sexta-feira, 24 de maio de 2024

Cruz - Filipe, Modo de ver

 M1 - Recensão (Artes Visuais)


Cruz-Filipe. Modo de ver


Galeria do piso inferior

Fundação Calouste Gulbenkian


23 Fev - 15 Abr 2024

10:00 - 18:00 (Encerra à terça)



Introdução


Esta exposição da análise retrospetiva da obra do pintor e artista Cruz-Filipe apresenta pinturas realizadas desde a década de 1970, onde estão incluídas dez telas inéditas pintadas a partir de 2015 e outros trabalhos onde é notória a ligação harmoniosa da pintura com a fotografia.

Pensada e organizada juntamente com o artista, a exposição apresenta 57 pinturas que traçam a evolução desde os anos de 1970, até à sua última tela, pintada em 2020. As dez telas de pinturas inéditas, abordam a temática da natureza/paisagem.

 

Ao contrário de muitos artistas seus contemporâneos, Ricardo da Cruz-Filipe apresenta-se como pintor autodidata. “Convivi com grandes pintores, como o Júlio Pomar ou o Noronha da Costa. Eles eram verdadeiros pintores, eu fazia pintura”. 

Nascido em Lisboa em 1934, Cruz-Filipe diplomou-se no Instituto Superior Técnico em 1957, tendo sido ali professor-assistente entre os anos de 1958 e 1968. Dedicou toda a sua vida profissional ao setor da eletricidade, nomeadamente às questões económicas, ao planeamento, à organização e à gestão de empresas, tendo sido ainda diretor de uma companhia de seguros e administrador da Eletricidade de Portugal (EDP). Paralelamente, criou toda uma obra visual, onde ligou a pintura com a fotografia. O seu trabalho ganhou destaque em finais dos anos de 1960, mais concretamente a partir de 1969, quando expôs pela primeira vez uma série de pinturas sobre telas fotossensibilizadas, técnica esta, em que Cruz-Filipe foi pioneiro em Portugal. 

“Só pintava aos sábados e aos domingos e quando não tinha trabalho para fazer. Nunca fui só pintor. Dedicava-me aos quadros quando tinha esse tempo livre, mas por isso mesmo demoravam e fazia poucas mostras desse trabalho”, conta o artista que chegou a ser professor de engenharia de António Guterres. A primeira exposição pública aconteceu na Galeria Pórtico, em 1957, da qual resta um quadro que abre a presente exposição, intitulado Música de Câmara (1955). Foi o culminar de um gesto que começou cedo. “Desde pequeno que desenhava para o meu irmão, inspirando-me nos filmes de cowboys e no cinema pelo qual me fui interessando”, conta.


Anos mais tarde, já no fim da década de 1960, adota a técnica da tela fotossensível, que confere uma poética própria ao seu trabalho artístico. Esta pintura sobre telas fotossensibilizadas, são aplicadas em telas especialmente preparadas com um revestimento sensível à luz, permitindo, assim, que uma imagem seja gravada sobre a tela, através de um processo fotográfico. Depois deste processo em que a imagem é revelada e impressa na tela, o artista procede à pintura, adicionando detalhes, cores e texturas. 

Esta técnica combina elementos da fotografia e da pintura, permitindo ao artista criar obras de arte únicas que incorporam não só a precisão da imagem através da fotografia como, aliado a esta, a subjetividade da pintura.

Um segundo ciclo inicia-se por volta de 2005, com o predomínio de registos fotográficos sobre paisagens e apontamentos da natureza – mar, céu, terra, atmosferas líquidas e sublimadas, árvores, nuvens – retrabalhados pictoriamente. Como na fase anterior, caracterizada pela constante presença de fragmentos do corpo humano, a imagem é reconstituída e unificada através da pintura. Em ambos os ciclos encontramos a mesma atitude estética e o mesmo desejo de provocar o olhar do observador, trazendo-lhe alguma inquietação.

Se a pintura, no peso histórico e conceptual que o artista lhe atribui, ocupou o primeiro plano da sua obra, a fotografia permanece num lugar imerso, neste seu modo especial de ver a arte.


