segunda-feira, 28 de abril de 2025

Fragmentos Híbridos no continuum da realidade - virtualidade



Entre os dias 3 de abril de 2025 e 10 de abril de 2025, a Galeria da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa apresentou a exposição “Fragmentos Híbridos”, a qual se situa no corredor interior da entrada das Belas Artes. A Faculdade é por si um espaço fragmentado pelo tempo -1217, 1858, 1932, 1980, 2025 - pedras gastas pelas pegadas onde se tenta unir a fissura do passado com o presente.  A pedra invade luz bege, paredes expondo azulejos que escondem portas. Se não estiver atento à pequena placa da galeria, mergulha num espaço fragmentado de pedras, portas, degraus e esculturas de gesso. Subindo alguns degraus, do lado esquerdo, o espanto encontrou na parede uma abertura branca e lisa. A profundidade predominou, o vazio surpreendeu até ao vislumbre dos objetos.    
 

Sentiu-se a simplicidade de uma exposição intimista e delicada, onde o espaço foi amplo para o tamanho pequeno dos desenhos, fotos, pinturas e instalações de pequenos objetos, fragmentos e experiências sensoriais. A luz vem de 3 janelas, de alguns pequenos holofotes acentuando o brilho refletido nas paredes e nas composições. No fundo mais escuro, desenhou-se um círculo de luz que destacou um misterioso espaço. Os artistas participantes foram: Carlos Henriques, Catarina Reis, o grupo: João Pedro Costa, Ana Mena, Helena Elias e João Castro Silva; Jorge Forero, Lui Avallos, Marta Lucas, Pedro Ângelo, e os coletivos ARTiVIS e ÉBANO, “as composições plasmam diferentes temporalidades e estágios matéricos, colapsando planos visuais que evocam tanto a teoria “da matéria vibrante de Jane Bennett, como o “conhecimento situado de Donna Haraway e “o sujeito nómada de Rosi Braidotti.”

Os folhetos da exposição ressaltavam ao olhar pela imagem ilustrativa da capa e a e a sua relação com o título, Fragmentos Híbridos. Acompanhou bem a visita e a reflexão sobre os conteúdos teóricos e informativos.  Continha um QR code para aceder à Realidade Aumentada, Artivive, uma ferramenta revolucionária que ajudou a transformar a maneira de olhar a exposição. O acompanhamento foi contínuo no descobrir dos fragmentos correspondentes que formavam, assim, um todo. “Através de uma seleção de imagens e objetos de diversos artistas, a exposição apresenta fragmentos que ora se manifestam como documentos, ora se reconfiguram como “imagens sobreviventes” de Georges Didi-Huberman, surgindo em novas materialidades e ambientes digitais que mantêm a latência das suas aparições anteriores.” As imagens fantasmas, as que “sobrevivem nas fotografias”. O folheto foi dando a conhecer a exposição, através do mapa da galeria, e a possibilidade de ler e pesquisar para aprofundar e conhecer os diversos projetos. Um bom guia informativo e didático, para quem não é desta área “A exposição Fragmentos Híbridos, emerge no âmbito das materialidades híbridas e de processos artísticos baseados na prática. Explora-se assim a potencialidade especulativa do fragmento como conceito operativo nas artes e como recurso para a formação em investigação artística no ensino superior.” Partindo da ideia de que uma porção de algo pode renascer e recriar qualquer outra “coisa”, a mostra propõe situações experimentais que articulam diferentes corpos materiais no continuum da realidade-virtualidade. Este processo visa promover o diálogo entre sujeitos e materiais, que também podem ser sujeitos.”
A organização do espaço foi fluida no seu percurso, sendo este contínuo. A disposição das obras ajudou na compreensão da intenção dos conteúdos. As ferramentas digitais ou virtuais estiveram disponibilizadas na exposição. Num fluxo grande, houve sempre a possibilidade de aceder ao QR code e utilizar a ferramenta Realidade Aumentada no telemóvel. Deu a ideia de que os materiais não são meros recipientes passivos de experiências, mas entidades ativas, portadoras de histórias. Há uma energia latente em tudo o que existe: uma potência que vibra, embora invisível, presenteia o mundo com uma presença além da humana. O percurso iniciou  por um pequeno desenho de um fragmento arqueológico, com o nº1, no qual foi utilizada a Realidade Aumentada.
Planta e título das obras

  
      
                                                        


                 

Continuando por 3 composições sem título pode-se, assim, ver dois mundos, duas visões, nas quais se deixou a perceção divagar e surpreender-nos.




