segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Vhils

             Artista plástico, Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, nasceu em 1987, cresceu numa zona industrial no Seixal, que pertence ao Distrito de Setúbal. Nos anos 80 e 90, o desenvolvimento urbano e as transformações que este provocou, foram uma grande influência no trabalho de Vhils, pois ficou especialmente interessado na forma como as paredes dos vários edifícios absorviam as alterações sociais e históricas que aconteciam ao redor.

            Vhils utiliza a técnica de baixo relevo, vista como uma destruição criativa, brutal e complexa, uma interação visual com o ambiente urbano, em que investiga a superficialidade da cultura material, tornando visível o que até antes, estava invisível. Reflete, também, sobre a luta de aspirações de cada individuo e a vida nas sociedades urbanas, numa exploração de ligações, contrastes e semelhanças, entre realidades.

            “Scratching the Surface”, um projeto com base no baixo relevo, foi a sua estreia na exposição coletiva VSP, em Lisboa, em 2007 e a sua participação no Festival Cans, em Londres, em 2008.

            Os seus trabalhos já foram expostos em mais de 30 países, à volta do mundo, em colaboração com várias instituições, como por exemplo, a Fundação EDP em Lisboa, o CAFA Art Museum em Pequim, o Museu de Arte Contemporânea de San Diego, entre outras, contando com exposições individuais ou coletivas, intervenções e projetos artísticos. Desenvolveu obras, não só na escultura de baixo relevo, mas também, pintura com stencils e gravura em metal. Foi diretor de videoclipes, curtas-metragens e uma produção teatral.



















domingo, 22 de novembro de 2020

Livro de artista – Edith Derdyk

 Edith Derdyk é uma artista, educadora, escritora e ilustradora brasileira. 

Possui o desenho como matriz e energia motriz de seu trabalho. Este é o fio condutor de sua pesquisa visual, seja no bidimensional, na costura, no espaço, onde estica linhas no ar, na escrita, onde traça, rabisca, rasura ou no tempo, como no dobrar e virar de páginas de um livro.

A aproximação de Derdyk com o Livro de Artista surgiu de suas experimentações artísticas e convívio com suas anotações em seus cadernos (diários poéticos). E em sua pesquisa sobre o livro, a artista transita entre a palavra, a imagem, a linha, o objeto e a materialidade do suporte no espaço. 

Em 2002, nasce Rasuras, um livro-mesa de tiragem única com 250cm quando aberto:





“A linha desamarra e se desarma em folhas dobráveis, como se o livro pudesse conter o labirinto do infinito, imensurável. Um novelo de lã, cada fio estendido, camadas e sobreposições de leituras e composições vertem sobre sim outras dobras de sentido. O livro é espécie de caminhada: discurso e percurso em movimento. Quando se abre um livro, um tempo é inaugurado – seja o tempo da narrativa ou o tempo de folhear suas páginas, tal como uma partitura coreográfica.” (Edith Derdyk, de 1997 a 2017)

Em Fiação, de 2004, a artista registra as fiações elétricas das ruas e os fragmentos de linhas existentes em seu atelier. Em uma série de justaposições dessas imagens a Derdyk trabalha com dualidades como conexão/desconexão, interior/exterior, casa/cidade, continuidade/descontinuidade. O livro possui algumas possibilidades de dobras e quando manuseado, o leitor recria diferentes relações, leituras, narrativas e combinações gráficas.









Em 2007, é realizada a obra Onda Seca na Pinacoteca de São Paulo. Uma escultura feita a partir de quatro toneladas de papel. Empilhadas, estas páginas brancas formam um grande livro no espaço, um mar de papel em estado de gravidade, uma onda seca congelada no ar. 




Se o mar inteiro sob o leito de um rio (2008) é um livro de parede construído a partir da justaposição de textos. A palavra aqui é tecida, cruza horizontalmente o livro como um todo, cria-se um movimento de onda. Lemos o mar.





