sábado, 2 de novembro de 2024

Narrativas do Eu – Livros de Artistas Mulheres

Um livro representa muito mais para além de um grupo de registos em papel. Conseguimos entender este objeto, quando nos permitimos adquirir um olhar mais aberto e espontâneo ao que nos é apresentado. Um livro pode ser um veículo, uma manifestação, um sentimento, uma identidade… Na exposição “Narrativas do Eu – Livros de Artistas Mulheres”, proporcionada por Leonor Antunes na Biblioteca de Arte Gulbenkian, conseguimos ter um vislumbre do impacto que a arte e o livro em conjunto podem gerar. Através de uma seleção de livros de artista executados por mulheres como Isabel Baroana, Ana Hatherly, Patrícia Almeida, Ana Vidigal, Alice Geirinhas, etc., é-nos apresentada uma perspetiva pessoal e por vezes até autobiográfica, das preocupações femininas num formato artístico e experimental.














Desde o século XX, os parâmetros clássicos do que era de facto considerado um livro, têm vindo a ser desafiados. Por volta da década de 1960, com o aparecimento da arte conceitual enquanto movimento artístico, a estrutura convencional de um espaço para as artes começou a ser criticada. Tanto artistas como designers, começaram a optar pelo método de self-publishing e viram este objeto como uma ferramenta de protesto ou de difusão de ideias e princípios. Apesar deste ser um progresso que vem acontecendo desde o início do século, foi a partir do ano de 1970, período no qual o feminismo se estava a manifestar ativamente, que existiu um maior reconhecimento do trabalho da mulher nesta área. A designer americana Sheila de Bretteville, foi uma das pioneiras que impulsionou e possibilitou esta mudança, criando espaços dedicados a dar voz à visão das mulheres artistas. 













Se regredirmos no tempo e analisarmos algumas das obras executadas na época das vanguardas e da fundação de Staatliches Bauhaus, é possível percecionar que todos os detalhes desde o conteúdo até ao seu formato, são cuidadosamente pensados de modo a corresponder à mensagem que é pretendida passar ao público. Nesta exposição, podemos observar essa mesma característica, na forma como as artistas escolheram trabalhar os materiais, a tipografia, o desenho e a fotografia. A atmosfera do espaço juntamente com a disposição escolhida, cria uma experiência quase de narrativa entre os vários livros. O observador é presenteado por uma poesia visual que reúne objetos de infância, imagens do passado, palavras, memórias e registos do presente.
Ultrapassando uma vez mais as fronteiras daquilo que é aceitável como uma peça artística, o trabalho reunido destas artistas transgride os limites da linguagem. Demonstra como é possível materializar a vida, o corpo e as experiências num modelo reimaginado contemporâneo capaz de proporcionar um meio de comunicação pertinente para a mulher.  






A Exposição 'La Tauromaquia' de Picasso

Pablo Picasso é um dos nomes mais importantes da arte moderna, e o seu legado continua a influenciar gerações. Uma das suas obras mais interessantes, "La Tauromaquia" é uma coleção de gravuras que ele criou em 1935. No entanto, essa obra ultrapassa a ideia de ser apenas uma exibição da sua genialidade técnica, é também uma profunda reflexão sobre a cultura e a estética da tourada.



A tourada é frequentemente vista como uma forma de arte performativa e, na verdade, é muito mais do que um mero espetáculo, encontrando-se encarregue de um profundo simbolismo cultural na Espanha. Em "La Tauromaquia", Picasso traz à vida a sua assinatura estética cubista para reinterpretar esta tradição. As formas angulares e as sobreposições de planos captam não só o movimento vibrante da arena, mas também a dualidade entre vida e morte, beleza e brutalidade. É um exemplo de como a arte pode transformar uma tradição cultural numa meditação sobre a existência, ao mesmo tempo que desafia o espectador a questionar os limites éticos de certas expressões culturais. 

A coleção "La Tauromaquia" de Pablo Picasso integra a prestigiada Coleção Suñol Soler, geralmente localizada em Barcelona e mantida pela Fundació Suñol. Embora a coleção tenha a sua sede em Barcelona, a fundação organiza regularmente exposições temporárias que levam estas obras a outros espaços culturais, tanto em Espanha como no estrangeiro. Assim, "La Tauromaquia" não está permanentemente exposta num único local, sendo exibida em diferentes cidades de acordo com o calendário de exposições temporárias.




Na exposição, cada gravura é apresentada de forma a destacar as suas complexidades. O design do espaço contribui para uma experiência intensa, quase como se o espectador estivesse dentro de uma arena de tourada, onde as emoções são palpáveis. Contudo, essa representação não deve obscurecer a controvérsia em torno deste espetáculo. As cores vibrantes e as texturas ricas em cada peça evidenciam o domínio técnico de Picasso, assim como o seu envolvimento emocional com a tradição da tourada. No entanto, é essencial lembrar que, apesar da sua beleza estética, as touradas levantam questões éticas profundas sobre o tratamento dos animais. Desse modo, o espectador, ao se colocar como observador, é confrontado não apenas com a tensão e a liberação que a arte pode oferecer, mas também com a reflexão sobre a violência implícita dessa prática cultural.




A experiência de "La Tauromaquia" vai muito além do visual, tratando-se de uma exploração profunda dos códigos e narrativas que cercam a tourada. A obra de Picasso leva o público a repensar a cultura visual e desafia os preconceitos e emoções em relação a tradições tão controversas. Nesse sentido, a arte torna-se um meio de diálogo que convida o espectador a descobrir significados numa forma de expressão que, apesar de polémica, é riquíssima em história e emoção.

A arte da inclusão: Como o Braille transformou o design

O sistema Braille é uma forma de escrita tátil que transformou a vida de milhões de pessoas com deficiência visual. Criado em 1824 por Louis Braille, que perdeu a visão após um acidente na infância e uma infeção posteriormente, o sistema surgiu da sua determinação em oferecer autonomia às pessoas cegas.

