sábado, 17 de maio de 2025

Casa-Museu Leal Da Câmara a Casa dos Corações Coroados

 
Sintra… “O Monte da Lua”, um lugar Mágico, cheio de Lendas, Histórias, de uma Beleza Romântica e de Amores vividos. Um conselho com um Património Cultural rico: Museus, Palácios, Castelos, Quintas, Casas Senhoriais e Casas Saloias. A Arte nasce debaixo das pedras, dentro dos bosques e surge do nevoeiro das Ninfas. Atualmente pode-se usufruir de diversos Museus gratuitos, Companhias de Teatro, Bibliotecas e Ateliers. São muitos os artistas que escolhem este conselho para viver e nascer. Quantos músicos, atores, cantores, escultores, escritores e pintores são conhecidos dos nossos ecrãs.  Em Sintra podemos encontrar uma das Casas-Museus mais antigas de Portugal, a Casa-Museu Leal da Câmara. 
Decidimos, desta vez, escolher a Residência tardia de um artista reconhecido internacionalmente e em Portugal, no início do séc. XX, pela sua irreverência inconveniente, mas que a tornou no seu Canto de Amor. Viajando pela IC19 em direção a Sintra, desviamos para a localidade de Rio de Mouro, e vamos ter a um local Saloio de nome Rinchôa, encontrando “O velho casal saloio…não muito distante do largo da Feira das Mercês e tendo no seu horizonte, a emoldurá-la, a serra de Sintra, passa para o domínio de Leal da Câmara no ano de 1923. Aqui residirá o artista e a sua mulher desde 1930 até à altura das suas mortes, respetivamente em 1948 e 1965.”  

Folheando as páginas do tempo, até ao séc. XVIII, verificamos que esta Casa Saloia tinha outrora a função de “Entreposto” de muda de cavalos, de Sebastião José Carvalho e Melo, Marques de Pombal. Esta situa-se entre a Quinta da Granja do Marquês (Terrugem, Sintra) e o Palácio de Oeiras, passando pela Quinta do Bosque que em 1780 se junta à Quinta de São Bento. No séc. XIX, foi um Hospital de campanha das tropas portuguesas durante as invasões francesas.  
  Símbolo do Marquês de Pombal    


Quando estamos perante a parte lateral e da frente da Casa-Museu, podemos dizer que tem uma boa leitura informativa para a estrada estreita, antiga e com muito transito. Encontra-se num cruzamento apertado com estradas estreitas, mas com estacionamentos.

Chegamos à porta da entrada, e deparamo-nos com um pátio-jardim de uma beleza calma, romântico, muito bem cuidado, e imaginando os belos fins de tarde sentados nos verdes bancos do jardim. Olhando em volta, podemos observar dois símbolos pessoais criados por Leal da Câmara: um Coração grande e escrito sobre uma das portas principais e um Brasão com dois Corações Coroados sobre a porta de saída. Com quarenta anos, Leal da Câmara, encontra o amor da sua vida e casa em 1920 com Dª Júlia de Azevedo(20 anos mais nova). Adquire a casa Saloia na Rinchôa, restrutura para residência e cria o seu ateliê tornando-a no seu Canto de Amor, “Corações Coroados”, símbolos criados e deixados por tão grande amor que nutria pela sua esposa.                                                                                                                                                          



   





 Entramos no segundo Alpendre, bem pequeno, convidados a tocar à campainha. A porta abre, somos bem recebidos e atendidos por uma senhora que é uma das guias do Museu.  Assim que se entra na Casa-Museu acendem-se as luzes e, por encanto, encontramo-nos numa sala confortável, acolhedora cheia de fotos, quadros, móveis e uma pequena receção com muita informação.          


 


 
                                                                                                                   













Deparam
o-nos com a fotografia de Leal da Câmara, que nos recebe, com um sorriso desafiador e que nos fixa com os seus olhos grandes e argutos.  De Nome, Tomás Júlio Leal da Câmara, nasce em Pangin (Nova Goa), a 30 de novembro de 1876. O Pai, Oficial do Exército, de nome Eduardo Inácio da Câmara e descendente de um dos bravos de Mindelo. A mãe, Emília Augusta Leal, pertencente a uma das famílias de maior prestígio, residente na India Portuguesa. Leal da Câmara teve uma educação calma, mas desde cedo apresentou uma irreverente personalidade, e desde os 11 anos que gostava de desenhar. O pai decidiu o melhor caminho para ele, estudar agronomia e veterinária. O pai morre cedo, Leal da Câmara, deixa de estudar e troca tudo pela profissão de jornalista, a qual ele sempre a desejou. Com a sua personalidade critica e humorística do desenho caricatural, ele vai andar entre Portugal, Espanha e França.  Foi o Mestre Leal da Câmara que inaugurou, a 16 de setembro de 1945, o seu Ateliê-Museu ao público e a todos os que estivessem interessados no contacto e o intercâmbio de ideias com o mundo exterior, a qual foi a primeira “tentativa de musealização”. Em 1965, depois da sua morte, é incorporada no património da Câmara Municipal de Sintra. Dª. Júlia trata de tudo, este projeto sempre foi dos dois. A Casa-Museu vai sofrendo várias alterações ao longo de todo estes anos, mas sempre sem descaracterizar o que resta da traça original.

                                                           

Em frente à receção abre–se uma sala de jantar encantadora, pronta para iniciar uma refeição. Todos os móveis foram criados pelo artista, tendo em particular as dobradiças das portas em forma de corações. No teto encontra-se um friso com a temática dos “saloios”, também da sua autoria. Vemos algumas peças do Bordalo Pinheiro, o qual, era um grande amigo da família. Do lado esquerdo, um móvel de canto, repleto de livros e objetos com a parede decorada de desenhos, caricaturas e até um gesso com o rosto do Eça de Queiroz.  Mas, o mais interessante é o “EX LIBRIS”, o qual era colocado nos seus artigos dos jornais, trabalhos e é o logótipo da Casa-Museu. Da sua autoria, este pequeno “diabinho”, é um autorretrato em caricatura: Eu sou um Diabinho Bobo, com uns olhos bem grandes e redondos, muito atentos ao meu redor e aos quais não escapa nada. A minha barriga é grande porque está cheia de informação, perpicaz e com um humor acutilante, coloco a cauda entre as pernas. Estou sempre pronto com a minha caneta de dois aparos, para escrever e desenhar com uma atitude mordaz. 
A segunda sala, é uma marquise comprida e estreita como um corredor que vai dar acesso ao espaço íntimo do casal( o qual está fechado, e é a casa da cuidadora da Dª. Júlia. Foi para esta casa com 20 anos e agora tem 90 anos.)  Esta, está toda forrada por azulejos pintados pelo Mestre. Ao fundo, do lado esquerdo, um magnifico móvel, da sua autoria, com as dobradiças em forma de corações. As paredes estão cheias com as pinturas de Leal da Câmara. Na parede, em frente às janelas, encontramos várias vitrines onde guardam algum espólio da esposa de Leal da Câmara, como: objetos pessoais, Certificados, Diplomas de Mérito, medalhas e condecorações relacionados com o seu trabalho interventivo de ajuda e de apoio na sociedade da época. Dª. Júlia era uma mulher muito ativa e professora primária.                   