Descrição geral


Num primeiro olhar, o visitante fica submerso nas diferentes direções para as quais estas telas apontam. O território visual é representativo e amplo. Há alusões à pintura barroca e neoclássica, mas também um cruzamento inusitado com o surrealismo e o impressionismo. O que se vê é, no entanto, mais singular e diz respeito a uma utilização indefinida da fotografia metamorfoseada em pintura. “A criação de imagens foi sempre uma necessidade de expressão contínua”: é desta forma que Ricardo da Cruz-Filipe (1934) descreveu, a sua obra e o seu percurso ligado às artes visuais, iniciado há mais de 70 anos. O espectador é acolhido numa experiência imersiva que ultrapassa as fronteiras da percepção convencional. Localizada na galeria de exposições temporárias do piso 01, a distribuição das pinturas convida a explorar os recantos das várias salas e mergulhar na mente do criador.

O artista português que acaba de completar 90 anos de idade, identifica o seu processo como criador de imagens, que agora se dá a ver, nesta exposição, de forma antológica. É uma narrativa visual, consolidada ao longo de décadas, na história da arte contemporânea portuguesa.

O título da exposição, Modo de ver, foi escolhido pelo artista que recorreu a uma expressão usada por Susan Sontag em On Photography. Na grande maioria, revela-se a técnica em que se notabilizou e que utiliza telas fotossensíveis, colocando estas criações num lugar híbrido, entre a pintura e a fotografia. Ao deambularmos neste universo pictórico, entramos necessariamente num lugar onde a cultura visual é repleta de metáforas vivas e de contemplações sobre o mundo. Da utilização do óleo e depois do acrílico sobre este tipo de telas, o artista português distingue-se por um processo transformativo de imagens, que começa nas montagens de fotografias projetadas em telas e que são tratadas cromaticamente numa espécie de pós-produção da imagem.

Desde o momento em que se entra na galeria, é muito evidente que Cruz-Filipe desafia as normas estabelecidas, optando por uma abordagem que oscila entre o surreal e o provocativo. As obras expostas são meras representações visuais, onde a realidade se funde com o imaginário.

Sobre esta obra, presente na imagem, em cima, dá-se pelo nome de Point d’orgue, de 1994,

O preto ocupa toda a tela ou quase, e aqui só se vêem duas mãos, mãos masculinas, mãos de poder, sob um céu atormentado. Cruz-Filipe constrói assim um universo fantasmagórico, onírico e perturbador: as suas fantasias tomam forma em figuras antigas, vestem-se com os adornos da história da arte para melhor assombrar as mentes e evitar que sejam esquecidas. De todas as pinturas presentes nesta exposição, esta é sem dúvida aquela que mais me intriga e provoca o olhar. Sendo uma composição abstrata, pode ser interpretada de diversas maneiras, uma vez que a arte abstrata permite que o observador encontre significados pessoais. Se traduzirmos o título da obra, encontramos uma simples palavra - destaque. Rapidamente confirmamos que o que se encontra em destaque, que sobressai e que provoca o observador, são as mãos. Uma posição respeitadora, de alguém com algum estatuto. Juntamente com a mancha preta que ocupa quase toda a tela, encontramos na parte superior, uma mancha que simboliza um céu de tempestade. Posso concluir que o poder que simboliza a posição das mãos está atormentado por uma natureza inquieta.

"Point D'orgue", como muitas obras abstratas, convida o observador a mergulhar na experiência estética e a refletir sobre as emoções e impressões que a obra desperta, sem estar limitado a uma interpretação única ou específica.


Como escreve o ensaísta Bernardo Pinto de Almeida, num texto presente no catálogo da exposição, “cada quadro requer a execução lenta de um processo construtivo”, meticulosamente pensado, através de um processo que trabalha as imagens de forma digital. “Baseado na pintura, na fotografia e na colagem – composto assaz complexo que lhe trouxe grande originalidade –, esse processo, sendo absolutamente construtivo, foi realizado quando os dispositivos digitais não conheciam ainda lugar próprio e estavam na maioria por inventar, o que jamais o impediu de ser quase um pioneiro dos processos contemporâneos da apropriação da imagem e do seu uso indiscriminado”, salienta no mesmo texto. O seu trabalho, explica por seu lado a curadora da retrospectiva Ana Vasconcelos, aproxima-o de Richard Hamilton, Robert Rauschenberg ou Gerhard Richter, mas em Portugal é pioneiro e único.