Durante a sua formação, Louis Braille frequentou um instituto para cegos, onde mais tarde se tornou professor. Nesse contexto, desenvolveu um método de leitura e escrita acessível, hoje universalmente conhecido como o alfabeto Braille. Utilizando pontos em relevo para representar letras, números e até símbolos musicais e matemáticos, o sistema tornou a leitura e a escrita possíveis para quem não vê. Ao ultrapassar as limitações dos métodos anteriores, o “Braille” trouxe dignidade e independência, representando um avanço crucial para a inclusão social.




Com o tempo, a estética do Braille começou a ganhar destaque. Os designers começaram a adaptar o design das letras para garantir legibilidade e uma apresentação visual agradável. Hoje, o Braille pode ser encontrado em livros, sinalização e produtos, mostrando que pode ser integrado no design gráfico de forma funcional e estética.





Atualmente, a tipografia Braille é incorporada em projetos que equilibram texto visual e tátil, destacando-se como parte essencial da cultura visual contemporânea. Marcas como a Starbucks têm utilizado Braille, oferecendo menus acessíveis que permitem que pessoas com deficiência visual naveguem pelas opções de produtos de forma independente. Esta iniciativa reflete um compromisso com a acessibilidade e inclusão, criando uma experiência de cliente que é ao mesmo tempo funcional e estéticamente agradável.


        

O designer japonês Kosuke Takahashi desenvolveu a Braille Neue, uma tipografia inovadora que combina Braille e caracteres visuais convencionais numa única fonte. Esta criação permite que textos em Braille e caracteres visuais sejam lidos ao mesmo tempo, promovendo uma experiência de acessibilidade que serve tanto pessoas com deficiência visual como para quem vê. A Braille Neue representa um avanço importante no design inclusivo, ao unir de forma harmoniosa os dois sistemas de leitura, e reforça a importância de projetos que integram funcionalidade e estética de maneira universal.



A tipografia Braille é um exemplo claro de como o design pode impactar vidas. Ao unir acessibilidade com uma estética cuidada, o Braille transcende a sua função como ferramenta de comunicação, tornando-se uma forma de arte que enriquece a compreensão da diversidade humana e promove inclusão e igualdade.

Entre palavras e imagens: A essência da Poesia Visual

A poesia visual é uma forma de arte fascinante que ultrapassa as fronteiras entre o verbal e o visual, unindo o poder simbólico das palavras à expressividade das imagens. Este género desafia as convenções da poesia tradicional e insere-se no universo do design, exigindo uma leitura atenta e convidando o espectador a explorar os seus detalhes e significados ocultos.

Historicamente, a poesia visual encontra raízes em movimentos artísticos revolucionários como o Futurismo e o Dadaísmo, que integraram o texto à composição visual. Artistas como Apollinaire, famoso pelos seus "Caligramas", e poetas do movimento concreto, como Décio Pignatari, desafiaram as normas estabelecidas ao transformar palavras em imagens. Eles exploraram a tipografia e o espaço de formas inovadoras, criando uma nova camada estética que torna a leitura uma experiência rica e multifacetada.



Um exemplo notável dessa expressão artística é o poema visual de Eugen Gomringer, um dos fundadores da poesia concreta. Neste poema, a palavra "silêncio" é organizada em formato circular, com um espaço vazio no centro que intensifica o impacto visual. Essa disposição não só representa o conceito de silêncio, mas também provoca o espectador a refletir sobre a ausência do texto e o seu significado. Gomringer, que iniciou a sua produção nos anos 1950, frequentemente utilizava o minimalismo e a disposição tipográfica para intensificar o significado das palavras, explorando o potencial da simplicidade.

Na contemporaneidade, a poesia visual expande-se ainda mais com a era digital, permitindo a criação de composições complexas e interativas. Ferramentas como o Adobe Illustrator oferecem aos criadores a oportunidade de brincar com a forma e a função do texto, combinando poesia, imagem e movimento de formas surpreendentes. Isso abre um mundo de possibilidades para alcançar uma diversidade de públicos, tornando a poesia mais acessível e interativa.

A conexão entre poesia visual e design gráfico é intrínseca, uma vez que ambos utilizam a tipografia e o layout como formas de expressão. As escolhas de design não apenas comunicam uma mensagem, mas também influenciam a forma como a percebemos, criando experiências sensoriais em que a forma das palavras impacta a leitura.



Outro exemplo impactante é o poema visual de Décio Pignatari. Neste trabalho, ele reorganiza as palavras "Beba" e "Coca-Cola" em combinações que geram novos sentidos, como "babe" e "cloaca". Ao fazer isto, Pignatari não apenas brinca com as palavras, mas também lança uma crítica poderosa à cultura de consumo, revelando o potencial da poesia visual para expressar ideias profundas e simbólicas de forma original.

Na cultura visual contemporânea, caracterizada pela predominância de imagens digitais, a poesia visual brilha como uma "imagem-poema", sintetizando ideias complexas de forma impactante. Formatos interativos, como GIFs e vídeos curtos, tornam esta forma de arte ainda mais dinâmica e envolvente, permitindo que o público interaja de forma ativa com a obra.

Assim, a poesia visual destaca-se como uma manifestação vibrante da cultura visual moderna. Ela não só desafia os limites da literatura, como também questiona as convenções do design gráfico. Ao explorar o potencial das palavras como imagens, a poesia visual reflete a complexidade e a riqueza de significados do mundo contemporâneo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Guinness: the art of advertising and visual identity

The Irish beer Guinness has long been more than just a stout—it’s a cultural symbol with a distinctive, celebrated visual identity and a legacy of memorable advertising campaigns. Through its iconic color scheme, typography, and artwork, Guinness has built a brand that conveys authenticity, wit, and heritage. By combining elements of Irish tradition with innovative advertising strategies, Guinness has created one of the world’s most instantly recognizable and beloved beer brands.

Early advertising

From the 1930s onward, Guinness’s advertising became known for its playful, often surreal quality. At a time when most beer advertisements focused on straightforward product promotion, Guinness took a unique approach by developing campaigns that were humorous, quirky, and distinctively Irish. Under the guidance of advertising visionary S.H. Benson and artist John Gilroy, the brand began to use whimsical animal illustrations, including a toucan, a turtle, and an ostrich, to create memorable advertisements with the tagline, “My Goodness, My Guinness.”



