terça-feira, 3 de junho de 2025

Caricatura Museum Frankfurt: onde a Banda Desenhada Se Levanta e Diz: Eu Também Sou Arte

   Durante uma viagem a Frankfurt, entre cafés, cadernos e mapas improvisados, tropecei quase por acaso num dos lugares mais surpreendentes que já visitei: o Caricatura Museum, dedicado à banda desenhada, à caricatura e ao desenho humorístico. O que esperava ser apenas uma pausa leve na programação revelou-se uma das experiências artísticas mais marcantes da minha vida — um verdadeiro abanão nas ideias que ainda carregava sobre o que “conta” como arte séria. Esta recensão nasce desse momento de encantamento e desprogramação.




    O Caricatura Museum Frankfurt, ou Museum für Komische Kunst, revelou-se para mim uma experiência absolutamente inesperada e revigorante. Entrar neste espaço dedicado à caricatura, à banda desenhada e ao desenho humorístico foi como atravessar um portal sensorial e estético que abalou conceções antigas sobre o estatuto da banda desenhada nas artes visuais.





    Apesar de o nome poder sugerir algo leve ou menor, este museu mostrou-se um verdadeiro “baú cheio de truques”, como se lê na sua apresentação oficial. A coleção permanente reúne os cinco pilares da chamada “Nova Escola de Frankfurt”: F. W. Bernstein, Robert Gernhardt, Chlodwig Poth, Hans Traxler e F. K. Waechter. A sua obra conjunta, que oscila entre o absurdo, o político e o existencial, é apresentada com grande dignidade museográfica, desafiando a ideia de que o humor gráfico é menos sério do que outras formas de arte.

    Mais do que uma galeria de banda desenhada, o espaço surpreende pelo diálogo que propõe entre diferentes meios artísticos. As exposições que vi não se limitavam ao papel: encontrei pinturas de grandes dimensões, esculturas e até instalações que incorporavam elementos narrativos e satíricos. Esta diversidade causou-me um verdadeiro “momento aha”, pois confrontou diretamente o preconceito ainda enraizado em mim de que o artista de banda desenhada estaria confinado ao suporte bidimensional e a um estatuto “menor” dentro das belas-artes.



    O ambiente do museu favorece uma fruição descontraída mas intelectualmente estimulante. A montagem é clara, acessível, mas cuidadosamente curada para criar narrativas visuais envolventes. As exposições temporárias, que incluem nomes contemporâneos do desenho cómico, ampliam ainda mais a perceção de que este género está em constante mutação, enraizado na atualidade.

A minha visita foi marcada por um sentimento profundo de identificação: como artista visual com uma prática que atravessa a ilustração, a escrita e a narrativa, senti que ali cabiam múltiplas versões de mim. Senti também que este museu legitima o humor como forma de pensamento e resistência – e que o desenho cómico é, afinal, uma arte política, íntima e altamente sofisticada.

O reconhecimento que o museu recebeu em 2020 com o Prémio Cultural do Estado de Hesse confirma a importância do seu contributo singular para a valorização da banda desenhada e da caricatura como formas plenas de expressão artística.


segunda-feira, 2 de junho de 2025

Exposição- "Voltar a gostar de rosa"

 "Voltar a gostar de rosa" é uma exposição que esteve presente, nas Caldas da Rainha num evento que celebra a cultura, a arte e a liberdade, "Caldas Late Night". 

Entre os dias 28 e 31 de Maio todos aqueles que se encontravam no evento onde procuravam algo que lhes abrisse mentes e despertasse o coração encontraram nesta exposição uma reflexão e até um certo silêncio. "Voltar a gostar de rosa" fala sobre o corpo e os seus traumas, remetendo a violência sexual. Através de cordas vermelhas e rosas ligadas às várias partes do corpo estão os traumas que esse corpo pode ter passado. As cores vermelhas fazem representar o sangue e a violência em contraste com as cores rosas que representa aquilo que é feminino. 

Esta exposição serve como um ponto de denúncia para a violência no namoro, para o corpo e a mente que ficam traumatizados num silêncio de medo e vergonha. Encontramos espalhadas pequenas partes do corpo, acessórios, mensagens que tentam espelhar o sentimento presente. 

Podemos dizer que quando o ser humano não quer falar, o corpo fala por ele de várias maneiras, através de expressões, marcas, onde existe uma espécie de linguagem silenciosa que comunica com os mais atentos. 



