Exposição ‘Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra’
(Galeria Inflight, Hobart, Austrália).
"Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra", intervenção artística de Nuno Coelho e Adam Kershaw, é apresentada pela primeira vez em Junho de 2007 na Galeria Fabrica Features em Lisboa (Portugal). Composta por cartazes gráficos interactivos sobre o conflito israelo-palestino, produz um discurso visual em torno das tensões sociais da vida quotidiana na região e com um olhar crítico e irónico, propõe uma nova abordagem de pensamento sobre o conflito, convidando os visitantes a colorir mapas e desenhos.
Algumas informações contidas nos cartazes são adaptadas à cidade ou
país onde é apresentada, para facilitar a compreensão e o relacionamento com o
público. Num dos cartazes é comparado o tamanho geográfico da Palestina com o
do país onde a exposição é apresentada. A componente textual da exposição é
traduzida para a língua do local onde é apresentada e pela natureza dos seus
conteúdos, a exposição pode ser actualizada de acordo com novos dados sobre o
tema.
Os desenhos foram criados através de gráficos vectoriais – podendo
ser ampliados – o que permite os cartazes serem produzidos com dimensões adaptadas
a qualquer espaço. Os cartazes são produzidos para cada nova apresentação, onde
permanecem até ao encerramento.
O livro homónimo é publicado em 2009, durante a Experimenta Design
– Bienal de Lisboa. Inclui uma caixa de lápis de colorir[1]
e contém versões actualizadas das imagens e textos da exposição, assim como
novo material produzido especificamente para a publicação. São descritas as
diferentes fases da sua produção e documentação, assim como o contexto político
e de design através de textos dos autores. São ainda convidados colaboradores,
de diferentes contextos profissionais e culturais, a responder ao formato e ao
conteúdo da exposição de acordo com as suas próprias perspectivas.
Nuno Coelho tem a ideia de desenvolver este projecto um ano depois
da sua viagem à Palestina, para onde partiu com o intuito de conhecer a
realidade para além dos meios de comunicação. Ao ver um documentário na
exposição “Sometimes Doing Something Poetic Can Become Political and
Sometimes Doing Something Political Can Become Poetic”, do artista Francis
Alÿs, em que este surge delineando a Linha Verde[2]
com latas de tinta, toma consciência de que poderia partilhar as suas
conclusões sobre a experiência na Palestina através de um objecto artístico.
O projecto é então desenvolvido com a participação de Adam Kershaw
que o acompanhou na viagem à Palestina e ambos optam pela frase "Uma Terra
Sem Gente Para Gente Sem Terra"[3]
como título da exposição, por sentirem que, através da sua apropriação, permitiriam
a sua utilização retórica.
O modo como os media, ao longo de mais de um século, têm feito a
cobertura sobre o conflito na Palestina, quer pela forma como em determinados
momentos tem sido produzida e transmitida, noutros aparentemente indiferente e
ausente ou pelas lógicas de poder de que tem sido cúmplice, contribui para a construção
de significados associados ao conflito que pairam entre região em constante e
inevitável cenário de guerra e território em que é seu dever intervir consoante
a agenda económica – dos interesses bélicos, energéticos, territoriais, etc.
Além das questões sobre a representação e o seu inerente poder, é interessante
visitar os conceitos de linguagem e discurso. Uma vez que os Estudos Culturais
consideram que ‘a nossa perspetiva da realidade’ se constrói e transforma de
formas discursivas e não-discursivas, regulando os princípios que estabelecemos
e tomamos como certos (como o desenho de territórios ou fronteiras), e se traduzem,
de novo, em lógicas de poder que vamos perpetuando. Talvez por isso, o tipo de
discurso aplicado na manutenção do território da Palestina, insista em recorrer
a lógicas estereotipadas, ao procurar caracterizar diversos grupos de
indivíduos em conflito, pretendendo constituir uma unidade de significado comum
para identificar o todo.
A percepção de Nuno Coelho sobre a situação da região alterou-se
completamente após a viagem aos territórios palestinos e a Israel:
“Aos meus olhos, o conflito não é tão grave do ponto de vista
armado (ataques, bombas, tiroteios – praticamente as únicas notícias que chegam
da região até nós), mas é tremendamente mais chocante em aspetos da vida quotidiana
(falta de liberdade de movimento, recolher obrigatório, incursões militares,
checkpoints, segregação da sociedade, etc.). Essas informações não chegam até
nós por não serem suficientemente "midiáticas". Os pratos da balança
estavam bem mais desequilibrados do que tinha percebido até então.”[4]
Apesar de quem produz imagem/mensagem, a partir do momento da sua difusão, não ter a possibilidade de garantir o significado que os diferentes públicos lhe vão atribuir, a forma como a constrói, mostra, encena e difunde, tal como os Estudos Culturais pretendem, pode fazer com que o público olhe e veja de forma crítica como a ‘verdade’ é moldada e a aceitamos sem pensar[5].
