela sua diversidade, está viva e recomenda-se. Como seria o país se existissem espaços culturais próximos da população, que promova a cultura nas diferentes áreas intelectuais ao serviço de todas as idades, alcançando assim os que ainda não entenderam que precisam dela.


Sejam bem-vindos



                                                                        



*Fotos: https://www.facebook.com/smup.parede/photos/?ref=page_internal










Imersão do movimento

    Com palco no BAG, Banco das Artes Galeria, a  30 de abril decorreu uma performance dinamizada pela 10ª edição do festival de artes performativas Metadança, na cidade de Leiria. O festival recebeu a 9ª residência artística, um grupo de alunos da escola superior de dança que criaram um Site-Specific (obra baseada no espaço/o seu local de exposição) desenvolvida no espaço do BAG, construído em 1923, a antiga delegação do Banco de Portugal de Leiria, uma das obras do arquiteto Ernesto Korrodi.

    Esta performance surpreende a audiência pela imersão no edifício e pelo jogo de interação com as obras expostas na galeria, da exposição VARIOUS POSITIONS dos artistas Run Jiang, Rodrigo Canhão, Luís Silveirinha e Luís Almeida. De forma estudada, conseguiram conectar a sua presença e movimentos com o interior e exterior do edifício.


     

     Começando esta viagem no exterior, em frente à porta do edifício, observando as figuras peculiares (dançarinos) que dele surgem, conseguimos logo  reparar no seu envolvimento e fluidez com as formas do edifício. Começa por ser apenas um personagem que se encontrava sentado na escadaria da entrada. Este levanta-se e saltitando desloca-se até ao portão do jardim interior do mesmo, comunicando com movimento convida os restantes dançarinos do grupo a segui-lo, que da mesma forma saltitante se deslocam. Rapidamente convidam os espectadores a acompanhá-los através do portão do jardim interior. Daí de formas discretas e fluidas, guiam o grupo de espectadores pelas diferentes salas e corredores, tendo um ritmo adequado às obras expostas em cada espaço. Com um jogo de diferentes momentos e focos de atenção, conseguem captar a nossa atenção e dessa forma criam um jogo de interesse e submersão.

    Durante o decorrer da performance, criam vários momentos de interesse e intriga por parte do espectador, desde esconderem-se entre as plantas até uma repetição de falas que eventualmente se começam a sobrepor umas às outras. Isso culmina num momento em que todos falam ao mesmo tempo e as palavras perdem a definição e sentido enquanto os dançarinos se movimentam se de forma perdida e confusa.

    Tudo isto é interrompido quando se desligam as luzes. Aos poucos, voltam a movimentar-se em direção aos espectadores que sentem a necessidade de se movimentar para lhes abrir caminho.


    Eventualmente o grupo é levado para o cofre do edifício, que era usado quando este ainda exercia a sua função original como Banco de Portugal. Quando todos os espectadores entram, os bailarinos fecham a única porta do cofre. Numa correria vão à volta do cofre passando pela porta e espreitando para o seu interior. O ritmo vai acelerando e culmina ao voltarem um a um espreitando pela porta. Apagam as luzes e as falas sobrepostas sem nexo regressam. O ambiente foi totalmente alterado. Por fim ficam em silêncio, lentamente abrem a porta e voltam a ceder passagem para que os espectadores possam ser "libertados".


      

    Por duas vezes fui surpreendida com uma leve troca de lugar, em que deixamos de ser o espectador para ser o espectado. Há o momento dentro do cofre em que os dançarinos nos observam e vão passando, passando nós a ser o objeto de observação. No final, que termina no mesmo local em que começou, as nossas posições estão invertidas. Dançarinos na rua observando-nos, e espectadores nas escadas no edifício sendo observados. Conseguem com a expressão do seu corpo explorar o edifício de forma não óbvia e inovadora, são expressivos, comunicam muito bem sem palavras o que devemos olhar, onde devemos olhar, onde devemos ir. Conseguem captar a atenção em momentos chave, conseguem nos confundir quando assim o pretendem, e voltar a captar a nossa atenção com um estrondo impactante. Controlam a atmosfera e o seu som.