These early ads were revolutionary for their time, using humor and unexpected imagery to create a personal connection with audiences. The playful animals became synonymous with Guinness’s identity and were featured in posters, barware, and other promotional materials. This approach helped Guinness establish a brand image that was both approachable and entertaining, winning it loyal fans not just in Ireland but around the world.


The Guinness toucan and timeless slogans

Among Guinness’s many iconic visuals, the toucan stands out as a lasting symbol. First introduced in 1935, the toucan was painted with a beak tilted to balance a pint of Guinness, accompanied by the playful line, “If he can say as you can / Guinness is good for you / How grand to be a Toucan.” This touch of whimsy made Guinness ads stand out, especially in the competitive world of beer marketing.



The slogan “Guinness is Good for You” became another hallmark, reflecting a time when consumers were attracted to products that advertised supposed health benefits. Though this claim wouldn’t pass modern regulatory standards, the phrase and its charm still resonate with fans and are often used in vintage reprints of Guinness ads. Even today, the toucan appears on Guinness merchandise, harking back to the brand’s early days and establishing continuity across generations.


Modern advertising

In recent years, Guinness has shifted its advertising strategy to reflect modern sensibilities while staying true to its heritage. Campaigns such as “Made of More” emphasize resilience, creativity, and human stories, drawing connections between the brand’s rich history and its relevance in contemporary culture. These ads focus on themes like community and perseverance, capturing audiences’ attention with a sense of authenticity that feels deeply rooted in Guinness’s identity.

The “Made of More” campaign includes ads that feature compelling storytelling with visually stunning cinematography, such as the acclaimed “Surfer” ad from 1999, where a man catches waves as powerful white horses gallop alongside him. This ad has since become one of the most celebrated in advertising history for its striking visuals and emotional depth. By evoking a feeling of grandeur and awe, Guinness successfully bridged the gap between product advertising and art, strengthening its image as a brand with depth and character.



The brand beyond advertising

Guinness has also made its mark with branded merchandise, ranging from pint glasses and bar signs to clothing and collectibles. This has allowed fans to engage with the brand in a personal way, bringing a piece of Guinness’s heritage into their own lives. The merchandise often features vintage-style artwork, such as the toucan or old Guinness posters, tying back to the brand’s historic identity and reinforcing its timeless appeal.


Masterclass in brand identity

The Guinness brand is a masterclass in how to create and sustain a powerful visual identity through strategic advertising and cultural resonance. By balancing tradition with innovation, Guinness has built a brand that feels both timeless and modern. Through its iconic black-and-white palette, thoughtful typography, memorable slogans, and engaging advertising, Guinness communicates a story of heritage and quality with every pour.


Through innovative ad campaigns and a sense of cultural awareness, Guinness has evolved to stay relevant in a competitive market while remaining unmistakably Irish. As the brand continues to expand its reach and adapt to modern values, it exemplifies how design, storytelling, and cultural authenticity can come together to create a brand that is not just a product, but a cultural icon.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Football: designing the beautiful game

The Design Museum in London brought together sports, design, and culture in the exhibition Football: Designing the Beautiful Game. From April to August 2022, the exhibit offered visitors a fresh perspective on football, uncovering how design influences every aspect of the sport, from stadium architecture to the evolution of equipment, branding, and even social movements. Through a collection of artifacts, multimedia displays, and interactive installations, the exhibition illuminated how design shapes the world's most popular sport.



The evolution of football equipment

One of the exhibition's most intriguing sections was dedicated to the design evolution of football equipment. Footballs, for example, have transformed from the traditional stitched leather balls of the early 1900s to today’s water-resistant, ultra-light designs. Visitors could see the progression of these designs, understanding how the change in materials has made the game faster and more precise.


Football boots, too, were given their due. The exhibition explored how modern football footwear has moved beyond basic leather cleats to lightweight, high-tech models made with synthetic materials, each engineered for speed, traction, and comfort. This focus on equipment highlighted the collaborative work between designers and athletes, demonstrating how innovative materials and form contribute to performance on the pitch.


Stadiums: architectural icons and cultural landmarks

Stadiums are icons of football culture. The exhibition’s section on stadium architecture presented some of the world’s most famous structures, from the Maracanã in Brazil to London’s own Wembley. Blueprints, models, and photographs illustrated how these stadiums have evolved, integrating modern technology, environmental sustainability, and enhanced accessibility to improve both functionality and fan experience.


Key stadiums designed by notable architects, such as the Allianz Arena by Herzog & de Meuron and the Estádio Olímpico by Santiago Calatrava, were displayed as case studies. The exhibition highlighted how stadium design plays an integral role in creating the charged atmosphere that fans and players cherish.


Branding football: logos, jerseys, and visual identity

Another fascinating part of the exhibition was the exploration of how design establishes the identities of football clubs. From iconic club logos to ever-evolving jerseys, each element of visual branding is a powerful unifier for fans. Displays featured club logos from around the world, showing how visual language in football branding combines local identity with global recognition.


The commercialization of club branding was also covered. High-profile partnerships with fashion brands like PSG’s collaboration with Jordan showcased how football teams have crossed into lifestyle branding. These partnerships reflect how football clubs have transcended their traditional roles to become influential in fashion and pop culture, leveraging design to create both on-field and off-field appeal.



Social change and representation through design

Football has always served as a platform for social change, and the exhibition examined this by highlighting design’s role in promoting inclusivity, equality, and representation. On display were jerseys, banners, and advertisements created to support causes such as gender equality, LGBTQ+ rights, and racial justice. These artifacts underscored the power of football clubs and leagues to broadcast positive social messages and to create campaigns that resonate with millions of people worldwide.


Football as a shared cultural identity

Fan culture was another focal point of the exhibition, emphasizing how football thrives on the passion of its supporters. This section included a mix of fan-made banners, scarves, and murals that reflect grassroots creativity, from homemade paraphernalia to street art dedicated to beloved clubs and players. Through these displays, the exhibition celebrated the ways in which fans contribute to the sport’s visual language and identity.


Interactive installations allowed visitors to create their own virtual fan art or customize their own kit designs. This highlighted that fans are not passive consumers; they are active contributors to the game’s atmosphere and legacy.



