quarta-feira, 30 de outubro de 2019

FAEL (Rafael Serra)


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Rafael Serra é um type designer e lettering artist influente português, com formação na Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão do Instituto Politécnico do Porto.

A sua influência é bastante presente nas redes sociais, através das suas publicações e reconhecimento por outras entidades do design internacional e português nas plataformas Instagram e Behance. Um talento notório na área da tipografia, em que publica semanalmente letterings e composições tipográficas pessoais, assim como trabalhos feitos para clientes e empresas. É interessante o seu empenho e a forma como define os seus briefings pessoais e interage com os seguidores/público, normalmente através de perguntas sobre novos desafios. FAEL faz imensos redesigns alternativos de marcas, filmes, séries, livros, entre outros, assim como palavras e nomes de cidades, sempre deixando um cunho pessoal ou característico da sua linguagem tipográfica.

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O que caracteriza graficamente o seu trabalho? No geral, os pontos comuns são letras sem contraste, minimalistas e geometrizadas, simplicidade na aplicação das cores, e fluidez na composição. Existe na maioria das vezes um jogo tipográfico em que todas as letras interagem entre si e as formas são das mais variadas, mas sempre com um pouco de geometria. Normalmente possuem poucas ornamentações, mas existem excepções, onde explora as formas e combina-as, muitas vezes apropria-se da própria palavra e arranja uma característica que a define e aplica-a ao design.


O seu trabalho revela uma descontração e ao mesmo tempo um foco em atingir objetivos. O facto de criar briefings pessoais é um grande exemplo que deve ser aplicado à vida de cada designer ou tipógrafo. Não se deve viver apenas de trabalhos para a faculdade ou para a empresa/cliente, mas deve-se aproveitar o talento e limá-lo com desafios pessoais. Aliás, se é algo do nosso agrado, porque não tirar mais proveito e desenvolver as nossas capacidades? Revelar o processo ou a arte final de uma proposta pessoal, no caso das redes sociais, pode ser uma plataforma para ganhar voz e crescer enquanto profissional. FAEL é um exemplo a seguir e um grande talento nacional a nível tipográfico, recomendável a todos os que se interessam pela área em questão.


FAEL encontra-se em:

Typographic Specimens: A Natural History of Letterforms



 
Typographic Specimens: A Natural History of Letterforms é um livro publicado pela Ammonite Press, que documenta as ilustrações de um explorador do século XIX com grande entusiasmo pela tipografia. Se a tipografia e a caligrafia são habilidades notáveis por si só, a capacidade de transformar letras, números e símbolos em animais ilustrados é particularmente impressionante.

O reverendo Jackson Whitehead era um clérigo cristão que se voluntariou para ser o capelão e servir como orientador espiritual da tripulação a bordo do navio HMS Pica, navio “irmão” do HMS Beagle, na segunda expedição mundial que começava em 1831 e duraria cinco anos — Charles Darwin, que apresentou a teoria da evolução por selecção natural, era famoso por ser um dos tripulantes a bordo do Beagle nessa mesma expedição.


Cedo Whitehead percebeu que a maioria das pessoas a bordo não estava receptiva aos seus ensinamentos religiosos, uns por serem ateus convictos e outros evolucionistas embrionários.
Por ser um ávido coleccionador de fauna e entusiasta da tipografia, escolheu dedicar o seu tempo a ilustrar animais e insectos usando apenas tipos. Algumas das ilustrações mostram animais com que se cruzou ou descobriu e outras são fantásticos exercícios de imaginação.


A história continua e, em 2016, o tesouro intrigante de ilustrações tipográficas foi encontrado durante o restauro da antiga casa de Whitehead, juntamente com um manuscrito sobre as suas descobertas, pelo seu bisneto Andrew Bainbridge.


Bainbridge, que é designer e professor de comunicação gráfica na Universidade de Lancashire Central, está por trás de todo o conceito e deu vida às obras do seu antepassado digitalizando-as e compilando-as num livro.