 





 

A Outra Vida dos Animais

A exposição A Outra Vida dos Animais, com a curadoria de Emília Ferreira, diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), conta com obras de desenho, pintura, fotografia, escultura, instalação, vídeo e media art de diversos artistas. 


Disponível no MNAC de 5 de maio a 28 de agosto de 2022, a exposição conta com o mecenato da Fundação Millennium bcp e dirige-se a um público infantil onde, no entanto, todas as idades são bem-vindas. Está patente ao público das 10h às 13h e das 14h às 18h todos os dias da semana à exceção de segunda-feira.


Ao entrar na primeira sala de exposição deparamo-nos de imediato com sons da natureza, os quais produzem um efeito imediato no visitante.

Num primeiro impacto, observa-se a fotografia de um Francelho, algures na Ilha de São Vicente em Cabo Verde.


 

Ouvindo a media art de Júlia Lema Barros que mais à frente, se nos depara numa sala escura, a pintura a óleo sobre tela de Ema M de um coelho e de um caracol metamorfoseiam-se noutros seres vivos. 

 



É uma imersão que se primeiramente assusta o expectador, de seguida o convida ao mundo do sonho. Remonta a um tempo em que à noite, deitados na cama, escutamos os sons dos grilos lá fora, vislumbramos as silhuetas dos morcegos que parecem querer transformar-se... 

 

São sons familiares que nos querem teletransportar à nossa infância. Que nos questionam de novo sobre como funcionam os cérebros destes animais e que parecem querer transmitir algo na sua própria linguagem.

 

É nesta viagem que se sucede o quadro de Júlio Pomar em que um tigre ruge um som inaudível que ressoa interiormente a nossa natureza mais selvagem e ousada. As pinceladas surgem livres e o aspeto mais definido é o olhar e a boca aberta. Este representa o medo do desconhecido em que a pergunta que surge no catálogo de visita nos questiona sobre que vida secreta criaríamos nós para este tigre?


 

Continuando a caminhar, a segunda sala de exposição oferece novas perspetivas sobre o mundo animal. No entanto, é na sala que se segue que Henrique Pousão expõe num óleo sobre madeira, uma Cabeça de boi, elaborado numa técnica arrebatadora. Obra esta que, ladeada por outros quadros de gado, remonta a uma pastorícia antiga, mas que ainda hoje é tão presente na paisagem de Portugal. 


 

No mesmo instante, já se ouvem novos sons da sala ao lado. São vozes de crianças que nos interpelam e conduzem a uma última sala escura. No ecrã um vídeo HD, em stereo sound de sete minutos encerra a exposição num No ordinary protest de Mikhail Karikis. 

 

Neste vídeo as crianças encontram-se de olhos fechados. Ouve-se um diálogo:


- She hears noises...


It’s the cries of the creatures.


- Where are they?


- They’re everywhere…


- What happened?


- Grown ups poisoned everything.


- And the children?


- She gave them the power of the noise. 

O diálogo termina e as crianças cantam. As suas vozes clamam em uníssono:


Justice!!!


- Creatures!!!


- Power!!!


- Action!!! 


As crianças rastejam mascaradas, ao som de zumbidos e sons arrepiantes da natureza.

 

Este protesto nada comum instiga à mudança. São pequenos ativistas que nos fulminam ora com o seu olhar, ora com o seu diálogo. “Podem as crianças mudar a forma como pensamos sobre a justiça entre as espécies? Podem criar mudanças sociais globais? Se fossem super-heróis qual seria o seu super poder?”, estas são algumas das questões que Mikhail Karikis nos coloca.

 



Na minha opinião a exposição coloca-nos no cerne principal de uma questão fundamental dos nossos dias: Qual a Outra Vida dos Animais?

 

Através das várias obras expostas e ao som dos mais diversos animais, somos levados a reconhecer a natureza da vida, isto é, a qualidade da vida dos animais que vingam no planeta Terra apesar de tantas contrariedades. 