Football as a designed experience

Football: Designing the Beautiful Game offered an enlightening look into how design is integral to football’s global appeal. By showcasing everything from equipment innovations and stadium designs to club branding and social change campaigns, the exhibition underscored that football is far more than a game; it’s a cultural phenomenon shaped by creative minds both on and off the pitch.


Through an exploration of football’s design journey, the exhibition illustrated how designers, architects, and fans come together to make football what it is today—a unifying language spoken in stadiums, on streets, and across screens worldwide.

The legacy of Saul Bass: pioneering typography in film title sequences

Few designers have left as lasting a legacy on the world of cinema as Saul Bass. Known for his revolutionary approach to title sequences, Bass transformed a previously overlooked part of filmmaking into an art form all its own. Through his innovative use of typography, Bass communicated the themes, tones, and moods of films long before the first scene played out. His work not only elevated title sequences to a narrative device but also set a new standard for how graphic design could function in the film industry.

A new visual language for cinema

Saul Bass began his career in advertising and graphic design before he was approached by director Otto Preminger to create the title sequence for Carmen Jones (1954). However, it was his work on Preminger’s The Man with the Golden Arm (1955) that truly marked the beginning of his influence. Instead of simply listing names, Bass used a combination of abstract imagery, stark lines, and bold typography to reflect the film's darker themes, such as addiction.

Bass’ minimalist yet powerful approach was radically different from the overly elaborate, theatrical title designs of the era. His use of typography was as much about function as it was form. In Psycho (1960), his fragmented text mirrored the film’s fractured psychological state, while in Vertigo (1958), the swirling spirals of the typography echoed the movie’s themes of obsession and confusion.



Typography as storytelling

What made Saul Bass’ work so impactful was his ability to tell a story through typography. His designs weren't just decorative; they were deeply intertwined with the films' narratives. In Vertigo, the disorienting type physically moved in spirals, visually representing the psychological unraveling of the protagonist. Similarly, in North by Northwest (1959), the clean, linear typography reflected the themes of confusion and mistaken identity central to the film's plot.

Typography, in Bass's hands, became a character of its own. His work was visually stunning, but it also served a practical purpose: setting the tone before a single line of dialogue was spoken. For Bass, every stroke of a letter and every choice of font was intentional, designed to evoke emotions and build anticipation.

A lasting influence on modern design

Saul Bass' legacy extends far beyond the films he worked on. His influence on contemporary title design is undeniable, inspiring generations of designers to follow in his footsteps. His use of bold typography, combined with abstract shapes and motion, continues to be echoed in modern title sequences.

One recent example is the work of designer Kyle Cooper, known for the titles of Se7en (1995) and American Horror Story. Cooper’s gritty, fragmented typography owes much to the groundwork laid by Bass. Similarly, minimalist type sequences in films like Drive (2011) and Moonlight (2016) show how the bold, expressive use of type has become a key tool in visual storytelling.

Saul Bass did more than just change title sequences; he forever altered the relationship between typography and cinema, ensuring that words on the screen could be just as evocative as the images that followed.



segunda-feira, 28 de outubro de 2024

The Associative Theory - an obvious but underappreciated law

 


To better understand the Associative Theory I’ll start by creating a scenario: a kid is riding her bicycle refusing to wear a helmet. She then falls and hits her head on the grass, gets hurt, and starts crying. Naturally, her parents aid her and reinforce the importance of wearing a helmet. By associating getting hurt with not having the helmet she will then understand and form her concept of safety.

Breaking this into bite-sized information we can say Associationism connects learning to basic principles that were taught to us in our lifetime. According to the researchers of the University of Standford: “(…) associationists have sought to use the history of an organism’s experience as the main sculptor of cognitive architecture. In its most basic form, associationism has claimed that pairs of thoughts become associated based on the organism’s past experience.” This seems obvious to understand but there’s more to understanding the importance of this mechanism, this is the reason why we make associations with colours and emotions, shapes and sounds, and other different things.

This theory also allows us to form concepts, like stated before; getting hurt, being happy, crying, or being disgusted by something. As a theory of learning, associationism reflects how we form associative structures that later form our “har-wired” behaviours and reactions. As a designer, this power we have applying this theory gives us the ability to convey the different concepts formed into perceptible shapes and objects. Design drinks a lot from this way of learning, utilizes it, and passes it on to others.

All of this explains that, as humans, we have the mental capacity to associate things, and just like culture, the association is subjective. As easy as associating a car accident with death, we can associate different things; for example, I can associate the winter and the grey weather with something cosy and warm, and other people can associate it with sadness, cold, and the flu. The associative behaviours of linking the cold weather with being cosy and warm inside the bed or with being sad and sick are both legitimate and they vary because each person is different and our brains process information differently. This is also why this theory is associated with Hume’s Empiricist Theory. Citing the University Of Stanford on Associationism by Eric Mandelbaum; ”Hume’s associationism was, first and foremost, a theory connecting how perceptions (“Impressions”) determined trains of thought (successions of “Ideas”). Hume’s empiricism, as enshrined in the Copy Principle, demanded that there were no Ideas in the mind that were not first given in experience. For Hume, the principles of association constrained the functional role of Ideas once they were copied from Impressions: if Impressions IM1 and IM2 were associated in perception, then their corresponding Ideas, ID1 and ID2 would also become associated. In other words, the ordering of Ideas was determined by the ordering of the Impressions that caused the Ideas to arise.”

With this in mind, we can affirm that Associationism can be recognized as a theory of learning. Locke for example formulated the Idea that the mind is a blank page being filled with notes through time. David Hartley and James Mill also contributed significantly to this framework by linking associationism to psychological processes like emotions and behaviour. While classical associationism has evolved, its core ideas influenced early psychology, especially in areas like behaviourism and learning theories. Modern cognitive science still examines associative mechanisms in understanding memory, learning, and perception. Over time, critics argued that associationism is too simplistic to explain all mental phenomena. For example, complex mental functions like creativity and problem-solving seem to require more than just associations between ideas. All of these philosophers added crucial conclusions to this theory and in consequence, Associationism has played a foundational role in the development of psychology and continues to influence contemporary theories of learning and memory.