“Cruz-Filipe é herdeiro de uma matriz pop, mas foi um outsider porque insistiu na pintura, quando estava toda a gente a derivar para uma arte conceptual e quando a fotografia ganhou outra dinâmica. Ele continuou a trabalhar na imagem a partir da apropriação, recorrendo a imagens de revistas, frames de filmes e detalhes de outros quadros”, salienta. Numa tradição que trabalha o recorte e a transfiguração, as suas criações empregam uma complexa justaposição de imagens de pormenores retirados de pintura antiga, com particular destaque para a pintura italiana e flamenga dos séculos XVI e XVII, e um trabalho imagético em que o artista faz ligações, revela, deturpa ou oculta.

Um elemento distintivo da exposição é a interação entre as obras e o ambiente circundante. Cruz-Filipe desafia a tradicional separação entre o observador e o objeto observado. Essa abordagem dinâmica amplia os horizontes da percepção, desafiando os visitantes a questionar a sua própria compreensão do mundo ao seu redor.

Além disso, “Modo de Ver” revela uma profunda introspecção por parte do artista em relação à condição humana. As obras exploram temas universais, como identidade, alienação e espiritualidade, através de uma lente pessoal e intimista. Ficamos com a sensação de que entramos numa jornada emocional, explorando os cantos mais sombrios e luminosos da psique humana.

No entanto, apesar da profundidade conceitual das obras, a exposição também oferece momentos de pura estética visual. As composições apresentam destreza, em relação à técnica, impressionante, com uma paleta de cores rica e uma atenção minuciosa aos detalhes. Essa combinação da forma ao conteúdo, cativa os sentidos, garantindo que mesmo os visitantes menos conhecedores da arte contemporânea, encontram sempre algo que lhes prende o olhar.

Em última análise, a exposição "Modo de Ver" de Cruz-Filipe transcende as limitações tradicionais da arte, oferecendo uma experiência que desafia, inspira e enriquece. Ao explorar os limites da percepção e da expressão, o artista convida os espectadores a questionar suas próprias perspectivas e a abraçar a complexidade do mundo ao seu redor.



quarta-feira, 22 de maio de 2024

Exposição: “Liberdade – Portugal, Lugar de Encontros”

Como seguidora e leitora assídua da Time Out, deparei-me com esta exposição da UCCLA (União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa), que, juntamente com o CCCV (Centro Cultural de Cabo Verde), criou uma emblemática exposição que celebra os 50 anos do 25 de Abril e a liberdade artística.

Esta é composta por duas partes, uma presente na UCCLA e outra, mais pequena, no CCCV. Infelizmente, não tive oportunidade de ver a segunda parte; no entanto, a primeira fala, a meu ver, por si só.

Numa única sala estavam expostas 25 obras, incluindo fotografias, quadros, tapeçarias e diversas instalações de autores mundialmente conhecidos, como Joana Vasconcelos, Alfredo Cunha, Alexandre Farto, entre muitos outros.

A obra que me impactou mais foi, sem dúvida, a mesa de Vasco Araújo. A mensagem que está escrita na mesa é de arrepiar, mas nada se comparou quando vi o seu nome. “O inferno não são os outros”.

No fim do dia, fui pesquisar mais sobre o título e deparei-me com algo fascinante: o título que o autor escolheu para esta obra, é na minha perspetiva, a negação da obra escrita pelo filósofo e dramaturgo Jean-Paul Sartre para uma peça de teatro. A ideia que Sartre quis transmitir com esta peça, sobre três pessoas – duas mulheres e um homem – que se encontravam presas entre quatro paredes, é que com o passar do tempo, essas personagens começam a apontar nos outros todos os defeitos, todas as falhas, tudo o que o outro faz e tem de errado. É no meio do caos causado por eles próprios que se apercebem de que estão no inferno, o seu inferno. E, para finalizar, o que Sartre quis afirmar ao dizer “o inferno são os outros” é que na relação com os outros não assumimos a responsabilidade do que fazemos. Por oposição à obra de Vasco Araújo que espelha o inferno efetivamente causado pelos outros (consequência de uma violação). O inferno é a própria existência.