                                                                                                     
O terceiro espaço, é a "Sala de Convivio"  do casal, muito agradável, acolhedora e decorada com muito bom gosto e móveis da autoria do Leal da Câmara. No centro da sala, no canto esquerdo, encontra-se um recanto, vermelho morango, com dois sofás da mesma cor de autoria do artista, e quando juntos formam um coração. Esta sala está preenchida de quadros, desenhos, pinturas, objetos da sua autoria e também da autoria dos seus amigos. Em frente, uma grande lareira da época do Marques de Pombal. Sobre o arco da lareira uma caricatura de Leal da Câmara representada num azulejo. Pendurada na parede da lareira, uma tapeçaria bordada pela Dª. Júlia, decorada com desenhos de “saloios”. Na base da lareira encontra-se o símbolo da rosa, do Marquês de Pombal.                                         
                                

Quando se sai da Sala, entramos no quarto espaço: abre-se uma sala enorme onde se encontra exposto parte do espólio de objetos de família, pinturas, desenhos, caricaturas, jornais, postais, fotografias, Certificados, Diplomas de Leal da Câmara. A Exposição museológica está organizada cronologicamente por idade, por temas e pelo percurso de vida do Mestre. Família, Caricaturas do rei D. Carlos, Monarquia Espanhola, França, Républica Francesa e Portuguesa, 1º Guerra Mundial, 2º Guerra Mundial e personalidades e amigos. Está dividida por oito espaços de exposição com placares de madeira, e por um corredor central denominado o“Caminho da Aprendizagem”. As obras estão expostas em placares de madeira separados e, placares em forma de vitrines para os objetos ou desenhos. A maior parte das obras encontram-se emolduradas com vidro e/ou protegidas pelos vidros das vitrines. A iluminação da sala é boa, mas um ponto fraco que encontramos são os vidros, não são antirreflexos, dificultando a leitura das obras. No oitavo espaço expõem semanalmente uma obra em contato com o público. O circuito da visita ao museu é fácil, organizado e bem planeado.  Encostado à parede, das janelas, encontram-se diversas vitrines expondo todas a edições de livros, catálogos, postais, folhetos, desdobráveis que a Câmara de Sintra publicou, ao longo dos anos, sobre o artista Leal da Câmara e a Casa-Museu.


Caminho da Aprendizagem
Desenhos com 11 anos



Esbosço da planta da sala de exposição realizado durante a visita.

Por último, descemos umas escadas de madeira que nos vão levar à cave, um espaço com as mesmas dimensões do R/C, e com diversas janelas. No início encontramos a "Sala de Palestras e Conferências". No lado direito encontramos o "Espaço das atividades Educativas" para crianças e jovens, e onde se encontra a Exposição Temporária. Em frente encontramos uma sala mais pequena, a qual, é o ateliê do artista. Na entrada do ateliê está exposta a última tela, iniciada e inacabada, do Leal da Câmara, sobre a feira das mercês. Encontramos ainda, autorretratos, caricaturas e retratos que lhe ofereceram. A secretária onde trabalhava e dava as suas aulas, contêm ainda o material e objetos de desenho, expostos.  As paredes são corridas com vitrines expondo: tintas, pincéis, lápis, canetas, diários gráficos, instrumentos auxiliares para desenho e trabalhos artesanais, réguas, esquadros que ele utilizava para dar as suas aulas. Quando abrimos a única porta desta sala entramos para um lindo e enorme jardim, muito bem cuidado e conservado, com um recanto construído com uma mesa e bancos de pedra. Um lugar que deve guardar em si os sons dos diversos lanches e conversas que o artista e a sua esposa devem ter organizado, para os amigos.

 
A organização museológica, a curadoria e Serviço Educativo dos Museus Municipais pertencem à Câmara Municipal de Sintra. Todo o espólio e a Casa-Museu encontra-se muito bem conservada e cuidada. Apresentam diversos desumidificadores, aquecimentos e a iluminação só é acesa quando necessário. As visitas são guiadas, e muito bem acompanhadas com a simpatia, disponibilidade e conhecimento das guias. Apresentam ainda visitas guiadas para estrangeiros, com auscultadores para tradução imediata, e muito bem assinaladas. As escolas podem marcar visitas de estudo, as quais são gratuitas. Oferecem um catálogo desdobrável de 16 páginas, com fotografias diversas e informação escrita. O design gráfico é muito bonito, com uma excelente impressão de imagens num papel de muito boa qualidade. Foi uma visita, com uma experiência enriquecedora ao nível histórico da Casa-Museu e de todo o seu espólio gráfico de caricaturas, um desenhador exímio. 
A Casa-Museu Leal da Câmara, é uma visita ao sonho de um artista português, o sonho de dar a conhecer a arte portuguesa, a caricatura e a Educação  Artística, com a possibilidade de a fazer  gratuitamente. 















Exposição Permanente do NaFilM: Národní filmové muzeum (Museu Nacional do Cinema)

 Praga, Chéquia


No passado dia 3 de maio, tive a oportunidade de visitar o Museu Nacional do Cinema (NaFilM: Národní filmové muzeum), em particular a sua exposição permanente, durante a minha viagem a Praga, na Chéquia. Localizado no centro da cidade, é um museu público, fundado por Terezie Krizkovska.