Todas as exposições presentes neste evento são feitas principalmente pelos alunos de artes da ESAD, bem como por outros artistas. Esta exposição foi feita por uma aluna da ESAD que falou um pouco sobre quais foram os seus motivos ao realizar esta exposição onde abordou temas como já referidos anteriormente, como, o corpo e a mente, o subconsciente, os traumas, a violência física, sexual e emocional, as cordas e os seus significados e as ligações com os elementos presentes.

Observa-se um ambiente calmo, observador, curioso e pensante. Onde todos aqueles que param para observar a exposição não imaginam a história por trás do que aparece à primeira vista, mas com um olhar atento e curioso faz perceber a muitos a mensagem que todos aqueles elementos representam.


















Pelo corredor, onde vão percorrendo as várias pessoas ouvem-se diálogos, questionamentos e até admiração. Por outro lado, enquanto uns ficam alguns minutos a tentar admirar a obra, outros passam  olhando apenas uma vez para ela saindo como se de nada se tratasse, onde não dão espaço para a reflexão ou indignação. 

Uma exposição que "falou" muito para alguns e nada para outros. 


 Museu de Lisboa

A história da cidade de Lisboa está toda neste palácio lisboeta 

Campo Grande, 245, 1700-091 Lisboa

Horário: Terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada às 17h30); encerrado às segundas-feiras e nos feriados de 1 de janeiro, 1 de maio e 25 de dezembro

Bilhetes: Entrada geral a €3; gratuita aos domingos de manhã para residentes em Portugal




O Museu de Lisboa não é um único edifício, mas um conjunto de vozes dispersas pela cidade, cada uma ecoando fragmentos da sua longa memória. São cinco lugares — Palácio Pimenta, Teatro Romano, Santo António, Casa dos Bicos e Torreão Poente — que, como capítulos de um mesmo livro, narram a história de Lisboa com ritmos e tons distintos. Unidos por uma missão comum, desvendam os segredos de uma cidade antiga, onde o passado se entranha nas pedras e ressoa nos passos de quem a percorre.
O Palácio Pimenta tem, indiscutivelmente, um papel de destaque na preservação e divulgação da história da capital portuguesa. A sua localização privilegiada, no Campo Grande, aliada à beleza do edifício setecentista e à serenidade dos jardins, oferece um contexto ideal para um museu que pretende contar a história de Lisboa. No entanto, apesar dos seus muitos méritos, a experiência do visitante não está isenta de limitações.
Construído entre 1734 e 1746, o Palácio Pimenta surgiu como residência de verão de Diogo de Sousa Mexia, figura importante durante os reinados de D. Pedro II e D. João V. Ao longo do tempo, o edifício passou por diversas mãos, tendo pertencido, entre outros, a Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho, cujo nome acabaria por perdurar. Em 1962, o palácio foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa, que viria a transformá-lo, em 1979, no então designado Museu da Cidade, hoje Museu de Lisboa. A exposição permanente conduz os visitantes por uma viagem no tempo, desde o Paleolítico até ao século XX, revelando as múltiplas faces da capital. Um dos pontos altos do museu é a impressionante maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755, composta por cerca de dez mil miniaturas, num conjunto que ocupa mais de dez metros de comprimento e quatro de largura. O acervo é vasto e diversificado, incluindo cerâmicas, mapas, gravuras, mobiliário de época e documentos originais que ajudam a contar a história multifacetada da cidade.



A exposição permanente cumpre bem o seu propósito educativo, apresentando uma narrativa cronológica clara desde a pré-história até ao século XX. A maquete da Lisboa anterior ao terramoto de 1755 é, sem dúvida, um ponto alto: impressionante tanto pela escala como pelo detalhe. Ainda assim, há momentos em que a museografia parece algo datada, com certos núcleos expositivos a dependerem excessivamente de painéis informativos extensos e pouco interativos, o que pode tornar a visita mais expositiva do que experiencial. 

Existem 11 salas no primeiro andar da exposição de longa duração que reabriu ao público, depois de três anos encerrado para remodelações. Desde 2015 que o núcleo-sede do Museu de Lisboa, no Campo Grande, estava em obras.