Numa nota mais leve, outras obras que se destacaram foram a Golden Mount de Joana Vasconcelos, um conjunto de almofadas com tecidos coloridos, padronizados e apontamentos em dourado, demonstrando a riqueza dos tecidos indianos; As instalações de Cristina Ataíde, Mountain House #12 e #15, (a casa da montanha). Estas são duas estruturas de mármore branco, lindas, com uma “entrada” simbolizando a tal casa e açafrão da Índia representando o areal da montanha. São ambas pequenas, mas ao mesmo tempo de grande escala, se compararmos o tamanho das portas e a grandiosidade da estrutura.




Muitas outras cativaram a minha atenção. Cada uma conta uma história, cada uma mostra como a liberdade que o 25 de Abril de 1974 trouxe a Portugal e a todos os países de língua portuguesa fez, faz e continuará a fazer da arte a melhor forma de expressão que, não só os artistas, mas todo e qualquer ser humano, têm à sua disposição!

FeLiCidade - Festival da Língua e da Liberdade na Cidade

Tive a honra de estar presente na primeira edição do Festival da FeLiCidade, que celebra a felicidade, a liberdade e a língua portuguesa. Não foi por acaso que o festival aconteceu no dia 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa, e no ano em que se celebram os 50 anos do 25 de abril.

Este festival teve como casa o CCB, com um programa que apela a diferentes públicos, dos mais velhos aos mais novos, desde literatura, música, cinema, performances, e com mais de uma centena de autores.

Senti uma grande força e empoderamento feminino neste festival; a liberdade da mulher está a ser cada vez mais valorizada, tal como a sua força, os seus direitos, tudo aquilo pelo qual lutamos para estarmos onde estamos e tudo o que ainda temos de lutar.

Assisti à performance das Batucadeiras Das Olaias, um grupo performativo que celebra a cultura cabo-verdiana, tocando Batuku, um género musical que é património de Cabo Verde, e às Baque Mulher Lisboa, um grupo de mulheres brasileiras imigrantes que lutam contra o patriarcado e todas as formas de opressão, violência, racismo, e a favor da liberdade da mulher. Estes dois grupos, de origens geográficas diferentes, culturas diferentes, personalidades diferentes, juntam-se num back2back (b2b) para celebrarem tanto as suas diferenças como as coisas que têm em comum, a língua portuguesa, a paixão pela música e pela arte, o senso de comunidade e o amor pelas suas raízes. É muito emocionante assistir a algo tão bonito e que carrega um significado enorme no peito de cada uma daquelas pessoas. A emoção, a força, a luta, a liberdade que todos eles sentem é contagiante e nítida.



Pouco depois, assisti a um episódio da série documental “Herdeiros de Saramago”. Esta série dá a conhecer os autores vencedores do prémio José Saramago em todos os países de língua portuguesa. Julián Fuks é escritor e crítico literário, nascido no Brasil e filho de pais argentinos que, infelizmente, como muitas famílias, tiveram de fugir à ditadura. O episódio de 27 minutos abordou temas como a situação política, social e económica do Brasil, a constante análise que um faz e que está presente no pensamento do mesmo e do outro, e a partilha do que lhe é mais querido e pessoal. Confesso que o meu interesse pelo mundo da literatura é muito recente; no entanto, não só foi o primeiro autor brasileiro que conheci e ouvi, como a forma como se expressou e as causas por que luta despertaram em mim uma enorme curiosidade para saber mais sobre o mesmo, o que, para mim, já é uma vitória.

Voltando ao tema do empoderamento feminino, o concerto das rappers Mynda Guevara, da Juana Na Rap e da G Fema deixou-me boquiaberta. Desde as letras das músicas, cada uma com uma mensagem diferente mas igualmente importante, o som, as luzes, a proximidade com o público, o facto de cantarem em português e em crioulo (língua oriunda de Cabo Verde), até à vibe do concerto em geral. Não estava de todo à espera de gostar tanto desta performance. Identifiquei-me por ser mulher, livre, ter acesso à cultura, a novas experiências, perspetivas e identidades culturais que, sem iniciativas como esta, a do Festival da FeLiCidade e muitas outras que finalmente estão a dar voz ao que é importante, à cultura, à arte, à educação, à diversidade, à inclusão e equidade, não seria possível.