Em Tábula de 2015, Derdyk também trabalha com múltiplas sobreposições de textos. Neste livro de artista eles são extraídos da primeira página de cerca de 80 bíblias compradas em distintos sebos de São Paulo. As imagens resultantes desta sobreposição tornam os textos praticamente ilegíveis, problematizando a relação entre o texto originário, escrito em aramaico e suas diferentes traduções em texto fonético ocidental. A materialidade do livro também problematiza esta relação de tradução/interpretação, pois as páginas dobradas permitem infindáveis leituras combinatórias, tornando o leitor um co-autor.






Estas são algumas das obras desta artista que possui um extenso e intenso trabalho de pesquisa no livro de artista, seja de forma poética ou teórica.





quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Seymour Chwast e a Push Pin Studios

Seymour Chwast é um dos grandes nomes do design mundial e responsável pela reconciliação do design gráfico com a ilustração.

                                     


Nasceu em Nova Iorque em 1931 e desde cedo estudou artes visuais.

Seymour frequentou a Abraham Lincon High School, onde ganha gosto pela tipografia e posters. Aos 16 anos de idade, Seymour Chwast tem a sua primeira ilustração publicada na revista Seventeen Magazine, que era dirigida por Cipe Pineles.

Licenciado em 1951 pela Cooper Union for the Advancement of Science and Art, trabalhou no New York Times, e posteriormente como freelancer. Durante esta fase Seymour é influenciado pelas obras de Bem Shahn, George Grosz, Georges Rouault e Honoré Daumier. Estas influências de espírito reflectiam-se nas xilogravuras de Chwast com um espírito bastante crítico. Uma das obras mais antigas de Chwast é o “The Book of Battle”, sendo um manifesto anti-guerra ilustrado e pintado à mão. Como influências humorísticas Chwast tem como referência os mestres da ironia e do paradoxo.





Fundou em 1954 com Milton Glaser , Edward Sorel e Reynold Ruffins, a Push Pin Studios tornando-se uma referência na comunicação gráfica mundial, chegando mesmo a ter um estilo gráfico associado e que percorreu as melhores galerias do mundo.

O primeiro trabalho desta equipa foi a produção de um trabalho de freelancer. Para propagandear este negócio, criaram uma peça promocional que defendia que o conceito/ideia por detrás de um design e ilustração é tão importante quanto a sua qualidade da finalização. O resultado foi o famoso “Push Pin Almanack”, inspirado no Farmer’s Almanack, cada edição era dedicada a um tema específico, incluído ilustrações e trivialidades. Devido ao ecletismo presente na “Push Pin”, influenciado pelo estilo Victoriano e Arte Nova, são acusados de contribuir para o fim do modernismo. No entanto, o que se estava a criar eram sim respostas a estímulos presentes na época, mesmo que antevendo o pós-modernismo dos anos 80 sem respeito a quaisquer teorias ou práticas. Chwast inclusivamente deixou de criar xilogravuras por achar que estas teriam perdido a sua expressividade. A necessidade de responder aos estímulos e necessidades dos clientes de forma contemporânea e integrada era superior à vontade de imitar o passado.

Só assim é possível que surja um estilo visual conhecido como “Push Pin” que de forma eclética une a ilustração com o design 

nunca premeditado, mas em resposta às necessidades dos trabalhos. Os trabalhos da “Push Pin” estavam presentes em todo o tipo de meios, desde os livros infantis e capas de álbum até às capas de revista como a LIFE ou a TIME. Prova da qualidade da “Push Pin” foi durante dois meses, no Museu do Louvre, decorrer a retrospectiva “The Push Pin Style” e daí viajou pelo mundo fora. 

Em 1975, com a saída de Glaser da Push Pin, Chwast fica como único membro original da” Push Pin”. Continuando o trabalho do estúdio, contratando talentosos designers para trabalhar consigo. Nesta fase Seymour Chwast dedica-se mais ao poster e ilustração de livros infantis.