As emoções evadiram e tudo se transformou num percurso de espanto e curiosidade. O espaço começou a ser mais pequeno, mas os objetos continuaram a contar a sua história e memórias fantasmas. A mostra propôs situações experimentais, as quais interagiram fragmentadas com o corpo e o espaço. A RA desvendou essas memórias interiores.                                                              



“Inspirando-se na noção de tessera da crítica literária de Harold Bloom, (1973), e no conceito de constelação enquanto processo criativo dinâmico de Helena Elias, (2019), que resgata a complexidade, significado e autonomia do fragmento de Luísa Perienes 2010), Fragmentos Híbridos expande o conceito de “fragmento nómada proposto por Helena Elias, Mónica Mendes, Pedro Ângelo e Marta Lucas (2024)”. “Numa progressão de texturas, espaços e materializações híbridas, a exposição é um convite à imersão através de experiências multissensoriais, do desenho e da pintura aos fragmentos de múltiplas proveniências, aos conteúdos em Realidade Aumentada e Realidade Virtual.”                                                                       

 

  https://www.belasartes.ulisboa.pt/o-fragmento-nomada-workshop- do-projecto-caphe/


 projeto CAPHE
                                                                    A Curadoria da exposição foi da Helena Elias (professora auxiliar a tempo inteiro no departamento de escultura da FBAUL, coordenadora da unidade curricular de cerâmica e coordenadora da linha de investigação no fazer artístico e científico no VICARTE, supervisionando 3 bolseiros de doutoramento de investigação artística da FCT e liderando o projeto ARcTic South e ela é membro do projeto de pesquisa artística Memory) e da Mónica Mendes (artista de media digitais, designer e professora no Departamento de Arte Multimédia. É também investigadora no ITI/LARSYS - Instituto de Tecnologias Interativas, colaboradora no CIEBA – Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes, da FBAUL, membro fundadora do hackerspace altLab do AZ Labs. Interessada em projetar para um mundo mais sustentável, criou o projeto ARTiVIS, explorando sistemas interativos em tempo real na intersecção entre Arte, Ciência e Tecnologia.). A Curadoria foi eficaz, deu coerência entre as composições e o tema. As curadoras estiveram envolvidas, foram participantes, investigadoras e organizadoras, conseguindo que os conteúdos e os resultados fossem mais coesos. A Exposição relacionou-se bem com as tendências contemporâneas na Arte e na Sociedade, refletindo as diversas preocupações, e tentando uma aplicação mais consistente ao nível da Realidade Virtual e da Inteligência Artificial. Uma exposição com um teor didático devido às práticas de Workshops com outras Faculdades (Quénia) e na própria FBAUL, com alunos. Novas metodologias em escultura com ações criativas em 3 ambientes: sala de aula, atelier, residência artística; as dinâmicas foram decorrentes da prática/reflexão; o conceito de constelação como processo dinâmico criativo: imagem migrante, mesa de montagem/ tessera. “As experiências resultantes abrem caminho para novas abordagens na educação artística, especialmente no que respeita à investigação artística e à sua transferência de conhecimento.“Em particular, a exposição dá a conhecer o trabalho de investigação artística desenvolvido por doutorandos da FBAUL no âmbito das atividades do projeto CAPHE…Neste enquadramento, incluem-se conteúdos documentais realizados durante as mobilidades efectuadas aos países dos seus parceiros, nomeadamente as explorações artísticas assumidas no treino de investigação ao nível do 3º ciclo FBAUL.” Foi uma experiência Híbrida, enriquecedora culturalmente, lúdica, experimentalista nas diversas realidades em que andámos (atual, passada, do sonho, digital, virtual, aumentada…) e importante para a Educação Artística ao nível da formação dos professores. Sem dúvida que foi uma exposição inesquecível para quem a fruiu, principalmente nas Salas Fechadas Virtuais - Os Quatros Elementos, e na visita à Sala da Exposição Virtual -  Avatares,sem faltar o normal “AAAH!”

Apoios de ITI/LARSYS, VICARTE e LiDA – (ESAD.CR/ IPL) com a parceria da CAPHE©2025 - COMMUNITIES AND ARTISTIC PARTICIPATION IN HYBRID ENVIRONMENTS – HORIZON EUROPE PROGRAM UNDER GRANT – AGREEMENT NO. 101086391

https://iti.larsys.pt/project/artivis/                                                                      https://iti.larsys.pt/                https://www.artivive.com/                                                       https://www.ebanocollective.org/team/ 

http://artivis.net/about/                                                                         https://vicarte.org/projects/

https://lida.pt/pt-pt/about/


   


                                   


                   


 


 

 


 





 



 

 

 

 

 

 



 

Travelling - Chantal Akerman no CCB



Num primeiro contacto com a exposição as salas introdutórias refletem de modo claro qual o cariz dos assuntos dali para a frente abordados nas restantes divisões através da exibição de duas curtas metragens. A mostra é inundada por uma dimensão labiríntica presente desde a separação dos diversos compartimentos, passando pela disposição dos conjuntos de obras de arte num só espaço e mais implícita ainda pelo exagero de experiência sensorial.