What does it mean to be a Bio Artist?

 

Dasha Plesen aka Daria Fedorova a “multidisciplinary artist, developing a unique methodology of artistic cultivation of microorganisms.Using different supplements she combines microbiological practice with art phenomena. Grotesque, bizarre, romantic, ironic, hyperbolic, extraordinaire - just a few to describe what her works are.”

Abstract art comes in many shapes, colors, patterns, and sizes but it is not so ordinary to create art in a petri dish. Daria Fedorova is an example of what we now call a bio artist. She’s a Moscow-based multidisciplinary artist who creates macro photography, prints, and even logos exploring microbiology for the sake of art. Dasha Plesen (her artistic name) combines a series of different microorganisms with which we come in contact daily cultivating and incubating them thus bringing to the visible human eye what usually seems invisible. Dasha’s process works with “seeding” as her creations involve the performance of her collecting microorganisms present in the air, in everyday objects, and in her own body. These organisms are then put in an environment with a nutrient canvas base and as they grow in their period of incubation they begin to form different colors, textures, interesting patterns, and overlayers that give this type of art personality and uniqueness. We could say the artist is the mediator between the arts’ visibility and existence. She feeds her art as the microbiome also needs nutrients to grow. In this way, Dasha fills the bottom of a petri dish with a nutrient-filled solution made in her kitchen that can also be shaped by a mould if she wants to. To enhance the visual outcome and feed the microbiome she then adds more “ingredients” ranging from actual food to introducing yeasts, spices, or biofilms also adding occasionally some ink or paint to make colors more vibrant and contrasting. Then, samples are collected from her assortment of organisms or taken directly from the skin using swabs. These swabs are then applied to a growth medium, where they are left to develop for a period ranging from two to six weeks. Maintaining a controlled environment is crucial for promoting ideal growth. It’s essential to replicate the same temperature conditions that the organisms would experience in their natural habitat. For instance, if the swabs are from the skin, the temperature must match that of the human body. Since the organisms are given minimal interference during their growth, the outcomes can differ depending on their interactions with each other, their responses to the environment, and the presence of any contamination.

Using living microscopical organisms to create art allows the spectator to think of the art we produce as a part of ourselves. We could say Dasha’s artworks are part of herself helplessly. This complexity between the microbiome and human symbiosis highlights the importance of protecting ourselves and the planet from dysbiosis (imbalance). We are biosystems and so is her art, it is even possible to say that Dasha Plesen works by showing us the art of being alive.

The History of Human Emotions - a TED Talk by the historian Tiffany Smith


Tiffany Smith - Ted Talk - The history of human emotions 

As human beings, we have the power to communicate using words that make up languages created by us to describe countless things, including emotions. Our history and the history of linguistics are deeply intertwined and influenced by our emotions, even though many of us can't precisely describe what an emotion is. Tiffany Smith, a cultural historian and writer of The Book of Human Emotions, brings up in her TED Talk several aspects of our emotional history and background that are essential to understanding the development of linguistics and, in parallel, our cultural growth and identity.

First and foremost, emotions weren't even a concept before around 1830. This consciousness of the word "emotion," as the author describes in her book, turns out to be fairly recent. In her TED Talk, Tiffany starts by pinpointing that emotions, as much as they seem vague or volatile, are hard to describe and understand, enhancing the difficulty of developing emotional intelligence.

As the human race evolved, we stretched our languages to create new words describing specific feelings often related to cultural experiences or specific events. For example, the Papua New Guinean word Awumbuk describes the feeling of relief after a house guest leaves. These concepts, created around very specific emotions, had power in cultural practices. Following the example given earlier, the New Guineans would fill a bowl with water after guests left and perform a ritual the next morning, throwing the water out to dispose of the emotional residue caused by that person.

In a way, we can admit that culturally, we have the power to name and categorize emotions and ritually end them. This suggests that our range of emotions is very wide and complex. However, some scientists simplify our emotional existence by following the 2000-year-old idea that there is a handful of basic human emotions (measured by comparing reactions to some emotions and taking them as universal) like happiness, sadness, fear, excitement, disgust, and anger, which form our emotional persona's building blocks. This concept was demystified by the neuroscientist Lisa Feldman Barrett, who states in her book How Emotions are Made, in the section "The Search for Emotion's Fingerprints," that "variation is the norm" and "emotion fingerprints are a myth".

Specific words embody sensations like Amae - a Japanese word to describe the relief of passing your life's responsibilities to someone else. Tiffany clarifies that emotions are a cognitive phenomenon rather than reflexes coming from our experience; emotions, therefore, are as cultural as the words invented to describe them. As Tiffany said, "there's a historicity in emotions," and to understand them, we should move forward into unveiling how these words came about and why they were created.

Retelling the story this author told the audience, the word Nostalgia (nostos - home and Algia - longing/pain) now describes a feeling of missing a time rather than a place. However, it was originally defined in 1688 as the name of a disease describing a severe pathological case of homesickness, in this case, considered lethal. Of course, nowadays, no one considers this a serious issue. The historian's explanation makes sense: as time changes, our mentality evolves, as well as technology, medicine, art, and culture, frequently upgrading or downgrading several emotions as they no longer affect us as they did in the past. Today we celebrate happiness, but in the 16th century, sadness was cultivated as a skill to make people more resilient. In modern times, we have all sorts of motivational support and a whole system designed to help us reach our goals.

With this information in mind, we can conclude that emotion is becoming even more complex, and simple words like "anger" no longer describe all sorts of emotions. As Barrett states in the same book mentioned before - "If we want to truly understand emotions, we must start taking that variation seriously. We must consider that an emotion word, like 'anger,' does not refer to a specific response with a unique physical fingerprint but to a group of highly variable instances that are tied to specific situations." This opens new doors to more cultural emotion-related word variations. Just as the technological revolution possibly reduced our suffering from nostalgia, it will also allow us to feel different things and name them according to the predicament at the time.