Viagem Sensorial

 Ao entrar nesta exposição senti como se o meu pai me acompanhasse, pois foi ele que me apresentou ao mundo fantástico da arte, que nos faz viajar e pensar em tudo o que nos rodeia, em harmonia com a natureza, vai ser esta exposição, na forma de instalação uma viagem em torno do oceano e da vida nos fundos marinhos.





Ao chegar aos jardins da Gulbenkian, evadidos pela luz do sol, damos lugar a uma escuridão imensa que se vai eclipsando pela sala fora, o chão, as paredes, o tecto  confundem-se, como se a mergulhar no oceano, nas profundezas estivéssemos a ir em direcção ao fundo do mar.

À medida que caminhamos no espaço, qual Julio Verne, vamos olhar através das luzes apontadas para as obras de diferentes cores expostas no chão, começando uma viagem sensorial na contemporaneidade, de uma visão que começa difusa que nos remete para uma aventura inesperada, e ao chegar ao fundo do mar, vemos que há uma vida, uma comunidade de corais. Entre o escuro e a luz, o visitante torna-se um performer no espaço, pois aparece e desaparece. 





A luz começa a voltar e ao olhar para trás tudo fica nítido, é brutal esta viagem, que nos leva a ter tempo, para caminhar, ver, sentir, tocar e explorar e simplesmente desfrutar desta original experiência em contraste com uma sociedade em que tudo é rápido.

É como se fosse uma festa dos sentidos, as esculturas expostas em resina acrílica e objectos têxteis, mantas, tapetes, em camadas acumuladas e sobrepostas como estratos sedimentados.

Ecosistemas, nos quais cada objecto-coisa-criatura age e se relaciona com o outro.

Medusas, seres marinhos, 

Ao olhar para o chão, e ver o caminho e as obras, ganhamos consciência do nosso próprio corpo.

Diz o artista, In Timeout: “ A ideia é fazer as pessoas aproximarem-se. Cada uma delas vai criar as suas narrativas, e fazer os seus caminhos. E torná-las activas.”

É impossível de ver rodando sobre o seu eixo vertical.





O artista visual pegou nas profundezas do oceano, e com a sua artistícidade, transformou-o em poesia nas formas que criou, aliando a arte, a cultura e a natureza  servindo como um alerta, para tratarmos com mais cuidado e carinho, os oceanos, que tal como nós, que vivemos em comunidade, também no fundo do oceano existem comunidades.

A água, os oceanos são a fonte essencial de vida no nosso planeta, como tal é necessário alterar os nossos comportamentos, para viver um maior equilíbrio, com a natureza, e connosco, com os seres marinhos e as comunidades de corais.

Tal como na viagem a esta exposição, aos oceanos, torna-se claro, como cita: carson, rachel, p.3 em “Moldada na escuridão”:

“…ao homem no decorrer de uma longa viagem pelo oceano, ao observar a linha do horizonte a regredir dia após dia, encrespada e sulcada pelas ondas; quando à noite se apercebe da rotação da terra ao ver as estrelas moverem-se sobre a sua cabeça; ou quando sozinho num mundo de água e céu, sente a solidão do seu planeta à deriva no cosmos. É então que compreende, como nunca em terra, que o seu mundo é aquático. Um planeta dominado pelo manto protetor  do oceano no qual os continentes não passam de transitórios intrusos terrestres sobre a superfície do omnipresente mar.”.





O que sai desta exposição, instalação é que depois de entrarmos nesta escuridão, por vezes desarmante, de um mundo desconhecido e fantástico do artista visual, Hugo Canoilas, vai ela servir como uma reflexão feita à medida que vislumbramos luz quando chegamos à superfície da água, embalados em ondas de espuma nos apercebemos que o nascimento da terra, nos oceanos, tem de ser gradual e respeitado, e perceber que as acções do homem vão ter consequências, e que o ser humano não está acima de nada nem de ninguém, somos todos seres vivos, e todos fazemos parte da natureza, está na altura de mudar uma relação de luta e desafio  com os recursos naturais, aproveitá-los e respeitá-los, tal como os elementos, a água, a terra, de forma a crescemos em harmonia e a ter arbitrariedade, o que significa que nada nos obriga a ter os mesmos comportamentos que os outros, temos de seguir o que a nossa consciência nos diz, que é ganhar uma maior consciência para a importância vital do elemento água, que sem ela nada existe. 