Atualmente Seymour continua á frente da Push Pin, com diretor artístico, dá aulas e palestra regularmente em escolas. É um dos pilares contemporâneos do design actual. A reconciliação da ilustração com o design gráfico, aquando do modernismo e do Movimento Internacional, ofereceu uma alternativa sólida, consistente e acima de tudo que ainda hoje é actual nas mensagens que transmite, afirmando o Design Gráfico como uma disciplina que se deve exercer de diferentes perspectivas, enriquecendo-a.



































Generative Art and Rule-Based Art de Philip Galanter

Philip Galanter, atual professor e filósofo Americano, desenvolve o conceito de Arte Generativa e as diferenças com as Artes Baseadas em Regras (Rule-Based Arts), aplicáveis a todas as atividades denominadas como arte (visuais, performativas, etc). Este autor descreve as artes generativas como qualquer prática artística em que o sistema de regras gerado tem algum grau de autonomia para a construção da obra de arte em questão (como programação, máquinas ou outras invenções processuais). Já as Artes Baseadas em Regras não são necessariamente generativas, tendo origem num ou mais sistemas baseados em lógica para direcionar o design e a criação do evento ou objeto. 

"Arte Generativa refere-se a qualquer prática artística onde o artista usa um sistema, como um conjunto regras linguísticas naturais, um programa computacional, uma máquina ou outro processo de invenção, que é ativado com algum nível de autonomia, contribuindo para ou resultando numa obra de arte completa." 
(tradução livre de Generative Art and Rule-Based Art, 2006)

Este termo não pode ser aplicado como um movimento, pois é um processo que se demonstra transversal a várias épocas e artistas e que se integra noutros movimentos já pré-definidos. Apesar de tal, existe uma compreensão diferenciada de um mesmo termo num contexto de movimento artístico mais antigo, que denomina uma forma de abstração geométrica em que é criado um elemento básico que gera outras formas através da rotação, translação, espelho, etc. praticado por artistas como Eduardo McEntyre e Miguel Ángel Vidal na Argentina.

Como exemplo, Galanter refere a obra Abstract Painting in Blue (1952) de Ad Reinhardt (1913-1967) que simplifica a diferenciação entre estes dois conceitos, pois, apesar de ser uma pintura construída com base num estudo geométrico prévio e com regras aritméticas rígidas não consegue alcançar generatividade pois estas diretrizes não são suficientemente específicas para retirar qualquer controlo do pintor pois só o restringe dentro de um sistema em que este terá que inevitavelmente tomar decisões próprias.

Abstract Painting in Blue (1952), Ad Reinhardt


Um outro caso interessante é o trabalho de Jackson Pollock, se serão obras generativas, pois os seus trabalhos mais conhecidos são aparentemente aleatórios, mas, devido à falta de introdução de meios exteriores a ele mesmo, estas obras não poderão ser generativas. Nenhum movimento elaborado pelo artista para a criação das suas obras consegue ser verdadeiramente generativo. O físico Richard Taylor demonstrou já que as marcas de tintas do artista são fractais na sua natureza devido a uma aprendizagem aprofundada por parte de Pollock, desta maneira, o resultado está assim a ser premeditado e calculado, e não gerado aleatoriamente. "O trabalho foi uma criação intuitiva que exigiu uma conquista árdua através de disciplina física e muitas sessões e re-trabalho constante." (tradução livre de What is Generative Art?
Complexity Theory as a Context for Art Theory, 2003, Philip Galanter)

Number 35 (1949), Jackson Pollock

Assim, apresento agora uma obra de arte que verdadeiramente ilustra um trabalho generativo, a sequência de pinturas do artista Harold Cohen que são materializadas através de um pintor de inteligência artificial AARON (criado em 1973 pelo artista), codificado num software que desenvolve autonomamente diversas pinturas. Estas impressões não são feitas com pixeis, mas sim com verdadeiras tintas para tecido, tendo o artista "ensinado" a máquina a misturar as cores e fornecendo-lhe uma certa imaginação que lhe permitia pintar figuras humanas ou naturezas mortas sem quaisquer referencias visuais ou manipulação humana.