Numa das projeções acima referidas, realizada a partir de um projetor, uma jovem recém dona de casa interpreta um papel desinibido que se pode equiparar ao de uma estudante deslocada a habitar um quarto alugado pela primeira vez. A trama desenvolve-se em torno da elaboração das suas tarefas domésticas que realiza apenas na cozinha: cozinhar, comer e limpar. A ação é exclusivamente acompanhada pelo cantarolar aleatório da atriz, ao que se juntou em voz off o surgimento de algumas onomatopeias adjacentes ao manuseamento dos adereços de cena. Evidenciando uma certa imaturidade no jogo entre a infantilidade e a responsabilidade que se vivem durante o período de transição para a vida adulta e autónoma, compreende-se que num duelo ambíguo entre ambas, estas atitudes se complementam unanimamente. A obra permite uma reflexão sobre o facto de nos momentos comuns das nossas rotinas nos sentirmos ainda mais sensíveis aos debates interiores que sempre nos acompanham. No fundo quem peca é perturbado pelas memórias do seu passado, enquanto que a ansiedade sobre o dia seguinte atinge quem não peca.


A obra que se segue, num lugar adiante, uma projeção de aspecto semelhante apresentava uma elegante jovem adulta que, trajada apenas por um par de cuecas largas, se prosta diante de um espelho de porta no seu roupeiro, justapondo-se pela retaguarda relativamente ao único plano utilizado durante o vídeo. Esta, ao analisar preponderantemente o reflexo do seu corpo, põe-se a descrevê-lo dos pés à cabeça utilizando uma linguagem sincera e transparente. Estando de pé e adoptando uma postura natural e descontraída, apalpa superficialmente cada parte que descreve, incluíndo o seu cabelo selvagem preso por uma mola num penteado solto.



Um corpo prostrado sobre uma cama forrada a lençóis cor-de-rosa, ao fundo de um estúdio T0 habitado por uma jovem mulher, devora uma peça de fruta à medida que lança o seu olhar predominantemente sobre a câmera e perturba de modo atrevido a atenção do espectador. Um carácter fulminante e intruzivo da intérprete que pouco demonstra durante os takes, mas que é compensado com uma vista panorâmica de toda a divisão, inglobando cada elemento de mobiliàrio, dos mais supérfluos aos mais utilitários. Em constante rotação de 360 graus sobre o mesmo eixo, o plano captado incluí a globalidade do espaço onde é realizado o filme que mostra de entre outros uma secretária de trabalho, uma pia daquela de época, uma cómoda alta, um fogão com forno embutido, uma mesa de refeições, um baú, uma estante e um cabide, todos eles dispostos de forma abrupta.




Patentes na sala mais centralizada face aos restantes trabalhos destacam-se 24 televisores cúbicos, erguidos dobre altos plintos, que projetam a cores e acompanhados das respectivas sonoridades variados filmes em loop dispostos aleatóriamente, dos quais alguns de repetem. Neles podem observar-se habitantes da Europa de leste durante os seus dias em imagens captadas de forma anónima e expontânea durante o horário noturno e uma época fria. Assim, das imagens carregadas de um ambiente sombrio os focos de atenção caem sobretudo nos olhares desprevenidos e outsiders destes então figurantes, vestidos de roupas quentes e acessórios de lã, que deambulam pelas suas cidades. Ora sentados numa estação de comboios aguardando o primeiro da manhã, ora em compridas filas de espera de acesso a centros de apoio, a pouca luz visível vem de candeeiros que acusam o elevado grau de nevoeiro e geada. Apesar da interessante componente estética do amontoado de informação visual, as telas duplicadas, certos cenários destoantes e o confuso efeito sonoro resultante da sobreposição de inúmeras sonoridades, fazem deste lugar contemplativo algo fatídico e desinteressante.


Uma sala acolhedora com o chão totalmente forrado a linóleo agrega a suspensão de cinco placas de acrílico, translúcidas e suspensas por cabos de aço, nas quais são projetados, num formato de dupla face, individualmente e desde o tecto, trechos de um filme capturado em veloz andamento sob uma estrada desértica montanhosa. Repleta de pequenos detalhes afincadamente trabalhados, esta mostra coletiva simboliza uma viagem exótica mas nem por isso paradisíaca, atendendo à presença de elementos que demonstram aflição, crime e miséria. É patente um contraste invocativo da consciência sobre a constante necessidade de alerta e socorro em zonas conflituosas, ainda que se mantenham conservadas. As cores são bastante neutras pois veêm-se exclusivamente elementos orgânicos, desde pedaços de céu azul, núvens escuras acentuadas terras argilosas com pouca vegetação e muralhas em pedra. Mais imponente que o próprio conteúdo visual é a trilha sonora, composta também por cinco colunas correspondentes às telas, emitem simultâneas captações que impelem uma passagem para a atmosfera da obra. Enumerando os barulhos de que são compostas, podem ouvir-se dos mais bonitos sons às mais assustadoras manifestações de ondas sonoras, são eles: o mar, o vento, trovoada, cavalos, pássaros, águias, rãs, cães, sirenes, sinos, segredos, tiroteios, bombas, gritos aflitos, cantos espirituais e o som dos pneus do próprio carro. O caminhar pela sala é fortemente convidativo sendo que práticamente não existem ângulos mortos da peça.