Local: Museu Calouste Gulbenkian- Galeria de exposições temporárias 

Hugo Canoilas - "Moldada na escuridão"

Data: Até 30 de Maio de 2022

Horário: Quarta-Segunda feira, das 10:00-18:00 Entrada livre


Bibliografia


Weil,Benjamin, Carson,Rachel & Rita,Fabiana, Canoilas,Hugo, Fevereiro de 2022,Moldada na escuridão, sculptured in darkness, Editorial coordination, Fundação Calouste Gulbenkian

Nas Profundezas do Oceano

Hugo Canoilas teve o privilégio de conceber uma exposição especificamente para a galeria de exposições temporárias do Museu Gulbenkian. Teve como inspiração a sua investigação sobre os fundos marinhos, do qual criou criaturas para além da imaginação com aspecto híbrido. Com o título Moldada na Escuridão é possível visitar esta exposição até 30 de maio com entrada gratuita.

Ao entramos na sala da exposição somos envolvidos por uma tremenda obscuridade com apenas focos de luzes iluminando os objetos expostos. Com salpicados de cores entre vermelhos, laranjas, verdes e azuis, que trazem vida a está sala escura. Há uma grande dificuldade para vermos a nós próprios ou os outros visitantes, é como se fizéssemos parte deste profundo oceano.

Foto: Mariana Abdulrehman

A sensação que temos ao observar estas diversas criaturas fantásticas é que de certa forma apresentam também as suas emoções através da cor marcante de cada uma. O azul em que representa a serenidade e tranquilidade do mar, ou o vermelho onde se sente uma raiva como a tormenta que a vida marinha enfrenta. Ou em particular o verde, que lembra uma metáfora do despejo do lixo tóxico nos oceanos.

Foto: Mariana Abdulrehman

Quase todas as peças são possíveis de observar em 360º na sua total amplitude. Podemos ver em pormenor os pequenos pormenores que definem estas criaturas no seu ecossistema. Várias destas peças se assemelham a grandes conchas onde por vezes encontramos um pequeno objecto ao centro feito de vidro ou resina acrílica. Também temos criaturas feitas de têxteis que parecem criaturas com tentáculos, como polvo ou lula.

Foto: Mariana Abdulrehman


Só mesmo visitando é que podemos as profundezas do oceano. Um mundo obscuro mas no entanto repleto de vida e cor.

Palavra para libertar - O caos poético de Pasolini

Este ano celebra-se o centenário de nascimento do dramaturgo, poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Em Lisboa, a Culturgest assinalou a data trazendo para o palco o texto Orgia, encenada por Nuno M. Cardoso e apresentada entre os dias 7 e 9 de abril.

Para quem ainda não conhece a obra de Pasolini, uma referência inesquecível do cinema italiano do século XX, a peça Orgia segue a estética existente na dramaturgia do autor, ao apresentar um relato que passa de um lirismo insatisfeito às pulsões violentas em segundos. 

Encenada durante uma hora e meia na penumbra, a peça decorre num espaço cénico que retrata um lugar escuro, aparentemente húmido, circunscrito por um tipo de lama argilosa, na qual as personagens rastejam durante a performance. No prólogo observamos um homem (Albano Jerónimo), já morto, e que encara com insistente silêncio toda a plateia. Em seguida ele partilha os seus pensamentos, na tentativa de explicar entre o passado e o presente, como foram os momentos que antecederam ao seu suicídio.

Antes do início do espectáculo - (Marcação do Prólogo) Foto: Mariana Faria.