A sala onde estão expostos os seis planos da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755



Além disso, embora o acervo seja vasto e relevante, há uma certa fragmentação na forma como é apresentado. Em alguns espaços, o discurso expositivo carece de uma maior ligação emocional ou temática entre os objetos e a cidade contemporânea. Falta, por vezes, uma abordagem mais ousada ou reflexiva sobre os desafios históricos de Lisboa, como a ditadura, a revolução ou as transformações urbanas recentes, que poderiam ser abordados de forma mais direta, reforçando a pertinência do museu no debate atual sobre a cidade.

Entre esses espaços, destaca-se o imperdível Jardim Bordallo Pinheiro, inaugurado em 2010. A sua criação partiu de uma ideia da então jornalista Catarina Portas e ganhou forma pelas mãos da artista Joana Vasconcelos, que lhe deu vida com a sua visão singular.  É um verdadeiro tesouro visual e sensorial que merece ser descoberto, onde se exibem impressionantes peças cerâmicas inspiradas nos moldes originais do célebre artista, dando vida a figuras de animais, insetos e elementos vegetais. Complementando este ambiente sereno, os Pavilhões Branco e Preto recebem regularmente exposições temporárias dedicadas a Lisboa e às expressões artísticas portuguesas. 



Uma experiência imersiva e inesquecível.

Explorar a história de Lisboa no Palácio Pimenta é realmente uma jornada fascinante, que se torna ainda mais completa quando, ao sair para os jardins, despertamos os sentidos de forma plena. A vista encantadora, o canto dos pássaros e os aromas delicados das flores criam um ambiente único que transforma a visita numa experiência memorável e sensorial.

Sem dúvida, depois desta imersão, olha-se para Lisboa de uma forma renovada, sentindo uma ligação mais profunda com a riqueza cultural e a herança que moldou esta cidade ao longo dos séculos.



Ici te lá - Pequeno laboratório de objetos, imagens e sons da companhia pEtites perceptiOns. Fábrica das Artes - CCB. De 27 de maio a 1 de junho de 2025

Apresentado na Fábrica das Artes - CCB, entre os dias 27 de maio e 1 junho, o espetáculo Ici te lá (“aqui e ali”), da companhia pEtites perceptiOns, dá continuidade ao trabalho da artista Katerini Antonakaki, ao propor uma imersão num universo sensorial que se desenrola em torno de três grandes eixos: a casa, a natureza e o tempo, através das estações do ano. Concebido como um “pequeno laboratório de objetos, imagens e sons”, este trabalho articula elementos cenográficos, visuais e sonoros para compor um espaço em permanente transformação, onde o quotidiano se reconfigura em gesto, cor e som.

 

 

A cenografia móvel, criada por Katerini Antonakaki e Olivier Guillemain, estabelece uma paisagem plástica mutável, que evoca uma casa porosa, feita de fragmentos, memória e imaginação. Trata-se de uma “casa leve”, desmaterializada, que dança suavemente no espaço, acompanhando o ritmo das estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno surgem como pano de fundo e como entidades ativas, que reorganizam o ambiente. Cores, sons, texturas e objetos, alteram-se em função da passagem do tempo, revelando a sensibilidade cíclica da natureza e do corpo. A personagem central, de presença curiosa e tranquila, conduz o público por este percurso sensível, onde cada ação se torna contemplativa. 



Atravessamos estações, escutamos os silêncios, reparamos nos pequenos gestos e nas matérias esquecidas. A música de Ilias Sauloup e a interpretação sonora de Christine Moreau expandem a experiência para além do visível, criando uma paisagem acústica que respira com o cenário e com o espectador.

Mais do que representar, este espetáculo, convida à escuta das pequenas coisas, dos ritmos naturais, dos gestos mínimos onde habita o tempo vivido. A dramaturgia desenha-se como um caderno de viagem em três dimensões, no qual cada imagem ou som sugere uma sensação, uma memória, uma descoberta. O espetáculo equilibra delicadeza e intenção, sem recorrer a discursos explicativos, mas permitindo que o público construa a sua própria travessia.

No contexto da criação contemporânea para públicos diversos, incluindo o público infantil, esta apresentação destaca-se pela sua abordagem estética e sensorial, pela atenção ao detalhe e pela capacidade de convocar um tempo diferente, um tempo de pausa, de observação e de encantamento. Um tempo que nos leva para a magia das estações, devolvendo-nos a simplicidade dos ciclos naturais e o prazer de simplesmente estar.




 


 


Um Lago dos Cisnes diferente

 

Entre os dias 28 e 30 de maio, esteve em exibição no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém a peça O Lago dos Cisnes, produzida pelo Teatro do Vão. Através da direção artística de Daniel Gorjão e do texto de André Tecedeiro, ela transpunha o bailado de Tchaikovsky para o formato teatral.