040502 (2004), Harold Cohen
através de pintor de inteligência artificial AARON

Biografia:

What is Generative Art? Complexity Theory as a Context for Art Theory (2003) Philip Galanter

Generative Art and Rule-Based Art (2006) Philip Galanter

https://newatlas.com/creative-ai-algorithmic-art-painting-fool-aaron/36106/


ERRATA 


As erratas, que encontramos com frequência nos livros antigos e até em livros editados já na segunda metade do século XX, desapareceram completamente dos livros desde há algumas décadas. Devemos interrogar o porquê deste desaparecimento. Podemos perceber que as razões são múltiplas e têm a ver com a própria história do livro. A errata consistia geralmente numa folha impressa anexada ao livro, já depois deste estar impresso, onde se corrigiam erros ou gralhas que este continha. Este enorme zelo pela correcção, que as erratas demonstram, corresponde a uma concepção do livro que lhe atribui um grande teor de verdade e seriedade. Assim entendido, o livro fixa as palavras para a posteridade, e nessa medida fica investido de uma grande responsabilidade. Com o grande desenvolvimento da indústria editorial, o livro tende a tornar-se uma mercadoria igual a todas as outras, perde a "aura" que antes tinha e passa a ter uma vida muito mais efémera. Em suma: torna-se um objecto completamente "profano". Por isso, o facto de conter erros ou gralhas já não tem a mesma importância nem suscita as mesmas reacções. Mas, a par desta razão que tem a ver com a banalização do livro, há também uma razão técnica: as formas de produção dos livros, sobretudo a partir das tecnologias digitais, tornaram possível intervenções, que permitem correcções em fases tardias de composição e impressão que antes eram mais difíceis. 



quarta-feira, 18 de novembro de 2020

"e então brincamos de ciclope": Julio Cortázar

Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


      É mesmo de se encher a boca d'água e de quase saborear com gosto pela própria língua, quando lemos essa prosa poética de Julio Cortázar. Escritor argentino, nascido no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, conhecido por seus contos fantásticos, investiga as facetas enigmáticas e perturbadoras do cotidiano. Ao adentar a realidade e suas profundidades, manifesta em seu estilo de escrita peculiar, a subversão dos gêneros literários, a buscar  autenticidade genuína em seus livros, como podemos observar em Amarelinha, por exemplo, um romance publicado em 1963, em que propõe um modo de leitura bem interessante e fora dos padrões. 
     Na década de 60, assume sua grande influência de Jorge Luis Borges em sua escrita, é considerado uma das figuras mais importantes da literatura hispanoamericana, sendo conhecido internacionalmente. Diferentemente de Borges, o escritor insere em sua sensibilidade artística a preocupação social: traz as classes marginalizadas e aproxima-se intensamente dos movimentos políticos de esquerda, tornando-se ativista político.
   Adentrando ainda mais um pouco no poema acima trazido para esta publicação, relacionando-o com sua produção literária, podemos afirmar que a literatura de Cortázar questiona a própria vida em seu sentido mais profundo. Ao trazer abordagens inovadoras de caráter experimental em sua linguagem e em suas narrativas, mergulha no universo do fantástico, sem abandonar a realidade: o aparecimento daquilo que é fantástico no cotidiano, exaltando a complexidade daquilo que é simples e corriqueiro (assim como Borges também propõe).
    Assim aqui o faz: descreve o beijo por todas as beiras e contornos possíveis. Caminha por todos os cantos da linguagem e das sensações ao descrever pelo toque, cheiro, olhar e água, uma das sensações mais indescritíveis e mais corriqueira: "e então brincamos de ciclope..." e com representações imagéticas e sem nem sequer citar a palavra beijo de prontidão, ao cruzar este texto, entendemos sobre o arrepio e o formigamento que o ato proporciona. Eis a potência da composição textual, do poder descritivo e da capacidade intrínseca da escrita ao pulsar em texto, uma sensação. Um desejo mútuo, dois corpos. A escrita que quase pode ser tocada por dedos, que pode ser sentida ou beijada. 
    Da fragrância obscura, dos acordes em fôlego, da saliva a vazar em cada letra, os corpos aqui dançam como a lua na água, como se já se beijavam antes mesmo de encostarem-se, como se o beijo fosse algo visceral, que vem das entranhas, acontecendo antes mesmo do encontro entre bocas. O beijo acontece em palavra, ao leitor, que em seu momento de leitura, beija sem nem mesmo sair do lugar ou sequer encostar outro corpo. 