An example of this is the word "Boredom," first created by the Victorians in response to a feeling of weariness and disgust. Citing Tiffany in her book: "When the new emotional category of 'boredom' – from the French bourrer (to stuff or satiate; literally, to be fed up) – first appeared in the English language in 1853, it was a consequence of a rapidly changing relationship to time. Pre-industrial societies had not distinguished between work and domestic drudgery, but the rapid expansion of factories and offices in cities from the late eighteenth century produced a new way of dividing up the day, inaugurating the concept of 'leisure time'." "In this context, finding oneself at a loose end or trapped in dreary company, or feeling unable to be interested, attentive or useful, was a mark of inadequacy. Doctors debated boredom's unsavoury health implications (alcoholism, onanism, excessive sleeping). Politicians vilified it as a social ill and blamed the poor and unemployed for allowing it to fester. Feminist campaigners and novelists pointed out the emotion's corrosive effects on middle- and upper-class women."

In conclusion, knowledge of emotions and their intriguing, exotic words is a valuable commodity to understand generations, centuries, and even grasp history throughout time. Emotions tell us about the world around us, contribute to bringing significance into real-life predicaments, present themselves as important clues for everything happening in our time, and, last but not least, allow language to evolve, enriching cultural significances. Tiffany Smith's TED talk highlights the importance of this emotional literacy, reminding us that our understanding of emotions is not static but continually evolving with our culture and language.

sábado, 1 de junho de 2024

Viagem a um universo musical em expansão

Concerto Éme apresenta Disco Tinto
13 de abril 2024
Sala Lisa, Lisboa

Éme é o nome do projeto musical de João Marcelo, cantor e escritor de canções com pouco mais de 30 anos e no ativo há mais de uma década, embora se defina com bonomia como "dono de casa".

Éme é também um dos nomes ligados à editora Cafetra, um grupo de amigos que se distribuem e reconfiguram na formação de uma série de bandas, e que se mexem desde 2011 para organizar concertos coletivos, angariar fundos e editar CDs. Esta entidade híbrida, que contém projetos musicais como as Pega Monstro, Iguanas ou Sallim, inclui também elementos ligados à produção de objetos gráficos e à sua circulação. Foi nesse contexto, numa Feira Morta em 2014, que ouvi pela primeira vez Éme ao vivo, a tocar guitarra de pé ao fundo de uma sala cheia de gente, num piso, outrora consagrado à vida artística, de um edifício dos Restauradores.

Dentro do espírito do it yourself da comunidade Cafetra, faz todo o sentido que Éme tenha aprendido a tocar guitarra com tutoriais do Youtube ou com amigos que frequentavam aulas a sério. Falamos de um conjunto de pessoas que, sem grande pompa, utiliza e atualiza o que estiver ao seu alcance para fazer música, sejam instrumentos tradicionais portugueses como o adufe e o cavaquinho ou outros mais associados a fins educativos, como a melódica ou a flauta.

Dez anos, três álbuns e muitos concertos depois, encontramos Éme a apresentar o seu quinto trabalho de longa duração, "Disco Tinto", no pequeno palco da Sala Lisa, acompanhado por Moxila (que, como autora de banda desenhada, é conhecida por Mariana Pita), Miguel Abras, Lourenço Crespo e Francisca Aires Mateus. Nesta banda de cariz folk todos tocam vários instrumentos, e, na ausência de uma bateria, a percussão é de responsabilidade comum.


Fotografia: Filipa Aurélio

 
As canções de Éme são fortes o suficiente para brilharem quando interpretadas a solo e de modo acústico, mas tocadas ao vivo e em conjunto fazem transbordar a alegria e a cumplicidade, contagiando quem estiver em presença.

Embora não conheça as pessoas à minha volta, para além de esporádicos e breves contactos no tráfico de um ou outro fanzine, existe a clara sensação de estar entre amigos nesta viagem pelas canções de "Disco Tinto", com passagens pontuais por discos anteriores. Muitos de nós sabem as letras de cor, e ao meu lado um fã (roadie? amigo?) está de tal modo entusiasmado que, além de apontar a luz do telemóvel à cara dos músicos, causando-lhes óbvio desconforto, produz uma série ininterrupta de incentivos vocais, até o cantor lhe pedir gentilmente que se cale.

As letras das músicas contêm inúmeros relatos anedóticos de quem passa grande parte da vida, não "na estrada", mas em comboios a caminho de terras recônditas onde há gigs agendados. Sob a aparente comicidade dos tempos de espera passados em tascas e cafés, desencontros com produtores de espectáculos e contactos com pessoas locais, estão presentes alusões à falta de público, e, claro, à falta de dinheiro.

São histórias que vão ao âmago das preocupações de quem procura viver do trabalho autoral em Portugal, e que se revê na circunstância de "aos trinta ainda ser um indigente", como canta Éme em "Dores Laborais". E são pessoas cada vez menos jovens as que encontram nestas canções oportunidade de catarse.

O concerto na Sala Lisa terminou, apropriadamente, com a música "Lisa", que é também o nome da terra de João Marcelo. Viver na lisa remete também para essa falta de conforto material que é apanágio de uma sociedade do capitalismo tardio, cada vez mais desigual. Assim atestam a raiva e energia com que o refrão é gritado pelo público. 

Éme e Cafetra, nos gestos criativos que concretizam, cravam raízes na terra e fazem da resistência um modo de vida. Resistência à apatia, ao ressentimento, à fragmentação dos processos de produção cultural. Resistência que se materializa no trabalho consistente para um universo musical em expansão.

Nos limites da cidade

Exposição Cerco de Lisboa

Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico
4 dezembro a 2 março 2024

Artistas: Augusto Brázio, Lara Jacinto, Mag Rodrigues, Paulo Catrica, Pedro Letria, São Trindade e Valter Vinagre.

Curadoria: Alejandro Castellote.

Direção de Produção: Nuno Aníbal Figueiredo (Associação Número – Arte e Cultura).


A exposição "O Cerco de Lisboa" no Arquivo Municipal de Lisboa reuniu sete artistas que interpretaram de forma única e pessoal o conceito de cerco, utilizando a fotografia como meio de expressão.

