A instalação fotográfica “ON: SMILE! You’re on camera”, patente na livraria da Galeria Zé dos Bois entre 29 de janeiro e 18 de abril de 2026, de Maria Peixoto Martins, convida o espectador a tornar-se numa espécie de “Big Brother” que tudo vê e controla, imergindo-o num mundo de imagens de videovigilância.
Através da exploração de imagens acessíveis na Web, a artista atravessa universos de intimidade, conversas de café, momentos de espiritualidade e de vigia, esculpindo-os no espaço como fragmentos desses instantes. Imóveis, aquelas pessoas, momentos e lugares são agora parte de uma instalação que os observa não como elementos passageiros ou rotineiros, mas como objetos de uma profunda avaliação.
exposição
Refletindo sobre a normatividade dos espaços de vigilância, a obra traduz o que George Orwell escrevia em “1984”, onde a vigilância se torna massiva e a sua análise completa uma ideia de "verdade" que pode ser inteiramente manipulada. Precisamente, quando se tem em conta que momentos escolhemos ver primeiro e de que forma os vamos interligar, já se está a criar uma manipulação da imagem. Aqui, apesar da inércia fotográfica, acaba-se por ter uma experiência fílmica, onde o corpo do espectador cria o movimento e a narrativa. Existe uma experiência extremamente pessoal destas imagens, pois a ordem que definimos para as interpretar concretizará verdades individuais. Com efeito, surgem interpretações de realidades das quais não se é próximo, mas às quais se tem acesso fácil e de uma forma autoritária e individual. Na proteção da distância que existe entre o "eu" e aqueles capturados no frame, impõe-se a verdade fictícia criada para as suas vidas e para aqueles momentos, mesmo que não se tenha visto mais do que um singular fotograma (que captura apenas um vigésimo quinto de segundo).
Assim, a forma como as imagens estão organizadas no espaço, com um toque intimista e envolvendo o corpo que as visita, convoca um sentido de omnipresença. Na inquietação de ver os outros, também nós nos sentimos observados por eles, num angustiante desconforto ao ponderar se também nós fomos filmados ou observados.
Faz sentido recuperar as reflexões de Michel Foucault sobre como a vigilância e a sua normatividade nos espaços estruturam a ordem social e a produção de conhecimento (o que é visto é real / o que é filmado é real). Cada vez mais, na era digital, essa vigilância deixa de ser imposta apenas por câmaras nas ruas, parques ou restaurantes, e passa a ser voluntária, é fornecida por cada um de nós nas redes sociais ou nas perguntas que formulamos nas interfaces de inteligência artificial, entregando informação ao mundo aberto da Web. Contudo, considero importante pensar que o conhecimento que surge desta avaliação se concretiza numa experiência fictícia, onde as narrativas são reflexões individuais sobre o "outro", do qual, por vezes, não temos acesso sequer a um segundo de existência real.
Nesse sentido, esta instalação possui um valor que vai além de pôr em causa a nossa privacidade ou o desconforto de ser observado sem saber para onde sorrir. Esta peça questiona o valor da imagem e daquilo em que acreditamos ser verdadeiro. Interroga o valor absoluto das narrativas que surgem do que foi capturado e como isso pode ser transformado; o pequeno acesso que temos aos momentos mais banais do quotidiano do outro lado do mundo, mesmo quando pensamos que tal nos fornece uma ligação direta à realidade. Ao entrar naquele canto da livraria coberto de fotogramas, percebemos que somos apenas mais uma pessoa especulativa num mundo onde a especulação da imagem é banal, mas estrutural na construção da verdade sobre a realidade.