O livro apresenta 60 espécimes, juntamente com extractos fabricados do diário pessoal de Whitehead, exemplos do seu processo de ilustração e um índice detalhado do “ADN tipográfico” de cada criatura — ou seja, que letras, números e sinais de pontuação foram usados ​​para criar cada uma.


Por mais charmosa que seja uma abelha construída com os "Bês" definidos em diferentes pesos e tipos de letra, nem todas as criaturas são assim tão lógicas. Os espécimes tipográficos também apresentam animais agora extintos e míticos compostos de todos os tipos de caracteres.
Os trabalhos apresentados são uma exploração original e inteligente da versatilidade do tipo e da ilusão óptica, e juntos formam um fascinante conto contado por Bainbridge.





Olimpia Zagnoli


Olimpia Zagnoli é uma ilustradora italiana que tem em seu portfolio trabalhos para The New Yorker, Taschen, Google, Vanity Fair, The New York Times, The Guardian, Fendi e outras várias empresas importantes.


Suas ilustrações coloridas e geométricas são fruto de uma construção de repertório consciente. Zagnoli busca inspiração em suas origens italianas. Primeiro no seu cotidiano de infância no norte da Itália, onde cenários planos e os horizontes chapados que via ao andar horas de trem inspiraram sua atual paixão por listras. E nos grandes artistas e designers italianos. São os principais deles Fortunato Depero e Bruno Munari. É possível ver isso por exemplo por meio da utilização da cor preta sólida junto a cores vibrantes como o rosa que é característico no futurismo de Depero (em cima) e entra de forma alegre e despretenciosa nos trabalhos da ilustradora (em baixo).






Mas Olimpia também tem uma visão muito autêntica sobre os signos e mensagens que desenvolve. Fruto de seu tempo ela utiliza seus grafismos de forma política e representativa pensando em historias que não as suas para criar composições inclusivas. Uma de suas primeiras peças de destaque foi para o The New York Times. O tema era Nova Yorke e Olivia ilustrou com suas cores vibrantes e lúdicas de costume, a diferença foi tornar negro o tom de pele da personagem que tinha cabelos laranja.



Outro caso que marca sua responsabilidade com a narrativa de suas ilustrações é o trabalho que fez para marca de massas Barilla. Essa marca alguns anos antes foi criticada por ter se recusado a trabalhar com casais que chamaram de "fora do tradicional padrão italiano", as propagandas apenas mostravam casais heterossexuais. Então Olimpia em um ato de rebeldia ao ser convidada para ilustrar as embalagens de macarrão escolheu representar um casal homoafetivo de mulheres para contradizer a própria marca. A embalagem acabou sendo aceita pela direção de arte, mostrando que as críticas anteriores causaram algum efeito no posicionamento da Barilla.



Em entrevistas a italiana ressalta para jovens ilustradores a importância da construção de uma identidade autoral por meio do autoconhecimento, das buscas por repertório condizente com vossa origem. E mediante essa construção gráfica autoral, a percepção de que existe uma responsabilidade do ilustrador ao narrar histórias. Qual é a vossa história? Qual história está sendo narrada na ilustração? Ela é inclusiva? Qual é vossa voz dentro da ilustração? São perguntas fundamentais ao trabalhar com ilustração.





Livro de Artista como Acto Performativo

Em que medida o livro de artista, em si, é performativo? 
Que ações ou processos performativos incorpora? 


O livro de artista está relacionado com o livro convencional na sua forma, quer pelo seu formato, materialidade ou função. Como um todo, o livro manifesta uma estrutura conceitual, que é baseada na intenção do respectivo artista, destacando-se como uma obra de arte autónoma. É criado através de um processo de conceptualização artística que não poderia ter outra expressão senão aquela. O livro de artista não é portador da mensagem artística mas sim um medium. 

O termo ‘performativo’ foi criado por John L. Austin no âmbito das suas aulas sobre a teoria do acto da fala. O termo provém do verbo ‘to perform’ no sentido de ‘executar’, ou seja, realizar uma ação. Austin concluiu que as ações também são executadas por enunciados linguísticos, isto é, enunciados performativos. 