Dividida em dois pisos, a exposição oferecia no primeiro andar as fotografias dos artistas, enquanto o segundo piso estava destinado a duas salas de vídeo. A primeira exibia um vídeo de Valter Vinagre, intitulado “Aro”, acompanhando a vida diária de um grupo de pessoas em situação de sem-abrigo, num armazém abandonado. Já a segunda sala apresentava um vídeo que continha depoimentos dos artistas sobre os seus processos criativos, escolhas e interpretações do tema. Penso que foi a primeira vez que vi esta dissecação do pensamento do artista na própria exposição. Acredito que a visualização deste vídeo tenha tornado a experiência mais enriquecedora.

Descendo ao piso inicial, o das fotografias, o espaço estava organizado como um labirinto, com cada secção dedicada a um artista. Embora cada fotógrafo tivesse o seu próprio espaço, havia uma conexão subtil entre os trabalhos, criando um fio narrativo e visual que unia todos os sete cantos da exposição. Quase como um puzzle.

Este puzzle e esta viagem começa com "Chegada" de Lara Jacinto, cujas fotografias formavam uma vista panorâmica e fragmentada de pessoas e lugares. As fotografias estavam dispostas como uma linha horizontal que segue, mas que nos fazia parar e olhar não só para os pormenores, mas também para o conjunto de fotos como um todo. Esta série evocava a sensação de uma viagem, como se estivéssemos a observar a vida a passar através de uma janela de um carro. Não estamos a viver ou conhecer melhor o espaço, mas estamos a passar por ele. Dá a sensação de um olhar superficial do lugar, que não se aprofunda.





Seguindo para "Poder" de Augusto Brázio, encontramos uma interpretação do cerco da cidade através da Assembleia da República. Ao contrário do resto da exposição, interpretamos esta ideia através de um lugar de poder. As fotografias, individualmente, parecem não dizer nada. Vemos representados detalhes dos murais da assembleia, pormenores de quadros, alguns bustos intercalados com retratos de pessoas comuns. No entanto, quando olhamos para elas como um todo, e não como imagens individuais, revela-se diante de nós um diálogo sobre o colonialismo e os seus vestígios na sociedade contemporânea.
 




Em “Dentro de ti” de Valter Vinagre, tal como na “Chegada” de Lara Jacinto, parece haver uma ligação nas imagens, uma paisagem feita de várias fotografias que se interligam. No entanto, o sentimento já não é o de viajante que passa. Acabei por sentir que me demorava mais em cada imagem, havia mais pormenor e mais intimidade com o espaço e as pessoas. Senti quase como uma intromissão na privacidade de alguém. Como quem entra na casa de alguém, sem convite. Neste caso, de pessoas que não têm acesso à habitação.

 



"A Cor da Luz" de Mag Rodrigues abordava questões de identidade e exclusão, retratando pessoas com albinismo nos seus ambientes cotidianos.

Em “Malabar”, Pedro Letria fotografa artistas de rua que fazem malabarismo como forma de subsistência. A disposição das imagens na parede é feita tal qual o malabarismo, como se as imagens fossem as próprias bolas no ar, em grupos de três. Vemos uma interpretação de “cerco” como alguém que te pára na estrada, como uma cancela na entrada da cidade. Alguém que também vive nos limites da sociedade, na precariedade.





"Dos Passos em Volta" de São Trindade trazia uma perspectiva de uma caminhante que explora Lisboa, sem rumo, sem destino fixo ou hora para chegar. Pareceu-me uma análise mais pessoal e introspectiva, ao contrário das outras respostas, que fotografaram o outro. Senti que acompanhei o deambular de alguém.





A exposição terminava com "There’s more to the Picture than meets the eye. Benfica 2022-23" de Paulo Catrica, que explorava os limites da cidade através das Portas de Benfica. Paulo foca-se também mais no espaço, do que propriamente nas pessoas. Estas imagens foram as que me pareciam ter menos narrativa associada.

O que mais me marcou talvez tenha sido o vídeo “Aro”, de Valter Vinagre. Senti-me como se fosse um espectador da miséria. Como se a miséria quisesse ser “bela” de alguma forma. Certas imagens e interações pareciam pouco genuínas, quase encenadas. Será que o eram? Saí com algumas questões. Como se retrataria esta comunidade se lhe fosse dado um lugar de fala e de auto-representação? Quão diferente seria disto que vejo aqui? De que forma é que estas imagens os ajudam? Têm de ajudar? Para que servem? O que estão a dizer? Têm de dizer alguma coisa? Porque sinto este desconforto? Será que o objetivo era mesmo eu sair daqui com estas questões todas?





Ao deixar a exposição, tudo o que aqui vi continuava a ressoar na minha cabeça. Do Martim Moniz ao Cais do Sodré, senti que existiam duas Lisboas diferentes. Senti que existem, de facto, muitos muros invisíveis à nossa volta.

Talvez o maior mérito desta exposição seja chamar-nos à atenção para eles.




Há tanta gente como eu, tantos que pensam como eu

Concerto Sopa de Pedra

SMUP - Sociedade Musical União Paredense

27 de Abril de 2024

Cartaz: Madalena Matoso





Como celebração dos 50 anos do 25 de Abril, o grupo de investigação musical Sopa de Pedra proporcionou uma experiência de partilha e união a todos os presentes na SMUP, no dia 27 de abril de 2024.

Ao entrarmos no recinto, fomos recebidos por um palco decorado com cravos, já antecipando uma noite de celebração da música portuguesa e da história de luta e resistência que ela carrega. Este evento na SMUP foi o culminar de uma série de três concertos que passaram por Paris, no Theatre de la Ville - Festival la Place, e por Peniche, na inauguração do Museu Nacional Resistência e Liberdade. Os três P’s. Este último concerto, em Peniche, foi realizado no mesmo dia que o concerto na SMUP.

Apesar do desgaste que uma agenda tão intensa poderia causar, a energia emanada pelo grupo e pelo público era palpável, envolvendo-nos durante toda a atuação e revigorando-nos, tanto ao público (falo por mim) como aparentemente também a quem estava em palco.