É sempre bom sairmos da nossa zona de conforto e explorarmos mundos desconhecidos que nos enriquecem culturalmente, promovem e incentivam para evoluir, livres de amarras e barreiras. O conhecimento e a compreensão dos outros, que nos estimula a valorizar e a aceitar uma sociedade diversa. E por isso, mais equitativa e justa.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

(M1 - 15194)

Exposição de pintura

Luis Guerra: “Múmias ou como homenagear um corpo”
Estúdios Victor Cordon, Lisboa
24 fevereiro até 17 Maio 2024


Curadoria de Carlota Lagido

É só sair da Faculdade e virar duas vezes à direita. Poucos passos depois, com atenção para não deixar derrapar as solas na polida calçada, chegamos. Estranhamos deixar o sol e entrar na penumbra. Esperamos uns segundos até a retina se ajustar. Perguntamos se podemos entrar para ver a exposição do Luís Guerra e o sorriso da vigilante oferece-nos as boas-vindas aos estúdios Vitor Cordon, autorizando-nos com leveza. Entramos como que num útero.

Dificilmente dissocio o efeito que o espaço expositivo tem na obra. É, neste caso, flagrante e absolutamente simbólica esta ligação. Um estúdio de dança que acolhe uma exposição de pintura de um bailarino. O denominador comum não podia ser mais óbvio. Trata-se do corpo. O corpo como sagrado a homenagear.


E o ritual da vida e da morte, como forma de celebrar uma existência alargada desse corpo.

A exposição encontra-se no átrio de entrada dos Estúdios Vitor Cordon e compõe-se de 8 grandes telas com aproximadamente 2 metros por 1 metro que se dispõem em dois grupos de três elementos frente a frente nas paredes laterais, e mais uma em cada lateral do arco que dá acesso ao resto do edifício e que fica em frente à entrada - como dois guardiões a observar quem passa.


Estão todas penduradas a uma altura que estimo em 3 metros, o que lhes confere monumentalidade, e desencostadas das paredes, o que nos transmite leveza e suspeita sobre o suporte, uma vez que a tela suspensa se assemelha a papel. Efetivamente, as duas telas junto ao arco (no segundo momento da minha visita, onde captei a imagem acima, uma das telas havia sido removida) são papel e as restantes telas de pintura, tendo assim sido, a meu ver, bem conseguida uma ilusão de homogeneização dos trabalhos e unidade no conjunto das obras.





Destaco o poder da imagem, que neste caso específico, nos oferece uma extensão de permanência do corpo para além da sua extinção. Como um vestígio que nos transporta ao antigo Egito e nos traz de volta ao presente, à contemplação e à valorização do nosso corpo enquanto elemento finito por um lado, mas transcendente por via da imagem impressa, por outro.




Refiro imagem impressa, porque efetivamente, se tratam de telas de pintura em grande formato mas tendo por base monotipia, que é uma técnica de impressão de apenas uma tiragem. Sobre este detalhe pode-se então dizer que o material se relaciona com o conteúdo da obra de forma eficaz, já que também cada um dos nossos corpos é único e singular, não existindo registo de outro semelhante.

 



As marcas impressas são coloridas e acompanham-se de alguns traços a grafite e lápis de cor. As formas são indefinidas e incompletas, deixando o vazio do papel estabelecer uma relação de vestígio, de transformação, de presença e de ausência.

Podemos ver, na maior parte das peças, a representação dos corpos sem limites definidos e os braços cruzados na frente do apenas sugerido peito. É este simulacro que nos transporta para a morte e nos traz para a (nossa) vida.



São os elementos monumentalidade, escala, vestígio indefinido, posição de braços, branco do papel a invadir o registo, que me dão a aproximação ao que é do túmulo. Posso até referir o silêncio que me atravessou.