Inside and outside. Inside is outside

INSIDE AND OUTSIDE. INSIDE IS OUTSIDE

O que se pode ver por uma janela? De dentro? É um dos objectos ou estruturas mais participativos e activos no nosso dia-a-dia, por todo o lado, na arquitectura que habitamos. É uma ponte de dentro para fora e de fora para dentro. É uma limitação ou uma possibilidade? Fecha-nos ou abre-nos? Separa-nos ou une-nos? Desde sempre que penso nestas questões e que observo muito as janelas - pensando no que podem ser, no que foram, no que serão; pensando no que me trazem e no que me levam... É uma via que nos encerra ou que nos desvenda? De qualquer maneira, ela não vive só - o contexto é por ela habitado e transformado- perto de uma janela: luz / sombras / exterior/ interior. Passagem e possibilidades do olhar, do caminhar com os olhos através de --


"The window, with its visual permeability and its ‘frontier effect’ is separation and union all at once. A relational surface such as the skin is."


Daniel Blaufuks concentrou um dos seus melhores livros e trabalhos na janela da sua cozinha e do espaço a ela adjacente. A mesa da sua cozinha, como emblema inabalável do quotidiano, de um quotidiano. Quis ver com todos os olhos todos os possíveis ângulos de luz e de vida, todos os clarões e rasgos que, de lá de fora, poderia a sua baça e velha janela trazer para dentro - entrando em fusão com os seus mais banais (e, por isso, tão significativos) objectos do dia-a-dia; integrando a sua cozinha, naquela mesa e naquele(s) dia(s). A importância da banalidade (irrepetível, mesmo assim) do espaço que habitamos, partindo das aparentes inalteráveis conjugações diárias para uma -afinal- ilimitada surpresa constante. O sol nasce, o sol põe-se, a chuva cai, o frio vem, a luz muda. E a janela acompanha tudo isso - e mais, ela filtra tudo isso. O que chega lá dentro, àquela cozinha, naquela casa, é a janela que traz. Mais escuro ou mais claro, mais alegre ou mais triste, a janela está ali firme para lhe desvendar a exterioridade que aparenta conseguir traduzir, enquanto lá dentro se vive uma interioridade e um silêncio refugiados do estrangeiro, em pleno lar. O dentro como escolha de pensamento e digestão, porque e enquanto o lá fora não pára.

"Cá dentro tudo parecia igual enquanto lá fora o mundo mudava, um amigo morria, um governo caía, um livro saía, uma guerra aniquilava, uma bomba explodia"

Olhar. Reparar. Ver.
Exercício de repetição. De insistência num lugar - para o poder realmente ver e/ou conhecer. Exercício de renascer com o fluxo constante e imparável do tempo...o tempo.
“...do que geralmente não se anota, do que não se nota, do que não tem importância, do que se passa quando não se passa nada, salvo o tempo….” Geroges Perec.