Do original, porém, não foram preservados muitos detalhes, ainda que fossem visíveis referências aos passos de bailado nos movimentos dos intérpretes. Isso porque a peça não pretendia somente uma adaptação de linguagens, mas sim aproveitar-se do clássico como ponto de partida para discutir questões contemporâneas, em especial a participação de diferentes corpos, tradicionalmente excluídos dos padrões das companhias de dança. A narrativa, por sua vez, gira em torno da aceitação e da necessidade de controle. O resultado foi um espetáculo que, de forma leve, proporcionava importantes reflexões ao espectador.

Foto: José Carlos Carvalho | CCB.

 

Nesta nova versão, havia uma brincadeira com os géneros das personagens. Ali, o feiticeiro Rothbart tornou-se a Senhora Rothbart, à qual o público acompanhava em uma espécie de viagem ao passado, durante a qual ela revisitava e ponderava sobre as atitudes controladoras que a levaram à ruína na relação com os filhos, Sigfrieda e Odille —cujos géneros foram igualmente trocados. Além do drama da matriarca, assistiu-se ao desenrolar do romance proibido dos rapazes Odile e Odette, cujo final não se torna tão trágico quanto o das personagens de Tchaikovsky: nesta peça, em vez da morte, o lago encantado trazia a libertação. 

Para além do texto, a atuação dos intérpretes, Batata, Duarte Melo, Inês Cóias, Rita Carolina Silva e Zé Couteiro, também contribuiu para que essas personagens reformuladas fossem facilmente acolhidas pelo público, com destaque para a Sigfrieda de Batata, que cativou a todos com sua personalidade irreverente e suas poucas, mas bem-colocadas referências à cultura pop e ao universo queer. É preciso ressaltar, contudo, que a curta duração da peça, de apenas uma hora, dificultou um melhor desenvolvimento da narrativa e das personagens. Ficou confuso, por exemplo, o desentendimento entre Rothbart e Siegfrieda e inúmeras vezes foi mencionada uma personagem a qual não aparecia na peça e cuja relevância para a história não foi bem esclarecida.

Intérprete Batata no papel de Siegfrieda. Foto: José Carlos Carvalho | CCB.

 

Tudo isto narrou-se em um cenário extremamente simples e eficiente, composto apenas por alguns degraus revestidos de material espelhado, que faziam as vezes de lago e de palácio. A maior parte da imersão do espectador na peça se dava pela iluminação, responsável não apenas pela tónica das cenas, mas também por criar divisões de tempo e espaço através de variações de cores.

Por fim, a peça encerrou-se com um número de dança, com todas as personagens juntas e um globo espelhado a iluminar todo o auditório.

O Lago dos Cisnes de Daniel Gorjão não foi uma simples adaptação do bailado para o teatro, foi muito mais. Ao dialogar com questões de identidade, controle e liberdade, a peça propôs ao público uma experiência estética e política, que provocou reflexão sem abrir mão da leveza e do humor.

domingo, 1 de junho de 2025

Casa da Discórdia nº32

    A Casa Da Discórdia, abre portas todas as noites de quarta-feira para testes de stand-up para humoristas, com alguma experiência ou conhecidos testarem o seu material. Semanalmente dispõem de duas sessões: às 19:45 e às 21:45. A premissa é muito interessante do público não ter conhecimento do cartaz até ao momento do espetáculo, ou seja, não faz a mínima ideia de quem vai atuar. Dando oportunidade aos artistas com menos visibilidade apresentarem as suas propostas e serem igualmente vistos. O público não vai ao espetáculo por nenhum artista em concreto, é movido pelo gosto pelo formato do espetáculo em si ou pela surpresa. Semana após semana os bilhetes estão esgotados, podemos considerar este formato um sucesso.

Na Casa da Discórdia nº32, no passado dia 16 de abril, os artistas em palco foram: Ricardo Maria, Daniel Carapeto, André Pinheiro, Joana Miranda, Pedro Teixeira da Mota e Tiago Almeida, atuação teve a duração de cerca de 5 a 7 minuto. Por coincidência ou não, os artistas em questão são bastante conhecidos, alguns deles até esgotam bilheteiras em espetáculos a solo, detém muita experiência de palco, de rádio, podcasts e projetos paralelos. A Casa é uma oportunidade de observar como os artistas testam o seu material, a sua expressão aparentemente cómica e descontraída, mas numa constante leitura e análise do público. 