Identifico esta contemplação e este silêncio como sentimentos do desenho enquanto processo, o que me leva a atentar nos detalhes de cada mancha e à descoberta das ténues e discretas linhas de grafite que por ali dançam. Entro no trabalho e perco-me nas inúmeras surpresas que de longe não havia percecionado.

A escala obriga a uma primeira visão distanciada, a uma leitura do todo, mas a ligação com a obra levou-me a aproximar o meu próprio corpo e a percorrê-la num ato de fruição e curiosidade que congelou o relógio e me levou ao tempo presente. É sempre esta a melhor sensação que trago de uma fruição artística. O momento do atravessamento que a obra faz no meu corpo e as imagens e sensações que ficam a ressoar na minha mente.



Este trabalho faz parte de um ciclo de mostras que o artista tem vindo a realizar, entre as quais destaco o espetáculo “Almada Negreiros, o bailarino” a que tive o privilégio de assistir na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 30 de Outubro de 2023.

O Luís é um artista nosso e do mundo todo. O mundo todo é dele também.                                                 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Exposição "Japão: Festas e Rituais" (M1)

 


"Japão: Festas e Rituais" no Museu do Oriente é uma exposição fascinante, que convida a visitar um calendário de celebrações anuais, com base nos princípios do xintoísmo e do budismo presentes no Japão. A programação desta exposição, propõem a entrar neste mundo interessante da identidade japonesa, onde a tradição coabita na atualidade. Os visitantes são imediatamente imersos numa rica experiência cultural, tradição e espiritualidade.


Um dos aspectos mais marcantes da exposição é a diversidade de obras de arte expostos, com cerca de 1500 peças que demonstram o universo das celebrações e rituais, desde trajes elaborados e máscaras usados ​​durante festivais, por exemplo os traje de demónio visitantes raihoshin namahage, até trajes cerimoniais utilizados durante as cerimônias no templo, como se viu na parte da exposição não só do vídeo de uma Miko Mai como também na secção de Kannushi e Miko com os trajes de sacerdote e sacerdotisas que carregam séculos de tradição, cada peça conta uma história da rica herança cultural do Japão. 


Em termos expositivos, a organização do espaço cria um ambiente imersivo que transporta os visitantes ao coração dos festivais do Japão, dividindo o espaço entre rituais e festas através de um chinowa (ritual de purificação semestral), dando assim uma ideia do visitante passar do templo e entrar nas festividades após passar por um ritual de purificação. Com uma disposição meticulosa dos displays ou do uso estratégico de iluminação e som, cada elemento foi considerado para uma boa experiência geral. Uma característica particularmente interessante é a incorporação dos elementos multimídia ao longo da exposição: as projeções de vídeo que mostram os festivais em ação como as gravações de áudio que captam os sons da música e o próprio sino de ano novo, estes componentes acrescentam uma camada extra de profundidade à exposição, permitindo aos visitantes uma imersão total nas festividades, não só isso, mas tomamos conta de uma preocupação do museu na tentativa de replicar espaços relativos tanto às festividades como aos rituais, por exemplo no espaço de butsudan onde foi replicado uma espécie de fachada de templo para acompanhar o altar.



        Além disso, a exposição trabalha na contextualização de cada festival e ritual dentro da paisagem cultural e histórica do Japão, por meio de painéis informativos e outros, os visitantes adquirem uma compreensão mais profunda dos contextos históricos, sociais e religiosos que moldam as celebrações. 
Por outro lado, é necessário apontar alguns pontos negativos que ocorreram ao longo da exposição. Apresentada no espaço do 2º piso no museu do oriente observamos cerca de 1500 objetos artísticos expostos, este grande número levou a uma sobrecarga de informação para o visitante, grandes vitrines carregas de objetos e informação como foi o caso dos Yokai e como Ebisu e Daikoku onde existem textos grandes e mal expostos nas laterais dificultando a leitura. Outro ponto a mencionar, algumas peças encontram-se em espaços próximos das saídas de emergência como Réplica de fudo myoo e outras obras atrás de pilares sem indicações de estarem expostas como a Réplica de Jizo Shibarare.