Este homem que vos fala pendurado de uma corda, com os ossos do pescoço partidos e já frio, foi aquele que se costuma dizer, um homem como todos os outros. Não foi poeta nem doido, nem miserável, nem drogado. Esteve com todos os outros do lado do poder (…)

Na orbita do poder há por isso a liberdade, a liberdade mais verdadeira, a dos animais, de quem não entra em choque com a sua própria existência (…)

Aceitei sem nenhuma reserva que existisse o poder, e adaptei-o com todo o conformismo necessário (…)

Fui mesmo daqueles que na sua liberdade não conheceu nem o amor, nem caridade, nem outras dificuldades da consciência… mas a paz deixa rastros sangrentos como a guerra (…)

Então como é que pude viver em paz, num período de paz no mundo? (…)

Eu fui um homem diferente em vida. É esta razão pela qual me perguntei como pude viver em paz no lado da ordem. É simples: escondendo de mim mesmo e dos outros a minha diversidade (…)

Tem a diversidade o direito a permanecer igual a si mesma? (…)

O que é então a diversidade se ela mesma não se tornar diferente de si própria? (…)

O que deve fazer quem é diferente? Negro, judeu, monstro… o que és obrigado a fazer?*

Sua mulher (Beatriz Batarda) encontra-se deitada em meio à lama onde quase não a podemos ver, ou talvez essa figura feminina não exista em todas as suas dimensões. Quando o diálogo entre os dois tem início, acompanhamos a relação mórbida e masoquista deste casal, que coloca em causa a hipocrisia da sociedade em que vive, através de questões associadas ao poder, ao desejo, à identidade, ao sexo e à solidão. Há uma simbiose de encanto e desprezo nesta relação. As palavras, em muitos momentos agressivamente proferidas pelo homem, acompanham-no na sua travessia pelo lodo pantanoso. A mulher, resignada, remexe e empurra alguns pedaços desta massa argilosa, carregando-os aleatoriamente no seu restrito vazio. Na espiral de submissão e dor, homem e mulher revelam ao público toda a intimidade e a origem dos seus pensamentos mórbidos.

Orgia - Foto: Raquel Balsa -  Culturgest.

Orgia - Foto: Raquel Balsa -  Culturgest. 

Orgia - Foto: Raquel Balsa -  Culturgest.
                  

Orgia - Foto: Raquel Balsa -  Culturgest.

Em Orgia é impossível ficar-se indiferente. Neste jogo de vida e de morte, as contradições estão sempre presentes, e o casal, aparentemente cansado, reflete a opressão do mundo social. É possível recordar Michel Foucault quando este refere que “é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa num ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças nas coisas e até nos corpos”. Esta afirmação encontra eco nas ideias do filósofo Jacques Rancière, ao defender que o teatro como prática comunitária propõe, através de seus vários signos, diferentes perceções, fazendo com que o espectador não esteja restrito a um papel passivo, mas que construa, através do objeto artístico, novas descodificações e transformações. Compreender para transformar é uma das possíveis propostas de Orgia.

Ao longo da encenação, as palavras ferem, enquanto os corpos se arrastam nas suas angústias e desencadeiam um conjunto de emoções no espectador. A atuação carregada de múltiplos sentidos traduz a realidade deste homem e desta mulher que clamam em êxtase os seus pensamentos atormentados, envoltos na densa névoa que também nos encobre. A música reforça o tom trágico da narrativa e nos transporta, juntamente com a desconstrução deste espaço cénico, para uma estética lírica do caos, potencializando o pensamento sobre as questões associadas às relações humanas. 

Este é o teatro da Palavra de Pasolini, que desafia o especador a questionar os seus referenciais sobre a autoridade existente nos microespaços sociais ou sobre o poder exercido nos lugares de assimetria, o qual entra em conflito com a diversidade existente em cada um de nós.



Referências:

Foucault, M. (1984). Microfísica do poder. Graal. Pp.16-17.

Rancière, J. (2010). O espectador emancipado. Orfeu Negro. Pp. 7-36.

*É possível ouvir o prólogo de Orgia através do link: https://www.culturgest.pt/pt/media/vortice-palavra/#Prologo