"Attempting to exhaust the endless variations of life in captured images, even in its slow pace and most nuanced manifestations, is an inexhaustible gesture, a never ending work progressing"
 

Só este exercício de continuidade nos pode trazer algo real do mundo que habitamos e das coisas que vivemos. A constante pressa e fugacidade com que existimos não nos deixa olhar as coisas uma e outra vez, incapacita-nos de as habitar realmente. Na verdade, acredito nesse exercício como a única maneira não cobarde de estar no mundo - acredito nele como acto de coragem com o que nos rodeia (uma coragem paciente e silenciosa), como consciencialização de que temos de estar à altura do que nos acontece - e nisso aprender a ver. Se calhar, ao Daniel Blaufuks aconteceu-lhe uma janela - e com ela o mundo.
Cada olhar, cada dia, cada momento, cada maneira de fotografar - como reveladores das infindáveis verdades de um mesmo lugar - visto e registado de maneiras diferentes.
"Aliás, cada fotografia traduz a realidade à sua maneira: ligeiras alterações de cor no digital, sobre-exposições de luz no diapositivo, cinzentos granulosos no preto e branco e fascinantes reações químicas no instantâneo. O próprio formato escolhido, ou a lente selecionada, o filme ou tratamento, representa cada um uma espécie de verdade diferente"
(...)
"A tentativa não passa de uma tentativa e a minha janela é tão inesgotável como o café de Perec. Nada mexe enquanto tudo mexe. As centenas de fotografias apenas retratam uma ínfima parcela de tempo dentro do tempo, um fragmento microscópico sem importância num fluxo constante."
 

São e continuarão sempre a ser tentativas de chegar a- , de compreender algo- e só a olhar, olhar, olhar, isso algum dia poderá ser possível (Se for. Por isso lhe chama e as chamo de tentativas).
"It is to look, and look, and look. And then look again. Because nothing replaces looking."
(Lucy Lippard)
 

Podem estas imagens de uma janela e de objectos do quotidiano, de silenciosas paisagens, de vislumbres do exterior, ser maneiras de descrever o acto de voltar o olhar para o ponto de vista, para o movimento e a visão do olho interior ao apreender o mundo e sua diferenciação infinita? Não sei ainda, mas a minha janela é tão inesgotável...

Attempting Exhaustion | Wrong Wrong Magazine

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Oker

 Mário Fonseca (Oker) é um artista que nasceu na Maia (Porto, Portugal), a mesma cidade onde deu os primeiros passos no mundo do graffiti em 1999. Hoje em dia, o seu trabalho reflecte-se em diferentes áreas: Graffiti, Street Art, Ilustração e Design Gráfico. A versatilidade é algo que define as obras e projetos de OKER, apresentando diferentes abordagens estéticas às suas peças. Visualmente, é algo “fresh!” Começa nas letras coloridas do grafite e passa pela ilustração com linhas orgânicas e personagens animados combinando formas abstratas e texturas que dão um visual clean às suas composições. Tem um estilo distinto, com outlines precisos e imaginação fértil tornam-no num dos principais writers do Porto.

OKER afirma que se envolveu no graffiti como forma de automedicação nos seus difíceis primeiros anos de adolescência. Quando ele caminhava ao longo dos caminhos de ferro com outras mentes semelhantes, ninguém estava interessado nesta vida pessoal, este mundo era puramente sobre ele como um artista, como ‘OKER’.

Depois de se mudar para Nova York aos vinte anos e, em seguida, trazer o estilo de bombardeio de Nova York de volta para Londres, ele ganhou o respeito de artistas como Eine, Barry McGee, KR e Banksy, para citar alguns… 












mimesis

 Of course they are not even presented anymore, the Memes of the internet, "mimesis" in Greek, imitation. They can be seen everywhere, especially on the networks, and are mainly transmitted digitally; it is a real mass humorous phenomenon to which some people even devote a cult, sometimes to the point of being sickly. "Visual jokes": They take up elements of life common to a group of individuals, they take up a situation where one can identify oneself, staged, a cliché of a situation experienced or seen. They would be like a mise en abime of life.
 