        Esta exposição apresentada pelo museu do oriente na educação cultural fica notória ao longo de toda a exposição, desde programas educacionais, workshops e visitas guiadas que oferecem aos visitantes de todas as idades, remete também para uma oportunidade de expandir a sua compreensão da cultura japonesa. Para qualquer pessoa interessada no Japão ou apaixonada pela descoberta cultural, esta exposição é imperdível.





O QUEBRA-NOZES - Russian Classical Ballet (M2)

    Presente no centro Cultural Olga Cadaval, com o Auditório Jorge Sampaio quase lotado, foi onde decorreu a performance: o ballet do quebra-nozes da companhia Russian Classical Ballet.


A companhia Russian Classical Ballet é uma das mais conhecidas e prestigiadas companhias de Moscovo sob a tutela de Evgeniya Bespalova, tentando preservar a tradição do Ballet clássico russo, este balé em particular, teve a sua coreografia desenvolvida pelas mãos do famoso dançarino e coreógrafo russo Marius Petipa, sendo uma das performances mais representadas da companhia.

Segundo a missão da Russian Classical ballet, o espetáculo foi realizado com uma produção clássica da obra de bailado clássico do "o quebra-nozes" de Tchaikovsky, apresentando uma narrativa clássica mas ao mesmo tempo encantadora do romance e fantasia de Clara e o próprio quebra-nozes.

A performance em si teve a duração de aproximadamente 120 minutos com intervalo de 20 minutos, um dos bailados mais famosos apresentados pela companhia de balé russa, com movimentos que destacam a flexibilidade e fluidez, ao longo da apresentação, os dançarinos mantêm sempre um sorriso no rosto para a plateia, mesmo em performances mais rigorosas. Além disso, durante a performance, especialmente porque encontrava-me perto do palco, o som das caixas dos sapatos de ponta a embater no chão fazia um barulho interessante, que acompanhava com a música.

A peça inicia com a cena da festa na véspera de natal, na residência da família Stahlbaum, onde ocorre a festa natalina, os adultos conversam enquanto as crianças dançam e brincam. Com a chegada do padrinho de Flitz e Clara, Drosselmeyer, este realiza alguns truques de magia e mostra às crianças as várias bonecas mecânicas, apesar de não dar nenhuma destas bonecas, Drosselmeyer presenteia a Fritz e a Clara um boneco cada. Cheio de inveja da atenção que o quebra-nozes está a ter, Fritz acaba por o partir e abandonar o palco, com isto, o padrinho pega no quebra-nozes, acabando por o reparar como novo. A festa se encerra e em determinado momento Clara vai até o quebra-nozes sob a árvore de natal e adormece com ele nos braços.

Entrando na cena de Batalha: quando a meia-noite chega, tudo se transforma, existe uma redução da iluminação, e os brinquedos ao redor da árvore ganham vida e começam a mover-se, na sala o exército de ratos liderado pelo rei rato aparece, o quebra-nozes acorda e lidera o exército de soldados de brinquedo para combater os ratos, enquanto isso o rei rato e o quebra-nozes duelam. Depois de muito tempo, o quebra-nozes e o exército não conseguem resistir e são capturados pelo rei rato e Clara dá uma pancada nele, atirando um chinelo, fazendo com que ele caia e os ratos vão ao socorro do rei levando da cena, o quebra-nozes de seguida devolve o sapato a Clara.

"Land of Snow": O quebra-nozes recebe um momento de conto de fadas e transforma-se revelando um príncipe, transportando Clara numa jornada para a terra das neves, que cenograficamente era basicamente uma floresta com flocos de neve dançantes.

Na cena final, "Land of Sweets", é o reino da Fada Sugar Plum, onde o quebra-nozes narra para a Fada sobre o confronto com o rei rato, o que leva à fada a decidir conceder uma recompensa e é aí que todos começam a dançar: Dança Espanhola, Árabe, Russa, Chinesa, Mirliton e a mais famosa, Valsa das Flores, no final existe um gênero de solo entre a Fada e o quebra-nozes, o famoso pas de deux.

