A Big Ode foi uma publicação portuguesa ligada à poesia e à poesia visual, construída a partir da participação de diferentes autores e de uma lógica de experimentação editorial. Entre os seus vários números, o segundo, publicado em julho de 2007, destaca-se pelo modo como se afasta do formato convencional de revista: em vez de uma sequência de páginas, apresenta-se como uma caixa que reúne trabalhos autónomos, produzidos em diferentes suportes e técnicas.
Tenho em casa, desde 2007, um exemplar desse número. Chegou-me através de uma pessoa amiga que tinha participado na publicação e que me entregou o exemplar. Na altura, não pensava particularmente nas questões que hoje encontro nele; era, para mim, uma publicação de poesia e poesia visual que tinha chegado às minhas mãos através de uma relação pessoal. Quase vinte anos depois, voltar a abrir esta caixa fez-me perceber que o objeto podia ser lido de outra maneira.
Hoje olho para esta publicação a partir da cultura do self-publishing, das publicações de artista e, sobretudo, das formas de circulação que se criam à volta destes objetos. O que me interessa já não é apenas aquilo que a Big Ode contém, mas também a forma como foi feita, como circulou e como acabou por chegar até mim.
Alessandro Ludovico recupera uma frase de André Breton que me parece resumir bem uma parte importante deste universo: “One publishes to find comrades!”. Publicar pode ser, neste sentido, uma forma de procurar outras pessoas, criar afinidades e fazer circular ideias. Não necessariamente para chegar ao maior número possível de leitores, mas para encontrar aqueles com quem existe alguma coisa em comum.
É assim que começo a olhar para a Big Ode nº 2. Publicado em julho de 2007, este número era dedicado ao tema “A Viagem” e apresentava-se como uma espécie de revista-objeto: uma caixa de cartão onde se encontravam trabalhos de diferentes autores, assinados e numerados, realizados através de suportes e processos diversos. A publicação incluía ainda um CD dos Ventilan. Cada participante produziu uma edição de 100 exemplares, com liberdade para trabalhar o papel, os materiais e a própria forma de apresentação.
A caixa é, para mim, uma das coisas mais interessantes nesta publicação. Não funciona simplesmente como uma embalagem que protege aquilo que está lá dentro. É parte da própria experiência. Ao abrir a caixa, encontramos vários objetos que podem ser vistos separadamente, mas que passam a fazer sentido também pela relação que estabelecem entre si. A “revista” deixa, por isso, de ser apenas uma sequência de páginas para se tornar num conjunto de coisas diferentes, reunidas num mesmo objeto.
Esta maneira de pensar a publicação não surge isoladamente. Tem antecedentes em várias experiências das vanguardas artísticas do século XX. Ludovico (2012), por exemplo, chama a atenção para a importância que os materiais impressos tiveram na Fluxus, nomeadamente através das Fluxus boxes, que reuniam jogos, instruções, objetos e materiais impressos. Aqui, o impresso não servia apenas para transmitir informação. Podia ser também objeto, múltiplo, jogo ou parte de uma experiência.
Algo semelhante acontece com as revistas de artista. Gwen Allen (2011) mostra como, sobretudo durante as décadas de 1960 e 1970, estas publicações passaram a funcionar como espaços alternativos para a apresentação e circulação de práticas artísticas. A revista podia ocupar um lugar que antes pertencia quase exclusivamente à galeria ou ao museu. Podia ser espaço de exposição, mas também meio de distribuição.
É neste contexto que encontro uma possível aproximação entre a Big Ode e SMS (Shit Must Stop), organizada por William Copley em 1968. SMS reunia múltiplos de diferentes artistas num mesmo conjunto e era enviada por correio aos seus subscritores. Não havia um tema imposto a todos os participantes; havia antes uma estrutura comum que permitia que cada objecto mantivesse a sua autonomia e, ao mesmo tempo, fizesse parte de uma publicação maior (Blank, Brand & Phillpot, 2009).