Opressão, conquista, desleixo, autenticidade e mimetismo humano seriam as palavras-chave que resumiriam respectivamente as obras descritas.

Entre as amoreiras de Arpad Szenes e Vieira da Silva

 “Tudo se transforma, nada morre”. Esta é a frase, retirada de Metamorfose, de Ovídio, que recebe o visitante ao adentrar a exposição Uma Estreita Lacuna, segundo capítulo de 331 Amoreiras em Metamorfose, projeto em exibição no museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa, que se estende desde novembro de 2024 a julho de 2025 e reúne obras de inúmeros artistas, portugueses e estrangeiros, que ora se mantêm, hora se substituem em cinco versões de uma mesma exposição.

Para Uma Estreita Lacuna, a curadoria de Nuno Faria traz em especial a relação entre palavra e imagem como tema central, o que remete fortemente ao vínculo que Vieira da Silva teve com a poesia ao longo de sua obra. Aborda-se também o texto e o têxtil, de modo que homenageia, delicadamente, a própria história do museu, antes Fábrica dos Tecidos de Seda.

 

Ao longo das cinco salas – uma das quais abriga exclusivamente as gravuras feitas por Vieira da Silva para ilustrar o livro L’Inclémence lointaine, de seu amigo René Char–, o espectador é confrontado por obras da artista e de Arpad Szenes intercaladas às de trinta e quatro outros artistas, nomes como Alberto Volpi, Amadeo de Souza-Cardoso, Helena Almeida e Wassily Kandinsky. Nesse conjunto, trabalhos como as aguarelas de 1925 de Sonia Delaunay se misturam a obras recentes, como o políptico de Jorge Feijão, de 2024. Essa associação permite-nos revisar os trabalhos mais antigos, lançando a eles uma interpretação contemporânea.

Dentre os objetos expostos, um deles se destaca por não ser apresentado como obra de arte: a veste bordada a seda, oferecida por Vieira da Silva a Lourdes de Castro. Ela, contudo, dialoga naturalmente com as outras peças presentes na sala, evocando em conjunto a tradição feminina da tecelagem e o senso de comunidade e de transmissão de histórias que acompanhavam a prática.

 


 

Além da curadoria, o design da exposição é também muito respeitoso ao espaço, ao aproveitar as particularidades do museu, como as vigas do teto e a iluminação natural das salas, que se mesclam perfeitamente à estrutura montada para receber as telas de Bruno Pacheco. Ademais, a disposição das obras cria também uma linha narrativa acolhedora, ao muitas vezes escolher por aninhar as molduras de diferentes artistas umas às outras, quase a fundir os trabalhos entre si. O resultado é uma leitura das obras em conjunto, metamorfoseadas em uma coisa só.

A escolha dos textos nas paredes intensifica esta sensação narrativa. À exceção da sala das gravuras de Vieira da Silva, na qual é necessário algo mais informativo para que se saiba o contexto do que está a ser exibido, o restante da exposição conta com citações que, de modo poético, induzem o pensamento do visitante, em vez de oferecer-lhe respostas prontas ou explicações acerca dos trabalhos.

 


 

Para além do que está exposto, o projeto conta ainda com publicações, performances e leituras públicas, entre outras atividades que compõem uma programação paralela, a qual permite um engajamento maior do público e permite novos momentos de reflexão acerca dos temas da mostra.

Uma Estreita Lacuna e o projeto no qual se situa parecem ser, sobretudo, uma carta de amor ao próprio museu e ao trabalho de Vieira da Silva e Arpad Szenes, ao preservar memórias através de novas reflexões.

domingo, 27 de abril de 2025

Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, Almada.

 


No topo da colina de Almada Velha, com uma vista privilegiada sobre o Tejo e a cidade de Lisboa, ergue-se a Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea. Este espaço singular combina património histórico, arte contemporânea e natureza, proporcionando uma experiência cultural enriquecedora. Sendo, originalmente, uma casa senhorial de uma quinta de recreio dos séculos XVII e XVIII, a Casa da Cerca foi habitada por várias famílias até 1957. Em 1974, foi ocupada provisoriamente pelo hospital de Almada e, por fim, adquirida pela Câmara Municipal de Almada em 1988. Após um cuidadoso processo de restauro, abriu ao público em 1993 como centro de arte contemporânea, sob a direção do pintor Rogério Ribeiro.