No início do concerto, sete vozes entram em palco, faltando três para completar este grupo composto por dez mulheres. As vozes eram acompanhadas apenas por percussão e apenas em algumas músicas. O ambiente e as camadas que aquelas sete vozes criavam por si só, mesmo sem o elemento da percussão, transmitiam uma combinação única de doçura, inquietação e revolta. O repertório foi uma viagem pela música de intervenção e popular, com interpretações de canções de Amélia Muge, GAC - Vozes na Luta, Zeca e José Mário Branco, entre outros.

Um dos momentos que mudou a minha atenção durante o resto do espetáculo ocorreu durante uma interação com o público. Uma das artistas partilhou que aquela era a primeira vez que tocava em Lisboa com o grupo, mostrando surpresa pelo acolhimento caloroso e energia que estava a receber. A partir daí, prestei bastante atenção a este elemento do grupo, querendo captar as suas reações ao longo da atuação. Reações que faziam crer que o que estava a acontecer ali, naquela noite, era algo de novo. Algo que não costuma acontecer. Em palco, partilharam connosco o quanto estavam a precisar de um momento assim. Fez-me refletir sobre a dificuldade de ser artista em Portugal e a falta de valorização do nosso setor cultural. Acredito que quem corre por gosto também cansa. E se o cansaço nos impedir de correr, todos perdemos com isso.

A conexão entre quem estava no palco e quem estava na plateia era tão forte que, em muitos momentos, parecia que todos na sala partilhavam a mesma experiência. Como se aquele momento tivesse deixado de ser um concerto, transcendendo a tradicional separação entre artistas e audiência. Senti que não havia um entertainer e um espectador, apenas um grupo coeso, num momento de partilha. Se pudesse levar este sentimento para tantas outras esferas da nossa vida, se ele se materializasse noutros momentos. Mas por agora, existiu ali, de braços dados e a cantar em conjunto.

Já no final, com o palco vazio após a saída do grupo, a canção "Ó Minha Amora Madura" começa a ser cantada espontaneamente, no meio do público. De repente, toda a sala estava a cantar. As artistas regressaram e juntaram-se a este coro coletivo, mesmo na beira do palco, num dos momentos mais emotivos da noite.

Este concerto das Sopa de Pedra foi uma celebração da nossa cultura, da nossa história e da importância que temos uns para os outros.


Vida múltipla de 11 artistas gravadores

Exposição 11 Livros para 11 Artistas
Contraprova - Atelier de Gravura
9 de maio a 14 de junho 2024
Biblioteca de Alcântara

A Contraprova é um projeto associativo que agrega artistas cuja prática atravessa a gravura e a impressão artesanal. Um dos propósitos da sua fundação, em 2008, foi proporcionar um espaço de trabalho, totalmente equipado para a prática da gravura, mas também de encontro e de partilha de saberes, promovendo a divulgação e a aprendizagem das técnicas ali tornadas possíveis.

A exposição 11 Livros para 11 Artistas surge de um convite endereçado pela Biblioteca de Alcântara aos artistas da Contraprova, propondo a escolha individual de uma obra literária relacionada, por via da memória ou da imaginação, com a prática da gravura. As estampas aqui apresentadas são instâncias de materialização dessas relações, mas, tal como as estampas, as interpretações são múltiplas.

Vista da galeria da Biblioteca de Alcântara.


Começo por me deter no trabalho da artista Sofia Morais, uma gravura em linóleo com sobreposição de duas matrizes, em que um tronco castanho de mulher parece debruçar-se sobre nós, apoiando os cotovelos no passe-partout, ao mesmo tempo que pássaros se libertam do seu interior. Neste corpo condensam-se opressão e leveza, fazendo eco da dureza e precisão das palavras de Maya Angelou, autora do livro escolhido pela artista gravadora.

Sofia Morais, "O canto dos pássaros"


Susana Romão apresenta, em diálogo com um poema de Adília Lopes, uma gravura colorida cuja expressão lúdica não deixa adivinhar a complexidade do processo de produção. Trata-se de uma água forte em chapa de zinco, com mordedura profunda, a que acrescentou elementos em Tetrapak, posteriormente intervencionada em pequenos detalhes com trabalho de pincel e tintas acrílicas.

Susana Romão, "Mais vale baratas que DDT"


Refiro ainda o trabalho da artista Joanna Latka, que a partir d'O homem duplicado de José Saramago apresenta um tríptico de provas feitas a partir da mesma matriz criada com verniz mole – em que cada uma das imagens idênticas é prolongada pelo desenho, ganhando vida para além dos limites da chapa e ocupando lugares contíguos num universo comum. Apetece percorrer sem pressa as linhas sinuosas do já familiar desenho de Joanna Latka, e ensaiar leituras imaginadas nos arabescos contidos em folhas de papel esvoaçantes. A figura triplicada consome-se no exercício da escrita com a mesma entrega que é necessária à prática da gravura.

Joanna Latka, "Vida dupla de um escritor"


O facto de estas estampas estarem apenas fixadas à parede, sem vidro de entremeio, beneficia a sua visualização, num espaço em que entradas de luz natural, iluminação artificial e revestimentos polidos geram uma profusão de reflexos.

Por ter também uma ligação à impressão artesanal, tenho para mim que a gravura em metal é uma arte pesada. Da preparação e polimento das chapas à gravação mecânica (no caso da técnica de ponta seca), passando pela toxicidade da caixa de resina ou dos vapores dos ácidos corrosivos (no caso da água forte e águas tintas), todo o processo requer um certo amor ao perigo e ao que é difícil. Nada que a acuidade e delicadeza das marcas que aqui aparecem replicadas no papel deixem transparecer.

Vista da galeria da Biblioteca de Alcântara.


Dureza, precisão, complexidade e multiplicidade são conceitos que nos permitem viajar entre o universo das letras e o dos traços e sulcos da gravura, mas que não esgotam a miríade de possibilidades que estas obras fazem presentes. Por isso, e para contemplar o trabalho dos restantes artistas da Contraprova – Alexandre Jorge, Ana Neto, Daniela Crespi, Luís Fernandes, Marcela Manso, Margot Kick, Marija Tošković e Ricardo Campos – nada melhor que fazer uma visita à galeria da Biblioteca de Alcântara até dia 14 de junho.