O stand-up vive da presença do comediante, do uso do corpo, da voz, do tempo e do espaço. A comunicação com o público é direta, espontânea e a performance depende da forma como o artista consegue transmitir as suas palavras de forma a impactar o público. Estabelece uma certa relação com o teatro ainda que sejam áreas diferentes na sua performance. Desenvolvendo com a experiência a sua própria linguagem e a sua forma de interpretar e exprimir para o público o texto. A interação com o público é essencial, o comediante precisa de ler as reações e adaptar o ritmo, à situação em que se encontra, remetendo aqui para o improviso como uma possibilidade constante. O humorista cria uma personagem que não corresponde propriamente ao seu eu real. O artista depara-se com um constante dilema entre o real e a ficção, e a forma como o público o encara. O stand-up pode também ser um espaço de discurso político e social, onde são abordados temas de forma cómica, mas de muita profundidade crítica.

A Casa da Discórdia é um espaço experimental, onde existe a oportunidade de testar, dar lugar ao erro e permite confirmar as reações do público. Onde pode perceber onde e quando o texto pode ter mais impacto. O facto de as pessoas não terem pago necessariamente para os ver, simplesmente foram sem estar com a expectativa de ver alguém em concreto dá uma certa imparcialidade. Porque o espectador pode ou não conhecer o artista, mas está aberto á experiência de uma forma diferente do que se tivesse já mentalizado que vai ver aquele artista e que ele tem que corresponder à imagem que criou de si, seja noutros espetáculos ou projetos paralelos. 

 

                                                             
                                                                   


 

 

 

Mayra Andrade, reEncanto - Teatro Sá da Bandeira

 

reEncanto de Mayra Andrade, Teatro Sá da Bandeira - 31 de maio de 2025





Apresentada a 31 de maio de 2025 no Auditório do Campo Alegre, como parte do Santarém Cultura, a apresentação "reEncanto", da cantora Mayra Andrade, foi uma viagem de música que foi além do normal. Ela trouxe algo maior , a cantora não só cantou, como regressou através da música a suas origens e nos convidou a participar nessa viagem conjunta. Acompanhada pelo o guitarrista Dodge Almeida, parceiro de palco que a cantora conheceu durante a gravação de um espetáculo de dança contemporânea,  resultado é "reEncanto", um dueto em perfeita simbiose para uma sessão onde as cores e os ritmos transmitem uma energia redentora,  a  cantora revistou o seu repertorio da forma mais simples, os dois apresentaram muita mais do que apenas uma simples performance musical, foi um regresso consciente às suas raízes, um voltar à essência do seu processo criativo, ao infinitamente íntimo. 

Durante os 75 minutos do concerto, o público foi conduzido por uma viagem musical despida de muitos aparatos, um concerto centrado apenas na voz e na guitarra. A simplicidade da performance revelou a profundidade das canções de Mayra, onde revisita o seu próprio repertorio de forma simples, a cantora apresenta faixas dos seus quatro álbuns, lançados entre 2006 e 2019. Foi em 2022, no lançamento do seu álbum "Manga", que nasce a ideia de voltar a simplicidade da formula original, da voz e guitarra. As notas são dedilhadas com tal delicadeza, que acompanham com ênfase as letras e as emoções, que revelou-se parte integral da narrativa emocional do concerto, fruto da cumplicidade aparente com o guitarrista.




O repertório, apresentou uma versatilidade e variedade linguística impressionante, partido desde o crioulo cabo-verdiano, francês, português ao inglês, refletiu não apenas a versatilidade linguística da cantora, mas como também a sua identidade nómada e cosmopolita. Cada música foi interpretada com uma performance que transitava entre a melancolia serena e uma celebração rítmica. A ausência de uma banda completa e produção exuberante, trouxe um aconchego maior ao público, além de um convite á escuta atenta e criação de uma conexão genuína entre o publico e a musica, assim como entre o publico e a própria cantora. 

“reEncanto” é, como o próprio nome sugere, uma espécie de reencantamento da música, do palco, e do seu próprio processo criativo, um momento de autorreferenciarão e reinterpretação ao vivo.  Em tempos de sum crescimento tecnológico constante, grandes performances, trazem uma saturação excessivas dos mesmos. Vemos na apresentação de Mayra Andrade, um momento de respiro, quase como uma suspenção momentânea, onde encontramos vulnerabilidade, uma partilha simples e o regresso ao que é essencial. A maternidade recente da artista e as reflexões que emergem dessa nova fase de vida parecem atravessar cada canção, atribuindo-lhes novas camadas de sentido e emoção.




É notória a cumplicidade com entre o guitarrista Djodje Almeida e a cantora, a guitarra não é mais apenas o acompanhamento da voz, é a extensão da voz de Mayra, é um instrumento de comunicação e dialogo. A base solida na qual todo o universo sonoro do concerto é construído.

O público respondeu com atenção reverente e emoção. A atmosfera foi de comunhão em um momento de desaceleras no mundo frenético no qual nos encontramos atualmente. “reEncanto” não é apenas um concerto: é um reencontro. Com a artista, com as suas origens cabo-verdianas e, surpreendentemente com partes de nós mesmos.



Durante o concerto não foi possível fazer qualquer tipo de registos fotográficos.

Webgrafia
Mayra Andrade (2025) reEncanto [concerto] Santarém Cultural, Santarém Portugal
imagens do Teatro Sá da Bandeira Santarém 






“Julianknxx. Coro em Rememória de um Voo” - Exposição Temporária do Centro de Arte Moderna Gulbenkian

 Em exposição de 22 fevereiro a 30 junho 2025



No passado dia 16 de maio, visitei o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, mais especificamente uma das suas exposições temporárias intitulada “Julianknxx. Coro em Rememória de um Voo” do artista Julianknxx. Julian Knox, nascido na Serra Leoa, mudou-se posteriormente para o Reino Unido onde já reside e trabalha há alguns anos. É um artista multidisciplinar, que cruza no seu trabalho várias áreas artísticas como a poesia, o vídeo, a performance e a música. De nome original “Chorus in Rememory of Flight”, é uma exposição com a programação de Ana Botella e Luís Jerónimo e uma encomenda feita em conjunto com o Barbican Center em Londres, o WePresent by WeTransfer e em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, com o apoio de 180 Studios e De Singel.

 Localizada no Espaço Engawa do Centro de Arte Moderna, esta instalação audiovisual pode ser visionada ao percorrer um corredor comprido dividido por quatro salas. Esta instalação é fruto de partilhas e conversas que o artista teve, ao longo de um ano, com a comunidade da diáspora africana residente em várias cidades europeias portuárias, entre elas a cidade de Lisboa. Descrita pelo próprio como sendo um poema visual, são abordadas temáticas como a identidade, herança, pertença, com um foco na experiência negra em cidades europeias. Sendo que a ideia principal seria contar a História e abordar a cultura da diáspora africana, de uma outra maneira e através de uma perspetiva diferente. A História contada não pelos livros de História, mas cantada pelas pessoas.

Composta por três vídeos, o primeiro visto pelo visitante ao entrar no espaço expositivo, tem o título de “Learning How to Wear Black Under the Sun”, datado de 2025, é uma instalação de vídeo 4K com um canal, áudio stereo e tem a duração de cerca de 7 minutos. Nele são mostrados vários registos feitos por Julian em Lisboa, intercalado por uma composição sonora e um poema do autor. Nalgumas das imagens podemos ver um dos seus colaboradores neste projeto, o artista Tristany Mundu. Importante destacar que as salas são escuras, sendo que a única fonte de luz vem do ecrã, o que permite um foco total no que está a ser visionado. Ao percorremos o caminho até à próxima sala, podemos ir lendo várias frases de letra de cor branca em paredes azuis, quase como se fossem desabafos e gritos de resistência, tais como “As pessoas pensam que o meu perigo as deixa seguras/People think that my danger makes them safe” ou “Este sol ensina-te a arder pelo outro/This sun teaches you how to burn for the other.” 




Na sala seguinte, encontra-se a maior instalação de vídeo da exposição, com três ecrãs, é novamente uma sala escura, com três bancos corridos onde os visitantes se podem sentar e assistir ao vídeo. Intitulado de “Chorus in Rememory of Flight”, é de 2023 e é uma instalação de vídeo 4K com três canais, áudio 3.1, com a duração de 45 minutos. Neste vídeo são mostrados os registos de um voo que durou um ano. Nas nove cidades europeias com passados (e presentes) coloniais, Julian entrevistou coros, políticos, ativistas e dançarinos de comunidades negras e pediu uma "offering”: o que tens para contar sobre ti? Que histórias tens para contar?. Algumas pessoas cantaram, partilharam histórias de vida, outras dormiram. E foram estes testemunhos que Julian gravou e que agora assistimos nos três ecrâs, intercalados por imagens das várias cidades onde esteve, muita música, como também poemas escritos pelo autor. Na sala seguinte podemos assistir ao último vídeo intitulado de “Mava”, de 2025, sendo este uma instalação de vídeo 4k com um canal, áudio stereo e com a duração de 8 minutos. Também filmado em Portugal, é um vídeo filmado apenas num plano e nele podemos ver a performance de um dançarino, sendo que este contorce-se e preenche o espaço onde é filmado o vídeo, enquanto ouvimos uma composição sonora. Termina-se este último vídeo com a sensação que estivemos de facto a fazer um voo. A forma como os vídeos estão editados, sendo mostradas vários tipos de imagens, desde os testemunhos, às performances, faz com que o nosso olhar vá viajando de um ecrã para o outro, nunca deixando de ouvir, nunca deixando de estar atento. As composições sonoras acrescentam ainda mais emoção aos vídeos, fazendo desta instalação audiovisual um verdadeiro espetáculo sensorial. 




Dos pormenores mais interessantes desta exposição é a quarta e última sala, que é uma espécie de biblioteca. Composta por uma estante cheia de livros, dois sofás onde os visitantes são convidados a sentar-se, a ler e a refletir sobre a exposição. Está decorado duma forma convidativa, respirando serenidade, com algumas plantas, discos de vinil de artistas como Sara Tavares ou Duo Ouro Negro e com alguns “panos” de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Estão disponíveis três headphones que os visitantes podem colocar para ouvir algumas das entrevistas feitas em Lisboa por Julian em 2023, editados pelo Bantumen e produzido por Luzinho. Destaco em particular os livros que compõem a biblioteca e que inspiraram a exposição, entre eles “Venceremos” de Thomas Sankara ou “Decolonizar o museu” de Françoise Verges. Importante referir que estes livros foram selecionados por Julianknxx, Vítor Sanches, Dentu Zona – Cova da Moura, Jesualdo Lopes, Paulo Pascoal, Rafael de Oliveira e Selma Uamusse. Este espaço, como é referido no próprio texto de sala “(…) é um lugar de descontração e repouso, um convite para desacelerar, porque para Julianknxx descansar é um ato radical de resistência". 



A cenografia da montagem, da autoria de Rita Albergaria e Salomé Ventura e a museografia, de Laurindo Marta e Cécile Matignon, é intuitivo e bem organizado, convidando o visitante a fazer o percurso desde a primeira sala onde está o primeiro vídeo até à última, não tendo particular efeito se forem vistos fora de ordem, no entanto a narrativa e a emoção trazida pelos vídeos é mais sentida na sua plenitude fazendo o percurso sugerido. Destaco também a secção final da biblioteca, bastante inovadora e original, senti que de facto podia parar e refletir sobre o que tinha acabado de ver, como também obter mais informações através dos vários livros à disposição. Ao início existe uma certa hesitação, visto ser fora do normal poder pegar-se e ler livros numa exposição, mas quando essa hesitação é ultrapassada ao ler o texto de parede ou a ser informado por um assistente de sala, é muito bonito ver o quão o espaço é preenchido pelo visitante e o museu deixa de ser apenas um espaço expositivo. Destaco também o trabalho dos assistentes de sala, que me forneceram mais informações sobre a exposição e me fizeram olhar para o que estava a visionar com mais atenção. O único ponto negativo que teria a apontar seria a escuridão das salas onde os vários vídeos são visionados, pois dificulta a movimentação dentro delas.

“We are…we are…what’s left of us”, as palavras de uma das músicas cantadas por um coro no segundo vídeo da exposição, junto com os sons deixados por um saxofone no primeiro vídeo, ecoaram nos meus ouvidos durante muito tempo após sair, do Centro de Arte Moderna, para as ruas de Lisboa. É uma exposição que emociona, que pede que estejamos presentes e que ouçamos, e que acima de tudo - dá esperança. Já assisti a esta exposição várias vezes desde o passado dia 16 de maio e continua a emocionar-me tal como a primeira vez. A forma como a exposição está disposta, com o som alto e a imagens dos vídeos a preencher as paredes, permite uma experiência imersiva. E só não sente, quem não está atento.