Também Aspen: The Multimedia Magazine in a Box (1965–1971) explorou esta ideia de uma revista que já não precisava de se limitar ao formato tradicional de páginas encadernadas. A publicação reunia diferentes suportes e materiais dentro de uma caixa, tornando a própria forma de apresentação parte da experiência editorial. Allen (2011) enquadra estas experiências na transformação da revista de artista num espaço alternativo para a produção e circulação de arte.
A Big Ode não é, evidentemente, uma continuação direta destes projetos. O que me interessa é a possibilidade de estabelecer uma relação entre eles. Há qualquer coisa que passa de uns para os outros: a caixa, a reunião de objetos diferentes, a pequena escala, a multiplicidade de suportes e, sobretudo, a ideia de que publicar também pode significar criar condições para que os trabalhos circulem.
No meu caso, essa circulação não é uma ideia abstrata. O exemplar que tenho em casa chegou-me através de uma pessoa amiga que tinha participado na publicação. Não o comprei numa livraria nem o encontrei por acaso. Fazia parte de uma rede de relações que existia à volta da revista. Pensando agora nisso, percebo que a história deste exemplar também faz parte da própria publicação.
As experiências de mail art, os zines e muitas revistas de artista partiram precisamente dessa possibilidade de criar outros circuitos de circulação. Duncombe (2017), ao estudar a cultura dos zines, mostra como estas publicações podem funcionar como espaços de produção cultural fora dos circuitos dominantes, permitindo que os próprios autores decidam o que querem dizer, como querem fazê-lo e para quem querem falar.
Isto faz-me pensar que o self-publishing não é apenas uma questão de independência relativamente às editoras. É também uma questão de controlo sobre o próprio processo editorial. Quem publica decide o formato, os materiais, a quantidade, os participantes e, em muitos casos, a forma como a publicação chega ao leitor. São decisões que parecem técnicas, mas que acabam por definir aquilo que o objeto é e a forma como se relaciona com o seu público.
Na própria história da Big Ode encontro um pequeno exemplo disso. Num número posterior aparece a indicação de que se procurava trabalhar com “o papel mais barato que houver no mercado” (Revista Big Ode, 2010). A frase é simples, mas diz alguma coisa sobre a relação entre as condições materiais de produção e a própria identidade da publicação. Não se trata de esconder a falta de recursos; pelo contrário, essa condição passa a fazer parte do projeto.
É talvez por isso que, ao voltar agora ao meu exemplar, me interesse menos classificá-lo como “revista” ou “livro” e mais pensar naquilo que ele faz. É uma caixa, mas também é uma publicação. Reúne trabalhos diferentes, mas também cria relações entre eles. Tem uma edição limitada, mas existe em múltiplos. Foi produzido por várias pessoas, mas chega ao leitor através de uma rede concreta de circulação.
E há ainda uma última coisa que me parece importante: o meu exemplar não é apenas um vestígio de uma publicação que aconteceu em 2007. O facto de ainda o ter, de me lembrar de como chegou até mim e de voltar a abri-lo quase vinte anos depois mostra que a circulação de uma publicação não termina necessariamente quando ela chega ao primeiro leitor. O objeto continua a deslocar-se, mesmo quando fica parado.
Talvez seja essa a dimensão da Big Ode que hoje me interessa mais. A publicação não está apenas nos trabalhos que reúne. Está também nas relações que permitiu estabelecer, nas mãos pelas quais passou e nas leituras que continua a provocar. Uma revista pode ser uma caixa, uma caixa pode ser uma coleção de objetos e uma publicação pode acabar por ser, também, uma pequena rede.
Referências:
Allen, G. (2011). Artists’ Magazines: An Alternative Space for Art. Cambridge, MA: MIT Press.
Blank, G., Brand, V., & Phillpot, C. (2009). In Numbers: Serial Publications by Artists Since 1955. New York: JRP|Ringier.
Duncombe, S. (2017). Notes from Underground: Zines and the Politics of Alternative Culture. Portland, OR: Microcosm Publishing.
Ludovico, A. (2012). Post-Digital Print: The Mutation of Publishing since 1894. Eindhoven: Onomatopee.
O Contrário do Tempo. (2007, 12 de julho). “BIG ODE” nº 2. O Contrário do Tempo.
Revista Big Ode. https://big-ode.blogspot.com/.



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