É um Museu que aborda a História do Cinema, nacional e internacional, como também os seus desenvolvimentos tecnológicos, nos quais certas personalidades checas tiveram influência. É um Museu interativo, além de expositivo, onde através de várias atividades, pode-se apreender como também experimentar alguns dos desenvolvimentos tecnológicos que deram origem ao que hoje chamamos de Cinema. O conceito curatorial é claro e acessível, sendo que a parte interativa da exposição, ajuda o visitante a concentrar-se melhor naquilo que está a observar e a aprender. Exemplo disso, é uma das secções da exposição em que podemos experimentar realizar o trabalho de um artista de foley, o que nos permite perceber, através da prática, o quão importante foi o trabalho destes sonoplastas. Outro exemplo, é outra secção da exposição em que se pode experienciar um vídeo de realidade virtual, que ajuda a entender melhor, de uma forma imersiva, algumas das técnicas utilizadas pelos teatros de cinema no início do séc.20.

Apesar de labiríntico, o espaço museológico está organizado duma forma muito intuitiva e concisa. Sendo que o Museu percorre a História do Cinema desde os seus primórdios até à atualidade, a exposição organiza-se através de vários cubos numerados, de maneira a que o visitante perceba melhor a ordem do seu percurso. Espaço bem iluminado, sendo pretas as paredes dos cubos, os textos de parede e os títulos de cada espaço a branco, com explicações tanto em checo como em inglês. Cronologicamente a exposição permanente começa nos finais do séc.18 e início do séc.19, onde são abordadas as ilusões óticas do criador do kinescope, Jan Evangelista Purkyne, médico e professor checo. Como também a invenção da lanterna mágica, que com ajuda do praxinoscope, como é explicado na exposição, foi uma das invenções necessárias para projetar imagens num ecrã, tendo sido utilizado no séc.17 pelos jesuítas. Esta lanterna mágica é exemplificada com uma atividade em que o visitante pode girar uma roda, sendo que é esta que controla a lanterna mágica que está conectada ao praxinoscope, cuja projeção vai demonstrar várias ilustrações do conto intitulado “The Oval Portrait” de Edgar Allan Poe. 


Noutra parte da exposição, é também abordado o papel do som no cinema, como este se relaciona com a imagem e como devido ao aparecimento deste, a imagem deixou de ser o foco principal através da qual se conta uma história no grande ecrã. Depois, numa nova secção intitulada de “Inter-War Film Avantgarde”, agora com paredes brancas e texto preto, de forma a diferenciar visualmente, duas épocas distintas da história do cinema. Dá-se então destaque ao cinema avant-garde checoeslovaco e como este contrastava em termos temáticos e práticos com o cinema de avant-garde francês, nomeadamente o Devetsil Art Union e o seu programa denominado de Poetism. Isto é demonstrado, numa secção onde o visitante pode-se sentar num cadeira e colocar uns headphones, circundado por uma cortina, onde este pode ouvir um dos três poemas visuais, que os poetas do Devetsil consideravam ser os seus filmes, deixando para o visitante a construção do filme em questão através da sua própria imaginação. No último piso, é dado destaque à história do cinema de animação, com especial enfoque no cinema de animação checo, sendo que tive a oportunidade de assistir a um dos cinco filmes de animação checos disponíveis, intitulado de “Spatne namalovana slepice” (1963) de Jiri Brdecka e do Estúdio Bratri v triku.

Um dos pormenores mais interessantes acerca deste museu é o facto de ser um projeto orientado por estudantes de cinema da faculdade de artes da Charles University. Haver outra maneira de gerir e financiar um museu, é algo que pode mudar o discurso museológico de muitas das instituições que temos hoje em dia. Ter de facto estudantes de cinema à frente deste museu, é algo que podia ser reproduzido noutros museus.

 Para concluir, considero a minha experiência no Museu Nacional do Cinema como extremamente enriquecedora, sendo que sai da exposição com energia apesar de cansada mentalmente. Devido a isso, diria que a quantidade de informação para absorver, seria a principal crítica que faria. No entanto contra argumento a minha critica com o facto de isso estar mais relacionado com a experiência que temos com os museus hoje em dia, em que ficamos com a sensação que temos que ver tudo que o museu tem para apresentar, de uma só vez. Exceptuando essa crítica, só tenho comentários positivos a tecer. Cinema sempre foi uma das minhas grandes paixões e alegra-me vê-lo celebrado duma forma tão democrática e acessível. Como escrevi, em checo, num papelinho que coloquei na parede de entrada do Museu, para descrever a minha experiência…Moc Dobré (Muito Bom)!



quinta-feira, 15 de maio de 2025

Casa da Cerca - Centro da Arte Contemporânea

      A Casa da Cerca localizada em Almada, é um espaço muito marcado pela sua envolvente paisagística e enquanto instituição artística com um papel muito ativo para com a comunidade. 

                               

    O que ressalta logo á vista neste espaço é sem dúvida o espaço exterior, com um jardim com uma manutenção notável, um espaço amplo e natural um autentico escape no meio da fugacidade da cidade. Tem talvez das vistas mais privilegiadas da margem sul para Lisboa, é um sítio único. Andando pelo espaço exterior podemos encontrar várias escultura, várias plantas e flores também muito ligadas á vertente da Botânica. Existindo até um espaço que atualmente se encontra encerrado para manutenção dedicado ao desenho e estudo das mesmas.

    Para além de um espaço deslumbrante, a Casa da Cerca não se reduz a isso, tendo uma componente artística muito forte. Com uma programação muito virada para a arte contemporânea, com especial atenção à produção emergente e ao cruzamento disciplinar, com diversas exposições ao longo do ano. É também uma referência no panorama da Educação Artística, com um vasto leque de projetos e oficinas   bastante inclusivos, estendido a várias faixas etárias. Por exemplo o projeto orientado pela ceramista Inês Salgado, que se trata de placas de cerâmica produzidas durante as oficinas para famílias intituladas como "Texturas de Árvores" que se orientam expostas no espaço. 

    Esta Instituição destaca-se pelo valor cultural que traz para comunidade e pelo contributo para o enriquecimento da Educação Artística, e da difusão das artes. Dando visibilidade ás artes plásticas e proporcionando também a ligação entre esta área e as pessoas com menos possibilidade tornando a arte acessível a todos. É também de notar o excelente trabalho e empenho por parte do corpo da Casa da Cerca especialmente do departamento ligado á Educação Artística por ser tão coeso. 