De forma geral os livros de artistas são performativos, em si, pelo facto de ao serem manuseados estarem em constante transformação, bem como por provocarem ações no leitor. Contêm diversos espaços que são percepcionados em momentos diferentes. As páginas são únicas e cada palavra existe como um elemento estrutural. Com todos estes componentes, o leitor torna-se protagonista, transforma a cada instante o objeto. O livro de artista pode ser visualizado de trás para a frente, do interior para o exterior, ou de qualquer outra forma. Espalha-se no espaço e no tempo, e desta forma, produz o acto performativo pretendido pelo artista. 

Nos livros de Axel Heibel é possível observar uma performance espacial, conseguida através da conjugação das páginas / desdobráveis / elementos gráficos. A experimentação visível na série Buchobjekt gera para além do espaço tridimensional um evento visual de pintura. 

Axel Heibel, Buchobjekt G / 94, 1994

O livro Every Building on the Sunset Strip, de Edward Ruscha, também implica esta performance espacial. O desdobramento em contínuo das páginas permite visualizar tanto a parte como o todo, criar novas perspectivas visuais, eliminar e compor elementos.

Edward Ruscha, Every Building on the Sunset Strip, 1966

Já o livro Ich bin ein Buch, kaufe mich jetzt (Eu sou um livro, compra-me agora) de A. R. Penck evidencia a performance textual. Neste caso, o acto de seguir a instrução do título produz por si a ação de que ele fala.


O livro de artista distingue-se do livro convencional não só pela sua estrutura, concepção e intenção artística, como também pelo seu lado performativo. Esta última característica gera ações (os actos performativos) que colocam o leitor, enquanto leitor, mas também como performer. É manuseado conforme a atenção que cada elemento lhe desperta. Existe uma interação entre a intenção do artista e a interpretação do leitor.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Xerox Book#1 de Ian Burn


A segunda metade do século XX foi marcada por mudança, em particular a década de sessenta. O movimento contracultural, com toda a sua mobilização e contestação social, teve um impacto muito significativo no mundo artístico com novos movimentos que procuravam opor-se aos valores tradicionalistas da arte.

Em 1969, Ian Burn, estando a trabalhar em Nova York já desde 1967, embarca para numa direcção na sua abordagem artística e cria o Xerox Book#1, a primeira de uma série de obras com a mesma premissa. Burn começou com um folha em branco que fotocopiou numa máquina Xerox. A cópia resultante foi utilizada para fazer uma terceira cópia e assim em diante até acabar com cem páginas. Ao longo das páginas a estática electrónica da máquina vai aumentando progressivamente o ruído visual. A composição final é determinada não pela ação do artista, mas sim as pelas imperfeições da máquina. O processo e a ideia do projecto acabam por ser mais importantes do que as páginas em si e esta é a chave que está por de trás de todo o movimento conceptualista.




A Arte Conceptual representa uma total desmaterialização da obra de arte, preferindo valorizar o seu conceito. Tendo raizes no movimento DADA, o conceptualismo toma partido do carácter aleatório de aspectos simples do quotidiano, colocando-os de forma quase desemocionada sobre uma nova perspectiva. 

"In conceptual art the idea or concept is the most important aspect of the work. When an artist uses a conceptual form of art, it means that all of the planning and decisions are made beforehand and the execution is a perfunctory affair. The idea becomes a machine that makes the art. This kind of art is not theoretical or illustrative of theories; it is intuitive, it is involved with all types of mental processes and it is purposeless. It is usually free from the dependence on the skill of the artist as a craftsman. It is the objective of the artist who is concerned with conceptual art to make his work mentally interesting to the spectator, and therefore usually he would want it to become emotionally dry."
Sol Lewitt, Paragraphs on Conceptual Art, 1967