Waking up as a meme-hero | Andras Arato | TEDxKyiv
Ted Talks where Andras Arato, an engineer by training, has become an icon of the same, finds pictures of him all over the internet, he is now known worldwide, he explains his reaction when he discovered that his royalty free pictures in a stock image were used in many different ways and sometimes even offensively.


During his photo shoot the photographer asked him to smile, but the internet users felt that his smile was not very sincere and hid a kind of hidden pain, hence the name "Hide the pain Harold", an example of the same: He explains that the story of "Hide the pain Harold" is only a role-playing game, it is not really him and that it is the other internet users who assigned him this role.

Shakespeare will say that the world is a play and that we are all actors in it and that his is to be "Hide the pain Harold".
"The meme is an idea or concept proposed by Richard Dawkins in The Replicator Selfish Gene, comparable in this respect to genes, but responsible for the evolution of certain animal behaviours and cultures".
How memes become memes: a picture, a photo, something graphic, adding text, image caption often with a funny character and finally posting it on social networks (facebook, twitter, 9gag ect). We are constantly exposed to the same, they live and spread through technology. 

They can also share knowledge and experiences that many people can enjoy, that you can identify with and that you are not alone.
The meme is a sociological, economic, political support, it has a huge aspect and can be declined in many possible ways. It can be good, bad or even playful.

    

 other examples:



sources: 

https://en.wikipedia.org/wiki/Mimesis

https://www.ted.com/talks/andras_arato_how_the_internet_made_me_into_a_meme?language=fr

contacts

Simulacrum: that which has only the appearance (of what it claims to be).


The Holy Shroud of Turin as an example of "simulacrum", the believers managed to circumvent the ban on representation in order to be able to represent Christ or his "imprint" and represent God despite the bible ban and the risk of falling into idolatry then forbidden, the Christians then succeeded in being able to "represent" not God himself but his incarnation which is Jesus, they would then have found a solution to represent the unthinkable: the representation of God, through the imprint of Christ, his (supposed) trace.

 

Warhol, who used photography and silk-screen printing to make the "unique" work of art accessible, made the work of art lose its meaning through this repetitive character.
As Warhol grew up in a very religious family ( His parents were devout Byzantine Catholics who regularly attended mass and retained much of their Slovak culture and heritage while living in one of Pittsburgh's eastern European ethnic enclaves.)
He came into contact with the icons very early on (which had a didactic purpose, as all Christians knew the message spread by these images).
Warhol will identify the images that convey the American myth, symbols shared by all Americans, coca cola, comic book heroes, American stars of his time (of course the one that is no longer even presented: Ma- rylin Monroe). Symbols framed by him like framed saints, icons. He will question the uniqueness of the work of art, he will democratize it in a way.
"Campbell's Soup Cans", 32 cans of Campbells soup displayed next to each other have a strong resemblance for example with the Iconostases of the Orthodox churches.

 
Pop Art (and Neo-Geo) movement will activate the dynamics of dissolution of the original by the multiplicity there is then no longer a relationship between the original and its copy.
Claes Oldenburg, who hunts down the icons of mass culture, desacralises monumental images, creating a huge gap between reality and representation.



Robert Rauschenberg will also insist on this multiplication by the serigraphy, in particular where he will criticise the press and society where one is constantly bombarded with images, every day the disasters are repeated; by this redundancy the catastrophes become almost banal.Signs, 1970: fragments of photographs of the army depicted, of an African-American man stained with blood, of Martin Luther King in his coffin, Buzz Aldrin or Neil Amstrong(?) on the moon.


 Roland Barthes will say of photography (book La chambre claire) that one cannot deny that when one looks at a photo the subject is in front of the object, it is therefore only the spectrum of the object, the photograph has only the appearance of the person represented... The image in front of us would then be only a simulacrum and we insist on its disappearance.