Fundación Joan Miró: Entre o lúdico e o politico- Um percurso pela poética da subversão

   A Fundación Joan Miró é considerada um dos centros culturais da cidade dedicado, essencialmente, à obra do artista catalão Joan Miró. Esta foi inaugurada em 1975 e encontra-se no encantador Parc de Montjuïc, acabando por oferecer uma vista magnífica sobre a cidade .Ao atravessar as portas da Fundación, localizado em Barcelona, os visitantes entram em um espaço que ultrapassa os limites tradicionais da exposição artística. Não se trata apenas de um pequeno museu dedicado ao “legado” do artista catalão, mas também de um organismo quase que vivo onde o passado tem um diálogo incessante com o presente, e onde e experimentação, o inconformismo e a liberdade criativa acabam por se transformar em pilares da resistência cultural.

   A arquitetura moderna e luminosa do edifício, projetado por Josep Lluís Sert, prepara o olhar do publico para um percurso fluido e até orgânico, onde a obre de Miró convive com as exposições contemporâneas provocadoras. Podemos dizer que este não é um espaço neutro- é um manifesto.

   A coleção permanente que apresenta algumas das obras mais emblemáticas de Joan Miró, funciona como uma introdução ao universo simbólico do artista, universo este onde a figura humana dissolve-se no sonho, onde o signo automatiza-se e a própria cor grita com uma intensidade primordial.Embora isto, a verdadeira potência da Fundación revela-se na forma como equilibra a vertente mais histórica com curadorias ousadas.

   As imagens aqui expostas acabam por captar um interessante segmento da exposição, onde acabam por se cruzam elementos do imaginário teatral, festivo e etnográfico, sublinhando uma riqueza visual e simbólica da coleção.



   Na primeira imagem, destaca-se um traje colorido com máscara zoomórfica e detalhes escultóricos. O uso de vermelho e verde em padrões geométricos transmite uma energia quase carnavalesca, remetendo a tradições populares ligadas à performance e ao ritual. A inclusão de símbolos da UNESCO sugere a valorização patrimonial e o reconhecimento internacional deste tipo de artefacto. A disposição num manequim branco e limpo, dentro de uma vitrine minimalista, cria um contraste deliberado com a expressividade da peça — uma estratégia museográfica eficaz, que valoriza a peça sem ruído visual adicional.



   A segunda imagem apresenta um conjunto de máscaras e lanternas com forte influência asiática, presumivelmente japonesa, conforme indicado pelos caracteres kanji. Aqui, a curadoria aposta numa justaposição de objetos cerimoniais e teatrais (máscaras kabuki, lanternas, instrumentos), propondo uma leitura transversal entre culturas. A ausência de explicações visíveis pode limitar o envolvimento total do público generalista, mas o arranjo visual é envolvente e desperta a curiosidade.



   Por fim, a terceira imagem mostra uma longa galeria expositiva, onde coabitam máscaras gigantes (típicas de festividades populares catalãs), trajes rurais e carrinhos de venda ambulante. A presença da bandeira arco-íris atrás de uma máscara festiva pode ser interpretada como uma afirmação de diversidade e inclusão — um gesto curatorial subtil, mas significativo, que atualiza os contextos tradicionais. A disposição linear e bem iluminada reforça a leitura cronológica ou temática, embora o excesso de objetos em sequência possa criar alguma saturação visual.

   Assim, posso ainda acrescentar que as exposições exploradas nas imagens revelam uma abordagem museológica onde o objeto performativo e cultural ganha protagonismo. A curadoria destaca-se pela diversidade temática e pelo cuidado estético, ainda que, por vezes, pudesse beneficiar de maior contextualização interpretativa. No todo, trata-se de uma experiência imersiva, rica em símbolos, cores e narrativas — um convite à reflexão sobre a multiplicidade de culturas e expressões humanas.

   A visão curatorial da Fundación Joan Miró é clara: rejeitar a neutralidade. Aqui, a arte não é decorativa, mas interpeladora. As exposições temporárias costumam incorporar, frequentemente, obras que desafiam as normas, questionam o visitante e problematizam o papel da arte na sociedade contemporânea. Este é um espaço onde o lúdico e o politico não se excluem mas sim sobrepõem-se.

   A instituição assume também uma função pedagógica ativa, onde as visitas guiadas, os materiais interativos e os projetos educativos não se limitam apenas à transmissão de conhecimento mas também procuram criar um espaço de questionamento- isto surge pela vontade constante de formar cidadãos críticos e sensíveis e não apenas admiradores passivos.

   Assim, consigo afirmar que visitar a Fundación Joan Miró é entrar numa zona de invenção criativa; é confrontar a beleza com a dúvida, a estética com a ética e o símbolo com a sua origem. Pode,os dizer ainda que este é um espaço que honra a memória de um artista, fundamentalmente do século XXI, ao mesmo tempo que se projeta, de forma corajosa, para o futuro.

   Em suma, na era da velocidade e do consumo rápido de imagens, a Fundación propõe o contrário: um mergulho lento, reflexivo e profundamente sensorial naquilo em que a arte tem de mais necessário- a capacidade de nos transformar.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

 Intimidades em fuga. Em torno de Nan Goldin

Lisboa, Centro Cultural de Belém24 de outubro de 2024 a 31 de agosto de 202510:00 às 18:30

Inauguração: 23 de outubro de 2024, 19:00

Exposição temporáriaPiso -1

Se estiverem nas imediações do rio Tejo, próximo da reconhecida pastelaria que serve os emblemáticos pastéis de Belém, é altamente recomendável uma visita à exposição Intimidades em Fuga. Em torno de Nan Goldin, com curadoria de Nuria Enguita. Esta mostra encontra-se patente no Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até ao dia 31 de agosto de 2025.

A exposição constitui uma profunda reflexão sobre o conceito de intimidade, aqui entendido não como uma experiência meramente individual ou subjetiva, mas como uma vivência partilhada, intrinsecamente política e relacional. A intimidade é abordada enquanto construção coletiva que atravessa questões de género, corpo, identidade, sexualidade e memória, desafiando as fronteiras convencionais entre o público e o privado.

Um dos núcleos centrais da exposição é a apresentação parcial da série fotográfica The Ballad of Sexual Dependency (1979–1986), da fotógrafa norte-americana Nan Goldin. Composta por 126 imagens dispostas na parede de forma contínua, esta instalação remete para a estética dos fotogramas cinematográficos e evoca uma narrativa fragmentada e emotiva, que convida à imersão afetiva e crítica do espectador. Goldin ocupa uma posição central na exposição, funcionando como catalisadora de novas leituras sobre a intimidade como uma experiência vivida e exposta, permeável ao olhar do outro.