Essa sensação de absurdo é enfatizada, neste projecto, ao falar da
actual situação social e política recorrendo ao imaginário e linguagem
infantil. Apesar de haver um discurso global sobre a Palestina, poucas pessoas
conseguem ver além das imagens e títulos chocantes gerados pelos media e
compreender os princípios básicos do conflito. O discurso crítico e irónico expõe
a situação, de forma descontraída, convidando as pessoas a colorir mapas e
desenhos ao longo da exposição, mostrando como os resultados das suas
diferentes intervenções e representações reflectem contextos de poder diversos.
Encarando o design como acto de tradução (de informação textual para imagens), os
autores facilitam a leitura e compreensão do assunto retratado.
A exposição funciona como uma campanha de sensibilização e promove
o debate entre os que interagem com ela ao acrescentarem a sua opinião. Nesta interacção
social existe uma lógica de poder implícita (como na relação de espaço
individual/colectivo, lógicas de pertença, ou noção de propriedade e partilha).
A importância do estímulo intelectual e a noção de que as ideias e ideais importam,
de que vale a pena lutar por elas e por eles, reforçam a mensagem de que o que
temos para dizer pode ter o poder de influenciar o mundo e recuperar o controlo
dominado por imagens que estão para além do alcance democrático das pessoas.
Livro
‘Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra – Um Livro de Colorir Sobre a
Palestina’. Paginação, pormenor da caixa de lápis, capa e um dos mapas e
questões apresentadas.
As reacções do público, nos países por onde a exposição já passou, têm sido muito diferentes, tanto ao nível das conversas nas inaugurações como nas intervenções deixadas nos cartazes. Em Berlim, onde houve maior contextualização do tema retratado, pelas várias menções ao Muro de Berlim e pela questão judaica, parece ter havido maior interacção do público. Em Hobart, na Austrália, ocorreu um debate sobre colonialismo e reconhecimento dos direitos da população indígena e autóctone. No Brasil houve debates sobre questões semelhantes.
“Para além disso, torna-se importante questionar se poderá um
acto artístico conter em si imenso significado político sem assumir um
determinado ponto de vista ou sem aspirar a ser transgressor, subversivo ou
activista. Tal como a negação da Filosofia é já de si um acto filosófico,
talvez a tentativa de mostrar um trabalho apolítico seja também ela detentora
de uma forte posição política.”[6]
Os Estudos Culturais têm um compromisso fundamental com a avaliação ética da sociedade moderna e com uma linha radical de acção política. Com foco na relação entre cultura e significância, consideram que a cultura não é nem neutral, nem natural.
O mesmo parece acontecer neste projecto, em que o público não tem
apenas uma atitude passiva perante a obra artística. A obra só fica completa
depois da intervenção. E a exploração da interactividade, que aqui é feita com
materiais "arcaicos", faz com que as pessoas se envolvam directamente
com o assunto. O apelativo jogo de colorir de cada visitante vai revelando a
posição que assume e os significados associados por si atribuídos. Cada uma
dessas representações expõe, por sua vez, novas realidades desses pontos de
vista, à medida que são percebidas pela perspectiva de cada um dos restantes visitantes
enquanto algo a que atribuem novo significado.
Cada mapa, sendo uma representação baseada em princípios
geográficos de uma região, é uma representação de poder, é uma perspectiva e um
olhar particular, uma narrativa que, embora simbólica, tem uma capacidade de se
manter e perpetuar.
A intervenção é assumida como parte integrante do projecto, apelando
a um envolvimento activo do visitante no assunto retratado. Muito da informação
de alguns cartazes só se consegue obter depois da intervenção e representa um
discurso que, embora simbólico e por vezes involuntário, reflecte sempre uma
lógica de poder, de acordo com o local e dimensão das manchas de cor.
[1] A
exposição e o livro contam com o apoio da Viarco, a única fábrica de lápis em
Portugal, que fornece os lápis de colorir necessários para a experiência.
[2]
Fronteira internacionalmente reconhecida entre Israel e Palestina, mas que não
existe na realidade.
[3] Slogan,
atribuído ao movimento sionista, que se refere à Palestina como uma terra
supostamente sem população nativa e aos judeus como um grupo étnico deslocado,
espalhado por todo o mundo, sem território próprio.
[4] Designer
gráfico traz ao Brasil exposição "Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem
Terra", Entrevista de Nuno Coelho ao Instituto da Cultura Árabe.
[5] Como
disse Marshall McLuhan: “Não tenho a certeza de quem descobriu a água, mas
certamente não foram os peixes”, por outras palavras: Quando estamos imersos nas
imagens dos media, podemos vir a absorvemo-las sem pensar.
[6] Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra – Uma exposição interactiva sobre a Palestina de Nuno Coelho e Adam Kershaw.
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