 

sources: https://fr.wikipedia.org/wiki/Suaire_de_Turin

"La ressemblance par contact" G. Didi-Hubermann

https://www.biography.com/artist/andy-warhol

https://www.wikiart.org/en/robert-rauschenberg/signs-1970

Tempos Livres

 Com os números de Covid-19 a aumentarem, vemos cada vez mais medidas restritivas. Actualmente, em Portugal, temos o recolher obrigatório entre as 23h e as 5h, e aos fins de semana das 13h às 05h da manhã.

Desde do início que tem sido uma dura luta contra um inimigo invisível. Os primeiros meses foram difíceis de superar, tanto fisicamente como mentalmente. 


Neste post vamos ver o trabalho de cinco artista que utilizaram o confinamento e esta pandemia como fonte de inspiração.



Abigail McGourlay


A jovem pintora de Sheffield venceu a competição Isolation Artwork Competition com a sua pintora intitulada Brewing. 


Sobre a sua pintura a autora diz-nos o seguinte: 


“Lidei mal com a situação atual tanto mentalmente como fisicamente. A incerteza do confinamento deixou-me com bastante stress e, no inicio, achei difícil sentir-me motivada. Mas é devido ao confinamento que redescobri o meu amor pela pintura. Esta peça captura um verdadeiro momento de conforto, com as minhas duas coisas favoritas, um banho de espuma quente e uma caneca de chá quente".






Bruno Borges


Nos meses de confinamento, pudemos acompanhar nas redes sociais de Bruno Borges as suas reflexões sobre o estado das coisas. Os dias com a família, o absurdo e o medo da situação, e tudo o que a pandemia nos trouxe.

Os posts foram complicados e reunidos num livro, intitulado Os Diários do Corona, da Editora Fojo/ O Gorila.











Christopher Kieling


O pintor Christopher Kieling, pintou os cenários que tinha à sua disposição durante o seu confinamento, o seu apartamento. 

As suas pinturas possuem uma forte componente matemática. Os padrões são rigorosamente trabalhados digitalmente e depois desenhados na perfeição sobre a tela. O padrão, por vezes, ocupa todo o espaço da tela e contém nele a sensação de movimento. Essa sensação guia o nosso olhar para elemento principal da peça. O movimento leva-nos ao motivo da pintura que aparenta estar estático, servem como elementos de contemplação. E servem como elementos de quebra na pintura, isto é, os padrões geométricos são excessivamente perfeitos, e a existência deles é contra-balançada por elementos naturais (como a mulher e a planta) ou que sejam manufacturados pela mão humana (como a cadeira).









Andrei Popa


O ilustrador imaginou um prédio com 26 vizinhos. Cada vizinho uma letra do alfabeto. Os vizinhos, como todos nós, fazem as suas actividades e rotinas dentro dos seus espaços, apesar das idiossincrasias há certas qualidades e acções comuns a nós todos.


Andrei Popa, disse o seguinte acerca do projecto: “Por outro lado, vendo de janela em janela ou  de letra a letra, também pode resultar como um espelho de nós mesmo, e tenho certeza de que muitos se encontrarão em pelo menos um dos casos. De A a Z, cada janela é uma vida diferente, vivendo uma história pessoal diferente. Um ABC que captura o espírito íntimo estético da vida”. 






Mariano Pascual


As suas ilustrações são claustrofóbicas e surreais. Os principais sentimentos experienciados por Pascual. As ilustrações são representações da sua mente. Apesar do realismo espacial das ilustrações, há elementos que destoam da normalidade.


Pascual diz o seguinte: “As cenas parecem confusas e um pouco desarrumadas porque acho que meus pensamentos não estão em ordem também.

Queria que essas salas parecessem comprimidas e apinhadas, cheias de objetos para dar a impressão de que estão a sufocar-nos. E pra ser honesto, todo o tempo confinado em casa e ao passar muitas horas no mesmo espaço às vezes acaba sendo meio caótico”.











Referências: