O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu no passado dia 3 de março de 2026 o concerto de lançamento do álbum de estreia a solo de Gabriel Gomes, intitulado Uma História Assim.
Se por um lado, muitas pessoas poderão nunca ter ouvido este nome, por outro, serão com certeza muito poucos os portugueses que não reconhecem o seu acordeão em inúmeras músicas emblemáticas das últimas décadas.
Gabriel Gomes faz parte de uma geração de músicos que, a partir de Lisboa, revolucionou a cena da música portuguesa nos anos 80. Integrou bandas como Sétima Legião e foi um dos fundadores de Madredeus. Mais recentemente, fundou com Rodrigo Leão o projeto Os Poetas, e Fandango, com Luís Varatojo, entre muitas outras aventuras, sempre acompanhado de músicos de referência.
Uma História Assim é um álbum solo tardio, mas há muito tempo esperado. Gabriel Gomes não é o típico front man, e foi preciso muita persuasão de muitos pares, entre os quais Rodrigo Leão (que assina a produção deste álbum em conjunto com João Eleutério), para finalmente editar um projeto a solo, recuperando algumas composições antigas.
A sonoridade deste disco reflete a complexidade e originalidade do seu autor, ora manifestando uma portugalidade sensível e aberta, como no tema Retorno (a história de um homem que regressa à sua aldeia depois de fugir para ganhar mundo), ora projetando alegremente um cosmopolitismo contagiante, evidenciado em composições como Chorinho, ou Oriental. Num tempo cinzento e de incerteza, Uma História Assim é um refúgio de luz e contentamento.
O concerto decorreu na sala mais pequena e polivalente do Coliseu - o Coliseu Club, e a pequena plateia estava repleta de músicos e amigos de longa data, num ambiente que parecia metade reunião familiar, metade merecida homenagem.
O intimismo do espaço reflete-se no palco. Gabriel apresenta-se tendo como companhia apenas o seu acordeão e um computador. O nervosismo inicial, algo enternecedor para um músico tão consolidado como este, deu rapidamente lugar a uma partilha de vibrações entre músico, instrumento e plateia. O acordeão transformou-se num prolongamento do seu corpo, partilhando com o músico uma respiração sensível, em que "fôlego e fole" (palavras do próprio) se confundem.
O extremo cuidado visual patente no disco espelha-se na vertente plástica do espetáculo. Uma iluminação a maior parte das vezes simples, fazia o brilho do acordeão parecer um bailado hipnotizante, e as sequências de vídeo subtis que pontuavam o espetáculo, projetadas em grande escala sobre o pano de fundo do palco, iam complementando as histórias por trás de cada tema, e que Gabriel Gomes ia partilhando com a plateia.
Depois de tocar todos os temas do disco, ainda houve tempo para revisitar composições clássicas, criadas para outros projetos, tais como As Montanhas, de Madredeus, e De Braço Dado, uma composição de Carlos Paredes, editada no álbum Movimentos Perpétuos. O encore, que tinha sido planeado com O Roubo (primeiro single do álbum), muda à última hora para Retorno, o que parecia fazer mais sentido, como se ele próprio fosse o tal rapaz e a sala a sua aldeia, com as suas gentes, à qual ele regressa, sem nunca realmente ter partido.
Reconhecendo a ansiedade - afinal, é só ao fim de 40 anos de carreira que assume pela primeira vez o protagonismo em palco - Gabriel Gomes explica a sua relutância em lançar um disco e tocar a solo: «ninguém quer ouvir uma hora de acordeão»… o público presente na plateia repleta discordou veementemente e, ainda que sentados em cadeiras que não devem ao conforto, qualquer um de nós ficaria seguramente outra hora a ouvi-lo tocar.