Com um caracter muitas vezes efémero, na maior parte dos casos o que sobra de uma determinada obra conceptual é o seu registo: fotos, descrições ou instruções para a reproduzir. Neste aspecto, a Arte conceptual também pode ter um caracter emancipador para o espectador. Na sua essência, o Xerox Book é um conjunto de instruções que, quando executados correctamente, resultam sempre na obra de arte. Em teoria, qualquer um de nós com acesso a a uma impressora Xerox pode fazer o seu próprio Xerox Book. Seriam todos diferentes em termos de aspecto ou até de materiais, mas o seu conceito seria idêntico. Isto é muito diferente do paradigma do mestre no seu atelier que cria a obra com o seu domínio técnico que depois acaba num museu ou galeria para ser admirado por um público. Tal como o Pop Art, a Arte Conceptual pode representar uma reação perante a sociedade de consumo e os avanços tecnológicos sentidos pela comunidade artística no começo da segunda metade do século XX. 

Isto não quer dizer que nunca encontremos uma peça de Arte Conceptual num museu numa galeria, mas uma obra verdadeiramente conceptual consegue ter autonomia para viver fora deles e assim transformar o seu caracter efémero em algo infinitamente duradouro. Museus abrem e fecham, paradigmas mudam mas ideias duram para sempre.


Referências:




Hokusai e a revolução da impressão nipónica



A Grande Onda de Kanagawa (神奈川沖浪裏)

Quando se fala em ícones da arte oriunda do Japão, Hokusai é um um dos nomes mais proeminentes do lote. Hokusai Katsushika foi um dos maiores artistas japoneses, fazendo carreira durante o século XIX na vertente ukiyo-e (o que significa “pinturas do mundo flutuante” em japonês). Hokusai pertencia a um grupo de artists que revolucionaram a técnica de impressão e a cultura popular japonesa no seu todo com o método de xilogravura. A xilogravura já tinha sido difundida na China para a impressão de livros, surgindo antes dos tipos móveis, mas foi no Período Edo, de 
1603 a 1867 que se tornou fortemente popular no Japão.


A plantação de chá de Katakura em Suruga (駿州片倉茶園の不二)

O trabalho que catapulta este pintor para o reconhecimento é a série de impressões “Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji”("Fugaku sanjūrokkei 富嶽三十六景 "). A montanha Fuji era um local de obsessão espiritual do autor e este trabalho é uma série de 36 impressões que elencam várias perspectivas do mesmo durante diferentes estações do ano, o que acabou por divulgar o Japão e abrir as suas portas aos viajantes em 1859. Deste conjunto de trabalhos resultou o porta-estandarte do artista, "A Grande Onda de Kanagawa", uma imagem icónica apropriada ainda hoje por criadores de vários quadrantes das artes. 

O Monte Fuji com Tempo Limpo (凱風快晴)


Hokusai, além de artista era um grande impressor (em japonês, "surishi"). Para formar séries e distribuir o seu trabalho em grande número, usava blocos de madeira de cerejeira. As cores eram também inovadoras para a época. O uso do prussian blue ("bero-ai") um pigmento especial com origem europeia muito em voga na altura e outros tons peculiares, contribuíu subsequentemente para a emancipação da sociedade japonesa no que toca a relações internacionais de carácter comercial com países do Oeste.


Prancha de madeira usada para imprimir xilogravuras ukiyo-e.


Graças a este método visionário e popularidade de “Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji”, Hokusai tornou-se um artista fetiche de muitos outros criadores durante a época do Modernismo. Van Gogh, Monet e outros eram coleccionadores ávidos dos trabalhos do japonês. Até Debussy usou a sua obra como inspiração para o seu registo La Mer. 



Ocaso em Isawa em Kai (甲州伊沢暁)

Assim, graças ao método de impressão ukiyo-e, que atribui um enorme detalhe e palete cromática vibrante aos trabalhos da época, o Japão dispõe hoje de um legado rico de artistas que tal como Hokusai promoveram a cultura japonesa sob uma visão artística intemporal.