Dispõe de diversas valências que valorizam a visita e reforçam a sua missão educativa e artística. As galerias de exposição acolhem regularmente obras de artistas nacionais e internacionais, explorando variadas linguagens e técnicas contemporâneas. O Centro de Documentação e Investigação Mestre Rogério Ribeiro, instalado no edifício, disponibiliza recursos especializados para o estudo e a pesquisa em arte. É um espaço menos visível à primeira vista, mas que sustenta o trabalho que a Casa da Cerca tem vindo a desenvolver ao longo das últimas décadas.

Merece destaque O Chão das Artes – Jardim Botânico, inaugurado em 2001, que propõe uma união entre a botânica e a arte. O jardim integra diversas plantas tradicionalmente associadas à produção de materiais artísticos, como pigmentos e óleos, reveladas através de pequenas identificações que convidam à descoberta. Ao percorrer os seus caminhos, o olhar vai ligando as espécies a algumas técnicas artísticas, e a natureza revela-se como cenário e matéria viva do processo criativo. Inspirado no modelo da quinta de recreio tradicional portuguesa, o jardim preserva a memória histórica da Casa da Cerca.

Integrado nesta dinâmica, o Serviço Educativo desenvolve programas destinados a escolas e ao público em geral, promovendo o contacto direto com a diversidade do ambiente. O percurso pelo espaço convida a um desacelerar do ritmo, como se a própria paisagem pedisse mais tempo para ser vista, proporcionando uma experiência que se constrói numa relação sensível com o lugar.

Ainda no prolongamento da visita, a cafetaria Coisas Degostar, com a sua esplanada aberta para o Tejo, oferece tempo de repouso e contemplação. Sentados sob a sombra das árvores e a vista do rio, o visitante deixa-se absorver pela quietude da paisagem. Há uma cumplicidade silenciosa entre o espaço e quem o habita, por instantes.

Atualmente, a Casa da Cerca encontra-se em obras de reabilitação, o que condiciona, temporariamente, o acesso à galeria principal. Contudo, a essência do lugar permanece. O jardim e a esplanada mantêm-se como abrigo para aqueles que procuram um instante de sossego, uma pausa no movimento contínuo da cidade. Apesar da reabilitação, a Casa da Cerca mantém-se ativa, assegurando o seu compromisso com a criação artística e o acolhimento do público.

 









 


Musical Rent – Teatro Variedades, Parque Mayer em Lisboa

Em cena de 26 de Março a 27 de Abril de 2025

Texto, Música e Letras por Jonathan Larson

Encenação: Sissi Martins



 “Five hundred twenty-five thousand, six hundred minutes (…)” é como se conta um ano, segundo a canção “Seasons of Love” do Musical Rent. E centro e trinta e cinco mil destes minutos são passados a dançar, a cantar e a aprender o que é Amor nesta peça. 

No passado dia 4 de Abril, tive o privilégio de assistir ao Musical “Rent” no Teatro Variedades no Parque Mayer em Lisboa. Tendo nascido na cabeça de Jonathan Larson, autor do texto, música e letras, este conta a história de um ano na vida de um grupo de amigos queer, artistas e com poucos recursos económicos, nos anos 90 em East Village, Nova Iorque nos Estados Unidos, durante a epidemia do HIV/SIDA. De autoria americana, este Musical estreou pela primeira vez em Janeiro do ano de 1996 no New York Theatre Workshop em Nova Iorque sob a direção de Michael Greif. Encontra-se agora em Portugal, pela primeira vez em cena, quase 30 anos depois da sua estreia. É uma produção da Music Theater Lisbon sob a encenação de Sissi Martins, que também interpreta um dos papéis da peça. 

Esta adaptação portuguesa, em pouco difere da original, sendo que transparece a colaboração do encenador original (Michael Greif) com Sissi Martins. Com um elenco composto com um grupo de atores de destaque (Bruno Huca, Carlos Martins, Diogo Leite, Dennis Correia, Gonçalo Martins, Inês Ramos, Margarida Martins, Marta Lys, Rafaela Monteiro, Marta Mota, Nuno Martins, Pedro Fontes, Pedro Paz, Sara Claro, Sissi Martins), as performances transpiram vida e energia, sendo que a tradução portuguesa das músicas, não fez muita diferença, algo que receava, visto conhecer bastante do material original. Relativamente ao design da peça, o cenário (Pedro Morim) transporta-nos imediatamente para os anos 90 em Nova Iorque, repleto de vários cartazes, de todos os tamanhos, a anunciar rendas de casa, fazendo assim alusão ao título da peça. Sinais de trânsito e estruturas de ferro, que vão sendo movidas no espaço ao longo da peça para servir vários cenários, fazem lembrar assim o ambiente acelerador e citadino das ruas nova iorquinas. 