Terminando a cena da terra dos doces, vamos em direção ao desfecho em que a Clara desperta do sonho com o boneco ainda nos braços, ou seja, desde o momento em que ela adormeceu até agora, foi tudo apenas um sonho.


A performance foi magnificamente ensaiada, além do cuidado minucioso não apenas com a coreografia, mas também com o figurino das personagens e o cenário. Na cena intitulada "March", que acontece logo no início da peça e vemos crianças a dançar animadamente, a música era prazerosa e extremamente adorável a vê-los dançar, também é um momento em que todas as crianças estão a receber os seus brinquedos.

No "Candy Cane" russo, há apenas três bailarinos (2 mulheres e 1 homem) com muitos passos da dança tradicional folclórica russa, incluindo muitos saltos e piruetas. Comparada às outras seções de dança do ato II (chinesa, espanhola, etc.), esta é bem agitada. Acho que é uma das partes mais conhecidas da trilha sonora para muitas pessoas. Outro ponto, é a "Waltz of the Flowers" é uma peça clássica com muitos bailarinos, uma das valsas mais famosas, é executada em duetos e inclui a entrada da fada e do quebra-nozes.

Pas de Deux da fada Sugar Plum (Clara) e do quebra-nozes, em termos musicais, muitas das vezes trazem-me lágrimas aos olhos, especialmente quando se sabe que Tchaikovsky compôs essa música pensando na sua irmã falecida por motivos de doença. Uma composição lenta, cheia de reviravoltas, no momento em que o Quebra-Nozes levanta a fada, usam trajes brancos, especialmente bonitos, não apenas a coreografia, mas também esteticamente bonito, o que provoca diversas emoções no espectador.


quinta-feira, 9 de maio de 2024

Exhibition review 69562








Exhibition review 69562


Name of the show: mudam-se as histórias, mudam-se os estilos
Curated by: Catarina Alfaro
Artist on show: Paula Rego
Place of the exhibition: Casa das histórias paula rego
Opening time of the show: 13 june 2023 - 31 march 2024
The name of the show “Change of history, change of style” suggests the exhibition sets us on a journey through the years of Paula Rego’s paintings and the development of her iconic art style. A good artwork asks a good question, I would like to believe that's true for exhibitions as well. This exhibition makes you wonder, what it takes to build a recognizable art style.

As any vast exhibition that tries to contain the majority of the artist's career, it holds a chronological order. The exhibition includes more than 50 of Paula’s works from as early as 1992 and as late as 2017. You get to see some of the rare originals as you go through the halls of Casa Das Histórias, a museum in Cascais, that holds the name and many works of Paula Rego.

Through the exhibition, you can discover Paula’s active involvement in the political and cultural history of Portugal. The analysis and reinterpretation of narratives in illustrations of children's stories pushes you into doubting the visual portrayal previously illustrated by Disney, decontextualizing Peter Pan as a literal hell for children in illustrations full of horror and pain of early adulting through experiencing traumatic episodes. From bringing more attention to the legalization of abortions to the colonial history of the empire and untold stories of colonized people, Paula Rego presents the voice that must be heard. The pain and the struggles of womanhood in the format that once used to be inspired by comic strips found in newspapers raise contemporary problems of everyday women. The voice is so loud that it still resonates with people who get to experience her paintings. They first catch your attention by using vibrant colors and giant canvas sizes, but the deeper you delve into the paintings the more disturbing they get, and exactly in between visual elegance and emotional uneasiness there lies a space of appreciation for Paula Rego’s art.

The parkour of the exhibition, in my opinion, should have ended with the contents of room 0, which is situated right next to the entrance of the first room and is excluded from a continuous labyrinth of the rest of the rooms. I suppose because it stores the biggest and the most famous artworks curators might have predicted people wanting to have easier access to the most desirable works, yet I still think to see the change of styles it would have been better to see the works in a chronological order.

If you follow the order from the first room the the room 0, the last piece you will see is a documentary that consists of interviews with Paula. Getting to hear about her life as an artist, and how closely her personal life was intertwined with her practice serves as a great ending to this exhibition.

Ever so often inspired by things she saw in theatre, news, and novels of her time, Paula's incredibly productive work ethic cannot leave you unbothered by her true contemporaneous.