A mostra inclui, ao todo, 66 obras de 36 artistas, entre os quais se encontram nomes de referência no panorama da arte contemporânea. Estes trabalhos dialogam direta ou indiretamente com a obra de Goldin, explorando, a partir de diferentes suportes – fotografia, vídeo, instalação e performance – múltiplas perspetivas sobre o íntimo, muitas vezes em confronto com normas patriarcais, estruturas de poder e convenções sociais. As influências do século XIX, do surrealismo e da psicanálise são também convocadas, estabelecendo uma teia de relações entre o passado e o presente, o individual e o coletivo.

Percorre práticas expressivas de artistas que desafiaram normas patriarcais, refletindo ainda influências do século XIX, do surrealismo e da psicanálise, estabelecendo ligações entre passado e presente, entre o íntimo e o coletivo. Com isso, a intimidade é elevada à categoria de ato político, convertendo o privado num campo comum, transformador da nossa experiência social.

A exposição ocupa o Piso -1 do museu e inicia-se com um conjunto de fotografias da artista Sharon Lockhart, exibidas numa sala de paredes verdes, onde se destacam retratos cuidadosamente compostos. A instalação principal, composta pelas 126 fotografias de Goldin, encontra-se disposta ao longo de uma parede rosa que acompanha o visitante durante todo o percurso. Este prolonga-se por várias salas interligadas, oferecendo uma experiência sensorial imersiva, com espaços dedicados a vídeos, instalações e obras visuais diversas. Alguns ambientes incluem bancos, sugerindo momentos de pausa e contemplação, o que reforça o caráter meditativo da visita.


Contudo, a disposição espacial das obras por vezes levanta ambiguidades, nomeadamente quanto à direção do percurso e à forma como as obras se interligam entre si. O desfecho da exposição, com a exibição de um vídeo no fundo da parede, levanta dúvidas quanto à conclusão do itinerário, dada a existência de uma saída lateral que poderá gerar alguma confusão ao visitante. Ainda assim, este aspeto não compromete a experiência global, que convida à revisitação crítica do início do percurso e à reflexão sobre o que realmente significa a intimidade nos dias de hoje.

Esta exposição oferece, assim, uma proposta curatorial que se quer sensível e incisiva, orientada para a escuta, a observação e a partilha de experiências humanas profundamente enraizadas no quotidiano. Intimidades em Fuga não se limita a exibir obras; propõe uma cartografia afetiva do corpo, da subjetividade e da vulnerabilidade, elevando o íntimo à condição de linguagem estética e política. Trata-se, portanto, de uma exposição que interpela o visitante de forma profunda, encorajando uma leitura crítica e empática das expressões contemporâneas da intimidade.


sexta-feira, 9 de maio de 2025

William Klein – O Mundo Inteiro É um Palco

 Introdução – Sobre o que ou quem é a exposição:

Trata-se de uma retrospetiva dedicada ao fotógrafo norte-americano William Klein (Nova Iorque, 1926 – Paris, 2022), considerado um dos artistas mais influentes do século XX. De espírito multidisciplinar, Klein revolucionou géneros como a fotografia de moda e de rua, quebrando convenções estéticas e temáticas da sua época.

A sua experiência na Europa começou quando se alistou no exército, o que o levou a viajar primeiro pela Alemanha e, mais tarde, para França. Após a desmobilização, acabou por se estabelecer em Paris. Em 1948 matriculou-se na Sorbonne e, posteriormente, estudou com o pintor cubista Jules-Fernand-Henri Léger, o que influenciou a sua abordagem visual e conceptual.

Com 26 anos, Klein regressa aos Estados Unidos e cria um diário gráfico da cidade de Nova Iorque. Esse trabalho deu origem ao seu primeiro livro, "Life is Good and Good for You in New York: Trance Witness Revels" (1956), que viria a tornar-se um marco na história da fotografia. Rejeitado inicialmente nos EUA, o livro foi publicado em França e, em 1957, recebeu o Prémio Nadar.

Uma das imagens mais emblemáticas desse projeto é Gun 1, New York (1954), onde uma criança aponta uma arma de brincar diretamente para a câmara, criando uma sensação de ameaça que se transfere para o espectador. O olhar da criança é duro, quase violento – um exemplo claro da audácia de Klein, presente em todo o seu trabalho. Para além do domínio técnico da composição, luz e enquadramento, Klein acrescenta sempre uma provocação temática e formal que desafiava as expectativas da época.

O tema da cidade e da vida pulsante nos grandes centros urbanos tornou-se um traço marcante no seu portfólio. Depois do sucesso do primeiro livro, Klein expandiu o seu registo para outras cidades: Roma (1959), Moscovo (1964), Tóquio (1964) e Paris (2002), sempre com uma abordagem livre e pessoal.

Em 1958, mergulha noutra linguagem artística: o cinema. Começa com a curta-metragem Broadway by Light, e segue-se o filme Qui êtes-vous, Polly Maggoo? (1966), que lhe valeu o Prémio Jean Vigo em 1967. Em 1969, realiza Mister Freedom, um projeto mais independente, marcado por cenas de ação e um forte posicionamento político.

O reconhecimento institucional à sua obra também se fez sentir. Em 2005, o Centre Pompidou, em Paris, dedicou-lhe uma grande retrospetiva, seguida pela Tate Modern, em Londres, em 2012. Ao longo dos anos, diferentes facetas da sua

obra foram exibidas em cidades como Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bruxelas, Chengdu, Madrid, Milão, Rouen, Seul, entre outras.

A Exposição

A exposição “William Klein – O Mundo Inteiro é um Palco” está organizada em diversos espaços expositivos, cada um dedicado a diferentes temas fotográficos e vertentes artísticas que Klein explorou ao longo da sua carreira. Logo à entrada do Museu da Eletricidade, onde a mostra teve lugar, deparamo-nos com uma parede onde se lê o nome do autor e o título dado à exposição pelo curador David Campany. Nessa mesma parede estão disponíveis panfletos informativos, em português e inglês, que nos contextualizam um pouco sobre a vida e obra de Klein.

Avançando, encontramos uma parede com uma compilação de imagens consideradas “highlights” da carreira do artista, segundo o olhar do curador. Embora os espaços aparentem estar divididos por temas, a quem conhece a obra de Klein, a sensação que se impõe é de certa confusão. As imagens estão demasiado próximas, o que impede que respirem e tira-lhes parte do impacto. Algumas mereciam uma parede só para si, permitindo uma contemplação mais pausada e valorizando melhor o seu conteúdo.

O primeiro espaço expositivo, particularmente, causou-me algum desconforto. Esperava mais cuidado com a apresentação da obra de um fotógrafo tão marcante, especialmente nas áreas da fotografia de rua e de moda. Em vez disso, somos confrontados com uma espécie de "mixórdia" de imagens de várias vertentes e temas — todas numa só parede. Fotografias feitas na Europa, dentro da abordagem street, estão misturadas com dípticos de moda, sem qualquer separação temática evidente. Apesar das salas serem amplas e permitirem a circulação confortável, a disposição densa das obras provocava uma sensação de claustrofobia. Parecia informação a mais para tão pouco espaço.

Logo a seguir, há uma sala escura onde são projetados pequenos trechos dos filmes realizados por Klein. As imagens são projetadas em duas paredes sincronizadas, com o mesmo áudio, mas legendadas em português e francês, respetivamente. O espaço é confortável e bem pensado — tem bancos voltados para cada ecrã, permitindo uma experiência imersiva e tranquila.

Alguns corredores de passagem acolhem obras aparentemente consideradas de menor relevância — nomeadamente os retratos de celebridades ou fotografias captadas com câmaras digitais. A forma como estas foram colocadas transmite a

sensação de que foram secundarizadas, o que pode não refletir com justiça a amplitude e importância da produção de Klein nestes campos.

Logo após a sala dos filmes, encontramos uma pequena sala escura com imagens feitas no Japão. Este momento da exposição parece finalmente respirar. As fotografias estão bem distribuídas, com o devido espaço entre si, o que valoriza a experiência do visitante. Nota-se aqui uma seleção cuidada, talvez por estarem associadas ao livro Tokyo (1961), dando a ideia de que cada imagem é uma página isolada, com tempo para ser lida. No entanto, persiste um problema que se arrasta ao longo da exposição: o brilho do vidro das molduras e a iluminação excessiva dificultam a apreciação plena das obras, prejudicando o impacto visual.

Segue-se então o espaço dedicado às experiências de Klein com light painting, jogos de espelhos e os seus trabalhos enquanto designer gráfico e pintor. Este espaço está mais escondido, no piso superior, acessível apenas por uma longa escadaria, o que poderá ser uma limitação para alguns visitantes. Apesar de pequeno, o espaço está bem organizado. Há ecrãs com conteúdos multimédia explicativos e, ao centro, uma mesa expositiva com obras de design gráfico protegidas por vidro.

Por fim, entramos no último espaço da exposição, onde estão algumas das imagens mais icónicas de Klein — fotografias disruptivas tanto no universo da street photography como da fotografia de moda. Entre elas, destaca-se o famoso retrato do rapaz a apontar uma arma para a câmara (que quase dispara sobre o espectador); a imagem que nos coloca no meio de uma multidão, com o rosto desfocado de uma senhora em primeiro plano; ou aquela em que parece haver um retrato de gerações familiares, com uma rapariga à frente, seguida por um homem e uma senhora mais velha ao fundo. Também aqui está presente a emblemática fotografia de moda Isabella + Opera + Blank Faces, Paris, VOGUE, 1963, onde a modelo está de frente para a câmara, rodeada por figuras com os rostos apagados.









Bibliografia

Campany, D. (n.d.). About. David Campany. Recuperado em 22 de abril de 2025, de https://davidcampany.com/about/

Connaissance des Arts. (2022, 13 de setembro). Mort du photographe William Klein, l’oeil féroce de la pop culture. Recuperado de https://www.connaissancedesarts.com/depeches-art/deces/mort-du-photographe-william-klein-loeil-feroce-de-la-pop-culture-11176719/

Varsity. (n.d.). William Klein: The photographer who broke all the rules. Recuperado em 22 de abril de 2025, de https://www.varsity.co.uk/culture/5357

Jones, J. (2022, 13 de setembro). High-octane visions: Blurred, distorted genius photographer William Klein. The Guardian. Recuperado de https://www.theguardian.com/culture/2022/sep/13/high-octane-visions-blurred-distorted-genius-photographer-william-klein

Quis saber quem sou - um concerto teatral

 No dia 25 de Abril de 2024 fui assistir à peça “Quis saber quem sou” de Pedro Penim. Foi uma experiência profundamente simbólica e emotiva para mim. Há que dizer logo de partida que dentro da minha família o 25 de abril teve sempre uma importância bastante grande pelo meu avô ter sido preso político na altura do fachismo e termos sempre celebrado muito esta data. Escolhi fazer esta recensão porque estamos perto da mesma data um ano depois e me recordo o quão especial foi para mim assistir a este espetáculo no quinquagésimo aniversário do dia da liberdade em Lisboa. Nesse dia desci a avenida da liberdade, como costumo fazer todos os anos, com amigos e senti que estava uma atmosfera muito especial e que muitos mais jovens estavam a celebrar esse dia tão importante. Assisti à atuação com a minha amiga Maria por recomendação de outra amiga que conhecia pessoas que iam participar na peça. Conseguimos bilhetes no próprio dia meio em cima da hora e lá fomos nós assistir a produção no teatro São Luiz no Chiado. A escolha da data foi por acaso, mas como já referido intensificou a experiência e marcou a celebração da revolução dos cravos simbolizando o dia da liberdade em Portugal. Esta data ofereceu à obra um peso adicional porque cruzou a história coletiva do país com a intimidade da procura identitária do autor, intérprete e do espectador.

O diretor Pedro Penim apresenta-nos um espetáculo profundamente pessoal, mas com significado universal: a descoberta da identidade através da memória, da história, da música e da herança - não apenas familiar, mas também política. A peça parte da procura da individualidade de várias personagens e debruça-se sobre questões de identidade de género, pertença e liberdade. A peça é um monólogo poético, onde as palavras e os silêncios são igualmente significativos.

A escolha do título “Quis saber quem sou”, que foi retirado da música “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho de 1974, encaixa-se devidamente com a temática do teatro. Penim concedeu ao espetáculo com o primeiro verso da canção o questionamento e a procura da identidade individual e coletiva. Ele pretendeu marcar assim o momento histórico do início da revolução em 1974, tornando a composição num símbolo da liberdade.

A obra é um concerto teatral que tenciona revisitar as canções da revolução. A interpretação dos temas revolucionários antigos entregaram um clima nostálgico à experiência. O diretor usou as palavras e as cantigas como armas de afirmação e expressão pessoal. A direção musical de Filipe Sambado integra canções emblemáticas associadas ao 25 de Abril de 1974. O espetáculo apresenta uma seleção de 23 temas, que abrangem diferentes épocas e geografias, incluindo músicas portuguesas, brasileiras, angolanas, francesas e norte-americanas. Entre os temas destacados estão:

● “E Depois do Adeus” (José Niza, José Calvário), interpretada por Paulo de Carvalho, cuja primeira frase dá título ao espetáculo.

● “Acordai” (Fernando Lopes-Graça, José Gomes Ferreira).

● “Grândola Vila Morena” (José Afonso).

● “Vira Bom” (Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta).

● “Labanta Braço” (Os Tubarões).

● “Como nossos Pais” (Elis Regina).

● “Somos livres (A Gaivota)” (Ermelinda Duarte).

Através desta seleção musical e narrativa, “Quis saber quem sou” pretende reavivar a memória coletiva e destacar a relevância contínua das mensagens de liberdade e resistência presentes nestas obras.

Ao ter escolhido um elenco de atores e cantores jovens, Penim conseguiu fazer a ponte entre as pessoas que fizeram o 25 de Abril e a geração corrente que ainda luta pelos seus direitos e pela liberdade. Por serem jovens em palco a encenar essas temáticas, a mensagem e o assunto da obra tornaram-se bastante relacionáveis com os tempos de hoje em dia. Isso demonstra o quão intemporal o assunto do espetáculo é.

Tem que ser referido que a audição de atores foi feita a nível nacional. Além disso, a língua gestual portuguesa foi integrada no espetáculo pela incorporação de um personagem mudo. Estes dois fatores demonstram o valor inclusivo da peça, pondo ênfase na igualdade e na rejeição de deixar certos grupos da nossa sociedade de parte. O facto dos personagens estarem todos vestidos de maneira quase idêntica, transmite um lema de união e igualdade das várias personalidades representadas em palco.

Há um claro paralelismo entre a conquista da liberdade política e a busca por uma liberdade pessoal, que continua a ser necessária e urgente. A presença de arquivos, imagens, textos e canções da época reforça este cruzamento entre a memória coletiva e a individual.

É de mencionar que a peça foi representada em várias outras cidades ao longo do ano após ter sido estreada fazendo êxito a nível nacional mantendo viva e celebrando a mensagem do dia da liberdade em outras datas e alturas do ano também.

O momento mais emocional da peça foi pessoalmente quando no final do espetáculo os atores e os espectadores cantaram todos juntos em coro o tema “Grândola Vila Morena” de José Afonso para celebrar em conjunto o dia do 25 de Abril.

Em suma, “Quis saber quem sou” é uma obra profundamente atual e necessária. No dia em que se celebrou a liberdade de Portugal conquistada há 50 anos, Penim recordou-me que essa liberdade só está completa quando também é pessoal, íntima e inclusiva. Classifico a peça um gesto artístico comovente e corajoso, que soube transformar a celebração do passado num apelo ao futuro. Comoveu-me e marcou-me muito a forma como nos foi dada, naquele dia tão cheio de significado, a possibilidade de celebrarmos a liberdade que ainda estamos a aprender a viver.

















Webografia

https://www.tndm.pt/pt/programacao/livros-e-pensamento/quis-saber-quem-sou/

https://www.tndm.pt/pt/odisseia-nacional/pecas/quis-saber-quem-sou/

https://www.tndm.pt/pt/programacao/espetaculos/quis-saber-quem-sou/

https://www.youtube.com/watch?v=701QEa7sS3Y

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Onze Mulheres a ilustrar (o seu) mundo

 MAEDS – Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal

Janeiro a Maio de 2025

Curadoria: Ana Férias


Ilustração de uma mulher em perfil, e dos seus cabelos decorrem os nomes das 11 artistas que participam na exposição


“IlustraMulher” é uma exposição coletiva que junta o trabalho de onze ilustradoras contemporâneas e que, mais do que mostrar estilos, partilha visões — sobre o mundo, sobre a intimidade, sobre o que é viver, criar e ser mulher hoje. Está patente no MAEDS, um museu que tem vindo a abrir espaço a linguagens visuais diversas e que aqui aposta numa proposta onde a arte se cruza com questões sociais e afetivas.


Ao entrar na sala, sente-se desde logo que cada artista tem o seu lugar. Não há esforço em forçar semelhanças. O que une estas obras é talvez uma inquietação comum — com o corpo, com a memória, com o gesto de contar histórias — mais do que um tema explícito. As linguagens variam: há trabalhos digitais, aguarelas, colagens, misturas técnicas. Mas o que permanece é uma energia de partilha, de procura e, por vezes, de denúncia.


O percurso expositivo é simples e direto. Não se impõe ao visitante, o que permite um tempo de leitura mais pessoal e atento a cada proposta. A curadoria respeita o universo de cada artista, e talvez por isso mesmo se sinta, nalguns momentos, falta de um fio que ligue as obras entre si — um gesto de costura mais presente. Ainda assim, essa autonomia pode ser lida também como uma afirmação de pluralidade, da recusa de encaixar o trabalho destas mulheres num molde comum.


Algumas obras ficam na memória. Cristina Arvana cria mundos delicados onde natureza e imaginação se fundem com uma leveza muito sua. Daniela Mata traz-nos imagens que falam alto — como Free Palestina — e que não deixam dúvidas quanto ao poder político da ilustração. O duo Math Is Good trabalha com referências da cultura visual popular (como o cinema), construindo imagens densas, carregadas de memória e camadas simbólicas.


Falo aqui também na qualidade de artista participante. Foi a minha primeira exposição, e isso não me
é indiferente. Estar entre estas vozes foi uma experiência marcante — não só pelo desafio de escolher o que mostrar, mas sobretudo por ver o meu trabalho colocado em diálogo com o das outras. Esta vivência despertou em mim uma vontade mais clara de, no futuro, poder também criar espaços expositivos colaborativos, onde a curadoria se torne extensão do processo criativo, e não apenas seu reflexo.