 


Duma forma minimalista, são destacados alguns elementos da cidade, sendo que estes acabam por ser os elementos essenciais para compor o cenário das várias cenas que vão ocorrendo ao longo da peça. Com aqueles elementos, ficamos enquadrados relativamente ao espaço onde o musical vai ocorrer, sendo que as mudanças de ambiente são apenas anunciadas com alguns adereços diferentes, sabemos o essencial sobre o ambiente em que as personagens vivem nos anos 90, para mergulharmos na história. Outro pormenor interessante, é que a banda (Pedro Alvadia, Diogo Soares, David Campos, André Soares) sob direção musical de Pedro Alvadia, encontra-se no lado esquerdo do palco, sempre presente ao longo da peça, fazendo lembrar o Coro no Teatro da Grécia Antiga. O guarda roupa (Pedro Morim), repleto de verdes, vermelhos e azuis, na minha opinião, ficou um pouco aquém para nos transportar para a época. Relativamente a outros aspetos mais técnicos, o jogo de luzes (João Fontes) foi bastante positivo, cumprindo o seu propósito e ajudando a criar dinamismo e tensão em vários momentos da peça. O som (Daniel Fernandes) estava bastante sólido, ouvindo-se perfeitamente os atores. 

De sala praticamente cheia, preenchido por cabeças e ouvidos atentos tanto na plateia como nos balcões, a audiência respondeu de forma positiva ao espetáculo. Assisti ao Musical no Balcão do lado direito do palco, e apesar de ter a vista ligeiramente obstruída, tinha um lugar privilegiado para as reações do público. A plateia encontrava-se emocionalmente investida pois havia uma tentativa de batida de palmas depois de quase todas as músicas e vários lenços começaram a aparecer nos momentos mais tristes da peça. Mexiam-se no lugar e sorriam quando vários atores estavam em palco com grandes números musicais e de dança e jogos de luzes. Algumas piadas não resultaram tão bem, devido a uma tradução do texto de inglês para português, certas referências muito especificas ao contexto americano acabavam por passar ao lado. 

Achei no geral uma produção muito bem conseguida, sendo que destaco principalmente a performance dos atores e a cenografia, ambos elementos transportam-nos para o tempo e espaço em que as personagens viviam, algo difícil de alcançar visto passar-se numa realidade mais distante e num contexto diferente do português. Com um especial destaque para a performance de Dennis Correia, que interpreta a personagem de Angel, comandou cada cena em que participou, com a sua linguagem corporal e presença em palco com os seus companheiros de cena. Ocupou o espaço e foi a primeira personagem que me fez ficar investida no enredo, no Primeiro Ato do Musical. Este musical que conta as histórias de várias personagens queer, estabeleceu um papel importante na cultura americana do final dos anos 90 como também estabelece esse papel hoje em dia, em que vemos os direitos da comunidade LGBTI+ novamente atacados em vários países. O contexto em que este musical ocorreu foi diferente, sendo que Jonathan Larson escreveu sobre a vida dos seus amigos, no entanto, não deixa de continuar a ser relevante, ver vidas queer a bold e a cores, a serem as personagens principais enquanto cantam a alto e bom som para todo o mundo ouvir, sob os seus receios, vitórias, alegrias, medos e frustrações.


Um Passeio pelas Memórias de Tristany Mundu


Tristany Mundu x Rapprps Bedjú Tempú, Bandeira "Aquele caminho que vez do comboio" , impressão sobre cetim, a partir de desenho em aguarela e lápis de cor s/ papel. Fonte: Própria


 A Obra de Tristany Mundu

Tristany Mundu (n.1995) é um artista “transdisciplinar”, de origem angolana e portuguesa, nascido e criado na Linha de Sintra, em Lisboa. Atualmente, desenvolve a sua próxima obra, onde continuará a sua exploração de temas como a “identidade da Linha de Sintra” e a contribuir para o seu desenvolvimento (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade - Biografia, 1). As obras do artista revelam uma leitura e análise profunda realmente interessante. Sendo um artista que aborda e conjuga diversas expressões, os seus métodos de criação são extensivos, desde a música, a performance, as produções, a direção criativa até à curadoria. Tudo isto se torna extremamente aparente quando nos deparamos com a obra de Tristany.

Na exposição “Cidade à Volta da Cidade”, localizada na Sala de Desenho do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian entre os dias 22 de fevereiro e 05 de maio, é possível experienciar-se que este artista “pinta com a sua voz”. É através das obras expostas que “ilustra a realidade em que vive através do seu olhar e do olhar daqueles que o rodeiam” (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade - Biografia, 1).

Esta seria a primeira exposição individual de Tristany Mundu, apresentando uma vídeo-instalação encomendada pelo CAM (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade). Procura assim mergulhar perante os “diversos universos do artista” a partir dos diversos elementos da obra expostos. Sendo Tristany um músico-produtor, é através de uma “tripla projeção” e de “peças têxteis” a que chama “bandeiras”, que na sua obra explora “fundir o real com o surreal”, assim como “visualidades distintas”, repletas de “cores vibrantes”, “simbolismos profundos” e marcadas pelo “constante movimento”. Através desta obra, Tristany Mundu, explora as diversas realidades “inviabilizadas, marginalizadas e por vezes romantizadas”, mas de um modo mais marcante explora a representação “através do seu olhar e do olhar das pessoas que o rodeiam” (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade e comunidade, 1-2).

 

A Narrativa e a Imaginação na representação da Memória

Com a obra “Cidade à volta da Cidade”, Tristany Mundu, escolhe retratar a “vida na Linha de Sintra”, um lugar “simultaneamente real e um «não lugar» fantasmático”. É através do seu trabalho, que “questiona noções de «centro» e «periferia»”, isto enquanto procura fundir o “real” e o “surreal”, o “documental” e a “ficção”, tudo como forma de “revelar as muitas camadas da Cidade e dos seus habitantes”. Através da sua obra, o artista descreve como, “a Linha de Sintra é um lugar marcado pela viagem e pelos encontros”, apresentando-o através da imagem (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade, 2-3).

Concebe assim um corpo de trabalho que, mesmo sendo maioritariamente derivado das Artes Visuais, transcende a um “momento” de performance. Um momento performativo que procura explorar temas como a identidade, a memória e o direito ao imaginário (Gulbenkian; Bandeiras são prédios ke a gente veste aqui, de Tristany Mundu; 1).

Enquanto presenciando a obra, nos diversos corredores formados pelas “bandeiras”, a ideia maioritariamente transmitida seria este ambiente “celestial”. Esta seria também a ideia acentuada com as encenações representadas nos vídeos. Performances repletas de beleza nos movimentos representados assim como o sentimento de liberdade acompanhado da batida da música, que era de forma crescente acentuada, com o decorrer do tempo, colocando uma certa intensidade e destaque neste “momento” e atmosfera retratados pela exposição.

É na presença desta obra que se destacava a intencionalidade colocada por trás de sentimentos e ideias como a grandeza, o quotidiano, assim como o “parar para pensar e apreciar”. Tudo isto, acompanhado do sentimento de “continuação” e progressão de tempo perante a presença da obra, permitem o destaque “Daquele Momento”, o tempo de parar e apreciar o momento, assim como um sentimento de “paz” e “sossego”, mas simultaneamente, de uma “grandeza” ainda por descobrir.

 

A Dança da “Cidade à Volta da Cidade”

A instalação da obra “Cidade à volta da Cidade” resulta numa exposição relativamente pequena, composta de apenas uma sala. No meu entendimento, esta encontrava-se bem organizada sendo que permitia a apreciação da obra “como um todo”, enquanto simultaneamente, mantendo uma clara distinção entre a “zona das «bandeiras»” e a “zona da projeção de vídeo”.

É a través da instalação que reúne uma tripla projeção de vídeo e um “conjunto de objetos têxteis, intitulados de «bandeiras»”. Nestas bandeiras, Tristany, inscreve as “memórias vivas da Cidade”, enquanto propõe “um arquivo visual do presente” (Gulbenkian, Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade, 4).

Durante os vídeos performativos, durante algumas cenas, Tristany, “(in)veste” estas bandeiras representativas destes lugares, incorporando assim “os prédios, as ruas, os espaços de encontro reencenados”, assim como “os corpos das gentes que os habitam e as suas vivências”, na instalação que resulta desta ocupação do espaço do museu por estas obras, esta realização é importante como um realce “Daquele Momento” intencionalmente colocado pelo artista. Estes são os “elementos chaves” das performances e da instalação, estas bandeiras, tanto como “objetos têxteis de cores vibrantes”, como “estandartes e mantos de adorno”, a matéria da inscrição destas memórias que o artista pretende transmitir (Gulbenkian; Bandeiras são prédios ke a gente veste aqui, de Tristany Mundu; 2-3).

Esta é a complexidade da obra representada, pelo artista, na instalação de tecidos, concebidos da impressão digital sobre cetim a partir de desenhos de aguarela e lápis de cor sobre papel, assim como a narrativa por de trás destes. É nesta “complexidade”, que noções como, o “sentimento de grandeza”, anteriormente mencionados, são acentuadas pela quantidade de obras para apreciação assim como as dimensões dos suportes escolhidas.

Algo que se torna extremamente aparente, durante a presença das obras, é esta escolha intencional, do artista, para acentuar certos momentos. Existe uma grande transmissão de sentimentos no significado e foco que o artista coloca em realçar cada determinado momento, algo que é acentuado pela existência de dois lados, ou mais que uma leitura possível, para cada peça.