Várias mãos levantadas, com diferentes padrões inscritos, como se de tatuagens se tratassem, identificando a multiplicidade feminina contida até na própria artista.


O catálogo da exposição é cuidado e bonito, com boas imagens e um design claro. Sente-se o investimento institucional, o que é sempre importante. Talvez se note a ausência de um texto crítico mais aprofundado que ajude a pensar a exposição num contexto mais amplo — mas isso também deixa espaço para quem a visita (ou escreve sobre ela) formular as suas próprias leituras.


“IlustraMulher” deixa-nos com a sensação de que há ainda muito por dizer e mostrar — e isso, para mim, é sinal de que cumpriu o seu papel. É uma exposição que se posiciona com coragem, sem ser moralista nem superficial. E oferece uma galeria viva de vozes que, cada uma à sua maneira, desafia o que significa ilustrar, cuidar e criar neste tempo em que vivemos.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

A Casa da Cerca e as oficinas artísticas

 A Casa da Cerca, em Almada, é um centro de arte contemporânea, onde nele podemos observar um belo jardim botânico com vários tipos de plantas com o objetivo de aproveitá-las para fazer arte, ou seja, plantas estas que são utilizadas para as mais variadas práticas artísticas. 

Para além disso, esta casa tem um vasto programa cultural. O momento inicial serviu para explorar e observar a linda paisagem do rio Tejo bem como admirar e refletir sobre as esculturas que naquele jardim habitavam. Uma experiência imersiva, na medida em que, neste centro de arte contemporânea são também exploradas através de oficinas, várias experiências artísticas bem como exposições e atividades culturais.


No dia 11 de Abril esteve presente uma oficina onde foi explorado uma mistura entre a fotografia e o desenho com o objetivo de retirar das pessoas o melhor que elas têm dentro e fora de si. 

Através da arte, neste caso da fotografia em consonância com o desenho, todos aqueles que foram mergulhados pelo desafio conseguiram superar algo que seria para muitos impossível. Desenhar através de uma câmara obscura, sentir que todos podemos fazer arte mesmo que não seja aquela que pensamos ser a nossa arte principal. 

Podemos dizer que, muitos são movidos pela arte que têm dentro deles, mas podemos ter mais do que uma arte dentro de nós, podemos ser artistas por completo! Mas o que é ser um artista por completo? 

Ao longo do decorrer desta oficina que oferecia um espaço tranquilo, com música relaxante e ao mesmo tempo motivadora, foram criados retratos. As reações foram várias, desde curiosidade e surpresa, a estranheza e reflexão. 



Perante este centro contemporâneo e através desta oficina surgiram diálogos, reflexões, contacto com a natureza, questionamentos, observações e um olhar crítico e artístico.

Todos os que se submeteram a esta experiência saíram dela mais leves e enriquecidos, cada um à sua maneira.


terça-feira, 29 de abril de 2025

Spiral Tribe Exhibition de Mark Angelo Harrison - ADAO Associação Cultural, Barreiro.

 

Spiral Tribe Exhibition esteve presente na ADAO Associação Cultural sem fins lucrativos localizada no Barreiro de 22 de março a 29 de março. Esta exposição foi uma exposição de fotografia montada num local que não foi pensado para uma iniciativa como esta, sendo assim o espaço onde esta ocorreu improvisado.

A inauguração começou com um discurso de Mark Angelo Harrison, cofundador do coletivo Spiral Tribe, que se estendeu para a apresentação da exposição e relação da mesma com o livro A Darker Electricity: The Origins of Spiral Tribe Soundsystem, escrito pelo próprio, num processo que demorou oito anos. Sendo um ambiente que é frequentado por pessoas que conhecem bem a música eletrónica e o conceito de Free Party não existiu uma explicação aprofundada sobre os temas, em vez disso foi esclarecido em que momento foram capturadas as fotografias. Ao longo da conversa com o cofundador foi fácil de entender que a exposição não foi sobre o processo visual das fotografias tiradas, mas, acima de tudo, sobre a sua história.

As fotografias podem ser desconfortáveis para quem não tem conhecimento destas festas ditas ilegais, mas percebesse que é reconfortante para o grupo de pessoas que se revê nestes movimentos.

Nenhuma das fotografias tinha identificação ou o nome do autor, pois nunca foram capturadas com o intuito de serem expostas, mas sim, com a intenção de criar registos e memória daquilo que foram construindo. Estas fotografias foram recolhidas ao longo dos anos 90 até inícios dos anos 2000, primeiros anos em que o coletivo atuou, com origem no Reino Unido e mais tarde difundindo eventos pela Europa.

As imagens espelham perfeitamente a influência do grupo na cultura da música eletrônica e ainda o movimento anticapitalista, mal visto por muitos, tendo em conta que o estilo de música Acid House era considerado ilegal por ser novidade e chamar mais público a esta cena gratuita, o que causava prejuízo ao ambiente dos clubes noturnos. A composição das imagens não é muito trabalhada, por serem capturados momentos velozes, tendo todas estas dimensões entre 15cm por 10 cm e 10 cm por 10 cm. Descrevendo de uma forma mais profunda estas fotografias, as mesmas mostram tanto o ambiente destas festas como, flyers utilizados para informar que o coletivo estava por perto, artistas em performance, confrontos com a polícia, idas a tribunal e transporte de sistema de som. É notável que existia uma prioridade na identificação visual do grupo, tanto pela decoração feita á mão como por camisolas com designs e frases originais que representavam a ideologia, “MAKE SOME FUCKIN NOISE!”.



Esta exposição foi articulada ainda com outros workshops, estes sendo: “Redesigning Revolution” que explorou a simbologia em movimentos culturais; “Guerrilla Theatre Mask Making” onde se produziram máscaras, estes desenvolvidos por Mark Angelo; e por último “Ableton Live Improvisations” onde artistas falaram do seu processo de improvisação de música eletrónica ao vivo.

Arrematando, esta exposição talvez não seja para qualquer pessoa, porque não é montada de acordo como ditam as regras, ou até por mostrar estilos de vida alternativo, mas sem dúvida que mostra de forma transparente a construção de um espaço importante para a música eletrónica e para o conceito de Free Party, a que muitos se agregam nos dias de hoje.