Um exemplo desta ambiguidade na leitura são os panejamentos, representativos da existência de dois lados, um, com a representação de vistas urbanas, e um segundo, de quadrilhas de retratos representativos de pessoas, animais ou plantas. Estes dois lados podem assim ser vistos como diferentes representações, do artista, da vista “exterior” e “interior”, baseados na percepção refletida do “eu” através dos pensamentos que não revelamos a mais ninguém.


Tristany Mundu x Rapprps Bedjú Tempú, Bandeira "Natureza que vejo do predio do Sifas" , impressão sobre cetim, a partir de desenho em aguarela e lápis de cor s/ papel. Fonte: Própria


Este meio introspetivo é acentuado na exposição através da atmosfera escura e da “iluminação” de certos “momentos” e ideias principais destacadas com a luz das projeções dos vídeos. É nestes elementos, que se destacam as intenções do artista, incorporadas igualmente, na disposição das obras, que quando seguidas, de uma certa ordem, contam uma narrativa, através do movimento do observador, em relação com a obra e a sala, resultando quase como numa dança entrelaçada com a música e monólogo narrativo presentes no áudio.

Através dos títulos das obras, Tristany Mundu, assim como o meio introspetivo, “obrigam” o observador a recriar e a encenar a narrativa que o artista escolhe contar. Títulos como, “Natureza que vejo do predio do Sifas”, “Ja te vi estou mesmo a chegar ao cantinho”, “Kuando me cumprimentares me olha”, “Fika ao pe da Luz do candieiro”, “Aquele caminho que vez do comboio”, “Te vejo bue vezes a ir para a estação”, “Bandeira são prédios ke a gente veste”, contribuem para um sentimento cautelosamente desenhado, pelo artista, e atestado de contradições como, a atmosfera representativa do “vazio”, mas, simultaneamente de esperança e conforto, bem como a estagnação repleta de movimento.

O artista conta-nos uma “história”, construída de “memórias” do dia-a-dia. Através da instalação de vídeo dividida em três momentos, acompanhada do áudio,  intitulado de “Ensaios sobre um Amor Antigo”, presente no espaço. Aqui, Tristany, mostra-nos a “corrida” do quotidiano, fazendo um destaque de certos detalhes que por norma tendem a passar despercebidos.

É nestas revelações da narrativa realçadas na instalação das obras e escolhas do artista, que, no meu entendimento, se encontra o seu destaque no mundo da arte. Existe uma dualidade intencional nas obras têxteis, onde um lado, revela um espaço físico, e o outro, revela as suas memorias refletidas, este sentimento é acentuado com as múltiplas leituras possíveis da obra.

Um exemplo disto é, a existência um orifício em cada uma das obras têxteis, que nos vídeos se revelada ser utilizado para a cabeça quando a obra é “vestida” sobre o corpo. A escolha de colocar, este, ao nível do olhar resulta como um apelo aos visitantes da exposição de experienciar a visão através dos mesmos. Este sentimento acompanhado com a ideia da “correria do quotidiano”, ou “vida da cidade”, é fortemente acentuada na escolha intencional da disposição das obras que incentiva o observador a movimentar-se e a circular a sala.

Apesar de uma sala pequena para a exposição devido à dimensão das obras, a instalação reflete uma ideia extremamente clara da “grandeza" do quotidiano, esta, quando deparada com a leitura “apertada” e obstruída das obras, tanto se transforma numa contradição permanente, como numa mais valia que obriga múltiplas passagens e múltiplas leituras da parte do observador para uma leitura completa.

De modo a concluir, segundo a minha leitura, a exposição “Cidade à volta da Cidade” apresenta uma representação da obra de Tristany Mundu, onde, este, através da conjugação do vídeo, áudio e a disposição de obras têxteis, nos apresenta um lugar marcado pela “viagem” e pelos “encontros” presentes nesta. É nesta viagem, que nos destaca “aqueles momentos” que designa de importantes, para as vistas urbanas e retratos que representa, assim como, fornece percepções que revelam as suas intenções de contar uma narrativa através de memórias.


Referências:

Tristany Mundu. Cidade à volta da Cidade, (2025). [1-4] Gulbenkian. Disponível em: https://gulbenkian.pt/cam/agenda/tristany-mundu-cidade-a-volta-da-cidade/ [25/04/2025] 

Bandeiras são prédios ke a gente veste aqui, de Tristany Mundu; (2025). [1-3] Gulbenkian. Disponível em: https://gulbenkian.pt/cam/agenda/bandeiras-sao-predios-ke-a-gente-veste-aqui-de-tristany-mundu/ [25/04/2025] 

Tristany Mundu. Cidade e comunidade, (2025). [1-2] Gulbenkian. Disponível em: https://gulbenkian.pt/cam/agenda/tristany-mundu-cidade-e-comunidade/ [25/04/2025]